29 de junho de 2023

Tempo de Leitura: 3 minutos

O shutdown ou desligamento no autista, segundo a literatura e mais recentemente no livro Autismo: Catatonia, Shutdown e Breakdown – Uma Abordagem Psicoecológica, da Dra. Amitta Shah, é descrito como fenotipicamente como um aparente desligamento; uma alienação do contexto em que está inserido; um total isolamento.

Há uma quietude, um olhar de distanciamento e uma parente exclusão de si em relação a todo o entorno. Por vezes, a pessoa pode se retirar do ambiente e se isolar fisicamente. As emoções ficam internalizadas e não há acesso do exterior. Pode ser visto como um movimento involuntário de auto regulação, quando a pessoa não percebe que está se isolando.

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Mais recentemente, com ouvidos bem abertos para o que narram os autistas, o shutdown pode ser descrito, internamente, como um imenso buraco onde ideias perseverantes vão ecoando sobre determinado tema e, a mente, involuntariamente, vai respondendo de acordo com seu repertório de experiências já vividas. Vem sendo relatado como uma sensação de certezas sobre determinado assunto que lhes incomoda e como se ninguém mais soubesse responder de forma mais adequada sobre aquele assunto. Obviamente, o tema geralmente traz sofrimento e as respostas do exterior insistem em dizer: “ah, isso é bobagem” ou “isso passa” ou ainda, respostas imediatistas que não respondem a verdadeira questão.

Passa como? Isso precisa passar agora porque está incomodando muito. Então, o shutdown entra, involuntariamente em ação, buscando respostas de alívio. O que nem sempre acontece. As ideias continuam lá e, como por vezes o repertório pode ser escasso, dependendo do assunto, há um feedback limitado, criando um círculo vicioso que não leva a lugar algum.

Como ajudar? Como encontrar saídas desse lugar que parece abrir cada vez mais o buraco?

Ouvir é sempre a primeira resposta dessa vossa colunista. Vou trazer um trecho de uma sessão em que uma simples ação feita todos os dias por pessoas típicas pode ser um gatilho para um shutdown.

“Odeio quando pedem para pesquisar na internet”

(eu) Odeia? Como assim? Me explica melhor.

Não sei pesquisar, eu fico ali parado sem saber o que fazer e me perco.” Aqui, o que naturalmente as pessoas fazem, é explicar como se pesquisa na internet. O que em nada acrescentaria ao repertório da pessoa e questão.

(eu) Pesquisar eu sei que você sabe porque você vive me mandando links das coisas que você gosta e assiste. O que exatamente você não sabe pesquisar que te dá essa sensação?

“Algum professor me pede para pesquisar sobre um assunto e abrem aquelas páginas e páginas que posso entrar e são centenas de informações e é como se um buraco se abrisse para mim e eu me perdendo nele.” Aqui, novamente, naturalmente as pessoas responderiam: mas é só colocar o tema e pronto. Isso ele também já sabe.

(eu) Então você não sabe como escolher a melhor página para fazer sua pesquisa. É isso?

“Não sei se é isso. Mas acho que isso pode ajudar. Não tem como ler tudo que está lá. Como vou conseguir responder a questão?

(eu) Você pode perguntar ao seu professor, quais os sites ele confia para tal pesquisa. Quer fazer um exercício agora?

Isso mudou a vida do jovem rapaz de 17 anos. Só isso. Não se sente mais no buraco da internet; realiza as lições de casa; tem hoje sites de sua confiança para pesquisas; sabe que não precisa ler todas as pesquisas sobre determinado assunto e, mais o mais relevante de tudo, não se perde em seus pensamentos, paralisado diante de ideias circulares que o deixavam horas diante do computador sem saber para onde ir e sem conseguir se mover.

Esse é um exemplo bem simples. Outros sobre o medo de avião, sair de casa, medo de perder os pais, como procurar emprego, fazer um CV, entre tantos outros pensamentos paralisantes podem ser os gatilhos de um shutdown: um questionamento infinito e sem saída.

Ouvir, sempre a primeira resposta. Perguntar, a segunda.

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É psicóloga clínica, terapeuta de família, diretora do Centro de Convivência Movimento – local de atendimento para autistas –, autora de vários artigos e capítulos de livros, membro do GT de TEA da SMPD de São Paulo e membro do Eu me Protejo (Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes 2020, na categoria Produção de Conhecimento).

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