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A Integração Sensorial como abordagem do terapeuta ocupacional em crianças autistas

Tempo de Leitura: 2 minutos

Por Marilia Morande

Terapeuta Ocupacional. Conselheira Estadual de Santa Catarina da ONDA-Autismo, Especialista em Neurologia e pós-graduada em Psicomotricidade.

 

A Integração Sensorial (IS) é uma técnica de tratamento que foi preconizada pela terapeuta ocupacional Jean Ayres. Inicialmente foi dirigida a crianças que apresentavam distúrbio de aprendizagem e atualmente a sua utilização se ampliou também as disfunções neurológicas. A integração sensorial é baseada na teoria que trata a forma como os humanos desenvolvem a capacidade de organizar sensações para o propósito de executar atividades auto dirigidas e significativas. Sua base está nos estudos neurocomportamentais.

Ayres define a integração sensorial como sendo a organização de informações sensoriais, proveniente de diferentes canais sensoriais e a habilidade de relacionar estímulos de um canal a outro, de forma a emitir uma resposta adaptativa. Para Ayres resposta adaptativa é uma ação apropriada na qual o indivíduo responde com sucesso a alguma demanda ambiental.

Uma explanação de como a criança desenvolve a capacidade de organizar seu próprio comportamento é central para a teoria. Esse processo de organizar a informação sensorial no cérebro para promover respostas adaptativas é o que Ayres chamou de Integração Sensorial.

Levando em consideração que cada criança é única e o seu comportamento está diretamente direcionado a maneira como ela recebe, processa e integra as informações sensoriais pelos sete sentidos: visual, auditivo, gustativo, olfativo, tátil, proprioceptivo e vestibular, esse processo neurológico é capaz de organizar as sensações do próprio corpo e do ambiente, tornando possível essa importante relação entre ambos.

Estudos recentes mostram que mais de 90% das crianças com autismo apresentam déficits no processamento sensorial, o que acaba interferindo significativamente em suas habilidades de interação com o mundo. Entender como a criança processa a informação sensorial é de extrema importância para auxiliá-la no dia a dia.

Tratando-se do diagnóstico precoce de autismo observa-se os sinais de disfunção sensorial muito presentes, os quais muitas vezes levam os pais a busca por tratamento. Visto que o transtorno do processamento sensorial impacta o desempenho funcional destas crianças na realização das atividades da vida diária, bem como dificulta a dinâmica de seus familiares.

O terapeuta ocupacional é o profissional que utiliza desta abordagem terapêutica que compreende a criança do ponto de vista do processamento sensorial e do seu funcionamento autônomo.

Cabe ao terapeuta ocupacional que utiliza dos procedimentos de Integração Sensorial preparar o ambiente que conduza a criança a organizar sua própria conduta, encorajando-a e estimulando-a ou não para que ela vença seus próprios desafios e as suas atividades sejam realizadas com êxito.

Referências

AYRES, A.J. Sensory integration and leaming disorders. Los Angeles, 1972.

CARVALHO, Ligia Marida de Godoy. Ciclo Integrado de Estudos em Saúde e Educação. Itatiba 2009.

REINOSO, Gustavo; BLANCHE, Erna Imperatone. Déficit de procesamiento sensorial en el espectro de autismo. 2009.

Meme Sincero: Socializar machuca!

Tempo de Leitura: 2 minutosUma das maiores dificuldades no autismo é a socialização. Qualquer pessoa que entenda minimamente sobre TEA sabe disso. Porém, ainda existe alguma confusão sobre o assunto, pois muitas vezes ele é abordado apenas por uma perspectiva do que temos como padrão em nossa sociedade.

Acontece que esse padrão não serve, e cada vez mais isso fica claro. Ao entendermos que a humanidade é diversa, priorizar uma forma de existir em detrimento de tantas outras enquanto ser biopsicossocial não contempla as diferenças que constituem nossa existência enquanto povo.

Ainda nesse sentido, pelo próprio significado da palavra, fica fácil de entender que ninguém socializa sozinho. Portanto, se o autista tem dificuldade de socializar num meio típico, logo as demais pessoas têm dificuldade de socializar com a pessoa autista.

E aqui fica mais aparente a confusão que citei. Por que, então, já que a socialização é uma via de mão dupla, existe essa impressão de que é a pessoa autista que tem que se adequar apenas?

Uma resposta possível que podemos cogitar, pelo entendimento do senso comum, é que a pessoa com TEA não gosta de socializar, que ela prefere ficar isolada e que vive no seu próprio mundo. Entretanto, nenhuma dessas afirmações são condizentes com a realidade.

Novamente, não passam de um entendimento equivocado de uma visão neurotípica sobre uma realidade que é diversa e vivenciada através dessa diversidade, cada um com seu ponto de interação diante de sua condição de existência.

E com isso precisamos separar o que é fato do que é mito. Fatos: existem autistas que não gostam de socializar, assim como existem pessoas típicas que não gostam de socializar. Assim, também existem pessoas que estão no espectro do autismo e outras neurotípicas que gostam de socializar. O grande mito aqui é que os autistas não gostam, que essa é uma característica do TEA. Entendam que gostar ou não é uma característica pessoal, o que de fato é inerente ao TEA é a dificuldade, e não o gostar.

Tendo isso esclarecido e também compreendendo a troca que implica o socializar, fica mais fácil entender o porquê da socialização, por vezes, machucar o autista. Não é fácil viver num meio onde parece que nós autistas estamos errados a todo momento. Dói tentar nos adequarmos a um padrão que não é o nosso para que sejamos aceitos como normais.

Por isso, é necessário que todos repensem como a inclusão vem com a vontade de adequação do todo. As dificuldades não precisam ser intransponíveis, e todos podemos ir ao encontro de uma comunicação mais efetiva.

Numa analogia simples, podemos pensar em um bebê que não se comunica como um adulto e não esperamos que o faça, ou ainda, não vamos esperar que ele fique adulto para nos comunicarmos com ele. Simplesmente nos adequamos para entender como ele se comunica, para que possamos interagir com ele com qualidade, afinal, ele é um bebê, e não um adulto. O bebê, em troca, não entende nossas palavras, mas capta nossos sinais e sente-se acolhido e aceito.

Assim deve ser na interação entre os diferentes. Cada um busca alcançar o mais próximo que o outro possa compreender, para que todos se sintam acolhidos e aceitos como normais, pois é o que de fato somos.