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Mãe autista, mãe atípica e maternidade atípica

Tempo de Leitura: 3 minutosMãe autista, maternidade atípica, mãe atípica, mãe típica. Afinal, o que significa tanta nomenclatura diferente? A mãe típica é aquela que se enquadra no senso comum de normalidade. Assim, se tiver filho típico, exercerá a maternidade típica. Mas se o filho for atípico, fora do senso comum da normalidade? Então, a mãe típica exercerá uma maternidade atípica. Desse modo, a mãe autista com dois filhos, um típico e outro não, será…? Uma mãe atípica exercendo a maternidade atípica e atípica.

Fui chamada de mãe típica, mas sou mãe autista, com maternidade atípica

Sempre soube que havia algo diferente com minha filha. Dessa maneira, busquei o diagnóstico por anos. Ele veio quando ela estava com 11 anos. Nesta época, fui considerada mãe típica com maternidade atípica. Ainda assim, surpreendia os profissionais das áreas da educação e da saúde. Eu sabia explicar muitas reações de minha filha. Mais que isso, eu me reconhecia nelas. Meu psicólogo à época descartou essa possibilidade.

Então, segui a vida. Entretanto, meu cérebro neurodivergente sempre existiu e me apontava soluções nem sempre aceitas pela equipe que nos acompanhava. Contudo, sabia que estávamos no caminho certo. Em 2015, passei a compartilhar minhas vivências com o mundo. Nascia, no YouTube, o canal Mundo Autista. Sophia estava com 18 anos.

Mães típicas com maternidade atípica

Em primeiro lugar, de maneira surpreendente, nossos vídeos alcançavam cada vez mais pessoas. Assim, agradeço a todas elas. Era certo que eu e minha menina compartilhávamos nossas vivências. Não tínhamos receitas prontas. Não éramos profissionais das áreas da educação ou da saúde.

No entanto, muitas mães se inspiravam na gente. Somos jornalistas e entrevistámos educadores e profissionais da saúde. O compromisso era, e ainda é, levar informações confiáveis ao nosso público. Se dependesse de mim e de Sophia, nenhuma família se sentiria sozinha, como eu e ela fomos um dia.

Mãe autista, portanto, atípica

Em 2016, recebi meu diagnóstico. Como resultado, veio a revelação. Em suma, eu sou autista grau leve, com transtornos da ansiedade generalizada e obsessivo compulsivo. Ou seja, por um lado, senti-me aliviada. Mas, por outro, fiquei preocupada com as mães típicas que se espelhavam na prova real de meu discurso de maternidade. Minha filha entrava para a fase adulta, com ótima performance. E muito por causa de meu cérebro que sempre foi neurodivergente. Foi assim, que decidi me esforçar ainda mais. Iria levar informações reais, embasadas e confiáveis a todas as mães. Quaisquer que fossem elas.

Ampliando horizontes

Em resumo, depois de muito estudo, de muita prática e de muita vivência, ampliei a atuação do Mundo Autista. Além da inclusão, somamos outras áreas. Agora falamos da educação, comunicação, comportamentos, cultura, construção da paz. E ainda, somos um espaço para todos os ‘lugares de fala’.

Enfim, nos abrimos para a diversidade humana. E, dessa maneira, passamos a colher a riqueza das diferenças que se complementam. O resultado é a construção lúdica e responsável de uma nova sociedade. Igualitária, equânime, humanista e democrática.

Afinal, o caminho da inovação pela criatividade nasce do somatório das riquezas singulares. Para enxergarmos isso, é preciso um ‘outro olhar’ e um ‘outro coração. E, claro, muitas, muitas vozes.

As vozes do fascinante mundo do autismo. Valeu!

Obrigada Canal Autismo (Francisco Paiva Júnior) que se une a nós com a mesma visão da força humana a partir das diferenças. Valeu Estado de Minas, pelo diálogo no DiversEM, espaço dedicado a contribuir para uma cobertura mais plural e diversa.

E nossos convidados: Crea Felicidad, uma equipe de líderes interdisciplinares com um trabalho personalizado para criar a felicidade em todas as vidas. Aquela felicidade que só a pessoa sabe como é e aquela que você deseja ter.

E mais: educador e doutor, Márcio Boaventura Júnior. A mestranda em Comunicação Social, Sophia Mendonça. O psicólogo e professor de Yoga, Renan Kleber. A professora doutora e socióloga, Andreia dos Santos. A psicóloga, Adrianna Reis. A jornalista Gabriela Guedes. A jornalista e terapeuta ericksoniana, Mônica Cabanas. A contadora de histórias, Roberta Colen. A Dra. Kelly Robis, psiquiatra. Além de um time incrível que vem por aí.

Ah, e obrigada a você, que é nosso seguidor. Sem o seu apoio, nada disso se tornaria real.

‘O diagnóstico dele não era o destino nem dele nem meu’, diz atleta paralímpica mãe de autista

Tempo de Leitura: < 1 minutoDrica Azevedo tem 43 anos, é atleta paralímpica e está em Tóquio para as Paralimpíadas de 2020 que ocorrem este ano. Ela possui um filho, Benício, de 7 anos, que é autista. O processo de busca por um diagnóstico começou em 2018, quando a criança tinha 3 anos. Atualmente, Drica compartilha as experiências de maternidade atípica em torno do autismo.

“Quando busquei o diagnóstico do Benício, em 2018, quando ele tinha três anos, eu já imaginava que ele estava no espectro do autismo. Mas era muito complicado para conseguir consultas, era muito caro. Quando veio esse diagnóstico, o que mais escutei foi que: ‘Agora você vai ter que parar de treinar, porque vai ter que se dedicar exclusivamente ao Benício’. E eu não aceitava. O diagnóstico dele não era o destino nem dele nem meu. Decidi então que queria progredir no esporte, porque o esporte poderia me dar os meios de cuidar do Benício e melhorar a qualidade de vida dele e da minha família”, disse ela ao UOL Esporte.

Orgulho Autista

Tempo de Leitura: 2 minutosA memória ainda está nítida em mim. O psicólogo me olha firme e diz: “Sua filha será dependente o resto da vida.” Estranhei o prognóstico. Como alguém pode saber de uma vida que ainda não se disse ao mundo? Como determinar, pelo conhecimento presente, todo um percurso?

Voltei para casa ciente de que minha menina não era melhor que ninguém. Mas também não era pior. Então, tratei de estudar, estudar muito sobre o assunto. Não parei de trabalhar e meu trabalho exigia viagens esporádicas. Não foi fácil. Absolutamente. Mas era minha vida, com suas especificidades. Nem melhor nem pior que a vida de ninguém. Apenas diferente.

É verdade que eu sentia um cansaço enorme, que já quis fechar os olhos, eu e minha menina, e não mais abrir. Mas não sou mulher de abandonar um desafio e nem a minha fé. Fé, inclusive, no ser humano. Debrucei um olhar atento à adolescente que ali surgia. Nunca soube onde terminava o autismo e começava a adolescência. E vice-versa. Foi um período tão complicado quanto foi a minha própria experiência. Eu sabia do sofrimento daquela fase, acontecera comigo também. Nunca soube descrever. Por isso, redobrava a minha paciência, embora por vezes, tenha entrado em crise.

Hoje sei que também sou autista. Olho para trás e suspiro. Um suspiro longo de quem passou por muita coisas que não entendeu mas que procurou estratégias para se adequar. Isso é muito doído. Eu fui, cada vez mais, introjetando minha essência e me tornando a pessoa que esperavam que eu fosse, para que pudessem se sentir confortáveis.

As pessoas querem que você seja de um jeito que as incomode o mínimo possível e elas não se preocupam se para isso você está mais que incomodada – você está adoecendo. Há quase uma década, ouço de muita gente que “a sociedade está adoecida.” Será que ninguém percebe que a sociedade é formada por pessoas e se essa sociedade não se preocupa com um indivíduo que “está adoecendo”, quer seja pela rejeição, pelas relações predatórias, pelas cobranças ou seja lá o que for, seremos um somatório de pessoas adoecidas e que esse somatório resulta pois, na própria sociedade?

Desde que o mundo é mundo, cabe ao ser humano construir os avanços sociais e econômicos e lidar com os efeitos fáceis ou complicados que advierem disso. Sabemos que o surgimento dos hospitais foi um grande avanço para todos. Mas eles também trouxeram a infecção hospitalar e a super bactéria. Portanto, o melhor que se tem a fazer é reconhecer que a diversidade humana é fonte de criatividade para construir uma sociedade mais inclusiva, humanizada, digna, harmoniosa e democrática. Nada mais, nada menos!

‘As pessoas são cruéis’, diz mãe atípica sobre preconceito

Tempo de Leitura: < 1 minutoMariana Aguiar, estudante de jornalismo, recebeu o diagnóstico de autismo de sua filha aos 2 anos de idade após perceber várias atipicidades no comportamento da criança. Em entrevista, ela contou sobre a experiência da maternidade e o receio de como a sociedade encara autistas.

“As pessoas são cruéis, ainda existe muito preconceito em todos os lugares, então quando eu penso sobre isso eu realmente fico triste”, disse ela. Mariana acabou largando a graduação em Jornalismo em 2021 para dedicar-se à filha.

A reportagem ainda contou com comentários de Cristiano de Oliveira (autista adulto e responsável pelo documentário Stimados Autistas), Hugo Ênio Braz (moderador da rede Gaúcha Pró-Autismo), Francisco Paiva Jr. (editor da Revista Autismo), entre outros.

O dia a dia do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutos

Eu fui para casa de minha mãe, numa cidadezinha próxima a Beagá, aqui em Minas Gerais, no dia 23 de dezembro de 2020 e só retornei à minha casa, no início desse mês. Situações novas que nos impõe a pandemia.

Minha mãe, Irene, amou a ideia. Eu também. Foram muitas nossas trocas, inclusive fiz um vídeo para o canal Mundo Autista sobre meu aprendizado ao lado dela. Ouro puro essa troca de gerações. Perde quem ainda não se atentou para a coeducação entre gerações.

O doutor, mestre e psicólogo José Carlos Ferrigno estudou e analisou as trocas de afeto e de conhecimentos específicos que uma geração repassa à outra. Essa aproximação das gerações (conforme conclui o psicólogo) pode incrementar a inclusão social de velhos e jovens, enriquecendo-os mutuamente, desenvolvendo a tolerância e a solidariedade e amenizando, portanto, os efeitos nocivos do preconceito etário.

Foi exatamente o que vivi com minha mãe, durante quase 5 meses de convívio diário, uma vivência rica em aprendizado. Em contrapartida, minha mãe intensificou a curiosidade pelo uso da tecnologia, lançou-se ao ambiente do estudo virtual e, agora, é nossa parceira no Mundo Autista. Mas algo em mim e na Sophia incomodava imensamente a amada Irene: ela reclama de nosso ritmo frenético e de nosso cérebro que parece não descansar nunca.

Expliquei a ela que para mim e Sophia estarmos com ela, fora de nossa casa, precisaríamos criar um ambiente com o qual nos identificássemos para que nos sentíssemos confortáveis. Não foi difícil com um quarto só para a Sophia e outro para mim. O escritório com tripés, notebooks, microfones e outras ‘cositas mas’ foi montado na sala. Nada que incomodasse, devido à estrutura da casa do pequeno sítio, onde a cozinha é o local da conversa e da troca de afetos e carinhos traduzidos pela culinária mineira.

Antes, porém, fizemos uma reorganização para que tivéssemos menos apelo visual, o que nos dispersa e estressa. A disposição de tudo na cozinha também teve de atender à minha lógica meticulosa para que eu pudesse cumprir minhas tarefas de eventual dona de casa e cozinheira, sem muito estresse.

Lá fora, o jardim e o pomar eram bem cuidados e agradáveis à visão e convidativo a reflexões e clicks fotográficos. O galinheiro, antes construído com certo descaso (a meu ver), foi refeito, muito bem organizado – um verdadeiro lar para o galo e as galinhas garnizé.

Os horários do café da manhã e das refeições foram refeitos já que minha mãe, apesar de sua alma livre e rebelde) cedeu à organização metódica da filha. Por vezes, eu estava no meio de uma tarefa, coando café, por exemplo, e ela sugeria que colocasse o coador assim, o pó de outro jeito e, quando eu olhava aflita para ela, ela já se explicava: ‘eu me esqueço, já estou te confundindo.” Eu sorria, meio encabulada e reforçava que quando me lanço à uma tarefa, meu cérebro é todo direcionado ao passo a passo desenhado em minha mente. “Pode passar as instruções, mãezinha, mas explique de maneira assertiva, com poucas palavras, antes de eu começar a fazer ‘do meu jeito’”, eu emendava constrangida.

Mas certo é que, por vezes, ela me interrompia mesmo, eu me desorganizava, a gente ria e começava tudo de novo. Percebi que a vida é assim, que posso ser flexível e que o jeito do outro, as tentativas, tudo isso faz parte de um aprendizado maior também. A única coisa que não expliquei para minha mãe foi que, para me relacionar com mais gente além da Sophia, eu passo o dia inteiro negociando com meu cérebro, criando estratégias e mais estratégias, na tentativa de entender esse mundo tão complicado à minha volta.

Mãe Autista – três gerações de muito amor e determinação

Tempo de Leitura: 3 minutosNunca vou me cansar de homenagear minha mãe que, aos 25 anos, separou-se de meu pai, com 3 filhas de 5, 3 e 2 anos. Dali para a frente, seria uma trajetória impossível para aquela mulher vinda da “Vila dos Marmiteiros”, que ainda não havia terminado o Ensino Médio, em pleno ano de 1967. Mas ela não sabia que era impossível e, em 2006, se aposentou como Procuradora da Prefeitura de Belo Horizonte, com suas ‘meninas’ formadas em Engenharia Civil, Comunicação Social e Direito.

A verdade era que minha mãe não sabia de muita coisa e se atirou à descoberta de algumas e outras, simplesmente, se tornariam conhecidas, somente, muitos anos depois.  Minha família tinha muitas pessoas consideradas ‘esquisitas’ e a primeira pessoa ‘esquisita’ da família a receber o diagnóstico de autismo grau 1, foi minha filha, Sophia Mendonça. Há 4 anos foi minha vez e minha mãe, claramente com muitos traços dentro do espectro, resolveu que agora, o diagnóstico para ela, não faria a menor diferença.

Olhando para trás eu percebo como minha mãe foi singular e precisa para que eu sobrevivesse à falta de um diagnóstico. Talvez por ter passado por tanta coisa semelhante a mim, ela era ‘cirúrgica’ em suas explicações sobre o mundo e a vida. Mais tarde, eu me casei e, como havia feito com o casamento, determinei uma data apropriada para ter o primeiro filho. Fiquei desorganizada quando o momento chegou, mas não veio acompanhado de uma segurança para ser mãe.

Talvez, se não fosse o meu cérebro neurodivergente, eu não seria mãe. É que eu não me via como tal, não havia uma lógica a seguir para o preparo à maternidade e isso tudo me gerou muita insegurança. Deixei a data passar e não tive o filho programado para o ano de 1993. Mas algo continuava martelando em minha cabeça: minha geração acreditou que a regra era casar e ter filhos. Assim, sete anos após meu casamento, Sophia chegou.

Ainda bem, hoje sou melhor ser humano que era antes da maternidade. O que não significa que a maternidade seja um presente necessário à plenitude da mulher, algo que nos alçará à condição de ‘santas’, praticamente. Não, de jeito algum. A maternidade foi o maior desafio de minha vida que redundou num imenso aprendizado.

Eu nasci como mãe em 06 de fevereiro de 1997, o que me requereu muito estudo, observação, tentativas, erros e acertos. Graças a esse hiperfoco no desenvolvimento da criança, percebi sutilezas que passaram despercebidas ao pediatra. Aos 11 anos, veio o diagnóstico de Sophia de autista grau 1.

Com a vinda desse novo norte, o diagnóstico, eu passei transferi meu hiperfoco para o ‘autismo’. Meu universo se ampliou e eu descobri a neurodiversidade. Descobri que o mundo não se estreita a partir daí, ele se alarga. Filho é coisa séria e sua educação deve ser cercada do propósito de que ele seja um valor para a sociedade. Hoje admiro Sophia para além de ela ser minha filha.

Se houve sofrimentos? Claro, e muito. Ainda há. Acredito que se soubesse do meu autismo antes, quando Sophia era adolescente, eu não teria conseguido. Entrei em crise, muitas vezes, com ela. Desejei que eu e ela não existíssemos, procurei, obstinadamente, a lógica para essa diferença de codificação..

E descobri, pois “o inverno nunca falha em se tornar primavera”, e é o rigor do inverno que garante a plenitude da primavera. A filosofia budista de Nichiren explica o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”. Essas árvores suportam o rigoroso frio do inverno e, quando a primavera se aproxima, cada qual a seu próprio tempo se enche de flores de beleza singular.

Hoje, eu sei que a diversidade dos seres humanos expressa a missão ímpar e as qualidades peculiares de cada um. A Dra. Elise Boulding (1920–2010), pioneira em pesquisas sobre a paz, defendia que um dos requisitos mais importantes para edificar a paz é ter o espírito de apreciar e celebrar a diferença e a diversidade, além de reconhecer que cada pessoa é única e preciosa. Um viva a todas as mães que, a seu jeito, procuram acertar na missão de educar e entregar valores humanos para a sociedade.

Confira esse bate-papo entre mãe e filha: