5 de junho de 2023

Tempo de Leitura: 4 minutos

Muitos já me conhecem na comunidade do autismo. Sabem que sou uma pessoa autista e que tenho dois filhos e me orgulho muito de ser pai.

Meu filho nasceu e precisou de muita ajuda para se desenvolver. Foi um filho muito desejado, e houve muitos momentos que não foram fáceis. Realmente é um desafio ser responsável por alguém, e ajudar para que aquela pessoinha adquira habilidades e ferramentas que serão requisitos para todo seu desenvolvimento pode ser algo complicado.

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Fui grato por ter uma boa rede de apoio. Uma família que entendia bem e ajudava nos momentos de tensão. Ele pode ir a uma escola que o entendia bem, aliás, uma não, por todas por quais passou, foi bem recebido e conseguiu o apoio que precisava. Sempre tinha alguém para ajudá-lo a se alimentar, ir ao banheiro, e o método de ensino era bem adaptado a ele.

Conseguiu fazer bons amigos. Muitos deles seguem até hoje com essa amizade. Hoje ele está na faculdade. Passou no processo seletivo para o curso que, pelo que me lembro, sempre foi o foco dele. E como é bom ver alguém conciliando seus focos com seus objetivos! Posso dizer que ele é um jovem muito independente e feliz em busca do seu máximo potencial. Um orgulho para mim, que sou o pai e espero do fundo do meu coração que ele próprio também se orgulhe dessa história.

Porém, sei que não é assim pra todo mundo e que a história de muitos que estão lendo aqui não é ou não foi bem assim.

Mas calma! Essa história ainda não acabou. Como contei no início, tenho dois filhos, e essa primeira parte deu conta do meu filho mais velho. Ele não é autista! Sim, se alguém aqui pensou que a história se tratava de uma pessoa autista, pelos apoios que foram necessários no seu desenvolvimento, por eu citar escolas que foram inclusivas a ele e pelos focos de interesses que foram levados em conta para seu aprendizado, eu peço que voltem no texto e percebam que tudo que foi citado nunca foi além do que qualquer criança precisa para se desenvolver.

Isso mesmo, toda e qualquer criança precisa de apoio e de locais que saibam como recebê-las e ensina-las. Só que, para algumas, essas coisas são negadas. Enquanto que, para uma pessoa como a que eu descrevi acima, toda a sociedade sabe e se prepara para saber como fazer, sem dar a desculpa de que não estamos preparados; para outras, ainda usamos os argumentos de que não temos pessoas o suficiente para ajudar, para apoiar, não sabemos como fazer ou que estamos tentando.

Meu outro filho é uma pessoa autista. Ele também precisou de apoio para se desenvolver. Foi um filho muito esperado e precisou de apoio para adquirir as habilidades e pré-requisitos para outras habilidades que apoiariam esse desenvolvimento. Esse apoio não veio naturalmente. Não veio de forma fácil, nem barata e nem veio como se fosse um direito da criança. Em muitos momentos, parecia que eu estava querendo um favor e não apenas algo que qualquer ser humano merecesse. E que sinistro não é imaginar que dar o apoio que uma criança merece para alcançar o seu potencial seria um favor?

Ainda, no caso desse filho como no do primeiro, tive uma família que auxiliou nas horas mais complicadas. Com as escolas, não posso dizer o mesmo. Já era difícil ter o profissional para ajudar nas necessidades de alimentação, de ir ao banheiro e, pasmem, até o profissional que cuidava da área acadêmica lhe faltava. Não porque não estava lá, mas com o pretexto de que não sabia ou não estava preparado para lhe ajudar. E que sinistro não é imaginar que a educação é moldada apenas para alguns e não simplesmente para educar quem quer que seja, como se não fosse direito de todos e todas aprender?

E muitas vezes pareceu que eu pedia um favor e não um direito quando queria que meu filho fosse atendido e entendido plenamente na escola. Não fez muitos amigos, não foi convidado para muitas festas, mas fico feliz de ver que tem alguns poucos bons amigos que permaneceram com o tempo e que foi a boas festas porque, quando não se vai a muitas, cada uma precisa ser muito aproveitada.

Atualmente ele está no ensino médio e posso dizer que ele é um jovem muito independente, que está em busca de cursar uma faculdade de gastronomia, que está relacionada ao seu foco de interesse. Faz estágio como jovem aprendiz e acorda sozinho para não perder a hora do trabalho no qual tem muitas responsabilidades. Um orgulho para mim, que sou o pai e espero do fundo do meu coração que ele próprio também se orgulhe dessa história.

Com tudo isso, vejo algumas lições que podemos tirar. A primeira é que todas as pessoas precisam de apoio para se desenvolver, mas, para algumas, esse apoio é negado ou dificultado como se não fosse um ser humano digno de existir da maneira que existe.

Segundo, é que o orgulho de um pai, de uma mãe não tem a ver com alguma condição ou com um transtorno, mas sim com as conquistas dos filhos e filhas. Com as vitórias e também com as derrotas, porque essas fazem parte da construção da pessoa que se apresenta hoje como ela é. Tem a ver com o ser, com uma existência, e não com uma sentença que a sociedade coloca por ser construída em cima de bases preconceituosas.

E, por fim, é que todo mundo merece e pode se orgulhar de quem é, além de estereótipos e cargas que são colocadas por um diagnóstico. Ser diagnosticado como uma pessoa autista não deveria sentenciar a existência de ninguém, mas às vezes sentencia. Não deveria limitar ninguém de atingir o seu máximo potencial, mas às vezes limita. Então, espero, do fundo do meu coração, que toda pessoa autista possa se orgulhar um dia dela própria e que possa entender que ter esse diagnóstico faz com que cada conquista seja uma grande conquista porque todas elas são obtidas contra um sistema que ainda não trabalha para que a nossa existência receba o que qualquer pessoa merece, dignidade.

Nossa existência completa o mundo!

Por Fábio Cordeiro
Presidente da ONDA-AutismoS

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