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Carta aberta para mães atípicas

Tempo de Leitura: 2 minutos

Por Paula Frade

Conselho de Profissionais da ONDA-Autismo, Moderadora Projeto TEAcolher , Pedagoga; Mestra em Distúrbios do Desenvolvimento, Mentora de mães atípicas 

 

Ei, mãe atípica, hoje eu quero falar com VOCÊ!

Estou passando aqui para lhe lembrar que, por mais difícil que tenha sido seus dias, lutas intermináveis, rede de apoio escassa e uma solidão que as vezes parece não ter fim, você precisa acreditar que algo bom vai chegar, mesmo que demore, porque todas as suas lutas serão honradas.

Sim, eu sei que em muitos momentos parece que o mundo não compreende você, que a vida dos outros é sempre mais tranquila que a sua e que sua jornada parece andar para trás. Mas, deixa eu te falar uma coisa. Talvez você nem se lembre disso, mas você é um ser humano incrível, faz a diferença na vida de muita gente e, sim, MUITA gente se espelha em você.

Sua determinação, empenho, resiliência e amor, são características admiráveis e que traz luz a vida de muitas pessoas. Nunca se esqueça que milhares de pessoas gostariam de ter a sua vida, viver a sua história, porque ela é linda, mesmo enfrentando dezenas de batalhas diariamente.

Ah, minha querida, se eu estou aqui nesse Instagram e imersa na pesquisa sobre autismo e qualidade de vida é porque EU acredito em você e sei posso ajudá-la nessa travessia. Confesso que gostaria de fazer MUITO mais, por isso eu não me canso de buscar, incessantemente, por relatos e evidências científicas para apresentar a você o que há de mais novo na ciência para lhe ajudar em sua jornada.

Quer um conselho? Reserve uns minutinhos do dia de hoje e escreva por quais motivos você é grata e quais são os motivos que lhe incomoda. Tenho certeza que você terá mais a agradecer e ter mais motivação para mudar as situações que tem controle.

Lembre-se: você não nasceu para dar errado.

Buscar as soluções para questões que estão sob nosso controle só depende de nós.

Com carinho, respeito e gratidão,
Paula Frade

‘Isso explicou toda minha vida’, diz mãe autista sobre diagnóstico tardio

Tempo de Leitura: < 1 minutoMaíra Cavalcante tem 47 anos, mora em Lauro de Freitas, na Bahia, e tem um filho autista. Em 2020, ela também foi diagnosticada com autismo e montou um grupo de apoio de mães de autistas chamado Mães Autismo.

Em entrevista a revista Crescer, ela falou sobre o próprio diagnóstico. “Desde minha infância faço acompanhamento com psicóloga e psicomotricidade, mas não tinha diagnóstico. Isso explicou toda minha vida, todas as dificuldades, exclusões e capacitismo que enfrentei”, afirmou.

Mãe autista, mãe atípica e maternidade atípica

Tempo de Leitura: 3 minutosMãe autista, maternidade atípica, mãe atípica, mãe típica. Afinal, o que significa tanta nomenclatura diferente? A mãe típica é aquela que se enquadra no senso comum de normalidade. Assim, se tiver filho típico, exercerá a maternidade típica. Mas se o filho for atípico, fora do senso comum da normalidade? Então, a mãe típica exercerá uma maternidade atípica. Desse modo, a mãe autista com dois filhos, um típico e outro não, será…? Uma mãe atípica exercendo a maternidade atípica e atípica.

Fui chamada de mãe típica, mas sou mãe autista, com maternidade atípica

Sempre soube que havia algo diferente com minha filha. Dessa maneira, busquei o diagnóstico por anos. Ele veio quando ela estava com 11 anos. Nesta época, fui considerada mãe típica com maternidade atípica. Ainda assim, surpreendia os profissionais das áreas da educação e da saúde. Eu sabia explicar muitas reações de minha filha. Mais que isso, eu me reconhecia nelas. Meu psicólogo à época descartou essa possibilidade.

Então, segui a vida. Entretanto, meu cérebro neurodivergente sempre existiu e me apontava soluções nem sempre aceitas pela equipe que nos acompanhava. Contudo, sabia que estávamos no caminho certo. Em 2015, passei a compartilhar minhas vivências com o mundo. Nascia, no YouTube, o canal Mundo Autista. Sophia estava com 18 anos.

Mães típicas com maternidade atípica

Em primeiro lugar, de maneira surpreendente, nossos vídeos alcançavam cada vez mais pessoas. Assim, agradeço a todas elas. Era certo que eu e minha menina compartilhávamos nossas vivências. Não tínhamos receitas prontas. Não éramos profissionais das áreas da educação ou da saúde.

No entanto, muitas mães se inspiravam na gente. Somos jornalistas e entrevistámos educadores e profissionais da saúde. O compromisso era, e ainda é, levar informações confiáveis ao nosso público. Se dependesse de mim e de Sophia, nenhuma família se sentiria sozinha, como eu e ela fomos um dia.

Mãe autista, portanto, atípica

Em 2016, recebi meu diagnóstico. Como resultado, veio a revelação. Em suma, eu sou autista grau leve, com transtornos da ansiedade generalizada e obsessivo compulsivo. Ou seja, por um lado, senti-me aliviada. Mas, por outro, fiquei preocupada com as mães típicas que se espelhavam na prova real de meu discurso de maternidade. Minha filha entrava para a fase adulta, com ótima performance. E muito por causa de meu cérebro que sempre foi neurodivergente. Foi assim, que decidi me esforçar ainda mais. Iria levar informações reais, embasadas e confiáveis a todas as mães. Quaisquer que fossem elas.

Ampliando horizontes

Em resumo, depois de muito estudo, de muita prática e de muita vivência, ampliei a atuação do Mundo Autista. Além da inclusão, somamos outras áreas. Agora falamos da educação, comunicação, comportamentos, cultura, construção da paz. E ainda, somos um espaço para todos os ‘lugares de fala’.

Enfim, nos abrimos para a diversidade humana. E, dessa maneira, passamos a colher a riqueza das diferenças que se complementam. O resultado é a construção lúdica e responsável de uma nova sociedade. Igualitária, equânime, humanista e democrática.

Afinal, o caminho da inovação pela criatividade nasce do somatório das riquezas singulares. Para enxergarmos isso, é preciso um ‘outro olhar’ e um ‘outro coração. E, claro, muitas, muitas vozes.

As vozes do fascinante mundo do autismo. Valeu!

Obrigada Canal Autismo (Francisco Paiva Júnior) que se une a nós com a mesma visão da força humana a partir das diferenças. Valeu Estado de Minas, pelo diálogo no DiversEM, espaço dedicado a contribuir para uma cobertura mais plural e diversa.

E nossos convidados: Crea Felicidad, uma equipe de líderes interdisciplinares com um trabalho personalizado para criar a felicidade em todas as vidas. Aquela felicidade que só a pessoa sabe como é e aquela que você deseja ter.

E mais: educador e doutor, Márcio Boaventura Júnior. A mestranda em Comunicação Social, Sophia Mendonça. O psicólogo e professor de Yoga, Renan Kleber. A professora doutora e socióloga, Andreia dos Santos. A psicóloga, Adrianna Reis. A jornalista Gabriela Guedes. A jornalista e terapeuta ericksoniana, Mônica Cabanas. A contadora de histórias, Roberta Colen. A Dra. Kelly Robis, psiquiatra. Além de um time incrível que vem por aí.

Ah, e obrigada a você, que é nosso seguidor. Sem o seu apoio, nada disso se tornaria real.

‘O diagnóstico dele não era o destino nem dele nem meu’, diz atleta paralímpica mãe de autista

Tempo de Leitura: < 1 minutoDrica Azevedo tem 43 anos, é atleta paralímpica e está em Tóquio para as Paralimpíadas de 2020 que ocorrem este ano. Ela possui um filho, Benício, de 7 anos, que é autista. O processo de busca por um diagnóstico começou em 2018, quando a criança tinha 3 anos. Atualmente, Drica compartilha as experiências de maternidade atípica em torno do autismo.

“Quando busquei o diagnóstico do Benício, em 2018, quando ele tinha três anos, eu já imaginava que ele estava no espectro do autismo. Mas era muito complicado para conseguir consultas, era muito caro. Quando veio esse diagnóstico, o que mais escutei foi que: ‘Agora você vai ter que parar de treinar, porque vai ter que se dedicar exclusivamente ao Benício’. E eu não aceitava. O diagnóstico dele não era o destino nem dele nem meu. Decidi então que queria progredir no esporte, porque o esporte poderia me dar os meios de cuidar do Benício e melhorar a qualidade de vida dele e da minha família”, disse ela ao UOL Esporte.

Mãe e autista

Tempo de Leitura: 2 minutosHoje em dia vemos bastante conteúdo sobre autismo, de mães sobre seus filhos, profissionais da saúde, autistas adultos, e isso é incrível. Mas, conforme olhamos mais de perto, percebemos que dentro deste público existem subgrupos ainda mais específicos. É um deles que vou abordar neste texto. Não do ponto de vista da mãe com filho autista, mas da mãe que é autista. 

Diagnosticada aos 31 anos, depois de procurar desesperadamente um neurologista, eu não aguentava mais não superar expectativas (minhas ou da sociedade). Estava eu com meus filhos, sem nunca ter conseguido trabalhar e precisando de dinheiro, tendo sido passada pra trás por muita gente, sem saber andar de ônibus, sem saber receber visitas em casa, sem conseguir interagir minimamente com outras mães e, inclusive, virando alvo das rodas de conversa dessas mães por ser “antipática” ou “metida”. 

Desde então o que me trouxe mais alívio foi a certeza de que eu sabia para onde ir. Sem cura, mas sim a possibilidade de aprender algumas coisas, adaptar outras para que não me agridam, e aceitar outras que fazem parte de mim e não podem ser mudadas. 

Aprendi que se serve uma visita com café e bolachinhas, que para transmitir mais confiança ao falar com alguém devo deixar minhas mãos mais quietas. Adaptei a necessidade que as pessoas têm de “olhar nos olhos”, e hoje, em uma conversa formal, quando a conduta administrativa pede o olhar direto, eu olho entre as sobrancelhas. Aceitei que andar de ônibus para mim não funciona. O barulho infantil me incomoda, mas eu consigo lidar com isso usando protetores auriculares e compreendi que é uma expectativa minha querer que as crianças fiquem quietas,  mas nem sempre será assim. 

Ser mãe para mim é algo que eu consigo e amo fazer. A necessidade que as crianças têm de uma rotina encaixa-se com a minha necessidade de rotina. Gostamos das mesmas coisas e eu converso melhor com crianças sobre espécies de dinossauros e desenhos do que sobre a vida alheia, como geralmente é na roda de adultos. Minha maior dificuldade ainda são coisas básicas e necessárias, como ganhar dinheiro. Aprendi minha profissão sozinha, mas até o simples contato com o cliente me desestabiliza e interfere muito na minha vida. Sou incapaz de trabalhar formalmente com as surpresas que existem em uma empresa. Minha mente é como um trilho de trem. Tem um caminho específico a percorrer, e se o trem sai do trilho não dá para simplesmente colocá-lo de volta, ou criar um novo trilho ali, de repente.

Orgulho Autista

Tempo de Leitura: 2 minutosA memória ainda está nítida em mim. O psicólogo me olha firme e diz: “Sua filha será dependente o resto da vida.” Estranhei o prognóstico. Como alguém pode saber de uma vida que ainda não se disse ao mundo? Como determinar, pelo conhecimento presente, todo um percurso?

Voltei para casa ciente de que minha menina não era melhor que ninguém. Mas também não era pior. Então, tratei de estudar, estudar muito sobre o assunto. Não parei de trabalhar e meu trabalho exigia viagens esporádicas. Não foi fácil. Absolutamente. Mas era minha vida, com suas especificidades. Nem melhor nem pior que a vida de ninguém. Apenas diferente.

É verdade que eu sentia um cansaço enorme, que já quis fechar os olhos, eu e minha menina, e não mais abrir. Mas não sou mulher de abandonar um desafio e nem a minha fé. Fé, inclusive, no ser humano. Debrucei um olhar atento à adolescente que ali surgia. Nunca soube onde terminava o autismo e começava a adolescência. E vice-versa. Foi um período tão complicado quanto foi a minha própria experiência. Eu sabia do sofrimento daquela fase, acontecera comigo também. Nunca soube descrever. Por isso, redobrava a minha paciência, embora por vezes, tenha entrado em crise.

Hoje sei que também sou autista. Olho para trás e suspiro. Um suspiro longo de quem passou por muita coisas que não entendeu mas que procurou estratégias para se adequar. Isso é muito doído. Eu fui, cada vez mais, introjetando minha essência e me tornando a pessoa que esperavam que eu fosse, para que pudessem se sentir confortáveis.

As pessoas querem que você seja de um jeito que as incomode o mínimo possível e elas não se preocupam se para isso você está mais que incomodada – você está adoecendo. Há quase uma década, ouço de muita gente que “a sociedade está adoecida.” Será que ninguém percebe que a sociedade é formada por pessoas e se essa sociedade não se preocupa com um indivíduo que “está adoecendo”, quer seja pela rejeição, pelas relações predatórias, pelas cobranças ou seja lá o que for, seremos um somatório de pessoas adoecidas e que esse somatório resulta pois, na própria sociedade?

Desde que o mundo é mundo, cabe ao ser humano construir os avanços sociais e econômicos e lidar com os efeitos fáceis ou complicados que advierem disso. Sabemos que o surgimento dos hospitais foi um grande avanço para todos. Mas eles também trouxeram a infecção hospitalar e a super bactéria. Portanto, o melhor que se tem a fazer é reconhecer que a diversidade humana é fonte de criatividade para construir uma sociedade mais inclusiva, humanizada, digna, harmoniosa e democrática. Nada mais, nada menos!

‘As pessoas são cruéis’, diz mãe atípica sobre preconceito

Tempo de Leitura: < 1 minutoMariana Aguiar, estudante de jornalismo, recebeu o diagnóstico de autismo de sua filha aos 2 anos de idade após perceber várias atipicidades no comportamento da criança. Em entrevista, ela contou sobre a experiência da maternidade e o receio de como a sociedade encara autistas.

“As pessoas são cruéis, ainda existe muito preconceito em todos os lugares, então quando eu penso sobre isso eu realmente fico triste”, disse ela. Mariana acabou largando a graduação em Jornalismo em 2021 para dedicar-se à filha.

A reportagem ainda contou com comentários de Cristiano de Oliveira (autista adulto e responsável pelo documentário Stimados Autistas), Hugo Ênio Braz (moderador da rede Gaúcha Pró-Autismo), Francisco Paiva Jr. (editor da Revista Autismo), entre outros.

O dia a dia do cérebro neurodivergente

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Eu fui para casa de minha mãe, numa cidadezinha próxima a Beagá, aqui em Minas Gerais, no dia 23 de dezembro de 2020 e só retornei à minha casa, no início desse mês. Situações novas que nos impõe a pandemia.

Minha mãe, Irene, amou a ideia. Eu também. Foram muitas nossas trocas, inclusive fiz um vídeo para o canal Mundo Autista sobre meu aprendizado ao lado dela. Ouro puro essa troca de gerações. Perde quem ainda não se atentou para a coeducação entre gerações.

O doutor, mestre e psicólogo José Carlos Ferrigno estudou e analisou as trocas de afeto e de conhecimentos específicos que uma geração repassa à outra. Essa aproximação das gerações (conforme conclui o psicólogo) pode incrementar a inclusão social de velhos e jovens, enriquecendo-os mutuamente, desenvolvendo a tolerância e a solidariedade e amenizando, portanto, os efeitos nocivos do preconceito etário.

Foi exatamente o que vivi com minha mãe, durante quase 5 meses de convívio diário, uma vivência rica em aprendizado. Em contrapartida, minha mãe intensificou a curiosidade pelo uso da tecnologia, lançou-se ao ambiente do estudo virtual e, agora, é nossa parceira no Mundo Autista. Mas algo em mim e na Sophia incomodava imensamente a amada Irene: ela reclama de nosso ritmo frenético e de nosso cérebro que parece não descansar nunca.

Expliquei a ela que para mim e Sophia estarmos com ela, fora de nossa casa, precisaríamos criar um ambiente com o qual nos identificássemos para que nos sentíssemos confortáveis. Não foi difícil com um quarto só para a Sophia e outro para mim. O escritório com tripés, notebooks, microfones e outras ‘cositas mas’ foi montado na sala. Nada que incomodasse, devido à estrutura da casa do pequeno sítio, onde a cozinha é o local da conversa e da troca de afetos e carinhos traduzidos pela culinária mineira.

Antes, porém, fizemos uma reorganização para que tivéssemos menos apelo visual, o que nos dispersa e estressa. A disposição de tudo na cozinha também teve de atender à minha lógica meticulosa para que eu pudesse cumprir minhas tarefas de eventual dona de casa e cozinheira, sem muito estresse.

Lá fora, o jardim e o pomar eram bem cuidados e agradáveis à visão e convidativo a reflexões e clicks fotográficos. O galinheiro, antes construído com certo descaso (a meu ver), foi refeito, muito bem organizado – um verdadeiro lar para o galo e as galinhas garnizé.

Os horários do café da manhã e das refeições foram refeitos já que minha mãe, apesar de sua alma livre e rebelde) cedeu à organização metódica da filha. Por vezes, eu estava no meio de uma tarefa, coando café, por exemplo, e ela sugeria que colocasse o coador assim, o pó de outro jeito e, quando eu olhava aflita para ela, ela já se explicava: ‘eu me esqueço, já estou te confundindo.” Eu sorria, meio encabulada e reforçava que quando me lanço à uma tarefa, meu cérebro é todo direcionado ao passo a passo desenhado em minha mente. “Pode passar as instruções, mãezinha, mas explique de maneira assertiva, com poucas palavras, antes de eu começar a fazer ‘do meu jeito’”, eu emendava constrangida.

Mas certo é que, por vezes, ela me interrompia mesmo, eu me desorganizava, a gente ria e começava tudo de novo. Percebi que a vida é assim, que posso ser flexível e que o jeito do outro, as tentativas, tudo isso faz parte de um aprendizado maior também. A única coisa que não expliquei para minha mãe foi que, para me relacionar com mais gente além da Sophia, eu passo o dia inteiro negociando com meu cérebro, criando estratégias e mais estratégias, na tentativa de entender esse mundo tão complicado à minha volta.

Mãe Autista – três gerações de muito amor e determinação

Tempo de Leitura: 3 minutosNunca vou me cansar de homenagear minha mãe que, aos 25 anos, separou-se de meu pai, com 3 filhas de 5, 3 e 2 anos. Dali para a frente, seria uma trajetória impossível para aquela mulher vinda da “Vila dos Marmiteiros”, que ainda não havia terminado o Ensino Médio, em pleno ano de 1967. Mas ela não sabia que era impossível e, em 2006, se aposentou como Procuradora da Prefeitura de Belo Horizonte, com suas ‘meninas’ formadas em Engenharia Civil, Comunicação Social e Direito.

A verdade era que minha mãe não sabia de muita coisa e se atirou à descoberta de algumas e outras, simplesmente, se tornariam conhecidas, somente, muitos anos depois.  Minha família tinha muitas pessoas consideradas ‘esquisitas’ e a primeira pessoa ‘esquisita’ da família a receber o diagnóstico de autismo grau 1, foi minha filha, Sophia Mendonça. Há 4 anos foi minha vez e minha mãe, claramente com muitos traços dentro do espectro, resolveu que agora, o diagnóstico para ela, não faria a menor diferença.

Olhando para trás eu percebo como minha mãe foi singular e precisa para que eu sobrevivesse à falta de um diagnóstico. Talvez por ter passado por tanta coisa semelhante a mim, ela era ‘cirúrgica’ em suas explicações sobre o mundo e a vida. Mais tarde, eu me casei e, como havia feito com o casamento, determinei uma data apropriada para ter o primeiro filho. Fiquei desorganizada quando o momento chegou, mas não veio acompanhado de uma segurança para ser mãe.

Talvez, se não fosse o meu cérebro neurodivergente, eu não seria mãe. É que eu não me via como tal, não havia uma lógica a seguir para o preparo à maternidade e isso tudo me gerou muita insegurança. Deixei a data passar e não tive o filho programado para o ano de 1993. Mas algo continuava martelando em minha cabeça: minha geração acreditou que a regra era casar e ter filhos. Assim, sete anos após meu casamento, Sophia chegou.

Ainda bem, hoje sou melhor ser humano que era antes da maternidade. O que não significa que a maternidade seja um presente necessário à plenitude da mulher, algo que nos alçará à condição de ‘santas’, praticamente. Não, de jeito algum. A maternidade foi o maior desafio de minha vida que redundou num imenso aprendizado.

Eu nasci como mãe em 06 de fevereiro de 1997, o que me requereu muito estudo, observação, tentativas, erros e acertos. Graças a esse hiperfoco no desenvolvimento da criança, percebi sutilezas que passaram despercebidas ao pediatra. Aos 11 anos, veio o diagnóstico de Sophia de autista grau 1.

Com a vinda desse novo norte, o diagnóstico, eu passei transferi meu hiperfoco para o ‘autismo’. Meu universo se ampliou e eu descobri a neurodiversidade. Descobri que o mundo não se estreita a partir daí, ele se alarga. Filho é coisa séria e sua educação deve ser cercada do propósito de que ele seja um valor para a sociedade. Hoje admiro Sophia para além de ela ser minha filha.

Se houve sofrimentos? Claro, e muito. Ainda há. Acredito que se soubesse do meu autismo antes, quando Sophia era adolescente, eu não teria conseguido. Entrei em crise, muitas vezes, com ela. Desejei que eu e ela não existíssemos, procurei, obstinadamente, a lógica para essa diferença de codificação..

E descobri, pois “o inverno nunca falha em se tornar primavera”, e é o rigor do inverno que garante a plenitude da primavera. A filosofia budista de Nichiren explica o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”. Essas árvores suportam o rigoroso frio do inverno e, quando a primavera se aproxima, cada qual a seu próprio tempo se enche de flores de beleza singular.

Hoje, eu sei que a diversidade dos seres humanos expressa a missão ímpar e as qualidades peculiares de cada um. A Dra. Elise Boulding (1920–2010), pioneira em pesquisas sobre a paz, defendia que um dos requisitos mais importantes para edificar a paz é ter o espírito de apreciar e celebrar a diferença e a diversidade, além de reconhecer que cada pessoa é única e preciosa. Um viva a todas as mães que, a seu jeito, procuram acertar na missão de educar e entregar valores humanos para a sociedade.

Confira esse bate-papo entre mãe e filha:

A importância da rede de apoio na maternidade atípica

Tempo de Leitura: 2 minutosO Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) representa um grande desafio em decorrência da frequência crescente de diagnósticos. Cada vez mais se percebe a necessidade de uma rede de apoio, cuidado e partilha. A dificuldade de diagnóstico precoce faz com que muitos adultos se descubram autistas  tardiamente e necessitem de apoio  e do envolvimento familiar.

Em setembro de 2020, unimos nosso carinho e criamos o “Grupo Terapia de Mães”, um projeto de grupo terapêutico de mães atípicas e professores pela inclusão. Contamos com centenas de mães e professoras nesse grupo em que oferecemos palestras online uma vez por semana, com profissionais altamente capacitados, de acordo com o interesse manifesto e temáticas escolhidas pelos próprios membros dos grupos. As palestras também são disponibilizadas no Youtube. Essa ação busca auxiliar famílias no enfrentamento das questões diárias, proporcionando-lhes momentos de aprendizado e troca de experiências. 

Criamos também um grupo de acessibilidade jurídica para responder às dúvidas relacionadas ao direito dos autistas e, em breve, daremos início a um grupo com psicólogos para auxiliar muitas famílias que estão passando por sofrimento emocional, esgotamento psicológico e físico. Esse grupo visa oferecer atenção e cuidados relativos à escuta das famílias, ou seja, um apoio para o bem estar do cuidador.

Contamos com a participação de autistas para aprendermos por meio da experiência de vida de cada um. Os grupos de terapia de mães atípicas foram criados por mim (Larissa Lafaiete), ativista, advogada, mãe do Augusto Mangussi, que tem 13 anos e é autista e artista plástico; Daniele Alves, ativista, criadora do @teaemfamilia, mãe do Rafael, autista e por Maria Julia Varella, autista, pedagoga e especialista em educação inclusiva. Para Maria Julia o maior objetivo da iniciativa é dar acolhimento às mães que muitas vezes se sentem solitárias. Daniele Alves diz que até pouco tempo atrás, para ouvir um profissional era preciso participar de congressos, o que acabava sendo difícil para as mães. Nossos grupos trazem acesso a esse conhecimento, e então podemos fazer o melhor pelos autistas.

Para participar das palestras semanais no Zoom, basta seguir o perfil @terapiademaes_atipicas no Instagram.

E quando quem cuida é neurodivergente?

Tempo de Leitura: 2 minutosComeço esse texto ressignificando o termo “gestar”. Todos nós gestamos sejam sonhos,  pessoas, projetos. Aqui, gestar é sobre escolher acolher uma vida (parindo ou não).

Gestar uma vida durante meses dentro de nós (seja no coração ou no útero) faz com que algo novo, humano, simples e confuso aconteça em nossas cabeças e no nosso coração quando olhamos pela primeira vez para aqueles olhos que acabaram de nos encontrar em seu mundo. 

Eu não estou romantizando, eu estou dizendo que acontece algo, algo muda a nossa realidade.

Mas e quanto a nós, pessoas autistas/neurodiversas que têm filhos(as)? 

Quando o  Luiz  nasceu  e eu o pude pegar pela primeira vez no colo,  imediatamente quis colocá-lo no berço. Não queria chorar. Eu queria pular, girar, “autistar, tamanha a emoção e felicidade. Na época, eu não sabia ainda que era autista e sempre encarei esses “impulsos” como minha “maluquice” (no sentido capacitista da palavra). Assim que peguei o Luiz, fiquei com ele pouco tempo no colo e o coloquei no berço da maternidade, e fui andar pelo quarto. Todos no quarto me olharam com um “olhar acusador”. Um ar de: “você não esperou isso durante a gestação toda?”  e foi nesse dia que conheci a “culpa de ser uma mãe neurodiversa”. 

Há um estereótipo da maternagem nas expressões:“o cuidador cuida mas nunca é cuidado”, “não reclama”, “não enfraquece”. E quando quem exerce a parentalidade é neurodivergente? Esses processos nos deixam um ar de: “será que tenho sido suficiente?”.

Veja bem, quando na semana tudo que nos sobra é uma crise de disfunção executiva e a vontade de não levantar da cama, como ficam nossos filhos? 

Quando o choro é alto e nos falta o controle de entender que aquilo é um processo do aprendizado, gerando crise  de transtorno do processamento sensorial em nós: neurodiversos?

A idealização do cuidar perfeito é inalcançável, e atinge todas as mulheres de maneira muito mais intensa. Entretanto, nós, pessoas neurodiversas, sabemos que nosso cuidar é diferente. Nossa maneira de lidar com as crises, birras e afetos do dia a dia é diferente, não incomum, mas diferente. Não há erro em às vezes se irritar com choro, em precisar de  uma hora de silêncio para o corpo voltar ao normal e se regular, em não passar horas amamentando sem ter uma desregulação sensorial após a amamentação.  Não está errada a maneira incomum de demonstrar afeto, caso ele não seja através do abraço e do toque, caso ele seja por meio de ações. 

Não deveríamos nos sentir culpadas por não corresponder à expectativa capacitista da sociedade de que “nunca seremos como outras mães”. Que possamos romper com a ideia do  “cuidar” perfeito na sociedade, para nós, neurodiversos; que possamos autistar em paz, sorrir sem culpa e ficar em silêncio sem nos sentirmos insuficientes.

Afinal, qual criar é ideal?