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Sophia Mendonça fala de gênero, comunicação e internet no podcast 'Espectros' — Canal Autismo / Revista Autismo

Sophia Mendonça fala de gênero, comunicação e internet no podcast ‘Espectros’

Tempo de Leitura: < 1 minuto

Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sophia Mendonça é palestrante, pesquisadora e escritora. Após receber o diagnóstico de autismo na infância e descobrir o prazer da escrita, publicou mais de sete livros. Uma das primeiras youtubers sobre o autismo no Brasil, Sophia Mendonça é a personalidade do mês de junho do podcast Espectros.

O Espectros é o podcast de entrevistas da Revista Autismo / Canal Autismo (acesse http://canalautismo.com.br/espectros). Mensalmente, o jornalista Tiago Abreu recebe as pessoas que constroem a comunidade do autismo no Brasil para saber mais sobre estes indivíduos além da história, seja familiar, profissional ou pessoal com o diagnóstico.

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Crescer dói

Tempo de Leitura: 4 minutosPassei mais de 50 anos tentando me adaptar à uma tipicidade que não era minha. Tenho memória viva de, desde os 3 anos de idade, observar as pessoas à minha volta. Queria entender aquela sensação de “cadê o meu lugar?”. Éramos eu, minhas irmãs e meus pais. Porém, de repente, com a separação deles, éramos eu, minhas irmãs, minha mãe, minha vó, meu vô e meus 8 tios. O tio mais novo era da idade de minha irmã mais velha, 5 anos. E o mais velho, era três anos mais novo que minha mãe. Ele tinha 22 anos. Entre os tios, duas tias de 8 e 13 anos. Eu não tinha a menor ideia de que era uma pessoa com deficiência. Hoje sei que sou. E, tanto antes como agora, uma verdade me atravessa: crescer dói!

Crescer dói mesmo

Ao dividir minha vida em infância, adolescência, juventude, fase adulta até os 50 anos, ela fica mais ou menos assim. Durante a infância me agarrei ao que me era ensinado pelos adultos. Tentei entender o que havia me trazido ao convívio de uma família imensa. Tentava entender as regras, duvidava de que eram iguais para todos. Mas segui-las, ainda era o meu melhor alento. Minha irmã mais velha, de repente, passou a se comportar quase como adulto. Contudo, a mais nova, coitada, era alvo constante dos deboches dos tios maiores. Ela voltara a fazer xixi na cama, depois que meus pais separaram. Hoje penso que, caramba, ela só tinha 2 anos.

Na adolescência, embora já tivéssemos nosso próprio canto, minha vida piorou. E muito. Ficava perdida entre as tarefas da casa, as da escola e a necessidade de me relacionar com mais pessoas que antes. Nesta época, comecei a agir por erro e acerto para tentar entender as pessoas. Meu objetivo era passar o quanto mais despercebida que pudesse. Quanto mais eu crescia, mais eu entendia, com a minha própria vida, que crescer dói. Em outras palavras, o mundo ficava cada vez mais complicado. As constantes dessa constatação de complicação crescente? Ora, as pessoas e as situações que as envolviam.

Crescer não tem linha de chegada, logo…

Quando a juventude chegou, percebi que este momento é uma espécie de transição para a vida adulta plena. Ou seja, na juventude, tudo que o que as pessoas podem, elas começam a cobrar de você. Muitas pessoas reunidas são o que chamamos de sociedade. Quando a sociedade cobra e você não reage como ela espera, babau. Nascem os rótulos.

Nesta época, comecei a receber tantos rótulos, que tive de repensar minha vida. Eu era a ‘sem esportiva’, a ‘nervosinha’, ‘a boazinha’ – quando agradava todos, mas nem sempre agradava a mim mesma. Foi aí que ‘me ferrei’.

Infelizmente, criei a regra de que se você agradar todas as pessoas, você terá uma vida mais harmoniosa. Isso para evitar atritos. É que as pessoas costumam ser cruéis quando se aborrecem. Ou quando as coisas não caminham do jeito que elas querem. Em outras palavras, muitas pessoas se aborrecem quando situações e outras pessoas não se encaixam na expectativa delas. A tal sociedade, lembram?

Enfim, adulta!

Agradava o outro, mas o que fazer com as emoções e confusões que cresciam dentro de mim? A coisa mais complicada da vida é tentar se encaixar a um contexto que você sequer entende. Acrescente-se a isso, as regras de um mercado competitivo e pernóstico das décadas de 80 e 90.

Foram muitas experiências ‘non sense’, outras bem sofridas mesmo. Entretanto, a cada dia, eu entendia mais da dinâmica de cada grupo. Família, trabalho, autoridades, colegas, grupos religiosos. Cada qual com suas peculiaridades. De vez em quando eu me confundia e aí era crise na certa.

Mas, até para isso, elaborei estratégias de modo a não ser considerada ‘fora da medida da régua’. Por exemplo, eu não sabia discernir atitudes e palavras que sinalizam que a mulher está ‘na pista’. Desse modo, criei uma faceta ‘descolada’ com todos. Dessa forma, a percepção era de que eu tratava todos de maneira igual. Sem deferências. Sem problemas, portanto.

Outra estratégia, era não permitir que a interação caminhasse para um ponto que eu não dominasse. Caso acontecesse, eu já tinha a minha lista de saídas estratégicas. Mas, a verdade, era que essa vigília constante, esse esforço para classificar e segmentar todas as interações de minha vida, me levaram a um cansaço crônico. Eu não sei relaxar. Minha cabeça se mantém em alerta, 24 horas ao dia. Relacionar exige técnicas e dá trabalho. Muito trabalho.

Depois dos 50 e do meu diagnóstico. Aqui também, crescer dói

Desde 2003, sou acompanhada por psicólogos, com alguns intervalos sem eles. Há uns 2 meses, finalmente, encontrei uma profissional que entende de gente. Além disso, entende de pessoa autista. Finalmente, consigo organizar minhas demandas de autoconhecimento pós diagnóstico.

Contudo, de uns dias para cá, estou muito mexida. É que, com o autoconhecimento vem uma espontaneidade e leveza libertadoras. Eu as acolho e me dou bem com elas. Mas, infelizmente, muitas pessoas (de novo a sociedade), estão estranhando minhas atitudes. E era para estranhar mesmo. Pois cada um de nós, tem o próprio jeito de ser.

Assim, o diferente vem para somar, para ativar o nosso gatilho da negociação e da criatividade. Vem para ousar pensar em algo fora da caixa. Tenho tido alguns e louváveis acolhimentos. No entanto, você que me lê, muitas pessoas insistem para que eu volte para a caixinha, para o padrão. Aquele formato velho conhecido da maioria. Algo que não os instiga a ações diferentes das de sempre.

Oh, céus. Eu não quero que a minha recém-descoberta diferença afaste as pessoas de mim. Eu quero apenas uma chance. Não, eu não sou chata. Também não sou prolixa. E nem me estendo para além da paciência alheia. Saibam que eu apenas busco, depois do diagnóstico, encontrar o meu ponto de equilíbrio. Então, eu dispenso a antiga zona de conforto que agrada mais às pessoas. Mas que me sangra por dentro.

Aqui e agora, eu existo. Resisto e insisto

Eu estou aqui. Eu existo. Da maneira que eu sou. Pouquíssimas pessoas me conhecem e me aceitam dessa forma. Algumas na família, uma amiga que sempre foi meu suporte quando trabalhamos juntas. Eu sequer tinha o diagnóstico. Outra amiga pós diagnóstico. Meus quatro afilhados: três na área da comunicação e uma na área policial. Minha filha, certamente. E um homem que, a despeito dos nãos da própria vida, ousou me amar.

Essas pessoas, sim, conhecem minhas limitações. E minha luz. A elas, eu me entreguei plena. Eu ofereci o meu melhor. E é por elas, e por você que me lê, que eu sigo. Não vou desistir jamais. Afinal, crescer dói. Mas eu existo e insisto.

Neurodiversidade na IBM Brasil — Canal Autismo / Revista Autismo

Neurodiversidade na IBM Brasil

Tempo de Leitura: 2 minutosNo dia 12 de abril deste ano, a IBM Brasil realizou o evento “Abraços Especial – Nada sobre nós sem nós”. Selma Sueli Silva foi convidada para mediar o diálogo entre alguns colaboradores neurodivergentes que compartilharam histórias. Ou seja, Abraços Especial marcou o primeiro ano do grupo de afinidades de Neurodiversidade na IBM Brasil.

O BRG (Business Resource Group) LGBT+, criado em 2021, atua na área de D&I – Diversidade e Inclusão. Assim, o BRG ajuda a conectar os objetivos de negócio com as necessidades de sua força de trabalho. Então, inclui o respeito às diferenças e observa aspectos inerentes aos profissionais LGBT+.

Além disso, trabalha iniciativas voltadas ao desenvolvimento de carreira, atração de talentos e engajamento das lideranças. Certamente, tudo isso, proporciona uma troca valiosa de experiências. E enriquece as relações de trabalho.

Dessa maneira, a IBM Brasil promove diversidade com inclusão. Aliás, essa é uma escolha consciente para que os funcionários venham inteiros para o trabalho. Além disso, o mais interessante é constatar que desde 1984, a IBM já incluía a orientação sexual numa política de não discriminação.

O autismo e a neurodiversidade na IBM Brasil

Um dos símbolos que representam a Neurodiversidade é o símbolo do infinito. Desse modo, ele traz a ideia de inúmeras possibilidades, esperança e a diversidade de expressão. Então, é nessa linha que o líder do BRG-Brasil, Roberto Santos Santejo, explica que “Na IBM Brasil defendemos e respeitamos a Neurodiversidade. E mais, incluímos pessoas neurodivergentes em nosso ambiente de trabalho.”

Em outras palavras, Santejo esclarece que “termos um grupo de afinidades aumenta a conscientização de neurodiversidade dentro da IBM. Isso traz a certeza de que podemos abraçar este tema de maneira ampla.” Ele conta que quando iniciaram o grupo, há um ano, já havia um programa sólido de contratação de autistas. Dessa forma, o grupo elevou o tema a outro patamar de D&I Diversidade e Inclusão. Portanto, o líder do BRG conclui: “Estamos muito felizes por tudo que fizemos e tudo que iremos fazer! Então, aqui abraçamos a Neurodiversidade em suas infinitas possibilidades!”

Estou cansada de ser autista — Canal Autismo / Revista Autismo

Estou cansada de ser autista

Tempo de Leitura: 3 minutosIsto mesmo: ‘estou cansada de ser autista’. Não por mim ou pelo meu cérebro neurodivergente. É de tanto explicar, explicar e explicar como esse cérebro funciona. Todos os dias, um autista tem pelo menos 3 demandas para se explicar. Por exemplo, ‘o porquê quero assim; o porquê não dou conta disso (dessa maneira)’; o porquê pareço falar como se o mundo estivesse caindo sobre mim’.

Não é sobre você, é sobre mim

Confesso que, do alto de meus 58 anos, tenho algumas ferramentas decisivas que me apontam que devo continuar na luta. A principal é minha fé. Minha filosofia de vida que é clara ao colocar a responsabilidade em minhas mãos. Logo, queria dizer à toda sociedade, que não quero e não transfiro a solução de minha vida para o outro. Por isso, estou aqui e agora, com você!

Entretanto, saibam. EU SOU DIFERENTE, para possibilitar que eu alcance e otimize meus resultados, preciso de um percurso, igualmente diferente. Diferente do quê? Do senso comum. E como a gente vence o estabelecido (status quo), o senso comum? Com informação de qualidade, confiável, de fonte (ou fontes) segura. Uau!!! Exatamente o que eu e Sophia fazemos desde 2015. Então está ótimo? Não, está péssimo. E você vai saber agora por quê.

A força do coletivo ou a realidade do ‘Estou cansada de ser autista’

Todos amam adultos autistas que se formam em áreas da saúde, da educação, da comunicação. São o reforço necessário à mudança da cultura sobre neurodiversidade. Mas, não pode parar aí, no ‘reforço necessário’. Amo ditados populares. Eu não os entendia e sempre pedia a um adulto para me explicar. Era um imenso prazer descobrir o que eles significavam. Pois então, ‘uma andorinha só, não faz verão.’ Um autista adulto aqui, outro ali, não significa que a inclusão exista e que seja efetiva. A força da mudança só acontece quando o coletivo está envolvido de forma consciente.

Aos pessimistas de plantão: sim, é possível incluir

Antes que a turma pessimista diga, ‘já avançamos muito, não dá para ter tudo…’ Dá sim. Eu não recebi meu diagnóstico e construí minha carreira sem saber que estava dentro do TEA. Foram 32 anos de MUITO sofrimento e conquistas. Certamente, esse é o caminho que me levou à frase: “Estou cansada de ser autista.”

Daria para ser anos de muitos desafios e vitórias, somente. Mas consegui. Por quê? Como? Ora, eu dei à sociedade o produto de minha expertise. Em contrapartida, conquistei minha autonomia. Mas não houve partilha de meu esforço sobre-humano para dar conta de tudo que era característica de meu cérebro neurodivergente.

Aliás, algumas vezes, depois de muito sofrimento, eu percebia que NÃO DARIA CONTA SOZINHA e abandonava projetos. Perdia eu e perdia a sociedade. Mas sozinha não dava. Entretanto, não faltavam rótulos. Ela sempre desiste. E demora a resolver. Além disso, é indecisa quando tem de escolher. Isso, sim, me cansa cada dia mais.

Contudo, hoje, estamos avançando. Mas… exigimos que avance mais. Não é sonho. O G1 trouxe hoje a reportagem: Empresas brasileiras assumem compromisso com a neurodiversidade.

Dia a dia de pessoas atípicas: muita cobrança, rótulos e julgamentos cansa!

Sou uma profissional reconhecida em minha área, tenho 4 livros escritos, invisto e trabalho muito no Mundo Autista (Canal no YouTubesite e blog, palestras, redes sociais) e, ainda assim, fico paralisada diante de algumas demandas corriqueiras. E meu estresse aumenta muito mais quando tento explicar o meu comportamento. Só aí as pessoas conseguem agir de forma a facilitar a inclusão. Assim, me esbarro na segunda barreira: a pessoa passa a me olhar com cara de ‘coitadinha’, ‘vamos resolver pra você.’ Puro capacitismo. Não preciso que ninguém resolva nada por mim. Para que não me sinta cansada de ser autista, só preciso que entendam sobre o que eu preciso. Dessa forma, eu garanto, todos vão se surpreender com o retorno obtido.

Na matéria do G1, já citada acima, há uma pergunta sobre autistas e outras pessoas neurodiversas que conseguem emprego e mais. Elas conseguem permanecer no trabalho. Confira a resposta:

“Porque elas se sentem acolhidas nas suas necessidades. Se eu tiver uma situação que eu estou muito ansioso e preciso fazer uma pausa um pouco mais alongada, meu chefe vai entender isso. E tudo bem, né? É muito legal ter pessoas neurodiversas dentro da sua equipe, porque você vai ter uma equipe mais colaborativa, você vai ter uma empresa mais humanizada e você pode ter excelentes resultados com isso”. (Marcelo Vitoriano, diretor geral da Specialisterne)

PCD – Não ligue o piloto automático — Canal Autismo / Revista Autismo

PCD – Não ligue o piloto automático

Tempo de Leitura: 2 minutosO aprendizado é para ser guardado, arquivado. Assim, todos as vezes que precisamos, podemos acessá-lo. Regras também são importantes. Tudo isso são referências para nossas novas ações. Mas, e gente? Todo o tipo de gente? Por exemplo… existe padrão? Bem… gente é para brilhar. Não há tipo de gente padrão. Aliás, seres humanos estão em constante construção. Então, por que motivos, tentamos enquadrar, engessar, padronizar? O mais importante é entender que quando se trata de gente, não podemos engessar a relação. Mesmo que sejam PCD, não ligue o piloto automático.

Queimando etapas com PCDs

Não podemos queimar etapas. Aliás, muito menos, ligar o piloto automático. Qualquer que seja o evento, o ritual do conhecimento, da preparação, deve ser sagrado. Desse modo, a gente se aproxima de mansinho, estuda o terreno, dá um passo de cada vez. Observa, serenamente. Com cuidado, devagar.

Ir de ‘vagar’… vaguear sem direção, sem pré-conceitos. Perambular, sem pressa, passear. Para a interação entre almas há de se ter tempo para vaguear, errar, perambular, passear, andejar, vagabundear, girar, numa espécie de dança do conhecimento. Isso mesmo! Está tudo lá, no dicionário.

Mas o que fazemos? Criamos um padrão e logo tentamos segui-lo. Ligamos o piloto automático e pronto. Ao se encontrar com uma pessoa com deficiência, PCD, não ligue o piloto automático. Quanto menos a pessoa se encaixar, mais achamos que a culpa é dela. Afinal, o diferente é visto como desconhecido. E o desconhecido gera medo nas pessoas. Assim, é nesse momento que as pessoas se colocam na defensiva, se encolhem e excluem.

Não há descoberta quando se liga o piloto automático

Quando entendemos que não há descoberta quando se liga o piloto automático, entendemos mais. Não há descobertas também, inovações… crescimento. Logo, podemos entender que a criação vem quando nos deparamos com as diferenças. Então, é preciso conhecer, com a calma de quem estuda a riqueza de um terreno. Então, fica mais fácil entender. Não precisamos saber tudo. Precisamos, isso sim, ser receptivos ao novo. Respeitar o diferente. Aí sim, nos tornamos aptos à criatividade. Criar, dessa forma, uma nova sociedade. Mais rica, digna, equânime, igualitária, humanizada e, sobretudo, mais justa!

Autista raiz detesta viver sob pressão — Canal Autismo / Revista Autismo

Autista raiz detesta viver sob pressão

Tempo de Leitura: 2 minutosAo ouvir que autista raiz detesta viver sob pressão, você pode até estranhar. Mas, de verdade, o autista que não se submeteu a nenhum treinamento comportamental ou influências distorcidas é assim. Por isso, estou chamando de autista raiz.

Comportamento do autista raiz não combina com pressão

Já falamos por aqui, que o autista prefere viver direcionado por regras claras. E que ele aprende atividades do dia a dia quando tem acesso ao passo a passo. Por exemplo, lavar vasilha não é algo que ele aprenda só de observar. Na realidade, quem está dentro do TEA, pode entrar e sair de uma cozinha 10 anos seguidos e não se dar conta de como as atividades que ele vê por lá são executadas.

Neste caso, entretanto, se cozinhar, ou lavar vasilha for o foco dele, essa pessoa vai procurar aprender tudo sobre o assunto. Perguntando a quem executa e pesquisando nas redes sociais. Além disso, em cada lugar que ele for, ele irá prestar atenção quando alguém estiver fazendo algo assim.

No entanto, se a pessoa não se interessar por isso, é preciso que o passo a passo fique claro. Aliás, é necessário ainda que seja repassado de maneira assertiva e resumida. Muita informação, de uma vez, atrapalha a qualidade do processamento cerebral.

Autista sob pressão

E quando a pessoa dentro do TEA não se interessa por determinado assunto, como agir? Bem, se for criança, a técnica é a mesma, aplicada em geral. Desperte o interesse do autista, fazendo analogias, questionamentos, e até, dando a ele, dados para inferências. Ou seja, descobertas próprias.

Certamente, haverá aquelas tarefas, comuns em nosso dia a dia, que não despertam interesse de ninguém, mas que são necessárias ao nosso desempenho na vida em sociedade. Nestes casos, explique, assertivamente, o motivo dessa necessidade para manter o equilíbrio do ambiente social em questão. Quando um pedido, uma tarefa, ou até uma imposição exibe lógica no contexto, a pessoa autista estará receptiva à execução. E se ela não souber como executar? Daí, devemos voltar ao já citado, passo a passo.

E como a pressão atua sobre pessoas autistas

Normalmente, a pressão se deriva de uma urgência de quem a exerce. Ou de circunstâncias imprevistas. E ainda, de prazos mal elaborados. Quando isso acontece, essa ‘vibe’ que pressupõe o ‘caos’, atua negativamente sobre o autista. Dessa maneira, ele sai do equilíbrio que o caracteriza como pessoa produtiva. Nada de gritos, expressões de ansiedade. A pessoa que está dentro do TEA pode não entender a sua expressão, mas sabe que ela não é a de sempre. Logo, fere a rotina que abala sua segurança.

Trabalhar com o autista adulto ou criança fica mais fácil, quando vamos direto ao ponto. É fato que o autista raiz detesta viver sob pressão. Devemos falar menos, cooperar mais. É bom que o ambiente esteja organizado. Afinal, se o autista for organizado, ele se perde na organização. Mas se ele não for, ele também não consegue se organizar para fazer aquilo que, de fato, importa. Alguns vão falar alto todo o processo de sua construção. Outros, em silêncio, vão traçar esse processo mentalmente e podem se perder quando interrompidos.

Mas não se assuste. Quanto mais essas situações se repetem, mais segurança trazem ao autista. Assim, com o tempo, ele passa a executar tudo com rapidez e produtividade. É quando seu cérebro cria lacunas para os insights, umas vezes visionários, mas, outras, verdadeiros apontamentos criativos.

Implicações do diagnóstico tardio no autismo

Tempo de Leitura: < 1 minutoAtualmente, conseguimos caminhar. Assim, o diagnóstico de crianças com TEA está cada vez mais precoce. Certamente, é um avanço. Ou seja, os estímulos são dados na medida necessária. Em outras palavras, a menina e o menino autistas podem desenvolver suas habilidades. Além disso, aprendem a trabalhar suas limitações. Mas quais são as implicações do diagnóstico tardio no autismo?

Eu e minha filha tivemos muitas lives neste mês de abril dedicado ao autismo. Aliás, muitas atividades vão se estender até o fim do mês. Em minha palestra no Encontro Marcado com o Autismo, no dia 2 de abril, expliquei que meus maiores desafios acontecem nas atividades da vida diária. E as da Sophia também. Eu tive o diagnóstico aos 53 anos, em 2016, e Sophia teve em 2008, aos 11 anos.

Autismo e as emoções

Tempo de Leitura: 4 minutosEm primeiro lugar, início o texto afirmando: O maior desafio de um autista é lidar com suas emoções. Essa dupla de autismo e as emoções é explosiva. A coisa funciona mais ou menos assim: você pensa, o pensamento gera uma preocupação. A preocupação gera um sentimento. Assim, desse sentimento nasce uma emoção.

Em outras palavras, alguns pesquisadores, atribuem três tipos de funções básicas a cada uma das emoções : 1) Adaptativa; 2) Social e 3) Motivacional.

Seria ótimo, então, para o autista, aprender a lidar com suas emoções. Mas o que acontece, geralmente, com nossas emoções na prática?

Nossas emoções na prática

Por exemplo: O adolescente autista foi convidado para uma festa com os colegas de sala. Ele disse sim. De fato, quer ir. Mas um pouco depois, se arrepende. Mas o pensamento é: quero ir.

Contudo, a preocupação surge, um pouco depois. Ou seja, o encontro será no sábado. Mas ainda faltam 3 dias. Aliás, até lá, muita coisa pode acontecer. Dessa maneira, surgem mais perguntas:

Será numa pizzaria no centro da cidade. Como vou chegar lá? Chego na hora certinha? Um pouco depois? Aí já estarei atrasado. Tenho de cumprimentar todo mundo? A decisão parte de mim? Eu peço o que vou comer ou espero eles pedirem? Na hora de pagar vai dar confusão. Será com comanda? Será que posso sair antes? Tenho de despedir de um por um de novo?

O sentimento gerado é o medo. Já a emoção é uma reação imediata a esse sentimento que mexe com o adolescente. Desse modo, ela provoca uma sensação agradável ou desagradável. Neste caso, o medo causou a ansiedade. Entretanto, a ansiedade pode evoluir para tensão, aflição e angústia. Além disso, esse looping das emoções acaba por provocar reações físicas. Por exemplo: Sudorese, alteração do ritmo cardíaco, aumento da tensão muscular e da pressão, entre outros.

As emoções intensas no autismo provocam adoecimentos

A questão não é deixar de sentir medo. É, sim, sentir o medo na medida certa. Desse modo, ele nos proteja de situações perigosas. Entretanto, quando o medo está além da medida, ele causa emoções que podem nos adoecer mental e fisicamente.

Em outras palavras, no exemplo, o sentimento foi o medo. O medo em grande escala gerou as emoções. Assim, muito do que acontece em nossa vida provoca emoções. Por definição, elas são diferentes de sentimentos. Uma emoção é algo que nos move, é uma reação química e neural que acontece quando o cérebro recebe algum tipo de estímulo externo. Dessa forma, a situação traz à tona, nossas memórias emocionais. Ou seja, outras vezes em que vivemos situações semelhantes.
Por outro lado, existem indivíduos que lidariam com a situação descrita, com grande naturalidade. Conforme Antônio Damásio, neurocientista português: “As emoções ocorrem no teatro do corpo. Os sentimentos ocorrem no teatro da mente”. Segundo o autor, a dor e o prazer são ingredientes essenciais dos sentimentos. E para controlar diferentes sentimentos, há sistemas cerebrais diferentes. E é isso que deve ser treinado na pessoa autista.

Crescer, um grande desafio para o autismo e as emoções

Na medida em que crescemos, mais responsabilidades surgem. Aliás, frequentemente, nos sentimos perdidos em meio a tanta informação a ser absorvida, tantas decisões a serem tomadas, tantos caminhos a serem trilhados. Pensamento e sentimento formam, então, um furacão de emoções, geralmente confusas e contrárias.

Entretanto, é preciso ter calma. Afinal, aprendemos a regular nossas emoções no decorrer da nossa infância e adolescência. Parte da nossa socialização tem a ver com a capacidade de treinarmos uns com os outros, iniciando pela família. No caso de autistas, esse fator pode ser treinado com na terapia.

Na vida adulta, situações como uma entrevista de emprego, uma reunião importante com a chefia ou um exame profissional exigem habilidade para lidar com emoções desconfortáveis. As pessoas que não conseguem desenvolver habilidades flexíveis e efetivas de regulação emocional, podem experimentar emoções excessivas e persistentes. Certamente, emoções que interferem na busca de objetivos de vida. Encontrar um equilíbrio inteligente entre o racional e o emocional da nossa mente é a chave para aumentar a taxa de sucesso nas decisões.

Ao mesmo tempo, esse equilíbrio, entre o autismo e as emoções, é o resultado da experiência de vida e, portanto, de muitos erros cometidos ao longo do tempo.

Dicas para o autista lidar com suas emoções

  1. É preciso investir no autoconhecimento para adquirir mais controle emocional.
  2. Aprenda a conviver e lidar com os sentimentos negativos que são parte de nossas vidas. Para isso, você vai precisar se organizar, conduzir e gerir seus anseios. Assim, você vai perceber o que pode te deixar mal. E, é claro, poderá ter mais controle sobre isso. Qualquer sentimento ruim, como tristeza, raiva, rancor, inveja, impaciência, frustração e por aí vai, não deve ser julgado. Apenas sinta, respire fundo e os deixe partir.
  3. Respeite seus limites, por favor! Você sabe o que é melhor para você e até onde deve ir diante de determinada ocasião. Preocupe-se com as suas emoções e o que sentirá perante a situação. Para conseguir fazer isso, siga e domine os passos anteriores.

Mais dicas para avançar no controle das emoções

  1. Faça exercícios físicos. Extravasar sentimentos e emoções significa: Corpo são, mente sã.
  2. Leia sempre. Simples e fácil. Tenha sempre um livro ou revista às mãos. Vale ler no celular também. A leitura aprimora nossos conhecimentos e desenvolve uma mente mais saudável e evoluída.
  3. Respire bem. Para muitos exercitar a respiração em meio à rotina do dia, é algo impensável. Porém, em situações estressantes, saia do ambiente que causa emoções e sentimentos negativos, e se concentre em sua respiração. Vai ver como funciona.
  4. Não tome decisões no calor da emoção: minha avó dizia que as emoções não são boas conselheiras. Por isso, podem nos levar a tomar péssimas decisões. Tanto na vida pessoal, quanto na vida profissional. Seja empático para não descontar no outro suas frustrações. Essa é a maneira certa de evitar mais problemas.
  5. Por fim, entenda que reclamar só ATRAPALHA. Assumir, neste momento de frustração, dor, ou raiva, uma postura mais assertiva. Reclamar só alimenta o pior em nós, além de nos fazer perder o controle emocional.

Aprendemos muito com erros e problemas. Em todas as situações de nossa vida, quando nos vemos numa situação desagradável, é que acionamos a nossa criatividade. Mantendo o controle emocional, analisamos toda a situação, com calma e podemos conseguir perceber os ensinamentos e aprendizados que cada desafio tem para nos oferecer. O outro nome de problema é vitória. Só depende de nós!

Mulheres autistas são vítimas das relações sociais

Tempo de Leitura: 3 minutosHá exatos 2 anos, tive um deslocamento de maxilar. Desse modo, não podia fechar a boca corretamente. Ou seja, meus dentes de cima não estavam alinhados com os de baixo. Imediatamente, me lembrei de dois grandes aborrecimentos vividos, no mês que antecede o mês de abril. O dia 02 de abril marca o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Ele foi estabelecido em 2007, pela Organização das Nações Unidas (ONU). A ideia é que todo o mês seja de conscientização e eliminação do preconceito e discriminação, em torno de pessoas autistas. Os meses de março e abril, me exigem muita socialização. E aí é que eu confirmo a máxima: Mulheres Autistas são vítimas das relações sociais.

Mulheres autistas e as relações sociais

Hoje, na parte da manhã, levei um susto nos grupos de mulheres do whatsapp. São dois. Assim, eu li em ambos, reclamações de crises que levaram a autoagressão. Não foi o meu caso quando desloquei o maxilar. Eu havia feito um grande esforço para me relacionar socialmente. Algumas pessoas me aborreceram muito. Pensei que estava tudo bem, até acordar no outro dia com o maxilar deslocado. Tal fato aconteceu por causa da tensão que se estendeu durante o sono. Assim, eu travei meus dentes com tamanha força que desloquei o maxilar.

Já no grupo, o relato foi de que o esforço para a relação social, unilateral, culminou com crises pesadas e autoagressão. A pessoa quebrou e arrancou alguns dentes. Agora está depressiva. E com a ‘autoestima no chão’, conforme descreveu.

Outra mulher autista, mostrou empatia e relatou que entendia. No início da pandemia, ela teve uma síncope. Durante essa perda súbita e transitória da consciência a mulher quebrou a mandíbula e um dente.

É preciso conhecer para entender as mulheres autistas

A vida me demonstrou que existe um senso comum em debitar na conta do universo feminino rótulos como ‘pitis’, ‘frescura’, ‘TPM’ (nem tudo é sobre a TPM) e excesso de ‘nervosismo’. E mesmo que a mulher autista tente justificar uma sensibilidade maior devido ao cérebro neurodivergente. O mais comum é que o interlocutor, qualquer que seja, se ressinta dessa justificativa. Isso mesmo, qualquer que seja. Pois no universo pelo qual trânsito já presenciei, ou soube, de maridos, psiquiatras, psicólogos e outros.

As relações sociais nem sempre são escolha

O desenrolar da vida, muitas vezes, nos apresenta situações que, ao mero observador, não haveria motivo para nos afetar. Por exemplo: ser síndica de prédio. Antes do diagnóstico, eu já passava por uma tortura quando essa tarefa, por rodízio, cabia a mim. Isso, devido ao perfeccionismo, rigidez, dificuldade em ser sociável. Além da disso, o que mais me pegava era a comunicação assertiva.

É que eu evitava ser assertiva como eu gostaria, porque me ensinaram que essa era uma forma grosseira de se comunicar com vizinhos. Então, eu me esforçava para manter diálogos que me esgotavam e não me traziam nenhum ganho social. Só tomavam meu tempo. Entretanto, o que mais me marcou, foi aquela pessoa chata da turma. Sempre tem um ‘encrenquinha’. Dessa forma, tudo que eu fazia, ela exigia explicações nos mínimos detalhes. E me cobrava um tempo que eu não dispunha.

Percebi que ela era solitária e desejava se relacionar dessa forma. Um dia, disse a ela, claramente, que não podia tratar assuntos do condomínio no particular. Ela então, passou a dizer que eu era uma síndica que não se abria ao diálogo. Em todas as reuniões havia ‘bate boca’. O resultado foram crises terríveis para mim e minha filha, também autista.

Mulheres autistas são vítimas das relações sociais

Depois do diagnóstico, eu deveria ser síndica do prédio, onde moro atualmente. Falei com minha psiquiatra que as crises de ansiedade já haviam começado, mesmo antes de tomar posse. Conversamos bastante e ela fez um relatório dizendo que não era recomendável que eu me dedicasse a essa ‘obrigação social’. Só assim, consegui o afastamento. Não havia má vontade, embora a função não seja das melhores. É que a relação custo/benefício me levava ao adoecimento.

Sim, foi preciso um relatório oficial pois, somente as minhas ponderações não bastaram aos vizinhos. Eles ainda me observam por uma mesma perspectiva. E se esquecem das especificidades de cada um. Portanto, sonho com o dia em que passemos a prezar todas as pessoas, em suas individualidades.

Mãe e filha autistas, a história se repete

Tempo de Leitura: 2 minutosPerceba como entre mãe e filha autistas, a história se repete! Quando eu era criança, meu humor ia de 8 a 80 num átimo de segundo. Levantava e me alegrava com a linda manhã. Tomava café e meu estômago dava voltas. O cheiro do pão na chapa, com margarina era muito ruim. Mais tarde, percebi que a manteiga não me causava enjoo. Pronto, estragou tudo. Às vezes, eu vomitava, escovava os dentes e me aprontava para a aula.

O turno da manhã era horrível. Afinal, eu me deitava cedo e só dormia duas, três horas depois. Em dias de sufoco é assim, até hoje. Mas aprender era muito bom. Enquanto as aulas seguiam a rotina de professora entusiasmada e alunos tranquilos, era perfeito. Mas se algo saía do previsto, lá vinha o monstro do mau humor. Eu me continha tanto que, ao chegar em casa, era briga na certa. Anos depois, eis a cena se repetindo com minha filha.

Mãe e filha autistas

Perdi as contas das vezes em que me estressei com minha mãe. Sentia uma raiva tão profunda que me assustava. Isso porque, muitas vezes, parecia que ela só complicava as coisas para mim. Não conseguia me entender. E nem queria. Quando me acalmava, eu tentava entender o lado daquela mulher batalhadora. Mãe solo de três filhas. Era uma luta constante. Trabalhar, estudar, ser responsável pela casa. Pronto! Bastavam esses pensamentos para eu me sentir a pior pessoa no mundo.

Vivia assim: emoções fortes, que pareciam sair pela boca. Emoções partidas, duais. Ora, era a pessoa mais feliz do mundo. Em seguida, só queria morrer. Desse modo, estava constantemente exausta, com esse sentir que me levava a emoções que sequer hoje, eu consigo entender.

Portanto, ver esse roteiro desempenhado hoje, por Sophia, me impacta duplamente. Por mim e por ela. É um aperto no coração. Gostaria que ela entendesse que a intensidade de nossas emoções, não podem nos afastar do que sentimento inicial. Mas como pedir isso, se eu mesma levei anos para entender. Ou melhor, ainda tento entender tanta coisa, até hoje.

Pensar e sentir, a história se repete

Criança é levada pela emoção que os sentimentos causam. Não têm habilidades para saber o que ela sente e o que pensa. Embora, geralmente as mulheres amadureçam mais cedo, isso não acontece com a mulher autista, em todos os setores de sua vida.

Por isso, adotei a estratégia de me questionar sempre. Isso é legítimo? O que eu sinto? Por que estou agindo assim? Por muito tempo, foi assim com a Sophia também. Mas agora ela é adulta. Pode traçar suas próprias estratégias. Mas, ela me solicita, como se quisesse resgatar a mãe que sempre organiza as situações para que ela entenda. Mas não temos esse poder eternamente. E nem devemos ter. Há que haver um afastamento pelo bem de mãe e filha. Caso contrário, lá vamos nós: mãe e filha autistas a história se repete.

A psicologia evita a história que se repete

Minha psicóloga, Andressa Antunes, me ajuda a perceber que, na convivência entre mãe e filha, o que afeta nossa pequena comunidade familiar, deve ter regras claras. Já o que é meu, é só meu. Pois só eu posso controlar. O que é de minha filha, por mais que eu queira cooperar, é só dela. Ela já é adulta e só ela pode controlar suas emoções. Portanto, se eu percebo que estou indo por esse caminho, pulo fora. É para não ficar fora de mim (risos). Duas autistas desreguladas, juntas, perdem todo e qualquer controle. Mesmo na fase adulta.

Conclusão: Mãe e filha autistas, a história não precisa se repetir

Entendi que eu e Sophia espelhamos nossos sentimentos por meio de emoções, com lente de aumento. Então, agir nessa hora é imprudente. Afinal, aquela ‘emocãozona’ não espelha o que, de fato, estou sentindo, em sua totalidade. Certamente, não devo me anular, também, para que tudo flua. Afinal, a regra é a mesma que existe no trânsito.

Autistas crescem

Tempo de Leitura: 3 minutosSe tudo estiver bem, crianças autistas crescem. Parece óbvio, mas ao receber o diagnóstico, as mães não acreditam que os filhos possam crescer. Em outras palavras, elas só enxergam as dificuldades. Assim, o turbilhão de emoções e de tarefas as impede de vê-los crescidos. Desse modo, elas se prendem ao momento. Afinal, o aqui e agora passa a demandar essa mãe ou família, ao extremo.

Eu sobrevivo, tu sobrevives e eles (autistas) crescem

Na corrida maluca que se inicia, depois do diagnóstico, o instinto de proteção da mãe permanece no modo ligado. Aliás, em geral, ela percebe o diagnóstico como uma perda. Então, outro instinto passa para o modo ligado, o de super-heroína. Essa mãe passa a estudar tudo sobre o assunto e a se dividir entre as áreas da maternidade, família, saúde e educação. Procura uma rede de apoio e fica atenta às possibilidades que começam a emergir. Afinal, ela não pode deixar nada escapar.

Quando não é pega por uma depressão, exaustão profunda ou desespero, essa mãe segue em frente como um trator. Contudo, um dia, se dá conta da pressão alta, da cobrança dos outros filhos que se sentem preteridos e do divórcio. Além disso, noventa por cento dos pais não dão conta de uma vida conjugal ou em família, pós divórcio. Entretanto, agora, o filho autista conseguiu terminar o ensino médio. Ou seja, teremos comemoração? Quem nos dera. Então, o filho amado passa a pleitear o espaço do adulto que ele precisa ser.

Autistas crescem e surgem os autistas adultos

A mãe se assusta: como a sua criança quer sair? O desejo pode até ser igual ao dos outros filhos. Mas será que ele pode? Além disso, por que ele parece questionar todas as decisões que você tomou para seu crescimento sadio? Aliás, será aquele olhar fixo em você, uma cobrança? Você errou? Calma. Todas essas reações do, agora, adulto autista, acontecem como que para ele ter certeza de que você se dá conta de que ele cresceu. E você dá?

É bom pensar nisso. Ou pelo menos não ignorar essa questão. Autistas crescem e se transformam em adultos seguros ou inseguros. Essa força/segurança deriva de como a família o vê. Dessa forma, se você ainda está presa às limitações da pessoa autista mude isso já. Foque nas potencialidades. Nas habilidades.

A formação profissional e o mercado de trabalho para os autistas que crescem

As faculdades e universidades, atualmente, também estão focadas nas possibilidades do ensino para um avanço dinâmico. A transformação digital está aí. Ela é o processo de substituir as formas manuais, tradicionais de fazer negócios. Entra em cena, as mais recentes alternativas digitais. Esse tipo de reinvenção toca todos os aspectos de um negócio, não apenas a tecnologia. As universidades já se reorganizaram para essa nova realidade.

A mesma tendência chegou à empresa, conforme artigo de Mariana Achutti, CEO da Sputnik, na sessão opinião do Estado de Minas.

Na era da responsabilidade social e da transparência, o novo pensamento que emerge dentro das corporações redireciona e expande suas forças educacionais. Muitas organizações avant-garde já estão se entendendo como plataformas impulsionadoras de conhecimento para a sociedade como um todo. E se lá atrás os alicerces da aprendizagem corporativa estavam calcados em garantir baixa rotatividade e alta produtividade entre funcionários, agora é preciso ir além. Da equipe ao consumidor final, passando pelos prestadores de serviço: a educação corporativa do futuro olha para todos os stakeholders (parte interessada) e transforma o mundo, para além do negócio. É esse o novo posicionamento que chamamos de empresa-escola.

E qual é o cérebro que mais se aproxima dessa visão da importância de cada detalhe para garantir o sucesso de todo o processo? O cérebro neurodivergente do autista, claro. É preciso começar a abrir esse caminho para ele, desde a pré-adolescência.

Qual a importância da transformação?

Nos dias atuais, os desafios dos processos de mudança não motivam mais. Por isso, o receio da falta de rotina não assusta mais os adultos autistas. Eles são hiperfocados e, como tal, amam estudar as viradas ou pivotadas de sua área de interesse.

Agora, transformar é a palavra de ordem. Transformar sem perder o eixo dos valores, sem renunciar a princípios, mas reescrevendo a Visão e a Missão. Existe profissional mais centrado que o autista para essa transformação? Creio que não: que o digam Sophia MendonçaTáhcita MizaelAmanda Paschoal, Paloma Breit, Gabriela Neuber, Fernanda SantanaTiago Abreu, Adriana TorresMarcos Maia e tantos outros.

Autistas não são rancorosos?

Tempo de Leitura: 2 minutos“Autistas não são rancorosos”. Quem me disse a frase que guia a reflexão deste texto foi meu pai. A gente estava comentando sobre um dos personagens do filme “Ataque dos Cães”, da Netflix. O jovem rapaz interpretado por Kodi Smit-McPhee, neste drama de época, apresenta traços que hoje podem ser associados ao espectro autista.  Essa identificação com o personagem me levou a pensar sobre autistas e (a falta de) rancor.

Papai conviveu profundamente com duas autistas. Tanto eu quanto minha mãe, de fato, manifestamos a característica de esquecer atitudes mesquinhas de outras pessoas conosco. Mamãe chega ao cúmulo de ter que anotar quando alguém a trata mal para se proteger quando houver um novo contato com a pessoa. Realmente, principalmente sob a ótica neurotípica, a gente parece não ter sequer a capacidade de guardar mágoa e ressentimento.

O rancor

Uma rápida pesquisa me diz que o rancor se trata de um “sentimento de profunda aversão provocado por experiência vivida; forte ressentimento” e também se manifesta como um “ódio profundo, não expresso”. São palavras pesadas que me levam a reforçar a crença em antigos provérbios do tipo ‘guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra envenenada’.

De fato, alimentar o rancor parece nos manter apenas em um ciclo de emoções desagradáveis e atitudes sofridas. Por outro lado, em algum grau, a dor que fundamenta o rancor tem um papel importante na vida de todas as pessoas.

Autistas e (a falta de) rancor: Parece adorável, mas não é

Afinal, lembrar de uma situação ruim na experiência com o outro e até da raiva que ela nos provocou nos torna menos vulneráveis a repetir os mesmos erros e evita situações de humilhação. Quantas vezes eu e minha mãe caímos em relacionamentos abusivos, românticos ou não?

Isso porque a agressão era fortalecida quando voltávamos ao contato com a pessoa manipuladora, depois de vivenciarmos situações traumáticas. Muitas vezes, a gente agia como se nada tivesse acontecido, porque não conseguimos fomentar essa aversão dentro de nós. Parece adorável, mas não é. O problema dessa postura era impedir uma posição mais firme em momentos que exigiam essa conduta, para evitar maior sofrimento futuro.

Será que podemos generalizar?

Claro que não. Pois autistas são seres humanos como qualquer outro. Assim, estamos expostos aos dilemas do mundo tanto quanto uma pessoa que não apresenta essa condição. Então, não podemos generalizar e dizer que autistas não são rancorosos. Ou que mesmo uma pessoa autista que não costume apresentar mágoa ou ressentimento não possa manifestar essas percepções em um momento ou outro.

Em minha experiência particular, houve situações específicas que me trouxeram muita raiva. Dessa forma, despendi de muito tempo de terapia e oração para não deixar que a amargura tomasse conta de mim. Isso porque o hiperfoco não me deixava esquecer desse ressentimento. De modo que, em meu cotidiano, o rancor se aprofundava, realmente, como esse ódio intenso que eu não expressava.

Autistas não são rancorosos?

A resposta para a pergunta que dá título ao texto, assim, é o menos relevante. Nada é um bem ou mal em si. Mas a maneira como lidamos com cada interação molda as nossas vivências. Assim, importa menos se o rancor vira um hiperfoco ou se não conseguimos registrar o mal que alguém fez. Quando a gente se conhece e se valoriza, podemos agir com ética e equilibrar as emoções. Independentemente dos fatores externos. Isso é vida!