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O desejo de ser mãe por uma jovem autista

Tempo de Leitura: 2 minutosComo quem me acompanha sabe, sou uma jovem autista de 24 anos, filha de outra mulher também diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e não tenho filhos até o momento.  Recentemente, acompanhei um amigo também autista em reunião com o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) da universidade onde ele estuda. Apesar de esse amigo ser alguns poucos anos mais jovem do que eu, o técnico do NAI responsável por conduzir o encontro por videoconferência é uma pessoa cega e perguntou se eu era a mãe daquele aluno. Confesso que fiquei surpresa e positivamente tocada com esse comentário. 

Curiosa sobre o porquê de uma dúvida tão simples me impactar de forma agradável, fiz um exercício nos dias que se passaram após nossa conversa. Todas as pessoas com quem conversei sobre maternidade nesse período comentaram que são características da mãe ser cuidadosa e atenciosa. Apesar de não ter realizado uma pesquisa científica quantitativa, me chamou a atenção como esses dois atributos eram rapidamente os que vinham à mente das pessoas com quem dialogava sobre “instinto materno”. E, mais ainda, como elas naturalmente associavam a mim essa capacidade de ter cuidado e atenção com amigos, reforçando se tratarem de características minhas no trato com pessoas pelas quais nutro bons sentimentos. Essa percepção, contudo, não iria na direção contrária do estereótipo que muitas vezes é relacionado a pessoas autistas, de que elas são frias e podem ter dificuldades de criar vínculos e demonstrar sentimentos?

Na vivência com minha mãe, pude perceber o que Tony Attwood e outras grandes referências mundiais em TEA  abordam no livro “Asperger no Feminino” (2006), no que diz respeito a uma parte específica na qual sugere-se que as mães autistas costumam evidenciar maior empatia na relação com os filhos do que os pais também enquadrados ao Espectro. No entanto, até por observar na relação com minha mãe o quão desafiador pode ser para uma mulher lidar com o próprio autismo e se doar à criação de outro ser humano, com tudo que nos é peculiar, eu há muito tempo alimento um receio sobre ser mãe. 

Eu não sou uma mulher cisgênero e, em função de algumas particularidades minhas, não posso gerar filhos. No entanto, não posso negar que por vezes me vem um desejo forte de adotar uma criança em um futuro mais estável. Aí entra a rigidez de pensamento, os medos que rondam a ideia de ter uma vida quase que inteiramente dependente de mim. Conheço mães e pais autistas incríveis, todavia, Enfim, enquanto a ideia amadurece, busco seguir cuidadosa e atenciosa com os meus amigos  Essas são características das quais não abro mão!

Chantal Wiertz, semifinalista do Miss Universo, desconstrói pré-conceitos sobre o autismo no feminino

Tempo de Leitura: 2 minutosA última edição do concurso Miss Universo, celebrada no domingo passado (16) teve entre as suas semifinalistas Chantal Wiertz, de 22 anos de idade, representante de Curaçao, que é autista e ativista pela causa do autismo. Mais uma vez, nos deparamos com a constatação de que existem autistas nas mais diversas esferas sociais. Mesmo com toda a discussão que ronda sobre um possível reforço da objetificação feminina em disputas de beleza, não há como negar os afetos mobilizados por termos uma representante da comunidade autista numa indústria que tem seu papel na legitimação de modelos a serem seguidos pelo feminino.

Com Chantal, diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há um ano, eu vejo novamente a possibilidade de desmistificar um dos diversos pré-conceitos que contribuem para o atraso diagnóstico de mulheres autista: a ideia de que autistas não ligam para a aparência externa.  Uma vez, lembro-me de uma amiga também enquadrada ao TEA, uma ruiva de beleza muito expressiva, pontuar que o simples fato de ela se maquiar já era motivo para alguns colocarem a suspeita de autismo de lado. É certo que ser autista não remove a feminilidade (ou masculinidade) de ninguém, mesmo nos aspectos mais superficiais dessa construção do que é ter aparência de uma mulher, como traços físicos e até comportamentais. Assim, como a cobrança cultural com o feminino é diferenciada, é preciso uma atenção especial às sutilezas da manifestação do autismo no feminino.

Como mulher autista, eu me lembro que o primeiro exemplo midiático que tive de alguém com TEA foi a modelo Heather Kuzmich, participante da nona temporada do reality show estadunidense America’s Next Top Model. Quando o programa foi exibido, em 2007, eu ainda não havia sido diagnosticada, embora percebesse algumas características muito similares a ela, principalmente no que se refere a desafios de interação (“Você é a piada”, diziam algumas colegas quando ela não entendia algo) e baixa habilidade motora (apesar de ser a melhor da temporada com modelo fotográfica, Heather tinha sérios problemas quando precisava desfilar). Anos depois, ela foi uma peça fundamental para que eu compreendesse o laudo que me foi dado. Que Chantal, em sua ação de figura pública, também possa ajudar a amenizar o sofrimento de mais meninas e mulheres autistas.