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Ativista no autismo, “ser ou não ser…”

Ativista no autismo, “ser ou não ser…”

Tempo de Leitura: < 1 minutoAtivista no Autismo, “ser ou não ser, eis a questão.” A realidade é que eu não escolhi ser. Mas sou. Afinal, sou defensora da inclusão social de pessoas com deficiência – PCDs. E autista é PCD. Assim, me tornei membro de um agrupamento de pessoas que lutam por essa causa. Mesmo sem assinar documentos para validar o ativismo. Ser ativista nos permite essa liberdade.

Quanto a ser militante… bem, penso não ter perfil para tanto. Tudo bem que na militância a pessoa também defende uma causa. Entretanto, a ação tende a valorizar disciplina, centralização e a ausência de autonomia. Enquanto, no ativismo há o incentivo à experimentação, horizontalidade e autonomia.

Ativismo humanista

Humanismo é uma missão social na qual o princípio é garantir o bem-estar dos seres humanos e da condição humana. É nisso que eu acredito. Assim, o palco de meu ativismo são as redes sociais e o ambiente virtual. Dessa forma, o ativismo nas redes sociais executa ações online, realizadas para difundir ideias e causas, obter suporte e organizar atos presenciais, como as manifestações. Claro, se for o caso!

Ativista no Autismo, “ser ou não ser…”

As pessoas com deficiência precisam mostrar a sua cara à sociedade. O ativismo nas redes sociais facilita e amplia a visibilidade e o apoio a diversas causas. Enquanto as pautas gerais contribuem para melhorar a qualidade de vida de grandes grupos, as pautas locais fazem a diferença na vida de cidadãos.

Portanto, desmistifica a ideia de que a vida da PCD é uma vida de menor valor. As pessoas são diferentes e é necessário entender essas diferenças para que possamos construir uma sociedade mais democrática, igualitária, equânime, justa e inclusiva. Ou seja, mais humanizada, em que a sociedade não classifique a vida humana e não permita assim, que ninguém fique para trás.

O que ergue barreiras entre nós é a atitude de permanecer ignorante em relação aos outros. Por isso, o diálogo é decisivo. Tudo começa com o diálogo. (Daisaku Ikeda – filósofo humanista)

 

Pré-venda do livro Autismo no Feminino é anunciada

Tempo de Leitura: < 1 minutoO livro Autismo no Feminino – A voz da mulher autista, organizado pelas jornalistas Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, está em pré-venda nas plataformas digitais. Com previsão de lançamento para março deste ano, a obra reúne artigos de mulheres ativistas e teóricas da comunidade do autismo no Brasil.

“Por muito tempo, a mulher foi ignorada nos estudos sobre o autismo. Agora, muitas estão saindo da invisibilidade para levar o assunto às redes sociais e à academia, promover palestras, pesquisar, criar empresas para difundir informações confiáveis. O ativismo dessas mulheres é consequência da constatação da falta de conhecimento e até da distorção sobre as características do autismo no feminino. Todas elas passaram por experiências cruéis rumo ao diagnóstico”, disseram as organizadoras.

Entre as autoras participantes da obra, estão a doutora em psicologia, pesquisadora e ativista Táhcita Mizael, a neuropsiquiatra Raquel Del Monde, a ativista Amanda Paschoal e a professora Geuvana P. Nogueira.

PcD, de fato, a vida é preciosa

Tempo de Leitura: 2 minutosPessoas com deficiência (PcD), de fato, a vida é preciosa. Todas elas, de seres humanos, de seres vivos, todas, enfim. E de pessoas com deficiência, naturalmente. Dentro da filosofia de vida que eu sigo, “todos os seres humanos são essencialmente dignos, e compreender a importância da vida de cada um é essencial para o convívio harmonioso na sociedade.” O Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), filósofo e humanista, sempre ressalta: Proteger e prezar a vida deve constituir a filosofia fundamental dos praticantes budistas.

Eis minha filosofia de vida.

Ter esperança é preciso, julgar, não é preciso!

Desde que alguém (não se sabe quem) traçou o perfil de homem/mulher cis, branco, hetero, como padrão, quem sai disso, é considerado sujeito menor. Como assim? Qual é a referência, a medida? Não se sabe. O que sabemos é que os conflitos e situações vivenciados hoje, pela sociedade, nos impulsionam à necessidade de rever todos esses conceitos. Existem mesmo, todas as divisões impostas à vida humana? Uns mais, outros menos. Penso que não.

Considero, ainda, que a demora para reconhecer tal fato é o que nos condena ao sofrimento. E mais, nos impede de entender que a riqueza humana vem, exatamente, dessas diferenças. A homogeneidade nos paralisa. Ou seja, nos leva ao desejo de manter a zona de conforto. As diferenças nos motivam à criatividade e, consequentemente, ao avanço da humanidade.

PcD, de fato, a vida é preciosa

Convido você a refletir comigo sobre a afirmativa: PcD, de fato, a vida é preciosa. Primeiro, vamos entender o que é status quo. Essa é uma expressão do Latim que significa “o estado das coisas”. A expressão surgiu por volta de 1700 como uma forma reduzida da frase “in statu quo res erant ante bellum“, que pode ser traduzida como “no estado em que as coisas estavam antes da guerra”. Assim, preservar o status quo significa deixar tudo como está.

Nós, autistas por exemplo, ao desafiarmos o status quo, defendemos novas ideias em busca de algo melhor. Enquanto conformismo é seguir o efeito de manada, fazer mais do mesmo é manter o status quo.

Dessa maneira, status significa a posição social de um indivíduo, o lugar que ele ocupa na sociedade. Em outras palavras é a condição que a maioria, ainda hoje, deseja para as pessoas com deficiência. Então, definitivamente não, nós não iremos manter o status quo. Nada será como antes. É preciso ter esperança. Ter esperança é preciso!

Desesperança é ser derrotado

Atualmente, diante de tantas situações como pandemia, gripes influenza, desastres naturais é comum que tenhamos sentimentos como tristeza, desesperança ou mesmo de revolta. Porém, se nesse momento pelo qual passamos, não prezarmos a vida, a derrota é certa. Portanto, voltamos ao ponto primordial: Ou seja, devemos prezar cada pessoa.

É certo que cada pessoa apresenta um estado de evolução, assim como fatores limitantes e habilidades singulares. Dessa forma, desprezar as diferenças é desprezar a própria vida.

Toda existência é preciosa

Contudo, são as diferenças que dão colorido à moda, sabor à gastronomia, riqueza à humanidade. Ignorar isso, é apostar na pobreza humana.

Cada um de nós deve atentar para seu imenso potencial e compreender como é essencial empoderar toda a sociedade sobre essa mesma consciência. Dessa forma, prezamos o valor de cada vida. Além disso, não nos prendemos somente ao nosso desenvolvimento, mas nos dedicamos para ajudar a evidenciar o melhor no outro.

Prezar a si e ao outro

A filosofia budista nos ensina:

“Soka” (palavra japonesa) é a essência da criação de valor. É o desafio de justiça para edificar uma comunidade local e uma sociedade global melhores, criando o valor da paz, da cultura e da educação em solidariedade com as pessoas de bem.

A culpa na mulher autista

Tempo de Leitura: 2 minutosEstudo britânico, de 2018, apontou que quase 100%, ou seja, 96% das mulheres sentem culpa, pelo menos, uma vez ao dia. Aliás, essa sensação de culpa aumenta se a mulher for mãe. Além disso, eu sei por experiência própria, que a culpa na mulher autista pode ser elevada à enésima potência. Ser autista é um exercício diário. Entretanto, ser mulher, autista e mãe é uma combinação explosiva.

A culpa na mulher autista vem do estereótipo da ‘Mulher Maravilha’

Certamente, a culpa não é exclusividade feminina. Porém, existe a carga acentuada de uma cobrança estrutural da sociedade, ao universo feminino. Conquistamos o mercado de trabalho, mas não abandonamos as várias jornadas de mãe, esposa, filha, amiga, gestora de nossos lares.

E, ainda, temos de fazer tudo com excelência e um sorriso nos lábios. Sob pena de ouvirmos, por exemplo, que estamos de TPM, ou qualquer outra justificativa tão sem noção quanto. A armadilha de acreditar que somos a ‘Mulher Maravilha’ pode nos levar à sobrecarga e, consequentemente, à maior possibilidade de errar. Haja culpa!

A culpa por não ser perfeita

Ninguém é perfeito. Isso é inatingível. Ainda assim, é o que se cobra da mulher. Tudo isso, claro, só piora o quadro da mulher autista. Ela nasce com essa carga maior de cobrança por ser mulher. E não para por aí. Dentro do espectro, com os diferentes graus de autismos, as manifestações mais conhecidas são na versão masculina.

Portanto, ao não se enquadrar no que se espera do modelo cultural do feminino, a mulher autista é mais cobrada e, consequentemente, possui uma sensação de culpa inesgotável. O que mais dizemos em nossas tentativas de socialização é: ‘desculpa’. Assim, o que já é difícil (culpa feminina), torna-se insuportável. Acrescente-se a isso as conclusões simplistas como: ‘ela está precisando de um namorado’ e, pior, as considerações capacitistas: ‘ela não consegue terminar nada do que começa.’

Novo ano, novas posturas

Em 2022, desejo mais amor e menos cobranças, mais solidariedade e menos julgamentos, mais estudo e menos ‘achismos’, mais observação e menos decisões precipitadas. Mas, acima de tudo, desejo mais relações sociais igualitárias e equânimes.

Somente desse modo, nós mulheres autistas, teremos menor sensação de culpa. Afinal, antes de ser mulher, mãe e pessoa com deficiência, somos cidadãs, com direitos garantidos por lei. E, claro, somos, também, seres humanos que necessitam de suporte, que nos garantam nosso direito à vida plena, com equidade.

Estudo analisa comunicação de autistas na pandemia

Tempo de Leitura: 2 minutos

Um estudo sobre a comunicação de autistas na pandemia foi publicado na revista científica Culturas Midiáticas. O artigo científico “Acessibilidade Afetiva por e para Autistas: ativismo na pandemia da COVID-19” reflete sobre a interação digital de autistas antes e durante a pandemia da COVID-19. A pesquisa foi conduzida por Sophia Mendonça, autista e produtora de conteúdo, e Sônia Pessoa, ambas do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Acessibilidade e Vulnerabilidades da Universidade Federal de Minas Gerais (Afetos/UFMG). Além disso, Sônia é uma das coordenadoras do grupo.

O texto integra o dossiê temático “Comunicação, acessibilidade e representação de pessoas com deficiência“. O artigo na íntegra pode ser acessado aqui.

Depoimentos de autistas

As autoras trazem à discussão a construção de textualidades nas plataformas digitais. Tudo por meio do diálogo com depoimentos de autistas, além do ativismo nessas plataformas. Dessa forma, a coleta engloba durante e anteriormente ao período inicial da pandemia.

A publicação tem inspiração etnográfica. Assim, o trabalho visa à articulação de um diálogo entre a pesquisadora autista e os perfis observados. A base é a acessibilidade afetiva para e por pessoas autistas durante a pandemia da Covid-19.

Considerações do artigo

Por um lado, o cerne do desafio da vivência de pessoas autistas em sociedade está relacionada a questões de comunicação e interação social. Por outro lado, entendemos o encontro, bem como o acesso à produção de informação e conhecimento, como vitais para a garantia de direitos como os previstos na Lei Brasileira de Inclusão, o que abrange uma gama de questões relevantes, especialmente no que diz respeito ao bem-estar pessoal e social dos sujeitos.

A presença de pessoas do TEA nas redes sociais digitais e não apenas de seus familiares tem se tornado fundamental tanto do ponto de vista da satisfação de suas próprias necessidades singulares de interação e de busca por compartilhar experiências de acessibilidade afetiva ou a falta delas, mas também pela importância de tornar pública uma demanda que viria afetar e mobilizar mais pessoas que possam participar, demodo efetivo, em suas atitudes cotidianas, de processos tão complexos.

Inquietações

Desse modo, entendemos que, apesar destes cenários promissores para a comunicação e a acessibilidade afetiva para pessoas autistas, os fragmentos de textualidades aqui apresentados apontam pistaspara espaços de respiro entre a fobia social para sujeitos no TEA e um limbo que se configura há anos nas interações sociais de pessoas com deficiência e a efetivação de seus direitos. Se autistas hoje se apropriam das plataformas digitais para dar a ver e a ouvir suas próprias vozes, dispensando a mediação de familiares e profissionais, ainda há uma longa caminhada entre os ambientes digitais e o mundo da vida social em presença. Antes de apresentarmos conclusões, gostaríamos de apresentar inquietações para um refletir que, talvez, possa partir das reflexões da pesquisa e alcançar relações menos intolerantes e mais acolhedoras às pessoas autistas.

Uma autista no fim de ano

Tempo de Leitura: 3 minutosEssa época do ano é, especialmente, difícil para mim. No entanto, quando criança, eu até gostava. Minha mãe era muito criativa ao se passar por Papai Noel. Apesar de nossa condição humilde. Meu pai, um militar da PMMG, também nos trazia presentes, oferecidos pela instituição. Mas autista é autista. Dessa maneira, meu hiperfoco era gente. Exatamente porque eu me sentia muito diferente. Com o passar do tempo, eu comecei a estranhar essa época do ano. Afinal, eu não sabia, ainda, que era uma autista lidando com as festas de fim de ano.

Ao completar 11 anos, eu não tinha mais direito aos presentes da PM. Lembro que sofri um baque. Como entender esse não, se eu me sentia a mesma criança? Foi quando comecei a observar as diferenças à minha volta. Nem todas as crianças ganhavam presentes. Alguns presentes eram mais legais que outros. Eu já não acreditava em Papai Noel. Então, deduzi que havia diferença entre o salário dos pais. A desigualdade dos natais se evidenciou para a menina que queria se sentir parte. Aliás, queria se sentir igual aos outros mas, a partir daí, a cada dia se sentia mais diferente.

Eu, autista no fim de ano

Depois que passava o Natal, ainda tinha a o fim de ano. Nós só começamos a nos reunir com a família toda, já adolescentes. Nessa época, eu sentia como se houvesse uma mão apertando meu coração constantemente. E eu não conseguia me livrar desse aperto. Tudo só piorava. A programação da TV mudava, as pessoas, as casas e as ruas ficavam mais barulhentas. Todos se abraçavam e não era permitido ser triste. Entretanto, meu desejo de ficar isolada só aumentava com essa animação de fim de ano, em que tudo era diferente. Porém, eu não conseguia explicar isso para ninguém. Ficava cada vez mais sozinha ou ‘na minha’, como minha família dizia. Por que aquela sensação de não fazer parte daquilo tudo me perseguia?

O padrão de fim de ano

Com o tempo, fui percebendo um padrão no comportamento das pessoas. Percebi que havia o ‘modo fim de ano’. Mesmas frases, mesmos desejos, mesma necessidade de alegria e comunhão. Infelizmente, na contramão disso, eu percebia aqueles que bebiam, comiam e brigavam para mais. Assim, me sentia bem mais velha que minha idade cronológica. Questionava os adultos, não conseguia me relacionar com minhas primas da mesma idade, não tinha amigos. Minhas irmãs eram uma mais calada que eu, e a outra muito infantil, para mim. Resolvi me moldar e fazer como as pessoas faziam. Agora, sim, essa era minha rotina de fim de ano. Estava no modo Selma, versão fim de ano.

Autismo, fim de ano, horário de verão e o nó no cérebro

Já adulta, quis fazer a ceia em minha casa. Não deu muito certo. Ficava apavorada para receber as pessoas. Acabava por sobrecarregar meu marido e sempre me arrependia de não ter conseguido me sentir à vontade. À meia noite, durante anos, eu abraçava as pessoas, contrariada. Sabia que, na verdade, eram 23 horas, pois estávamos no horário de verão. Por que ninguém ligava para isso, exceto eu?

Há uns 10 anos, um motorista de taxi me ouviu sobre esse meu pensamento e disse com sabedoria: “E daí? Você comemora o horário ou a alegria de estar reunida com quem gosta? De saber que pode renovar a esperança no novo ano que chega? Afinal, até o resto do mundo comemora em horários diferentes.” E me olhou triunfante. Observei a alegria dele ao falar da esperança e percebi que fazia sentido o que ele me disse. Problema resolvido. Ele desatou o nó do meu cérebro.

Uma autista no fim de ano, hoje

Daqui a 5 dias, celebraremos o ano de 2022. Está perfeito. Aprendi que todos nós precisamos de rituais e de fechar e abrir ciclos. Consigo me sentir em paz em qualquer lugar que eu esteja. O aperto no peito ainda vem. Bem mais leve, no entanto. O que mais sinto nessa época é gratidão. Sou grata a oportunidade constante de aprendizado que os desafios me trazem. Já não os temo.

Pelo contrário, comemoro a possibilidade de mais uma vitória. À minha maneira, faço uma analogia com o pensamento de Michelangelo. Ele dizia que os blocos de pedra usados em suas esculturas, eram prisões para as figuras que neles viviam. Michelangelo os libertava, ao esculpi-los. Da mesma forma que ele libertou a extraordinária escultura de Davi, eu gosto de libertar a vitória contida em cada desafio de minha vida.

Um ano de renovada esperança e vitórias concretas para todos nós!

 

O abuso e a responsabilidade das Escolas de Medicina

Tempo de Leitura: 3 minutosEx-funcionária denuncia abusos do médico Renato Kalil. Ele foi acusado de violência obstétrica pela influenciadora Shantal. A reportagem de ontem, no Fantástico, sobre violência obstétrica, mexeu comigo. Sinceramente, penso que não existe nenhuma mulher de até 35 anos, que não tenha passado por algum tipo de abuso médico. Portanto, já chega! Por exemplo, é importante denunciar, sempre. Mas igualmente importante, é cobrar sobre o abuso e a responsabilidade das escolas de medicina.

Números das Escolas de Medicina

No Brasil, temos um total de 351 Escolas Médicas, com 35 mil 558 vagas ofertadas por ano. Os valores das mensalidades dos Cursos de Medicina em Minas Gerais, para 2022, vão de 6 mil 803 reais, no Instituto de Ciências da Saúde, em Montes Claros até 10 mil 646 reais no Centro Universitário UNI-BH. E qual é o perfil do estudante que entra para essas escolas?

Perfil do estudante que ingressam nas Escolas de Medicina

Uma breve pesquisa na internete temos a resposta. Autodidata, o estudante de medicina precisa gostar de estudar por conta própria, ler artigos, estudar assuntos relacionados à ciência e gostar de ajudar pessoas. Assim, todas essas características podem ser desenvolvidas com disciplina. Desse modo, a disciplina é um fator fundamental para o aluno deste curso. Contudo, o que a mesma busca na internet nos aponta para o perfil do profissional da área de saúde é:

Em primeiro lugar: As profissões da área da saúde cuidam e atendem pessoas. Para isso, é necessário ter um bom relacionamento interpessoal, ou seja, saber ouvir e conversar com o próximo, prezar pelo respeito e ter habilidade para lidar com diferentes pessoas. Em segundo lugar: Para lidar com essas situações e prestar um atendimento de qualidade, é preciso ter um raciocínio humanizado, com empatia e paciência.  Em terceiro lugar: ter estabilidade emocional é essencial. Então, além de cuidar da saúde das outras pessoas, é fundamental que o estudante cuide de si e esteja preparado para todas as adversidades do dia a dia acadêmico e profissional. Por fim, quarto: Nesse contexto, é importante gostar de estudar e de se atualizar em relação aos avanços na área. Porém, mais que frequentar as aulas, é preciso ir a congressos, workshops e ler artigos científicos, inclusive em inglês, para se manter informado.

Perfil do aluno de medicina X Perfil do médico formado

O perfil do aluno que ingressa nas escolas de medicina exige uma excelente condição socioeconômica. Mesmo se considerarmos as faculdades federais de medicina, o custo da formação é muito alto. Quando confrontamos a realidade desses estudantes com a realidade da população que será atendida por eles, percebemos o abismo que há entre elas.

Portanto, como ficam as 4 características básicas para que o formando seja bom médico? Gostar de atender pessoas. Será? Já que a maioria sequer conhece a realidade das classes sociais menos abastadas. Ter raciocínio humanizado. Oi? Para ter raciocínio humanizado a premissa básica é ter formação humanística e humanitária. Ter estabilidade emocional. O quê? É só pesquisar a relação de expressivo número de estudantes de medicina (e até de médicos) com as substâncias com alto poder viciante. Gostar de estudar. Heim? Muitos médicos, infelizmente, frequentam congressos como uma forma de turismo bancado pela indústria farmacêutica. Certamente, existem as honrosas exceções. E são muitas. Ufa!

Por que as faculdades de medicina precisam repensar o abuso e a sua responsabilidade na formação médica

Em primeiro lugar, educação não é mercado. Muito menos educação para formação profissional. Portanto, antes de inferir que o aluno já possui as qualidades para ser um bom médico, é preciso investir no ensino prático de todas elas. Além disso, sabemos que a medicina anda a passos largos, junto com a tecnologia. É preciso, portanto, acompanhar par e passo esse avanço. Aliás, é necessário mais: é necessário formar médicos que conheçam das principais doenças existentes em nosso país.

Quem procura um médico, já se encontra numa situação fragilizada. Empatia é o mínimo que se espera desse profissional. Nada de ares arrogantes, tom técnico e distante e aquela cara de “eu não preciso explicar nada para você”. Como assim? Não é sobre doença. É sobre saúde. A saúde de um ser humano. Dessa forma, é lei: vidas humanas sempre importam.

Diante das denúncias contra o médico Renato Kalil, há que se repensar na qualidade de formação desses profissionais. São várias denúncias de pacientes. Mas não para por aí. Existem várias testemunhas. Por exemplo, enfermeiros, anestesistas, médicos assistentes, o pai – no caso de parto. Até fotógrafas deram depoimento contra essa pessoa.

O abuso, responsabilidade das Escolas de Medicina, o autismo e outras PCDs

Eu já sofri abuso médico. A primeira vez, eu tinha 18 anos e a ingenuidade de uma autista. Ainda assim, gritei, esperneei e fui rotulada, pelo ‘doutor’, de histérica. Outras tantas vezes, ficava confusa com o tratamento recebido pelo médico. Não conseguia definir se era intencional ou ‘sem malícia’. Então, decidi: não vou a uma consulta sozinha. Nunca.

Para quem pensa que todas nós temos medo de denunciar, saibam:

  1. CRM– Conselho Regional de Medicina é corporativista.
  2. Os médicos são corporativistas entre si.
  3. E, o mais dramático, médicos são endeusados. Lidam com a vida. São vistos como ‘cidadão acima de qualquer suspeita.’ Grande parte da sociedade os vê como deuses. E eles? A maioria tem certeza que é. Infelizmente.

Cérebro neurodivergente e hiperexcitado

Tempo de Leitura: 3 minutosDesde criança, eu penso demais. Aliás, sempre emendei um pensamento a outro. Dessa forma, meu esforço contínuo, sempre me causou enjoo. Minha mãe dizia: “você não está enjoada. Você é enjoada.” Porém, eu não entendia que era brincadeira dela. Ficava muito brava. Ou seja, era como se ninguém me levasse a sério. Por isso, preferia me manter calada. E pensativa. Mais tarde, colocaram essas características na conta de meu cérebro neurodivergente e hiperexcitado.

O tempo e meu cérebro hiperexcitado

Lembro que eu não entendia o tempo. Não fazia sentido. Afinal, diziam que há tempo para tudo e não era assim. Mal amanhecia e uma lista de ‘coisas a fazer’ me atormentava. Nem respirava e me diziam que estava na hora de dormir. Comecei a imaginar que Carlos Drummond de Andrade estava certo: “Êta vida besta, meu Deus.” Não havia tempo para degustar a vida. O sentimento de urgência me acompanhava dia e noite. A insônia era constante. O cansaço também.

Que sentido teria toda aquela correria? Então, eu quis entender o tempo. Passei a estudá-lo. Descobri que o tempo era uma criação cultural de cada civilização. Dessa maneira, existem diferentes formas para compreendê-lo e até para contá-lo. Isso mesmo, nas aulas de História aprendi que havia diferentes calendários, mundo afora.

Nosso tempo

A nossa civilização se baseia, sobretudo, no calendário gregoriano. Ele é organizado de forma linear, com começo, meio e fim. O início é marcado pelo nascimento de Jesus Cristo e o fim, segundo a Bíblia, será marcado com o retorno dele. Confesso que não acredito que seja assim.

Outras civilizações, no entanto, compreendem o tempo de maneira diferente. Para os Maias e Astecas, por exemplo, o tempo acontecia em ciclos que se repetiam. Por isso, o calendário deles era circular. Faz sentido…

E ainda tem o Kairós

Kairós, palavra de origem grega, significa “momento certo” ou “oportuno”.  É uma antiga noção dos gregos sobre o tempo. O termo kairós teria surgido a partir de um personagem da mitologia grega. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo e das estações.

Ao contrário do pai, Kairós expressava uma ideia metafórica do tempo. Para ele, o tempo era não-linear. Não se pode determinar ou medir. Assim, “kairós” é um momento oportuno único. Então, ele pode estar no espaço de um tempo físico, determinado por Cronos.

Meu cérebro hiperexcitado e o entendimento do tempo

Concluí que kairós simbolizava o momento único do aqui e agora. Assim, essa seria a oportunidade para a realização de determinada atividade, por exemplo. O momento da ação. Como acontece na conjugação dos verbos. Aliás, a ação perfeita só acontece no tempo do presente do indicativo. Ao contrário, o tempo cronos está relacionado com a ideia de tempo cronológico e físico, como as horas, os minutos, os dias.

Minha busca pelo entendimento do tempo

Diante disso, por vezes, quis parar meu cérebro neurodivergente e hiperexcitado. Contudo, não era possível. Primeiro porque sempre foi mais forte que eu. Segundo, porque um psiquiatra me disse, certa vez, que o cérebro de um autista empenha um esforço duas vezes maior que o cérebro da pessoa típica.

Eu e minha filha Sophia temos um cansaço que batizamos de cansaço histórico. Ou seja, o nosso cansaço diuturno para entender tudo o que está à nossa volta. Assim, penso que agora, a humanidade já está preparada para um esforço semelhante para entender nossas diferenças. Entender a diversidade composta por nossas diferenças é o que torna a humanidade mais fortalecida e criativa.

Que tal começarmos pela educação, caminho efetivo das grandes transformações? Já é tempo de a Escola do século 21 reconhecer e legitimar o cérebro neurodivergente e hiperexcitado. Porém, não é só isso. Certamente, está na hora de abandonarmos nossa escravidão ao cronos. E, assim, nos rendermos ao Kairós. Como me ensinou a professora Rosângela Machado, mestre e doutora em educação:

O tempo Kayrós nos encanta, nos afeta, nos toca. Assim, ele é diferente do tempo Cronos, que nos engessa.  Em outras palavras, ninguém afeta o outro se não estiver afetado. E então, correr, para quê? Afinal, se não pararmos a gente não olha. Não experimentamos os muitos olhares, com olhares mais abertos!

Agradecimento à @_marianarosa_01, responsável por me afetar positivamente, sempre. Uma expert na utilização do tempo kairós. Aliás, ela e a pequena Alice. Viva! (Selma Sueli Silva)

O que aprendi (e vivi) com a deficiência

Tempo de Leitura: 4 minutosDesejo compartilhar o que aprendi (e vivi) com a deficiência. Ainda me lembro o que pensei quando percebi que minha filha autista era deficiente. Meu Deus eu já não sabia como ser uma mãe típica. Ou seja, como poderia ser mãe de uma pessoa fora da curva? Aprendi, rapidamente, que a maternidade típica ou atípica, se constrói num processo formativo. Com o tempo. Além disso, humildade e amor.

Dessa maneira, me transformei em uma dessas mães que a maioria chama de guerreira, escolhida por Deus e coisas que tais. Não, não é assim. Na verdade, nasceu com minha filha, uma mãe que, ao longo do percurso, vai se fazendo a melhor mãe para a ‘filha perfeita’ que ela tem. Sim, todos os filhos são perfeitos com todas as suas características. E o resto? O resto a gente constrói juntas. Exigindo claro, que nossos parceiros, Estado e escolas, sejam eficientes também.

Médicos

Parece cruel ou mesmo leviano o que escrevo aqui. Mas não é. É real, o resultado de minha experiência, depois que o autismo se revelou em minha família. Os médicos não ouvem e, muito menos validam o que dizem nossos filhos crianças e adolescentes. Mas ouvem os autistas adultos, não é? Absolutamente, não. O que o adulto ou adolescente ou criança autista fala, já está sob suspeição. Por quê? Pelo abominável modelo médico, cultura médica, ou seja, lá o que for que faça o médico a olhar para a pessoa com deficiência como ‘algo’ a ser consertado.

Isso mesmo. A maioria desconsidera o modelo social da deficiência. Acreditam no modelo médico. Apesar dessa visão apresentar a pessoa com deficiência como uma cidadã, ela coloca toda a carga de responsabilidade pela sua inserção social no indivíduo. Assim, retira a parcela de responsabilidade da sociedade em realizar modificações nas suas práticas, atitudes e valores para inclusão.

Modelo social da deficiência que aprendi (e vivi)

Em contraposição a essas estruturas capacitistas, o modelo social da deficiência considera que mesmo os corpos com diferenciações físicas, intelectuais ou sensoriais devem ter o direito à participação social sem barreiras e com a garantia de um ambiente acessível.

No artigo Deficiência, direitos humanos e justiça, os autores, ao apresentarem a perspectiva do MSD, expõem que a “deficiência é uma experiência cultural e não apenas o resultado de um diagnóstico biomédico de anomalias” (DINIZ et al., 2009). Sendo uma experiência cultural, ela engloba aspectos sociais, costumes, a forma de estar e ser no mundo.

Em última análise, lembro uma frase de minha filha (na época, adolescente): “O psiquiatra não me ouve, não valida minhas opiniões. Eu sei por quê. Ela só ouve quem paga a consulta.” Emendei em pensamento: “Não querem se atualizar e nos orientam de acordo com a própria opinião. Em geral, capacitista. Quando disseram que minha filha seria dependente o resto da vida, não quis acreditar que podemos vaticinar sobre uma vida que não se disse ao mundo ainda.” Ainda bem!

Professores

Eu sempre pensei no educador com a missão de criar valores para atuação na sociedade. Ou seja, a missão que assumi como mãe. Acreditei que ele nunca iria desistir de um aluno. Qual o quê! Então, na minha experiência, o professor é o primeiro a desistir. E listam suas justificativas: falta de capacitação, salas cheias, salários miseráveis…  Concordei com a frase que ouvi não sei de quem. “Onde sobram justificativas, falta criatividade.”

Isso mesmo, da mesma forma que médicos devem ser pesquisadores e estudiosos incansáveis, assim é para o educador. Afinal de contas, a escola é um lugar para estudo e aprendizado. Aliás, isso serve para todos que circulam por esse ambiente. Educadores são pesquisadores da formação humana. São cientistas da educação. Além disso, lidam com vidas. Da mesma forma como os médicos lidam também.

Vi muitos professores que não estudam. Ou seja, criam uma relação de baixa autoestima. Não têm convicção de que a escola é para todos. Aliás, como nos dita a nossa Carta Magna. Ainda bem, que sempre existem aqueles que, além de entender de Educação, não perdem a própria humanidade pelos caminhos de desafios. Assim como, hoje, não temos mais a escravidão. Certamente, graças a uma minoria que não perdeu, nunca, a convicção da liberdade para todos.

Minha filha

Na construção da inclusão escolar, existe, também, a tendência de não ouvir e muito menos, validar o que o aluno diz. Ah, nossas crianças/adolescentes tem tanto a nos ensinar… Foi com ela que aprendi que não basta colocar na escola para a pessoa socializar. A socialização PRECISA ser ensinada ao autista. Jogá-lo no recreio com os colegas, para ver o que acontece, é desumano. O autista não aprende intuitivamente. Ele precisa de um passo a passo.

Na adolescência, Sophia conversou com a supervisora de sua confiança e pediu: “eu não quero ser ‘normalizada’. Mesmo que pareça, eu não consigo fazer muitas coisas solicitadas, pois preciso de suporte. Eu quero entender os meus colegas e ser entendida por eles. Simples assim.

Conclusão sobre o que aprendi (e vivi) com a deficiência

Incluir não é um ‘problema’ dos pais ou da família. Incluir é um compromisso público. E, assim, é preciso acreditar na capacidade do aluno. Ou seja, acredite e ele irá revelar essa capacidade, aos poucos.

O laudo médico é mais um instrumento pensar na criança como um todo. A inclusão é, em si, o processo formativo que considera as especificidades de todo e qualquer aluno. Desse modo, há que se promover constante diálogo com todos que compõem a comunidade escolar. É desse jeito que alimentamos o processo para nos deslocarmos para uma outra realidade.

As circunstâncias e o contexto se transformam, criam uma nova referência, de acordo com a convicção das pessoas envolvidas. Mas hoje, ainda temos uma sociedade eminentemente preconceituosa. Logo, a escola é o reflexo dessa sociedade. Revolucionar o que está posto, exige batalhas diárias, constantes. Assim, mudar o pensamento é a barreira mais difícil na qual a inclusão esbarra. Entretanto, tudo o que nos encanta e nos afeta nos transforma positivamente.

E então? Vamos garantir o comum – a educação – para entrarmos no processo formativo, que envolve toda a comunidade escolar. Da convivência, é que nascem as melhores soluções.

Texto de Selma Sueli Silva, inspirada pelo aprendizado com a fono, professora e doutora em educação, Eliane Ramos. E com Rosângela Machado, mestre e doutora em educação e pesquisadora em ensino e diferença.

A mulher autista é o outro do outro

Tempo de Leitura: 3 minutosPrimeiramente, quero explicar minha reflexão sobre a mulher autista é o outro do outro. Desse modo, lembro de minha bisavó que apresentava fortes traços autistas. Ela faleceu em 2008. Foi nesse mesmo ano que eu obtive o meu diagnóstico. Ou seja, Vovó Glória manifestava certa fobia social. Assim, ela ficava escondida sempre que o marido festeiro recebia visitas. Mulheres daquela época não tinham chance de contrariar o marido.

Além disso, a Vovó Glória não comemorava quando alguma parente ficava grávida. Dessa maneira, quando nascia uma menina, demonstrava certo pesar. Afinal, considerava que meninas sofriam muito mais do que meninos. Entretanto, ela possibilitou as mesmas oportunidades de estudos para todos os seus nove filhos. Aliás, independentemente de serem homens e mulheres. Mesmo que fosse apesar do receio maior com o futuro das meninas. Ou até por causa dele. Ainda que o contexto social da época anunciasse que não valia a pena oferecer o mesmo investimento a filhas.

Certamente, o feminino é traço marcante em nossa família. Em outras palavras, o fato fica evidente nas gerações que vieram depois de minha bisavó. Mas não que os meus parentes homens fossem mais “apagados”. Eles, também, têm personalidade forte e trajetórias das quais se orgulham. As características das mulheres, contudo, provocam um impacto mais expressivo. Assim, não se estranha que os nomes de grupos familiares sejam combinados com Vovó Glória e Vó Sinhana, a mãe dela.

A mulher autista

São muitas as mulheres com o diagnóstico ou suspeita de TEA em nossa família. O que é curioso se considerarmos os estudos que apontam uma maior prevalência de homens com a condição. A análise significativa mais recente aponta uma proporção de 3 homens para cada mulher. No passado, essa diferença já foi de até 10 para 1.

A maioria das mulheres com quadros mais sutis de autismo só recebe essa identificação médica quando alguma situação desastrosa ocorre em seu dia a dia. A informação é do livro “Asperger no Feminino”.  De fato, muitas de nós só são diagnosticadas na fase adulta. Certamente, porque o autismo no feminino manifesta nuances e sutilezas. Então, isso traz uma diferença considerável entre a vivência e a percepção de homens e mulheres autistas. Ainda que, os critérios diagnósticos sendo os mesmos para ambos os sexos.

De acordo com o psicólogo e pesquisador Tony Attwood,  mulheres e meninas tendem a disfarçar as características da síndrome com uma eficácia impressionante. Outros fatores devem ser levados em consideração para o subdiagnóstico do autismo no feminino. A investigação deve ir além da manifestação mais imprecisa das dificuldades de Comunicação Social. Por exemplo: o pouco estudo histórico científico sobre o funcionamento feminino. Ou, ainda, a hesitação profissional de se conferir laudos a quem não apresenta atrasos tão evidentes no desenvolvimento.

O outro do outro

A historiadora Joan Scott analisa que a opressão feminina não está ligada a características biológicas. Os estudos dela vão contra a perspectiva do senso comum de que a mulher seria menosprezada por ser mais frágil do que o homem. Em uma perspectiva similar, a filósofa Simone de Beauvoir pondera que as mulheres são “o outro”. Ou seja, um “segundo sexo” que só existe na comparação com aquele que é considerado o principal.

A escritora Letícia Nascimento reflete que não há uma categoria abstrata de mulher vítima dessa subordinação. Em vez disso, existem mulheres diversas. Essa pluralidade se evidencia em etnia, orientação sexual, deficiências. Além, é claro, de vários outros aspectos que constituem a vida de alguém. Para a escritora, o ódio ao feminino é destinado às características do ser mulher.

Mulher autista, o outro do outro

Portanto, a mulher autista sofre várias marginalizações. Como a negação da possibilidade do diagnóstico, direito mais básico da pessoa autista. Ou seja, muitas de nós não tem a chance de ter acesso à real identidade. Existem profissionais que utilizam como argumento, que muitas mulheres com TEA apresentam vida funcional. Eles geralmente se referem ao fato de que, devido à capacidade de adaptação, elas conseguiram até casar e trabalhar. Portanto, o médico conclui do alto de seu conhecimento sobre a vida daquela mulher. Se viveram uma vida aparentemente “comum”, o laudo é dispensável.

O que esses “especialistas” não percebem, ou mesmo ignoram, é que os desafios do casamento ou mercado de trabalho são distintos para o sexo feminino. Ter constituído família ou estar empregada não significa que a mulher receba o mesmo tratamento social que o parceiro ou colegas do gênero masculino.

Falta, muitas vezes, a compreensão de como as características do autismo atravessam o ser mulher no Brasil. Aliás, em outros lugares do mundo, também. Por exemplo, como as mulheres autistas se protegem da violência psicológica ou do assédio sexual? É necessário considerar as dificuldades delas de desenvolver maior autonomia. E, também, de ler as entrelinhas das relações sociais. Não à toa, 90% das mulheres com deficiência já foram vítimas de abuso.

Um apelo sobre o autismo no feminino

Aos poucos, estamos avançando na percepção de que o autismo se manifesta de forma diferente no feminino. Assim, o próximo passo deve ser a compreensão de como as dinâmicas sociais com o gênero afetam as experiências das mulheres autistas.

Para além da perspectiva biomédica sobre o TEA, precisamos avançar mais. Dessa forma, é preciso nos abrir para um olhar social sobre o que é ser uma mulher autista. Assim, vamos resgatar seres humanos de valor que se tornaram invisíveis para a sociedade.

Não sabia que minha filha era autista. E nem eu — Canal Autismo / Revista Autismo

Não sabia que minha filha era autista. E nem eu

Tempo de Leitura: 3 minutosAinda hoje, eu consigo rir de mim mesma quando olho para trás. Eu não sabia que minha filha era autista. Muito menos eu nem eu. Assim, quando ela nasceu, eu estranhei tudo. Claro, mais tarde iria descobrir meu próprio diagnóstico. Fato é que eu a observava com muita curiosidade. Para a mulher autista, o filho precisa ser hiper foco. Afinal, é preciso entender, profundamente, toda a mudança que um filho nos traz.

As primeiras impressões de minha filha não autista

Minhas primeiras impressões, ao chegar com minha filha do hospital, foram:

  1. Deus do céu. Ela respira. Isso me traz uma grande responsabilidade. Devo mantê-la respirando. E ela confia tanto em mim. Preciso honrar essa confiança.
  2. A rotina mudou muito. Eu queria minha vida de antes, mesmo sem querer descartar minha menina.
  3. Vida de bebê é bem sem graça. O que posso oferecer para tentar melhorar isso?
  4. Sophia me intrigou. Eu podia jurar que ela me observava o tempo todo. Ainda que estivesse em seu primeiro mês de vida.
  5. Sim, eu tive certeza de que, além de me observar, ela me analisava. Confidenciei minha impressão para o pai dela.
  6. Preciso de um roteiro para não deixar nada passar nas visitas ao pediatra.
  7. Preciso de um roteiro para não esquecer nada do que o pediatra dissesse.

Decisões frente a filha que eu não sabia que era autista

Então, vou enumerar, agora, as soluções que adotei para os 7 itens citados acima.

  1. Segui, à risca as instruções do pediatra. Elegi ele, o pai de minha filha e minha mãe como as pessoas das quais eu ouviria as opiniões. Cá para nós, todo mundo vinha com um palpite. Aliás, para eles, suas opiniões eram diretrizes a serem seguidas. Tomei essa decisão quando uma amiga me aconselhou a comprar um bico. Para ela, o bebê precisa desse conforto. Comprei e descobri duas coisas: Primeira, existe chupeta para recém-nascido. Eu, claro, jurava que bico era tamanho único. Segunda, nem todos os bebês gostam de bico. Eu mesma detestava aquele cheiro estranho da borracha. Eu não sabia que minha filha era autista. E nem eu.
  2. A rotina mudou tanto. Até a novela que eu seguia acabou. Logo, a noite tornou-se uma desconhecida. Um bebê em casa sem nem as vozes das personagens da novela eram as mesmas. Tratei de traçar nova e rigorosa rotina, Certamente, incluí outras duas pessoas na nova rotina: minha mãe e minha filha.
  3. Disseram que é muito bom cantar para nosso bebê. Eu simplesmente, não conseguia. Desde que meu pai me disse que eu era muito desafinada, eu travei. Desse modo, desde criança, só cantava no banheiro. Então, passei a contar para minha filha tudo que estava fazendo, Além disso, descrevia o cenário, ensinava o nome de tudo que eu pegava. Quando não podia estar com ela, colocava o carrinho em frente a TV para ela assistir os Telecursos, da Globo. Sei lá o que ela pensava. Queria só oferecer bons temas para ela pensar sobre eles. Se fosse o caso. Mas pelo sim ou pelo não, pelo talvez… Só não deixava longos períodos, porque nada em excesso é bom, não é mesmo?

Continua…

  1. Nunca vou me esquecer daqueles olhos grandes de jabuticaba sobre mim. Aliás, muito menos da sobrancelha arqueada. Foi aí que decidi tentar ser bom exemplo sempre. Vai que ela estivesse me julgando…
  2. O pai de Sophia riu muito quando falei de minha impressão de estar sendo julgada. Fiquei furiosa. “Então, devolvi na mesma moeda. E você que estava preocupado com o macacãozinho apertando os pés. Não queria que as unhas dela encravassem.” Pois, sim! Eu sabia que minha filha era diferente. Só não sabia, ainda, que ela era autista.
  3. Resolvi não registrar em fotos todos os momentos vividos com Sophia. Assim, registrava poucos e escrevia muitos. Nunca quis ler para as pessoas além do pai. Poderiam não acreditar nos meus registros. Sophia era bem peculiar. É, e eu não queria ouvir o de sempre: “toda mãe acha seu filho o mais inteligente.” Quando essas pessoas iriam ver que eu não era e nunca fui todas as mães. Foi assim que descobri que escrever o diário de minha filha, seria muito bom nas visitas ao pediatra.
  4. Não gosto de ir a médicos sozinha. Quando eu saio, já esqueci o que ele disse. Em contrapartida, me lembro de muita coisa que eu deveria ter dito. Assim, como ainda não havia uma troca com Sophia, era como se eu fosse sozinha. Novamente, recorria ao time escalado para estar comigo: minha mãe e o pai de Sophia.

Ser metódica, às vezes, complica

O fato de eu escrever o que diria ao pediatra de Sophia, me ajudou bastante. Isso porque, quando quero descrever fatos ou sensações que são importantes para mim, sou prolixa. Sempre penso que não estão entendendo o que eu falo. E, como já disse, não sabia que minha filha era autista. E nem eu.

Numa das visitas ao pediatra, eu Roberto e Sophia, eu reclamei que ela não conseguia segurar um biscoito para comer. Dr. Guilherme rebateu de imediato: “E para que comer biscoito?” Respondi: “Para ter um entretenimento. Ela já está com 8 meses. Precisa segurar um biscoito na mão para se distrair.” E o doutor: “Comida não é distração? Você quer que ela fique gorda, igual ao pai?” Paro por aqui. Mais não conto, em respeito às partes envolvidas.

O que é “parecer” autista? — Canal Autismo / Revista Autismo

O que é “parecer” autista?

Tempo de Leitura: 3 minutosEstreei como palestrante em 2015. Tinha 18 anos de idade. Lembro-me, ainda, daquele auditório lotado. Aliás, na época, estava recém-saída de um período de fobia social. Isso mesmo. O Ensino Médio havia sido marcado por fortes crises de ansiedade. Então, eu não saía muito. Minha medicação era pesada. Assim, eu me sentia perdida em ambientes lotados. Ainda mais quando tinha que puxar assunto com alguém. Tudo isso favorecia a imagem de uma pessoa robótica e sedada.

Dessa maneira, a minha forma de comunicar era prejudicada por todos esses fatores. No entanto, eu tinha domínio e interesse pelo que havia me proposto a falar. Não ensaiei. Na hora, fluiu. O público foi receptivo às minhas reflexões. Eles riam das minhas piadas. Eu estava bem-humorada. Mesmo que minhas expressões faciais e corporais não demonstrassem isso. Afinal, eu fiquei estática o tempo todo. Depois da rodada de perguntas, fui aplaudida de pé.

Não foram raros os comentários de que eu havia sido “treinada” por um neurotípico. Contudo, essas pessoas também assumiram, ao final, que a impressão se desfazia à medida que eu me interagia com a plateia. Durante a rodada de perguntas para responder as dúvidas.

Certamente que sim, eu fui ágil nas respostas. Mesmo não sabendo quais seriam os questionamentos. Eu estava eufórica com a minha primeira palestra. O mais importante era poder falar sobre minha vida. E esse assunto, claro, eu dominava. Demorei a processar e perceber a desconfiança. Principalmente, frente ao que eu dizia. Foi a primeira vez que eu senti o peso do que é, em gigantescas aspas, “parecer autista”.

Autista tem cara?

Não existe “cara de autista”. Não à toa, várias postagens em redes sociais defendem essa afirmação. As possibilidades de como as características desse diagnóstico vão se manifestar em cada pessoa, variam de maneira considerável. Tanto que a avaliação para identificar o autismo é complexa e exige protocolos. Principalmente, em casos sutis. Ser autista não está em determinado gesto ou maneirismo. É preciso uma observação cuidadosa a diversos aspectos da vida da pessoa.

Muitos autistas sentem-se desconfortáveis quando alguém diz que eles não parecem estar no espectro. Eu mesma já passei por isso. Senti-me invalidada em meus desafios diários. E olha que eu sou muito mais próxima ao estereótipo de autista do que muitos outros diagnosticados que conheço.

A neuropsiquiatra Raquel Del Monde esclarece que a afirmação “você não parece autista” geralmente se baseia em um conhecimento restrito sobre a condição. Essa inferência costuma vir de características mais facilmente observáveis. Como movimentos repetitivos e peculiaridades comportamentais. Os traços que definem o autismo, entretanto, não são óbvios ou visíveis. Existem vários autistas que não se enquadram nessa análise mais superficial.

Banalização do diagnóstico?

Não “parecer” autista não significa que o indivíduo não apresente prejuízos significativos em sua trajetória. Ou que não demande suporte profissional. Na minha família somos vários autistas. Outro dia, estava observando duas parentes que compartilham desse diagnóstico. Uma delas é bastante rígida, tem hiperfocos intensos e sempre foi taxada de esquisita na família.

Para quem tem conhecimento sobre o assunto, o autismo dela é óbvio. Entretanto, a irmã dela tende a ser mais ponderada, extrovertida e apresenta uma comunicação mais fluida. Inclusive no que se refere à linguagem não-verbal. Mesmo aparentando ser mais sociável, ela tem um histórico de maior dificuldade nos relacionamentos afetivos e no ambiente de trabalho. Em uma observação rasa, a conclusão poderia ser de que apenas a primeira delas é autista. Contudo, foi a segunda que mais demandou tratamento e suporte profissional específicos.

Há uma corrente que defende que o diagnóstico de autismo está sendo banalizado. Isso, porque pessoas aparentemente mais “funcionais” recebem, tardiamente, o diagnóstico. Essa é uma perspectiva com a qual eu não compactuo. Quem sustenta esse ponto de vista não faz ideia do que é o dia a dia de um autista. Por mais sutil que seja a manifestação de suas características. Ou que possa parecer.

E quem “parece” autista?

Não apresentar as características do TEA tão evidentes pode ser controverso para leigos. Mas o fato é que, dependendo de quem observa, o autismo pode ser extremamente óbvio ou não. No meu caso, por exemplo, falo devagar, não tenho muita expressão facial e minha gesticulação parece artificial.

Tudo isso, me fez sentir invalidada por ser assim. Como se eu fosse menos capaz por me comunicar de maneira peculiar. Entretanto, meus trejeitos não limitam minha capacidade produtiva. Muito menos minha capacidade de fazer escolhas e tomar decisões. Mas, o importante é que, hoje, me aceito como sou. E sigo produzindo e compartilhando conteúdo sobre o autismo. Minha intenção é convidar a sociedade a uma reflexão. Afinal, mais informação, menos preconceito!