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‘As pessoas são cruéis’, diz mãe atípica sobre preconceito

Tempo de Leitura: < 1 minutoMariana Aguiar, estudante de jornalismo, recebeu o diagnóstico de autismo de sua filha aos 2 anos de idade após perceber várias atipicidades no comportamento da criança. Em entrevista, ela contou sobre a experiência da maternidade e o receio de como a sociedade encara autistas.

“As pessoas são cruéis, ainda existe muito preconceito em todos os lugares, então quando eu penso sobre isso eu realmente fico triste”, disse ela. Mariana acabou largando a graduação em Jornalismo em 2021 para dedicar-se à filha.

A reportagem ainda contou com comentários de Cristiano de Oliveira (autista adulto e responsável pelo documentário Stimados Autistas), Hugo Ênio Braz (moderador da rede Gaúcha Pró-Autismo), Francisco Paiva Jr. (editor da Revista Autismo), entre outros.

O dia a dia do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutos

Eu fui para casa de minha mãe, numa cidadezinha próxima a Beagá, aqui em Minas Gerais, no dia 23 de dezembro de 2020 e só retornei à minha casa, no início desse mês. Situações novas que nos impõe a pandemia.

Minha mãe, Irene, amou a ideia. Eu também. Foram muitas nossas trocas, inclusive fiz um vídeo para o canal Mundo Autista sobre meu aprendizado ao lado dela. Ouro puro essa troca de gerações. Perde quem ainda não se atentou para a coeducação entre gerações.

O doutor, mestre e psicólogo José Carlos Ferrigno estudou e analisou as trocas de afeto e de conhecimentos específicos que uma geração repassa à outra. Essa aproximação das gerações (conforme conclui o psicólogo) pode incrementar a inclusão social de velhos e jovens, enriquecendo-os mutuamente, desenvolvendo a tolerância e a solidariedade e amenizando, portanto, os efeitos nocivos do preconceito etário.

Foi exatamente o que vivi com minha mãe, durante quase 5 meses de convívio diário, uma vivência rica em aprendizado. Em contrapartida, minha mãe intensificou a curiosidade pelo uso da tecnologia, lançou-se ao ambiente do estudo virtual e, agora, é nossa parceira no Mundo Autista. Mas algo em mim e na Sophia incomodava imensamente a amada Irene: ela reclama de nosso ritmo frenético e de nosso cérebro que parece não descansar nunca.

Expliquei a ela que para mim e Sophia estarmos com ela, fora de nossa casa, precisaríamos criar um ambiente com o qual nos identificássemos para que nos sentíssemos confortáveis. Não foi difícil com um quarto só para a Sophia e outro para mim. O escritório com tripés, notebooks, microfones e outras ‘cositas mas’ foi montado na sala. Nada que incomodasse, devido à estrutura da casa do pequeno sítio, onde a cozinha é o local da conversa e da troca de afetos e carinhos traduzidos pela culinária mineira.

Antes, porém, fizemos uma reorganização para que tivéssemos menos apelo visual, o que nos dispersa e estressa. A disposição de tudo na cozinha também teve de atender à minha lógica meticulosa para que eu pudesse cumprir minhas tarefas de eventual dona de casa e cozinheira, sem muito estresse.

Lá fora, o jardim e o pomar eram bem cuidados e agradáveis à visão e convidativo a reflexões e clicks fotográficos. O galinheiro, antes construído com certo descaso (a meu ver), foi refeito, muito bem organizado – um verdadeiro lar para o galo e as galinhas garnizé.

Os horários do café da manhã e das refeições foram refeitos já que minha mãe, apesar de sua alma livre e rebelde) cedeu à organização metódica da filha. Por vezes, eu estava no meio de uma tarefa, coando café, por exemplo, e ela sugeria que colocasse o coador assim, o pó de outro jeito e, quando eu olhava aflita para ela, ela já se explicava: ‘eu me esqueço, já estou te confundindo.” Eu sorria, meio encabulada e reforçava que quando me lanço à uma tarefa, meu cérebro é todo direcionado ao passo a passo desenhado em minha mente. “Pode passar as instruções, mãezinha, mas explique de maneira assertiva, com poucas palavras, antes de eu começar a fazer ‘do meu jeito’”, eu emendava constrangida.

Mas certo é que, por vezes, ela me interrompia mesmo, eu me desorganizava, a gente ria e começava tudo de novo. Percebi que a vida é assim, que posso ser flexível e que o jeito do outro, as tentativas, tudo isso faz parte de um aprendizado maior também. A única coisa que não expliquei para minha mãe foi que, para me relacionar com mais gente além da Sophia, eu passo o dia inteiro negociando com meu cérebro, criando estratégias e mais estratégias, na tentativa de entender esse mundo tão complicado à minha volta.

Mãe Autista – três gerações de muito amor e determinação

Tempo de Leitura: 3 minutosNunca vou me cansar de homenagear minha mãe que, aos 25 anos, separou-se de meu pai, com 3 filhas de 5, 3 e 2 anos. Dali para a frente, seria uma trajetória impossível para aquela mulher vinda da “Vila dos Marmiteiros”, que ainda não havia terminado o Ensino Médio, em pleno ano de 1967. Mas ela não sabia que era impossível e, em 2006, se aposentou como Procuradora da Prefeitura de Belo Horizonte, com suas ‘meninas’ formadas em Engenharia Civil, Comunicação Social e Direito.

A verdade era que minha mãe não sabia de muita coisa e se atirou à descoberta de algumas e outras, simplesmente, se tornariam conhecidas, somente, muitos anos depois.  Minha família tinha muitas pessoas consideradas ‘esquisitas’ e a primeira pessoa ‘esquisita’ da família a receber o diagnóstico de autismo grau 1, foi minha filha, Sophia Mendonça. Há 4 anos foi minha vez e minha mãe, claramente com muitos traços dentro do espectro, resolveu que agora, o diagnóstico para ela, não faria a menor diferença.

Olhando para trás eu percebo como minha mãe foi singular e precisa para que eu sobrevivesse à falta de um diagnóstico. Talvez por ter passado por tanta coisa semelhante a mim, ela era ‘cirúrgica’ em suas explicações sobre o mundo e a vida. Mais tarde, eu me casei e, como havia feito com o casamento, determinei uma data apropriada para ter o primeiro filho. Fiquei desorganizada quando o momento chegou, mas não veio acompanhado de uma segurança para ser mãe.

Talvez, se não fosse o meu cérebro neurodivergente, eu não seria mãe. É que eu não me via como tal, não havia uma lógica a seguir para o preparo à maternidade e isso tudo me gerou muita insegurança. Deixei a data passar e não tive o filho programado para o ano de 1993. Mas algo continuava martelando em minha cabeça: minha geração acreditou que a regra era casar e ter filhos. Assim, sete anos após meu casamento, Sophia chegou.

Ainda bem, hoje sou melhor ser humano que era antes da maternidade. O que não significa que a maternidade seja um presente necessário à plenitude da mulher, algo que nos alçará à condição de ‘santas’, praticamente. Não, de jeito algum. A maternidade foi o maior desafio de minha vida que redundou num imenso aprendizado.

Eu nasci como mãe em 06 de fevereiro de 1997, o que me requereu muito estudo, observação, tentativas, erros e acertos. Graças a esse hiperfoco no desenvolvimento da criança, percebi sutilezas que passaram despercebidas ao pediatra. Aos 11 anos, veio o diagnóstico de Sophia de autista grau 1.

Com a vinda desse novo norte, o diagnóstico, eu passei transferi meu hiperfoco para o ‘autismo’. Meu universo se ampliou e eu descobri a neurodiversidade. Descobri que o mundo não se estreita a partir daí, ele se alarga. Filho é coisa séria e sua educação deve ser cercada do propósito de que ele seja um valor para a sociedade. Hoje admiro Sophia para além de ela ser minha filha.

Se houve sofrimentos? Claro, e muito. Ainda há. Acredito que se soubesse do meu autismo antes, quando Sophia era adolescente, eu não teria conseguido. Entrei em crise, muitas vezes, com ela. Desejei que eu e ela não existíssemos, procurei, obstinadamente, a lógica para essa diferença de codificação..

E descobri, pois “o inverno nunca falha em se tornar primavera”, e é o rigor do inverno que garante a plenitude da primavera. A filosofia budista de Nichiren explica o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro”. Essas árvores suportam o rigoroso frio do inverno e, quando a primavera se aproxima, cada qual a seu próprio tempo se enche de flores de beleza singular.

Hoje, eu sei que a diversidade dos seres humanos expressa a missão ímpar e as qualidades peculiares de cada um. A Dra. Elise Boulding (1920–2010), pioneira em pesquisas sobre a paz, defendia que um dos requisitos mais importantes para edificar a paz é ter o espírito de apreciar e celebrar a diferença e a diversidade, além de reconhecer que cada pessoa é única e preciosa. Um viva a todas as mães que, a seu jeito, procuram acertar na missão de educar e entregar valores humanos para a sociedade.

Confira esse bate-papo entre mãe e filha: