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A crise no autismo e o rótulo de ‘menina nervosa’

Tempo de Leitura: 2 minutosSobre a crise no autismo e o rótulo de ‘menina nervosa’: Quando mais nova, não era raro eu ouvir de pessoas próximas que eu parecia ter duas personalidades. A que se manifestava na maior parte do tempo era meiga e carinhosa. No entanto, havia um outro lado com traços agressivos e uma demonstração de indiferença pelo outro.

Esse perfil marcado por uma raiva incontrolável e dificuldades intensas de comunicação era o que se manifestava no momento de crises. Ou, mais precisamente, colapsos. Apesar de não combinar em nada com o meu comportamento na maior parte do tempo, sempre que ele aparecia eu perdia alguns contatos, distanciava outros e magoava os mais próximos.

O que é uma crise no autismo?

Os colapsos são uma perda temporária do controle emocional pelo indivíduo. Eles se caracterizam por choros, gritos e movimentos repetitivos intensos. Algumas vezes podem trazer momentos de auto ou hétero agressão.

A psicóloga Lídia Prata esclarece que essa espécie de crise nervosa apresenta características e motivações diferentes de episódios de birra. Na birra, a criança se protege de possíveis machucados e se satisfaz quando alguém dá o que ela deseja. Já o colapso, ou meltdown, tem início, meio e fim independentemente da vontade ou ação externa.

Em um momento como esse, o ideal é sempre não pôr mais lenha na fogueira. Assim, é importante evitar falatórios ou orientações extensas que deixem a pessoa ainda mais confusa. Dessa forma, sempre é relevante lembrar que comportamento é comunicação, para perceber as causas e possíveis gatilhos dessas crises.

O julgamento pós-crise no autismo

Por outro lado, é preciso admitir que a minha família nunca foi a mais habilidosa em lidar com as minhas crises. Para além dos infindáveis bate-bocas nos momentos de agressividade, eu tinha que lidar com os julgamentos que perduravam após o colapso cessar. Desse modo, ganhei o rótulo de ‘menina nervosa’.  Minhas crises não eram vistas como um sintoma ou característica neurodivergente, e sim como uma maneira esperta de manipulação.

Eu não fazia aquilo para conseguir o que queria e muito menos para chamar a atenção.  Eram momentos de desespero com os quais eu ainda não tinha as ferramentas para lidar, e ainda tinha que interagir com elementos externos que despertavam as minhas características mais brutais. Com o tempo, percebi o quanto a crise tirava a minha credibilidade e que aqueles mais ardilosos até apreciavam que eu pudesse ter uma, para desqualificar uma argumentação anterior consistente.

Prevenir é melhor que remediar

Não tem jeito: em relação à crise no autismo, prevenir sempre vai ser melhor do que remediar. A experiência me diz que o ambiente nem sempre vai ser favorável a isso. Então, busco dia após dia conseguir criar uma força interior que seja capaz de minimizar as influências nocivas ao redor.

Descobri a meditação, os filmes, a literatura e o hiperfoco de modo geral como aliados para momentos assim. Claro, o auxílio de um bom psicólogo e, em alguns casos, de uma medicação bem regulada costuma ser crucial. Portanto, o autista precisa se cuidar para estar pleno e apto a transformar o mundo que o cerca.

Sobre autismo, colapsos, estresse pós-traumático e esperança na Pandemia

Tempo de Leitura: 3 minutosGostaria de dividir uma experiência bastante pessoal, sobre a qual muito raramente relato publicamente, seja na tentativa de fazer uma analogia esperançosa com a crise que vivemos, ou pelo menos para compartilhar algo positivo, ao menos para mim, nos difíceis tempos do Covid-19.

Por volta de agosto de 2017, eu e minha mãe fomos vítimas de um abuso psicológico muito forte. Após o encontro com o agressor, passei por um período extremamente tenso de estresse pós-traumático.

Com isto, os meltdowns (crises de agressividade), que sempre apresentei por vez ou outra na vida, como é comum em alguns autistas, se tornaram mais frequentes, além de ficarem muito mais intensos, me tornando uma pessoa auto destrutiva e até perigosa.

O estresse pós-traumático foi tão intenso que, entre 2018 e 2019, fiz terapia com uma psicóloga especializada em trauma, a quem tenho imensa gratidão, antes de retornar à Terapia Cognitivo Comportamental, que é mais indicada a pessoas com o meu perfil.

Não era fácil. Lembro-me que, em um destes meltdowns, em dezembro de 2018, quase fui internada em um hospital psiquiátrico. Em outro momento, ocorrido no mês de setembro de 2017, tive que fazer lavagem estomacal pela enorme quantidade de remédios ingeridos tentando esquecer a situação. Em 08 de maio de 2019, ainda rememorando os traumas vividos, a situação se repetiu.

08 de maio ‘celebrei’ dois anos sem sinal dessas crises nervosas. Eu nunca fiquei tanto tempo sem um meltdown, desde a infância, por isso, conto cada dia sem crise de forma similar ao que fazem os membros do alcoólicos anônimos. Eu não quero ter crises assim nunca mais, e sei que isso será impossível sem o meu impulso interno, que, ainda bem, permanece muito forte e determino que continuará sempre dessa forma.

Sobre o agressor e as pessoas que o conduziram a este ato (que, ainda assim, ele realizou por opção própria), prefiro fugir do senso comum da vingança x perdão. Nunca vi vingança como forma de justiça, pelo contrário, pensar nisso só me faria mais mal. Não sei exatamente se perdoei, também, essas pessoas. Eu tenho registro, mas, mais importante que isso é que elas não fazem mais parte da minha vida. Então, como diz a música de Tina Turner que tenho ouvido recorrentemente nesta quarentena, “I don’t really want to fight no more. This is time for letting go“.

Pode parecer um relato pequeno ou muito pessoal para alguns, mas quem convive com autistas ou é autista que apresente crises muito intensas (nem todos são assim), como as quem eu tinha, sabe a grandiosidade de se sentir livre delas e, também, de pensamentos obsessivos muito negativos.

É isso que eu queria compartilhar com vocês em tempos de Covid-19. Há uma famosa frase de Nichiren Daishonin: “O Inverno nunca falha em se tornar primavera.” É necessário o rigor do inverno para desabrochar as flores da primavera. Ao mesmo tempo, em outro escrito, ele afirma que até o inferno pode ser a Terra da Luz Tranquila. Para nós, praticantes do Budismo Nichiren, tanto o inferno quando a Terra Pura só existem na mente e no coração das pessoas. De acordo com essa filosofia, o que é chamado “Deus” em outras culturas é uma condição que existe dentro de todos nós, e pode ser ativada.

Assim, mesmo os tempos difíceis podem ser encarados com sabedoria que preencham nossos dias com maior leveza e se tornem combustível para utilizar os golpes duros da vida como forma de nos auto aprimorarmos e incentivarmos uns aos outros. O sofrimento existe e deve ser tratado com a maior seriedade e cuidado possíveis. O que vamos fazer com os efeitos que ele gera a longo prazo é escolha nossa.