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‘Crises de ausência na infância’

Tempo de Leitura: < 1 minutoNa semana passada (23), o neuropediatra Paulo Liberalesso publicou um vídeo explicando as crises de ausência na infância.

Liberalesso fala da importância de se diferenciar epilepsia de ausência na infância de uma crise focal, em que os tratamentos são totalmente diferentes. No vídeo, ele explica as diferentes crises de ausências típicas, suas características e como o eletroencefalograma é decisivo para um diagnóstico de uma epilepsia ausência.

Vídeo

Paulo Liberalesso é médico neuropediatra, mestre em neurociência, doutor em distúrbios da comunicação e diretor técnico do Cerena.

 

 

 

 

 

Sobre autismo, colapsos, estresse pós-traumático e esperança na Pandemia

Tempo de Leitura: 3 minutosGostaria de dividir uma experiência bastante pessoal, sobre a qual muito raramente relato publicamente, seja na tentativa de fazer uma analogia esperançosa com a crise que vivemos, ou pelo menos para compartilhar algo positivo, ao menos para mim, nos difíceis tempos do Covid-19.

Por volta de agosto de 2017, eu e minha mãe fomos vítimas de um abuso psicológico muito forte. Após o encontro com o agressor, passei por um período extremamente tenso de estresse pós-traumático.

Com isto, os meltdowns (crises de agressividade), que sempre apresentei por vez ou outra na vida, como é comum em alguns autistas, se tornaram mais frequentes, além de ficarem muito mais intensos, me tornando uma pessoa auto destrutiva e até perigosa.

O estresse pós-traumático foi tão intenso que, entre 2018 e 2019, fiz terapia com uma psicóloga especializada em trauma, a quem tenho imensa gratidão, antes de retornar à Terapia Cognitivo Comportamental, que é mais indicada a pessoas com o meu perfil.

Não era fácil. Lembro-me que, em um destes meltdowns, em dezembro de 2018, quase fui internada em um hospital psiquiátrico. Em outro momento, ocorrido no mês de setembro de 2017, tive que fazer lavagem estomacal pela enorme quantidade de remédios ingeridos tentando esquecer a situação. Em 08 de maio de 2019, ainda rememorando os traumas vividos, a situação se repetiu.

08 de maio ‘celebrei’ dois anos sem sinal dessas crises nervosas. Eu nunca fiquei tanto tempo sem um meltdown, desde a infância, por isso, conto cada dia sem crise de forma similar ao que fazem os membros do alcoólicos anônimos. Eu não quero ter crises assim nunca mais, e sei que isso será impossível sem o meu impulso interno, que, ainda bem, permanece muito forte e determino que continuará sempre dessa forma.

Sobre o agressor e as pessoas que o conduziram a este ato (que, ainda assim, ele realizou por opção própria), prefiro fugir do senso comum da vingança x perdão. Nunca vi vingança como forma de justiça, pelo contrário, pensar nisso só me faria mais mal. Não sei exatamente se perdoei, também, essas pessoas. Eu tenho registro, mas, mais importante que isso é que elas não fazem mais parte da minha vida. Então, como diz a música de Tina Turner que tenho ouvido recorrentemente nesta quarentena, “I don’t really want to fight no more. This is time for letting go“.

Pode parecer um relato pequeno ou muito pessoal para alguns, mas quem convive com autistas ou é autista que apresente crises muito intensas (nem todos são assim), como as quem eu tinha, sabe a grandiosidade de se sentir livre delas e, também, de pensamentos obsessivos muito negativos.

É isso que eu queria compartilhar com vocês em tempos de Covid-19. Há uma famosa frase de Nichiren Daishonin: “O Inverno nunca falha em se tornar primavera.” É necessário o rigor do inverno para desabrochar as flores da primavera. Ao mesmo tempo, em outro escrito, ele afirma que até o inferno pode ser a Terra da Luz Tranquila. Para nós, praticantes do Budismo Nichiren, tanto o inferno quando a Terra Pura só existem na mente e no coração das pessoas. De acordo com essa filosofia, o que é chamado “Deus” em outras culturas é uma condição que existe dentro de todos nós, e pode ser ativada.

Assim, mesmo os tempos difíceis podem ser encarados com sabedoria que preencham nossos dias com maior leveza e se tornem combustível para utilizar os golpes duros da vida como forma de nos auto aprimorarmos e incentivarmos uns aos outros. O sofrimento existe e deve ser tratado com a maior seriedade e cuidado possíveis. O que vamos fazer com os efeitos que ele gera a longo prazo é escolha nossa.

Domando meu cérebro autista

Tempo de Leitura: 3 minutosDesde criança, a injustiça acabava comigo. Lembro de um médico que me disse, quando eu estava com 22 anos, que eu era extremamente compassiva e que era muito rígida quando o assunto era a justiça. Nunca me esqueci do sorriso que se seguiu à fala dele para mim: “Você quer ter a justiça divina, infalível. Vai sofrer muito pois já entra perdendo nessa concorrência.” Pensei nisso por anos, pois não entendi o sentido disso. Eu queria era saber lidar com esse sentimento.

Isso porque, sempre me irritava diante de uma grosseria de um garçom, uma resposta ríspida de alguém, à falta de atenção ao outro. Hoje penso que era porque me sentia muito mal sempre, pois parecia que o mundo estava contra mim. Transformei essa energia da raiva em briga, discursos e questionamentos a tudo e todos. Quando essa irritação parecia me sufocar, não adiantava nada. Qualquer pergunta ou tentativa de me entender só piorava minha ira, pois tentava me explicar e as palavras me fugiam ou então, eu não conseguia me fazer entender o que me levava a mais e mais raiva.

Assim, durante boa parte de minha vida, eu fui brigona, barraqueira até.  Desestruturava e não media as consequências de nada.  Ia fundo, de cabeça. Já enfrentei homem armado. Já persegui ladrão favela a dentro, atrás de minha bolsa furtada. Não hesitei em dizer à minha sogra que ela devia ter fechado as pernas, quando ela reclamou da falta de pílula no seu tempo. Não me orgulho disso, ao contrário.

Briguei no posto de gasolina, com motorista de táxi, no hospital, na rua, em família, no trabalho – sai de ambulância, tamanha foi a crise.  Enfrentei meu pai policial, vizinho barulhento, professor que se considerava o dono da razão, namorado safado, padre sem noção, pastor reacionário, espírito incorporado, chefe assediador. Parecia que diante da injustiça só a energia causada pela ira me confortava e me levava às vias de fato.  Quando finalmente, me acalmava sofria de ressaca moral. Com o tempo, uma exaustão tão grande me tomou mais e mais.  Meus músculos criaram memória de retesamento, eu nunca relaxava, a adrenalina era constante.  Vivia em alerta, o que me causou uma estafa gigante no corpo e na alma.  Estava cansada de viver.  Amava ir para o bloco cirúrgico para apagar o mundo.

Na curva de meus quarenta anos, percebi que não podia mais viver assim. Aprofundei meus estudos e prática budistas, passei a estudar a cultura de paz para a construção de um mundo justo, digno e inclusivo.

Li Esquivel, Daisaku Ikeda, a história de Tina Turner, de Courtney Love. Introjetei o entendimento da Paz, Cultura e Educação como necessidades humanas.  Estudei e estudo Comunicação não Violenta, Educação Humanística,  Programação Neurolinguística.

Hoje sei que todos nós podemos errar e só não admito erros por negligência, crueldade ou má fé.  Mas percebi que não há acerto sem o erro, que hoje prefiro chamar de processo, para chegarmos à nossa meta.  Aboli o vitimismo e a autopiedade que sempre me fizeram retroceder ou me paralisavam.

Construo dia a dia a minha Revolução Humana e procuro avançar pelo menos um milímetro, todos os dias.  A evolução é inerente ao ser humano. A Revolução não, tem a ver com nossa transformação, nosso crescimento. Por isso, aprendi que não avançar é o mesmo que retroceder, mas que é melhor que todos avancemos um passo, que eu avance sozinha muitos passos.

Procuro observar e não julgar, diariamente, pois sei que não há como conhecer todas as perspectivas e vieses para bater o martelo de juiz. Aliás. Reconheço minha humanidade e procuro enxergar a humanidade do outro, ciente de que todos nós possuímos potencial latente, único e intransferível.

Escolhi enxergar o mundo pela via do afeto pois para cada cara quebrada que tenho, conquisto cinco vezes mais, em descobertas sobre a riqueza humana. Normalmente tenho medo de me expressar pois sinto que sou traída pelas palavras que nem sempre espelham meu coração/mente.

Decidi optar pelo caminho do meio, como estratégia de vida, depois que descobri que esse caminho não é o ponto mediano entre dois extremos. O caminho do meio só pode ser traçado e conquistado quando conhecemos o melhor dos dois extremos. Acredite, sempre existe algo maior por trás de atitudes extremistas.

Hoje, ainda tenho minhas crises mas, via de regra, saio delas com algum aprendizado que faço questão de exercitar para meu crescimento pessoal e do ambiente que me cerca.