Posts

Cérebro neurodivergente e as atividades de vida diária

Tempo de Leitura: 2 minutosComo vocês sabem, sou autista e mãe de uma mulher autista, de 24 anos. Recorrentemente, ao observá-la, cenas de minha vida retornam à minha mente com riqueza de detalhes e, infelizmente com os mesmos sentimentos da época em que foram vividas. Quem já passou por isso, sabe como o ressentimento, ressentir emoções já passadas, é nocivo desgastante.

Quando Sophia era adolescente, meu psicólogo, não raras vezes, me orientou como lidar com ela. Eu, apavorada, contra-argumentava: “Não consigo, você está me pedindo que eu lide com minhas próprias neuroses”. Então, ele me ensinava o passo a passo, o que me deixava mais segura. Uma de suas orientações era para que a Sophia (e eu) relativizasse a situação que a perturbava. O cérebro neurodivergente pode apresentar algumas armadilhas e uma delas é exatamente intensificar as emoções: ou estamos muito felizes ou, profundamente, infelizes. Coisas do tipo: “Meu mundo caiu e me fez ficar assim… você conseguiu (…)”. Dessa maneira, nosso cérebro potencializa os sentimentos envolvidos na situação, mesmo que não saibamos como nominá-los ou expressá-los para quem nos pergunta: “o que aconteceu.” Essa pode ser a maior dificuldade da pessoa autista: comunicar suas emoções. Mesmo quando é expert em discursar sobre seus hiperfocos.

Quando estamos naquela fase em que nosso cérebro ainda não é totalmente maduro, até os 25 anos aproximadamente, segundo estudos da Neurociências, perceber e relativizar as situações é algo muito, mas muito difícil mesmo. E é nessa fase, que os pais são mais rigorosos e cobram mais [email protected] [email protected] que não é mais criança. Mesmo que, paradoxalmente, muitos deles ainda infantilizem seus filhos autistas, numa atitude que beira ao capacitismo e só complica o amadurecimento do cérebro neurodivergente que pode se dar mais lentamente que o cérebro típico. Mas criança, nenhum adulto autista é.

O que é necessário nessa fase é ensinar o passo a passo de como lidar com as mais diversas situações. Vale até simular algumas delas como: ouvir de alguém da família algo que se discorde frontalmente; ouvir um não a algo que se quer muito; estar chateado porque não pode passar o tempo todo nos jogos eletrônicos – exceto se você faz disso um hiperfoco que vá se transformar em seu trabalho.

Uma outra orientação é que não precisamos responder a uma pergunta imediatamente. Há sempre como ganhar tempo dizendo: Ainda não estou bem [email protected] Vou pensar mais um pouco e te retorno.” Essa pode ser também, uma boa estratégia para que a gente não seja levada pela impulsividade que nos assombra a vida.
Não precisamos aceitar a ansiedade, quase uma constante ao cérebro neurodivergente, porém em doses mais elevadas que nos cérebros típicos, não precisamos aceitar a ansiedade como uma sentença imutável. E nem como desculpa que nos libere de construir melhores reações. Para tanto, é bom que [email protected] autista treine a respiração que é forte aliada nos momentos de crise ou de ansiedade.

Um exercício muito bom, vem da terapia cognitivo comportamental: é preciso analisar o que de real existe num medo paralisante e o que é uma construção de nossas vivências. Eu tenho pavor de ir a lugares que não conheço, dirigindo. Percebi que os motivos são: medo de me perder. Para esse, o GPS e coração sereno, caso contrário, não conseguimos entender nem as indicações do GPS. Medo de estar sozinha pois quando estou nervosa não consigo me expressar direito. Para esse, a companhia daquela pessoa que é nosso suporte mesmo quando somos adultos (uma prima, um colega, pai, mãe, terapeuta/acompanhante.) Medo do imprevisível e incontrolável. Para esse, a vida me ensinou que não tem estratégia 100% eficaz. Por isso, diminuímos a tensão com o que podemos, de alguma maneira, controlar para enfrentar o imprevisível que, no mínimo, nos servirá de um rico aprendizado.

Domando meu cérebro autista

Tempo de Leitura: 3 minutosDesde criança, a injustiça acabava comigo. Lembro de um médico que me disse, quando eu estava com 22 anos, que eu era extremamente compassiva e que era muito rígida quando o assunto era a justiça. Nunca me esqueci do sorriso que se seguiu à fala dele para mim: “Você quer ter a justiça divina, infalível. Vai sofrer muito pois já entra perdendo nessa concorrência.” Pensei nisso por anos, pois não entendi o sentido disso. Eu queria era saber lidar com esse sentimento.

Isso porque, sempre me irritava diante de uma grosseria de um garçom, uma resposta ríspida de alguém, à falta de atenção ao outro. Hoje penso que era porque me sentia muito mal sempre, pois parecia que o mundo estava contra mim. Transformei essa energia da raiva em briga, discursos e questionamentos a tudo e todos. Quando essa irritação parecia me sufocar, não adiantava nada. Qualquer pergunta ou tentativa de me entender só piorava minha ira, pois tentava me explicar e as palavras me fugiam ou então, eu não conseguia me fazer entender o que me levava a mais e mais raiva.

Assim, durante boa parte de minha vida, eu fui brigona, barraqueira até.  Desestruturava e não media as consequências de nada.  Ia fundo, de cabeça. Já enfrentei homem armado. Já persegui ladrão favela a dentro, atrás de minha bolsa furtada. Não hesitei em dizer à minha sogra que ela devia ter fechado as pernas, quando ela reclamou da falta de pílula no seu tempo. Não me orgulho disso, ao contrário.

Briguei no posto de gasolina, com motorista de táxi, no hospital, na rua, em família, no trabalho – sai de ambulância, tamanha foi a crise.  Enfrentei meu pai policial, vizinho barulhento, professor que se considerava o dono da razão, namorado safado, padre sem noção, pastor reacionário, espírito incorporado, chefe assediador. Parecia que diante da injustiça só a energia causada pela ira me confortava e me levava às vias de fato.  Quando finalmente, me acalmava sofria de ressaca moral. Com o tempo, uma exaustão tão grande me tomou mais e mais.  Meus músculos criaram memória de retesamento, eu nunca relaxava, a adrenalina era constante.  Vivia em alerta, o que me causou uma estafa gigante no corpo e na alma.  Estava cansada de viver.  Amava ir para o bloco cirúrgico para apagar o mundo.

Na curva de meus quarenta anos, percebi que não podia mais viver assim. Aprofundei meus estudos e prática budistas, passei a estudar a cultura de paz para a construção de um mundo justo, digno e inclusivo.

Li Esquivel, Daisaku Ikeda, a história de Tina Turner, de Courtney Love. Introjetei o entendimento da Paz, Cultura e Educação como necessidades humanas.  Estudei e estudo Comunicação não Violenta, Educação Humanística,  Programação Neurolinguística.

Hoje sei que todos nós podemos errar e só não admito erros por negligência, crueldade ou má fé.  Mas percebi que não há acerto sem o erro, que hoje prefiro chamar de processo, para chegarmos à nossa meta.  Aboli o vitimismo e a autopiedade que sempre me fizeram retroceder ou me paralisavam.

Construo dia a dia a minha Revolução Humana e procuro avançar pelo menos um milímetro, todos os dias.  A evolução é inerente ao ser humano. A Revolução não, tem a ver com nossa transformação, nosso crescimento. Por isso, aprendi que não avançar é o mesmo que retroceder, mas que é melhor que todos avancemos um passo, que eu avance sozinha muitos passos.

Procuro observar e não julgar, diariamente, pois sei que não há como conhecer todas as perspectivas e vieses para bater o martelo de juiz. Aliás. Reconheço minha humanidade e procuro enxergar a humanidade do outro, ciente de que todos nós possuímos potencial latente, único e intransferível.

Escolhi enxergar o mundo pela via do afeto pois para cada cara quebrada que tenho, conquisto cinco vezes mais, em descobertas sobre a riqueza humana. Normalmente tenho medo de me expressar pois sinto que sou traída pelas palavras que nem sempre espelham meu coração/mente.

Decidi optar pelo caminho do meio, como estratégia de vida, depois que descobri que esse caminho não é o ponto mediano entre dois extremos. O caminho do meio só pode ser traçado e conquistado quando conhecemos o melhor dos dois extremos. Acredite, sempre existe algo maior por trás de atitudes extremistas.

Hoje, ainda tenho minhas crises mas, via de regra, saio delas com algum aprendizado que faço questão de exercitar para meu crescimento pessoal e do ambiente que me cerca.

O dia a dia do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutos

Eu fui para casa de minha mãe, numa cidadezinha próxima a Beagá, aqui em Minas Gerais, no dia 23 de dezembro de 2020 e só retornei à minha casa, no início desse mês. Situações novas que nos impõe a pandemia.

Minha mãe, Irene, amou a ideia. Eu também. Foram muitas nossas trocas, inclusive fiz um vídeo para o canal Mundo Autista sobre meu aprendizado ao lado dela. Ouro puro essa troca de gerações. Perde quem ainda não se atentou para a coeducação entre gerações.

O doutor, mestre e psicólogo José Carlos Ferrigno estudou e analisou as trocas de afeto e de conhecimentos específicos que uma geração repassa à outra. Essa aproximação das gerações (conforme conclui o psicólogo) pode incrementar a inclusão social de velhos e jovens, enriquecendo-os mutuamente, desenvolvendo a tolerância e a solidariedade e amenizando, portanto, os efeitos nocivos do preconceito etário.

Foi exatamente o que vivi com minha mãe, durante quase 5 meses de convívio diário, uma vivência rica em aprendizado. Em contrapartida, minha mãe intensificou a curiosidade pelo uso da tecnologia, lançou-se ao ambiente do estudo virtual e, agora, é nossa parceira no Mundo Autista. Mas algo em mim e na Sophia incomodava imensamente a amada Irene: ela reclama de nosso ritmo frenético e de nosso cérebro que parece não descansar nunca.

Expliquei a ela que para mim e Sophia estarmos com ela, fora de nossa casa, precisaríamos criar um ambiente com o qual nos identificássemos para que nos sentíssemos confortáveis. Não foi difícil com um quarto só para a Sophia e outro para mim. O escritório com tripés, notebooks, microfones e outras ‘cositas mas’ foi montado na sala. Nada que incomodasse, devido à estrutura da casa do pequeno sítio, onde a cozinha é o local da conversa e da troca de afetos e carinhos traduzidos pela culinária mineira.

Antes, porém, fizemos uma reorganização para que tivéssemos menos apelo visual, o que nos dispersa e estressa. A disposição de tudo na cozinha também teve de atender à minha lógica meticulosa para que eu pudesse cumprir minhas tarefas de eventual dona de casa e cozinheira, sem muito estresse.

Lá fora, o jardim e o pomar eram bem cuidados e agradáveis à visão e convidativo a reflexões e clicks fotográficos. O galinheiro, antes construído com certo descaso (a meu ver), foi refeito, muito bem organizado – um verdadeiro lar para o galo e as galinhas garnizé.

Os horários do café da manhã e das refeições foram refeitos já que minha mãe, apesar de sua alma livre e rebelde) cedeu à organização metódica da filha. Por vezes, eu estava no meio de uma tarefa, coando café, por exemplo, e ela sugeria que colocasse o coador assim, o pó de outro jeito e, quando eu olhava aflita para ela, ela já se explicava: ‘eu me esqueço, já estou te confundindo.” Eu sorria, meio encabulada e reforçava que quando me lanço à uma tarefa, meu cérebro é todo direcionado ao passo a passo desenhado em minha mente. “Pode passar as instruções, mãezinha, mas explique de maneira assertiva, com poucas palavras, antes de eu começar a fazer ‘do meu jeito’”, eu emendava constrangida.

Mas certo é que, por vezes, ela me interrompia mesmo, eu me desorganizava, a gente ria e começava tudo de novo. Percebi que a vida é assim, que posso ser flexível e que o jeito do outro, as tentativas, tudo isso faz parte de um aprendizado maior também. A única coisa que não expliquei para minha mãe foi que, para me relacionar com mais gente além da Sophia, eu passo o dia inteiro negociando com meu cérebro, criando estratégias e mais estratégias, na tentativa de entender esse mundo tão complicado à minha volta.

Vacinação para Covid-19 de autistas adultos

Tempo de Leitura: 2 minutosHoje foi dia de eu e minha mãe, Selma Sueli Silva, recebermos a primeira dose da vacina contra a Covid-19, por sermos pessoas com deficiência permanente (no caso, o Transtorno do Espectro do Autismo, TEA). Ficamos muito felizes por sermos vacinadas, já que o nosso quadro de saúde apresenta peculiaridades em função do tratamento medicamentoso e de questões sensoriais e motoras, dentre outras. Foi um alívio perceber uma luz no fim do túnel, o começo de uma nova esperança. 

Minha mãe estava muito nervosa para ir ao posto de vacinação, já que ela tem muita dificuldade de locomoção a locais que não conhece, principalmente se forem barulhentos ou repletos de outros estímulos sensoriais. Para aumentar a tensão, aqui em Belo Horizonte alguns postos já vacinam autistas e pessoas com outras deficiências permanentes, mas isso ainda não ocorre em todos os pontos de referência da cidade. Portanto, aqui, é preciso primeiro ligar ao local onde ocorre a aplicação da vacina para apurar se esse público já está sendo atendido.

Ficamos na fila da triagem por um bom tempo até sermos atendidas. Eu estava com meu lado de Transtorno do Espectro Autista e minha mãe, com dois relatórios, um atestado de Síndrome de Asperger e o outro também de TEA, todos os três com o mesmo CID F84.5. Apesar do código indicar a mesma condição de saúde, só foram aceitos os laudos que mencionam explicitamente o Transtorno do Espectro Autista.  Felizmente, pudemos vacinar.

Uma moça muito simpática nos recebeu para aplicar a dose da Pfizer. Minha mãe, a essa altura, já estava muito desconstruída, o que é comum acontecer em lugares públicos, e eu estava mais calma. Ainda assim, a profissional de saúde conversou muito mais comigo, foi mais cuidadosa e atenciosa até, o que me leva à hipótese de que quanto mais velha é a pessoa, mais ela se torna invisível socialmente como autista. Contudo, foi recompensador perceber que formamos uma boa dupla e que uma pode compensar as dificuldades da outra. 

Autista pode dirigir carro?

Tempo de Leitura: 4 minutosA primeira vez que me deparei com esse questionamento foi quando escrevi o livro Camaleônicos – a vida de adultos autistas. O livro é uma espécie de reportagem com 10 autistas que falam sobre sua vida pessoal e profissional, conforme estes trechos:

Capítulo: O autismo leve não é leve em sofrimento: “Em sua vivência profissional, Maria sempre foi muito honesta e quando, em um de seus trabalhos, seria preciso mentir para demitir alguns funcionários, ela não conseguiu, pois que eles tinham famílias para sustentar. Preferiu pedir demissão. Maria não faz nenhum acompanhamento terapêutico, embora apresente grande dificuldade mesmo para dirigir, fazer manobras e até já ‘arrancou alguns retrovisores de carros por aí…’.” (pág.36) assim como Clarice que se obrigou a dar conta do que os outros davam. (…) Foi assim que ela tirou carteira de motorista, na sétima tentativa, mesmo que isso a tivesse levado a uma exaustão que só ela e o namorado, à época, tivessem tido a dimensão. Essa carteira de motorista, ao invés da conquista de liberdade e autonomia, tornou-se um pesadelo que a infernizou por vários anos. Ela detestava ir a lugares que não conhecia, não conseguia dirigir bem à noite (todos apostavam na miopia como causa) e já saía estressada pensando na volta.

Era cobrada pelos amigos e família que diziam a ela que o medo era bobo e irreal já que ela dirigia muito bem. Clarice, com voz sumida, afirmou que claro que dirigia bem, pois isso era um ato mecânico, era treino. Mas ninguém acreditava na falta de noção de tempo e espaço para uma ultrapassagem por exemplo. ‘Coisa de toda mulher’, foi o que ela ouviu a vida toda. (…) Ela tinha prejuízo em algumas percepções, mas não deixou de dirigir por isso. Como já era de costume, redobrava sua atenção e seu esforço.” Trechos retirados pela editora.

Capítulo Enquanto houver desconhecimento, haverá sofrimento: “Gostaria de dançar, por exemplo, mas isso exige um esforço muito grande. Estou esperando uma ocasião em que eu consiga concentrar energia para aprender, com instrução e tudo, pois só assim acho que consigo enfrentar as coisas. Tive muita dificuldade para aprender a dirigir. Ainda assim, Henrique consegue aprender e enfrentar as circunstâncias, uma coisa de cada vez. ‘E a vida adulta tem me trazido muitas coisas novas, sempre, ao mesmo tempo.’ (Pág 92)

Capítulo A Inclusão é o espaço das diferenças: “Os testes neuropsicológicos explicaram muita coisa como (…) a dificuldade em fazer coisas aparentemente simples como dirigir, cozinhar ou fazer compras; a dificuldade com a atenção seletiva que quase me deixa extremamente estressada e confusa frente a lugares com muitos estímulos e barulhos.” (Pág 169)

Observadas todas essas experiências, inclusive a minha (Clarice é meu pseudônimo neste livro), eu não tenho dúvidas de que o autista (se quiser) deve se submeter aos exames para tirar a habilitação como motorista – de forma inclusiva e, se aprovado, pode e deve dirigir. Na realidade, os autistas têm completa noção de suas limitações, o que os torna mais atentos e prudentes.

Tanto que no dia 30 de abril, eu dirigia para o sítio de minha mãe e paramos num supermercado às margens da MG10 – Estrada Real. Fizemos compras e, ao sair, conferi e, ao longe, vinha um caminhão. Me dei conta de que não havia recolocado o cinto de segurança. Ao colocá-lo, voltei a olhar e o caminhão já estava mais próximo, mas não o suficiente para me impedir de entrar na BR. Foi o que eu fiz. Já havia percorrido alguns quilômetros quando percebi que o motorista do caminhão estava correndo para me alcançar. Acelerei e não pensei mais no caso.

Acontece que, quando a pista perdeu o acostamento numa área ladeada por encostas e sem duplificação para a pista da outra mão, eu observei o caminhão crescendo no meu retrovisor interno. Não acreditei. Comecei a orar o meu mantra bem alto e joguei o meu carro, o máximo que consegui, rente à encosta. Segurei firme o volante e torci para que o espaço deixado entre meu carro e a fileira de carros na contramão desse para o motorista irresponsável. Irresponsável não, criminoso, passar sem problemas.

Voltei à minha mão de direção e todos à volta estavam aterrorizados. Disse à minha mãe que a manobra do infeliz havia sido proposital e ela sugeriu que ele devia estar com algum problema que justificasse a atitude insana. Embora minha mãe e minha filha estivessem apavoradas, eu fechei a questão: “foi de propósito. Esse cara não podia dirigir.” Mais à frente, numa área de ultrapassagem permitida, tive de ultrapassar o mesmo caminhão para não ficar presa atrás dele.  Segui mais eis que 20 minutos depois, ele surge, crescendo, novamente, em meu retrovisor. Só que desta vez, eu estava perto da entrada do condomínio e já havia comércio à beira de estrada. Saí da pista e resolvi dar uma boa margem de frente ao pseudo profissional do volante.

Não acreditei quando vi a manobra para conversão à esquerda: ele estava indo para o mesmo condomínio que eu. Fui atrás. Ele parou na portaria reservada aos caminhoneiros que fazem entregas e eu, parei na portaria dos condôminos. Saí do carro e minha mãe pediu que eu não fosse. Mas eu PRECISAVA saber por que aquele homem fizera aquilo, por que ele colocou a vida da minha família em risco, jogando aquele caminhão enorme no meu ‘March’. Ingenuidade autística, pois ele ironizou: Quem? Eu? A senhora está enganada. Foi a gota d’água: estava clara a má fé. Falei com ele que se não fosse a perícia da motorista amadora, o profissional tinha causado um grave acidente. Tive um colapso.

O síndico, que estava na portaria, interveio ponderando que trânsito é assim mesmo. E eu, muito nervosa: “Claro que não é. Trânsito é lugar de regras, de direção respeitosa e saudável.” Fui para casa e pedi à uma fonte da Polícia Civil que checasse a placa do motorista pois ele fazia carreto para o condomínio. Resultado: Um processo pela Lei Maria da Pena e dois por danos materiais em rodovias, fugindo e deixando o prejuízo para a vítima.

Querem mesmo me convencer de que autista é que pode representar risco ao trânsito? Não, sempre haverá seres humanos do bem e do mal. Autistas ou não autistas.

Chantal Wiertz, semifinalista do Miss Universo, desconstrói pré-conceitos sobre o autismo no feminino

Tempo de Leitura: 2 minutosA última edição do concurso Miss Universo, celebrada no domingo passado (16) teve entre as suas semifinalistas Chantal Wiertz, de 22 anos de idade, representante de Curaçao, que é autista e ativista pela causa do autismo. Mais uma vez, nos deparamos com a constatação de que existem autistas nas mais diversas esferas sociais. Mesmo com toda a discussão que ronda sobre um possível reforço da objetificação feminina em disputas de beleza, não há como negar os afetos mobilizados por termos uma representante da comunidade autista numa indústria que tem seu papel na legitimação de modelos a serem seguidos pelo feminino.

Com Chantal, diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há um ano, eu vejo novamente a possibilidade de desmistificar um dos diversos pré-conceitos que contribuem para o atraso diagnóstico de mulheres autista: a ideia de que autistas não ligam para a aparência externa.  Uma vez, lembro-me de uma amiga também enquadrada ao TEA, uma ruiva de beleza muito expressiva, pontuar que o simples fato de ela se maquiar já era motivo para alguns colocarem a suspeita de autismo de lado. É certo que ser autista não remove a feminilidade (ou masculinidade) de ninguém, mesmo nos aspectos mais superficiais dessa construção do que é ter aparência de uma mulher, como traços físicos e até comportamentais. Assim, como a cobrança cultural com o feminino é diferenciada, é preciso uma atenção especial às sutilezas da manifestação do autismo no feminino.

Como mulher autista, eu me lembro que o primeiro exemplo midiático que tive de alguém com TEA foi a modelo Heather Kuzmich, participante da nona temporada do reality show estadunidense America’s Next Top Model. Quando o programa foi exibido, em 2007, eu ainda não havia sido diagnosticada, embora percebesse algumas características muito similares a ela, principalmente no que se refere a desafios de interação (“Você é a piada”, diziam algumas colegas quando ela não entendia algo) e baixa habilidade motora (apesar de ser a melhor da temporada com modelo fotográfica, Heather tinha sérios problemas quando precisava desfilar). Anos depois, ela foi uma peça fundamental para que eu compreendesse o laudo que me foi dado. Que Chantal, em sua ação de figura pública, também possa ajudar a amenizar o sofrimento de mais meninas e mulheres autistas.

Dirigido por Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, documentário ‘AutWork’ é selecionado para festival no Reino Unido

Tempo de Leitura: 2 minutosO curta-metragem documental “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho“, uma produção do “Mundo Autista” dirigida por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, mãe e filha diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), foi classificado para a seleção oficial do festival “List-Off Global Network: First-Time Filmmaker Sessions“.  O documentário, que concorre na categoria Melhor Curta-Metragem, marca a estreia na direção cinematográfica da dupla de jornalistas e escritoras e investiga a inclusão de autistas no mercado de trabalho.

Dirigido por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, documentário "AutWork" é selecionado para festival no Reino Unido — Canal Autismo / Revista AutismoO evento é sediado em Pinewood Road, na Inglaterra e ocorre entre 24 e 31 de maio deste ano. Os cinco melhores filmes de cada categoria serão selecionados pelo público após exibição e votação online. Os finalistas serão avaliados pelo júri interno do festival, que definirá os vencedores, e exibidos no Pinewood Road e no Los Angeles Lift-Off Film Festival em Raleigh Studios, Hollywood. Para Selma Sueli Silva, a repercussão internacional é uma oportunidade de “ampliar a visibilidade do Espectro e da pessoa autista, facilitando a oportunidade de mais acolhimento e menos preconceito”.

A dupla de cineastas atualmente se vê envolvida em novos projetos no cinema e o próximo documentário tem previsão de lançamento no final deste ano. “Como contadoras de histórias, estamos sempre em busca da oportunidade de ampliar o repertório sobre temas que foram pouco ou nada discutidos, ou não tiveram a chance de serem discutidos sob determinada ótica”, analisa Sophia Mendonça.

Trailer

Confira o trailer de “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”:

 

Documentário

 

 

Iniciativas vitoriosas de autistas ganham o mundo

Tempo de Leitura: 3 minutosNo início deste segundo ano de confinamento forçado, nos reunimos com editor da Revista Autismo e propusemos a pauta sobre autistas e mercado de trabalho. Francisco Paiva Júnior ponderou que já tinham sido abordados vários aspectos desse assunto. Como eu e minha filha Sophia Mendonça já estávamos esboçando o roteiro de um documentário que iria ao encontro dos autistas que já estivessem no mercado, resolvemos manter a pauta e escrever sobre isso. E assim fizemos. (Matéria Autwork, da Revista Autismo número 12, de março.2021, páginas 12 e 13).

Nesta quinta, 13.mai.2021, recebemos o comunicado de que o filme “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”, uma produção do “Mundo Autista” dirigida por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, com edição da cineasta Radija Ohanna de Oliveira, foi selecionado para o festival “List-Off Global Network: First-Time Filmmaker Sessions”, no Reino Unido.

Ficamos animadas, pois já havíamos recebido vários retornos de como “esse trabalho tocou a alma e coração de quem o assistiu, dando voz a tantos e diferentes autistas”, conforme palavras da terapeuta ericksoniana, Mônica Cabanas, que atualmente reside na cidade do México.

Uma de nossas entrevistadas, à época, foi Joyce Rocha, 28 anos, UX Designer, abreviação de User Experience ou “Experiência do Usuário”, com foco em acessibilidade digital. Ela é autista e teve o diagnóstico há 6 anos.

Joyce atua, também, no Hackathon Autismo Tech, elaborado e promovido pela FIAP – Faculdade de Tecnologia de São Paulo, em parceria com a startup aTip. Nascido em 2018, o Hackathon Autismo Tech já está na terceira edição e busca encontrar soluções tecnológicas que promovam a inclusão de profissionais no espectro autista. Depois de integrar a primeira edição, Joyce sugeriu a participação expressiva de autistas, por serem eles, a fonte das demandas da competição. “Eu sou UX Designer, trabalho com a experiência do usuário, então não adianta criar nada para um usuário que você não tenha o contato direto com ele”.

A segunda edição aconteceu durante a pandemia e o Hackathon Autismo Tech foi readaptado para ocorrer virtualmente, o que foi, segundo os participantes, um grande aprendizado e oportunidade para receber equipes de todo o Brasil, o que resultou em variadas maneiras de se pensar a inclusão. Nasceu, nesta edição, a empresa Inclusão Humanizada que hoje atua na área da consultoria a empresas que se abrem para a contratação de pessoas autistas.

Milena Yamamoto é fundadora da iniciativa Inclusão Humanizada, e embaixadora do movimento “Autismo Tech”. É pós-graduanda em Web Full Stack pela PUC Minas e teve o diagnóstico em 2018, aos 28 anos e, desde então, se empenha em construir projetos voltados para autistas.

Ela explica que na terceira edição, além do Hackathon, a competição em que a galera vira a noite trabalhando em ideias inovadoras, alguns autistas serão capacitados em 3 trilhas, mini-cursos, que são: game Developer (jogos), Salesforce Developer (programação), Testes & QA (testes e controle de qualidade). Ao todo, serão selecionados 60 autistas, 20 por trilha (curso), que serão capacitados em 11 semanas. As inscrições foram abertas em 02 de abril e se encerram em 20 de junho.

Já para o Hackathon as inscrições serão abertas em 05 de julho e vão se encerrar em 29 de agosto. O evento é totalmente on line e gratuito e contará com uma semana para o desenvolvimento do projeto, de 04 a 10 de outubro. São 150 vagas (considerando as 60 pessoas já inscritas nas trilhas de capacitação) para times multidisciplinares.

Milena enfatiza a oportunidade de os autistas se unirem em torno desse propósito de capacitação e da competição, para fazer uso como plataformas de transformação social, empoderamento e inclusão, com os autistas como protagonistas de todo esse processo.

Os times possuem autistas que se identificam com gênero diferente dos padrões pré-estabelecidos socialmente e isso é algo muito amplo, o que levou inclusive, à criação de um chat, o Discord, para interação entre os autistas. Muitos dos participantes se dizem, finalmente acolhidos como pessoas e não como o rótulo do autismo. Hoje, portanto, o Hackathon AutismoTech deixou de ser somente um evento e passou a ser um movimento, um coletivo, um espaço para discussão, debate e acolhimento.

Confira o documentário “Autwork – Autistas no Mercado de Trabalho”: