Arquivo para Tag: celebridades

‘Preciso dar a eles o máximo de amor’, diz ator britânico sobre filhos autistas

Tempo de Leitura: < 1 minutoO casal de atores Paddy e Christine McGuiness falou abertamente sobre o autismo dos seus filhos no documentário Paddy And Christine McGuinness: Our Family And Autism, lançado pela BBC.

“Não estava infeliz por mim. Só estava estressado com a coisa toda, mas trabalhei muito porque pensei que a única coisa que posso fazer por essas crianças é dar a eles uma vida onde eles se sintam o mais confortáveis ​​possível. Eu deveria ter pensado que preciso dar a eles o máximo de amor que puder. É mais sobre ter tempo com eles. Eu percebo isso agora”, disse Paddy, em texto traduzido pela Crescer.

Messi não é autista

Tempo de Leitura: 8 minutos

Fake news foi criada no Brasil em 2013 e circula até hoje na internet

(Reportagem de capa da edição número 14, de set/out/nov.2021)

Messi jamais se declarou autista. Também nunca houve um familiar ou uma fonte minimamente próxima a ele que confirmasse esse diagnóstico. Mas, de onde saiu essa “informação”, que pode ser encontrada em milhares de sites, e como ganhou repercussão mundo afora?

Acredite! Foi uma fake news originada no Brasil. Mais que uma notícia falsa ou imprecisa, uma fake news (termo tão citado nos últimos anos e que foi considerada palavra do ano pelo dicionário inglês Collins em 2017) é uma notícia fraudulenta, criada propositadamente para enganar as pessoas e disseminar algo que interessa a seu criador, nem que seja apenas para obter mais atenção ou audiência. E, muitas vezes, o criador dissemina a fake news sem se importar se isso prejudicará a imagem de outra pessoa ou instituição.

Capa da Revista Autismo edição número 14 (set/out/nov.2021) - Canal Autismo / Revista Autismo

Capa da edição número 14.

Essa lenda urbana nasceu em 27 de agosto de 2013, quando o escritor e jornalista Roberto Amado (sobrinho de Jorge Amado) publicou em seu site, à época, o “Poucas Palavras“, um longo texto dizendo que o craque Lionel Messi “foi diagnosticado aos 8 anos de idade, ainda na Argentina, com a síndrome de Asperger”.

Amado enumerou diversas características que “provariam” que Messi é autista, como a timidez com a imprensa e a peculiaridade de sempre dar dribles e chutar a gol da mesma maneira, o que seriam indícios de padrões repetidos, típicos de um “portador da síndrome” (sim, ele ainda usou o termo “portador”!).

No mesmo texto — intitulado “Como o autismo de Messi ajudou-o a ser gênio” —, Roberto Amado destaca o famoso filme “Rain Man”, de 1988, com Tom Cruise e Dustin Hoffman, o que deixa o artigo mais atraente, e acaba por misturar pontos totalmente diferentes do espectro do autismo, comparando síndrome de savant com asperger. Uma confusão só!

Após esse diagnóstico à distância do brasileiro, a história (como toda boa fake news), depois de publicada na internet, se alastrou e ganhou o planeta.

Romário no Twitter

Poucos dias depois, em 8 de setembro de 2013, o ex-jogador Romário entrou na polêmica. Ele publicou na rede social Twitter: “Vocês sabiam que o Messi tem Síndrome de Asperger? É uma forma leve de autismo, que deu a ele o dom do foco e concentração acima de tudo e de todos. Newton e Einstein também tinham níveis de autismo. Espero que, como eles, Messi se supere a cada dia e continue nos apresentando esse belo futebol”. Em seguida, postou o link do artigo de Roberto Amado. Isso foi parar na mídia internacional e chegou a Jorge Messi, pai do craque, que disse que processaria o brasileiro. Romário, novamente via Twitter, respondeu: “Sites da Espanha divulgaram que eu havia dito que Messi tem um transtorno mental e estão fazendo sensacionalismo em cima do assunto. Divulguei uma informação que veículos no Brasil têm abordado. Até uma TV abordou o assunto. Então fica aqui a informação: de acordo com o pai do Messi, ele não tem autismo. Não sou médico para confrontar a informação. Ah, ele disse que vai me processar por isso. Pode processar à vontade”, escreveu Romário.

No dia 26 de setembro de 2013, a reportagem do UOL Esporte falou com Diego Schwarzstein, médico que tratou o principal e conhecido problema de saúde de Messi: uma deficiência hormonal que comprometeu seu crescimento. O médico, que ainda mora em Rosário (Argentina), cidade natal de Messi, não deu margem a dúvidas: “Leo nunca foi diagnosticado como Asperger ou qualquer outra forma de autismo. Isso é realmente uma bobagem”, afirmou categoricamente.

Capa do Livro de Guillem Balague: reprodução do site: guillembalague.com

Outro aspecto muito importante que corrobora a falsidade da afirmação é o “autismo” de Messi ter sido ignorado pelas principais e mais respeitadas biografias (em texto e em vídeo) já lançadas sobre sua vida e carreira em 2009, 2010, 2011, 2012 e 2015. Um exemplo vem do jornalista e escritor espanhol Guillem Balague, especialista em futebol e em biografias de craques, que naquele mesmo ano de 2013 publicou o livro “Messi“, uma biografia autorizada do argentino. “Essa história é um lixo!”, exclamou ele ao ser perguntado sobre o assunto.

Dois anos depois, em 2015, no jornal Extra, o sobrinho de Jorge Amado reafirmou a história e ainda desafiou: “Conversei com pessoas envolvidas com o assunto e ninguém sequer contestou o contrário. Se eu cometi uma imprudência é problema meu. Não preciso provar nada para ninguém. Se ele quiser me processar, que vá provar na Justiça. Há dois anos que falo isso porque eu conheço o olhar e pessoas envolvidas nessa questão. Não é demérito nenhum ter autismo. É só uma curiosidade mesmo (sic)”, argumentou.

Uma mentira contada mil vezes…

Em 2017​​, no programa de TV “Encontro” (Rede Globo), Fátima Bernardes teve que corrigir um convidado que fez novamente tal afirmação sobre o autismo de Messi. O convidado Gustavo Cerbasi disse: “Um bom exemplo, Messi, astro do futebol, tem no autismo uma explicação para as qualidades que ele tem. Maior precisão, maior foco”. Mas, a apresentadora corrigiu-o de imediato, dizendo que isso é uma lenda urbana que não tem confirmação. E, minutos depois, ainda reforçou: “Olha, a gente tá aqui recebendo [a informação de] que o médico do Messi, por conta disso [a suspeita de que o atleta tem autismo] deu uma declaração dizendo que ele não tem autismo”.

Recentemente, a história voltou à tona, em julho de 2020, quando o ex-jogador francês Christophe Dugarry, ao comentar sobre a polêmica envolvendo o compatriota Griezmann, acabou atingindo também o craque argentino. “De que ele [Griezmann] tem medo? De um garoto de um metro e meio de altura que é meio autista? O que precisa fazer é se impor de vez em quando. Faz um ano que se diz que ele tem problemas com Messi. O que tem que fazer é dar um soco na cara”, disse Dugarry, de maneira rude, em entrevista à RMC Sport. Três dias depois ele se desculpou.

A construção de uma fake news

O jornalista Tiago Abreu destacou, no episódio “Messi não é autista” do podcast Introvertendo, de junho de 2020, sete pontos que mostram a fragilidade dessa fake news:

“1º ponto — Roberto Amado se baseia numa informação difícil de se verificar.  Ele fala que Messi foi diagnosticado com Síndrome de Asperger aos oito anos de idade, e que o diagnóstico foi pouco divulgado como uma maneira de protegê-lo. E aí ele já levanta aquela suspeita de que o Messi esconde algo e, como ele esconde, seria difícil o jogador assumir que é autista. Aliás, se Messi tivesse sido diagnosticado com Asperger como Amado afirmou, seria em meados de 1995, período em que o diagnóstico era extremamente recente (e raro) nos manuais médicos.

2º ponto — Ele tenta produzir uma evidência anedótica. Você já deve ter ouvido falar naquelas histórias de: ‘eu ouvi dizer que a pessoa tal é isso ou aquilo’, você tenta passar isso de boca em boca e aí, à medida que as pessoas vão repetindo, isso se transforma numa verdade. Esse texto é todo construído dessa forma. Ele procura relatos de pais e mães, se justifica dizendo que é filho de profissionais médicos, tenta juntar vários elementos que são frágeis por si só para poder construir essa opinião de que o Messi é autista. Pra dizer: ‘não só eu penso que o Messi é autista, outras pessoas pensam da mesma forma’.

3º ponto — ele usa verdades para sustentar um ponto de vista geral questionável. Então, por exemplo, Amado cita o surfista Clay Marzo, que é realmente diagnosticado com autismo, como exemplo de autistas nos esportes.

4º ponto — o autor coloca outras fake news dentro dessa pra endossar a visão. Então, ele fala que Einstein e Bill Gates são autistas e gênios. O texto gira em torno da ideia de que o autista é um gênio. 

5º ponto — o mais óbvio é que ele inverte o ônus da prova. Ele publicou o texto, foi contestado, e teve uma reação do tipo: ‘são eles que têm que se virar e provar que o Messi não é autista. Eu estou afirmando, e vocês tem que provar o contrário’. É uma linha de raciocínio completamente bizarra. 

6º ponto — o médico pessoal do Messi afirmou que o que foi dito pelo Roberto Amado é uma completa ‘bobagem’. 

7º ponto — nenhuma biografia séria e bem construída sobre o Messi tem qualquer menção ao autismo.”

Aliás, vale ouvir (ou ler) aquele episódio todo (tem link abaixo) do Introvertendo, pois há muitos comentários e informações interessantes vindas de quem realmente pode falar de um diagnóstico de autismo: os próprios autistas.

Muitas vezes, porém, uma mentira “floreada” pode ser muito mais agradável e desejável que a verdade nua e crua. Tiago conta que muitos pais repudiaram um texto seu, publicado um ano antes, com argumentações de que Messi não é autista e contestaram essa oposição ao que muitos chamaram de “uma história tão inspiradora” — de que o Messi seria autista. “Pais e mães que tiveram contato com aquele meu texto vieram xingar a gente!” conta o jornalista, abismado.

Famosos autistas, autistas famosos

Quer citar pessoas famosas que estão no espectro do autismo? Cite quem declara isso abertamente, como a escritora e especialista em ciência animal Temple Grandin, o ator Anthony Hopkins, a ecoativista Greta Thunberg, ou o mais recente famoso a mencionar publicamente seu diagnóstico de autismo, o bilionário Elon Musk, e tantos outros.

(Com colaboração de Tiago Abreu)

 

A história de Messi

Pedro Henrique Quiste

Nasceu na Argentina no final da década de oitenta e começou a jogar no Newell’s Old Boys, que era o time da sua cidade natal, Rosário, aos seis anos. Quando criança, mostrava muita habilidade com a bola, mas tinha um problema hormonal que dificultava o seu crescimento.

Entre nove e dez anos, ele foi diagnosticado com esse problema hormonal e teve de começar um tratamento complicado, que custava mil pesos argentinos por mês, em que ele precisava aplicar, uma vez por noite, uma injeção em sua perna. Ele mesmo a aplicava e ficava tudo tranquilo. O Newell’s Old Boys se recusou a pagar o tratamento e a família decidiu levar o garoto para fazer um teste no time do Barcelona, na Catalunha (Espanha) — um dos maiores times da história do futebol. 

No ano 2000, Messi foi levado para lá, fez um teste e, poucos meses depois, foi aprovado. Chegaram a um acordo e o Barcelona passou a ajudar naquele tratamento. Messi finalmente cresceu 30 centímetros em estatura após o começo do tratamento — quando ele começou ali, aos 10 anos, tinha um metro e quarenta e hoje tem um metro e setenta. Uma história de superação. 

Estreou em 2005 como profissional e em 2008 chegou ao seu auge. Há quem diga que, depois do Pelé e do Maradona, ele é o maior, o mais conhecido. Com uma lista imensa de premiações pessoais, as principais foram: Bola de Ouro da FIFA (2010, 2011, 2012 e 2015) e Melhor jogador do mundo pela FIFA (2009 e 2019).

Pedro Henrique Quiste é estudante de jornalismo, apaixonado por esportes e pela criação de conteúdo nessa área. Twitter: @ph_quiste.

 

CONTEÚDO EXTRA

‘Meu autismo é um presente’, diz autista vencedora de reality show

Tempo de Leitura: < 1 minutoSophie Baverstock, mais recente vencedora do Glow Up, um reality show britânico de maquiagem, é diagnosticada com autismo. Em entrevista, ela contou como o autismo a ajudou na profissão e que decidiu trazer o espectro autista para debate no programa.

“Eu pensei, ‘Esta é minha chance de me apresentar e dizer que quero estar neste show e mostrar às pessoas que você pode fazer coisas quando é autista. Eu estava muito nervosa no lançamento do primeiro episódio. [Mas] recebi uma resposta tão boa. Muitas meninas me enviaram mensagens dizendo que agora se entendem um pouco melhor e que algumas pessoas foram diagnosticadas desde que me viram no programa. Pessoas com autismo ainda são um grupo bastante escondido na sociedade”, disse ela a BBC.

Ao longo da vida, Sophie lidou com dificuldades na escola e incompreensão social. Hoje, ela considera que o autismo contribui na sua atividade profissional como maquiadora. “Embora meu autismo não me defina, ele definitivamente afeta minha personalidade, mas de um jeito bom. É definitivamente mais um presente”, contou.

Wentworth Miller relata que foi diagnosticado com autismo

Tempo de Leitura: < 1 minutoO ator Wentworth Miller, mais conhecido por sua atuação na série Prision Break, revelou ter sido diagnosticado com autismo. Em um relato publicado em suas redes na última terça-feira (27), o ator afirmou que o processo de diagnóstico começou com uma identificação pessoal com o autismo e com a busca de profissionais.

“Eu não sei o suficiente sobre autismo (tem muito a se saber). Meu trabalho agora parece que será evoluir meu conhecimento, reexaminando por novas lentes 5 décadas de experiência vivida. E isso leva tempo”, afirmou Miller, que também disse que prefere destacar o trabalho de outros autistas do que se propor como uma voz que represente-os.

O ator também disse que se sente satisfeito por ser autista. “Eu sei que ser autista é central para quem eu sou, para tudo o que já fiz ou articulei. Também gostaria de agradecer a todos que me deram, consciente ou inconscientemente, um pouco de espaço para me mover pelo mundo de uma forma que fazia sentido para mim, mesmo que não fizesse sentido para os outros”, destacou.

David Byrne, do Talking Heads, é autista

Tempo de Leitura: < 1 minutoO cantor e compositor David Byrne, conhecido por ter sido um dos fundadores, vocalista e líder conceitual da banda Talking Heads, foi diagnosticado com Síndrome de Asperger — hoje dentro do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Ele falou de forma mais aberta sobre seu diagnóstico em 2020, em entrevista no podcast “3 Girls, 1 Keith”.

“Eu não conseguia falar com as pessoas cara a cara, então subi no palco e comecei a gritar, guinchar e se contorcer”, disse ele, que iniciou a carreira na década de 1970. Byrne também chegou a afirmar que o autismo o ajuda a ficar sozinho e se manter focado em atividades. “Esse é o meu superpoder. Posso usar isso do meu jeito”, concluiu.

Ouça o episódio:

Entrevista exclusiva com Marcos Mion

Tempo de Leitura: 8 minutos

Uma entrevista exclusiva com o pai do Romeo

Revista Autismo nº 13 - Entrevista Exclusiva com Marcos Mion — Canal Autismo

 Entrevista foi capa da edição número 13 da Revista Autismo.

Francisco Paiva Junior,
editor-chefe da Revista Autismo

Sabe aquele papo que a gente tem na varanda, num domingo de sol, com alguém que não vemos há muito tempo? Foi assim que me senti nesta entrevista exclusiva que Marcos Mion concedeu à Revista Autismo.

Um papo de mais de uma hora, da maneira mais franca e aberta possível, sem evitar nenhum assunto e com uma riqueza de detalhes que só a versão em vídeo na íntegra, que está no nosso canal no Youtube, poderá lhe mostrar.

Sintetizo aqui os pontos mais importantes da conversa e tento dar a dimensão da pessoa com maior visibilidade no Brasil a falar abertamente a respeito de autismo. Mais que isso, a ser mais um ativista da causa.

Revista Autismo — Como você chegou à suspeita de que o seu filho mais velho, Romeo, tinha um atraso no desenvolvimento?

Marcos Mion — Antes de contar a nossa história, eu gosto de reforçar que ela não é um exemplo, não é o ideal. Venho de uma família de médicos e, por isso, não se encaixa na maioria dos exemplos de casos do nosso país. Logo no nascimento do Romeo, minha mãe já me puxou de lado e me deu o alerta: “Eu acho que tem alguma coisa!”. Pra mim, foi o mesmo que ouvir “Seu filho é a coisa mais linda do mundo!”, não fez nenhuma diferença. O Romeo nasceu com uma luxação congênita, o autismo veio só depois. A minha postura quanto à situação do Romeo e como eu levo isso hoje em dia está ajudando muito a mudar a forma com que as pessoas encaram o autismo. No começo, eu recebia muitas mensagens lamentando, com tristeza. E hoje, por incrível que pareça, mudou muito. A maioria dos recados que eu recebo são de pais e mães felizes. Que tiveram a aceitação de uma forma muito positiva e muito simples. De certa forma — e falo isso com muita humildade —, pelo holofote que eu coloco na situação, ouço muito assim: “Cara, meu filho é igual ao do Marcos Mion! E o filho dele é incrível”.  Então, essa mudança de foco e de approach pro transtorno ou para a deficiência é uma enorme vitória. Juro pra você que eu não gastei um minuto da minha vida lamentando. Simplesmente entendi, aceitei, aprendi, me adaptei, segui em frente e agradeci. Ter meu filho era o sonho da minha vida. Não me interessa se meu filho veio autista, neurotípico, verde com bolinhas rosa ou deficiente físico. Nada disso foi importante para mim e não é até hoje. Foi o maior presente que Deus poderia me dar: me dar a honra de ser o guardião de um anjo na Terra. E eu falo “anjo”! Sei que tem um monte de autistas que não gostam e tudo bem. Cada um fala o que quer, faz o que quer. Eu encaro dessa forma os autistas do nível do meu filho, considero anjos porque eles não trabalham com palavras, eles trabalham com amor, com coisas etéreas. É diferente de um autista leve que consegue argumentar, se defender, ter voz ativa. Meu filho e inúmeros autistas não têm. É uma pessoa que “cai”, ilumina e muda a vida de todos ao redor, essas pessoas iluminam as outras. É um efeito cascata de amor, de pureza, de rever os conceitos. Então, eu falo, sim! Meu filho é um anjo. Eu sou a voz dele. Ele não consegue lutar pelos direitos dele e age 24 horas baseado em sentimento, em amor, em decepção, em alegria, em tristeza… algo muito puro. É bom eu poder falar isso, pois eu sei que tem um movimento enorme, e muitas vezes vem contra mim, que eu virei a referência de ver o autismo com positividade. Muitos acham que vivo um autismo “café-com-leite”. Porque você tem dinheiro para terapias, para tirar seu filho do país. Óbvio que sou privilegiado e tenho condições de dar o melhor para o meu filho e é exatamente por isso que eu me imponho a obrigação de lutar por todos os autistas. Nada que você faça para beneficiar só você ou os seus vale a pena. Você tem que beneficiar o maior número de pessoas possível, sempre. Esse é o lema da minha vida. Eu faço tanta coisa, não só pelas leis, mas temos um grupo no Facebook [chamado “Comunidade Pró-Autismo“], com mais de 260 mil pessoas, que virou um centro de apoio, de alento, de informação. Então, independente da condição financeira, o autismo não muda. A genética que funciona é igual para qualquer um que recebe o diagnóstico. Se eu quiser fazer um relato de sofrimento, de dor, de desespero, eu preciso de meio segundo pra começar.

RA — Você escolheu o caminho da positividade?

Mion — Exatamente. Esse é o ponto, Paiva. Ontem eu passei 10 minutos tentando explicar ao Romeo como pendurar uma toalha num gancho. Eu não quis fazer por ele, quis fazer ele entender. Se a gente quiser contar essa história, de um menino que vai fazer 16 anos e não consegue ter o cognitivo para entender como pendurar uma toalha no gancho, posso contar, tem todos os dias. A minha dificuldade como pai é igual a de todos os pais. A essência é a mesma. Então é uma decisão diária minha encarar como uma bênção, como uma positividade.

RA — Você considera ter sido lapidado pelo Romeo? Isso também foi uma opção?

Mion — Sem o Romeo eu não teria conseguido nada na minha vida. Eu era muito egocêntrico! Foi me dada a chance de me lapidar. O número de  homens que vão embora quando a família recebe um diagnóstico de [um filho com] autismo ou qualquer outra deficiência é gigantesco. Ficar é amar. Virar as costas e ir embora é muito fácil. Se alguém que abandonou a família estiver lendo isso, volte, ainda dá tempo, o propósito que Deus te deu, seu filho, sua família estão lá. Volta, pois eles precisam de você.

RA — O diagnóstico mesmo do Romeo veio quando?

Mion — Quando ele tinha sete ou oito anos. A gente já trabalhava desde um ano, um ano e meio. Não começamos só depois do diagnóstico. Por isso eu digo que minha história é diferente. Recomendo o diagnóstico sempre o quanto antes, mas eu tenho que ser sincero que, na minha vida, o diagnóstico veio muito tempo depois, pois já estávamos trabalhando desde o início.

RA — Como foi a decisão de tornar público o autismo na sua vida? Você poderia manter sua privacidade e ninguém saber que o Romeo é autista e isso teria de ser respeitado, como muitos famosos devem fazer.

Mion — Foi difícil. Tudo que foi muito fácil na aceitação, nessa parte foi muito difícil por medo. A gente não tinha ideia de como as pessoas iam receber isso, além de ser uma exposição grande de um filho, né!? E, na época, não tinha uma referência. Com toda humildade, mas não tinha um Marcos Mion com milhões de seguidores para falar tão aberta e claramente sobre autismo. Eu não fui o primeiro artista a ter um filho ou um parente com autismo! Chegou um momento, que conversei com minha mulher, e a gente cansou de viver de uma forma… escondida! Aí fiz um texto nas redes sociais falando, explicando isso, saiu publicado em outros veículos grandes de mídia e esse texto virou meio que um símbolo. É, de longe, o meu conteúdo mais replicado!

RA — Qual a primeira lição que o Romeu te ensinou?

Mion — Não é nem a primeira, mas uma lição que eu tenho todos os dias: todo dia eu tenho que passar por cima de mim. Todos os dias eu tenho que parar alguma coisa importante para escovar os dentes dele, para dar banho nele, para ajudá-lo nas coisas mais corriqueiras para pessoas com 15 anos de idade (Romeo faz 16 dia 23.jun.2021). E você ter essa responsabilidade te faz ver as coisas de uma forma muito diferente, mais altruísta. O foco não pode ser você, não pode ser a pessoa, tem que sempre ser o próximo.

RA — O que te motivou a lutar por leis, como a Lei Romeo Mion, com a carteira de  identificação dos autistas, e a que inclui perguntas sobre autismo no Censo Demográfico?

Mion — Não fiz sozinho, fui um instrumento. Eu estava lá com ativistas, mães, pais, com décadas de trabalho em cima disso a mais do que eu. Me honra somar ao trabalho dessas pessoas. Aí a gente volta para a questão do propósito: não preenche a minha alma saber que dou para o meu filho o melhor e ver milhões de pessoas não conseguindo as mesmas condições para os seus filhos. Aí enveredei para o lado das políticas públicas, com influência da Fátima de Kwant e da Berenice Piana, que são pessoas que considero minhas mentoras no autismo. Aliás, graças à Fátima existe a Comunidade Pró-Autismo no Facebook, que considero trazer mais benefícios que uma lei, afinal são mais de 260 mil pessoas sendo beneficiadas com carinho e informação diariamente. Os livros, colunas, vídeos, textos que publico também ajudam muita gente. E, na lei do Censo, especificamente, a equipe do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e dos ministérios da Saúde e Educação me convenceram [ainda em 2019, antes da pandemia] de que o Censo não era o melhor caminho para ter a informação de quantos autistas temos, que teríamos formas melhores, menos arcaicas, como a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), também do IBGE. Porém, o presidente da República, na hora de sancionar,  me perguntou se eu queria ou não. Mesmo convencido de que não, eu disse que sim, pois eu estava lá representando outras pessoas e não a minha vontade. Todos com quem eu havia conversado antes, para me preparar, ativistas e instituições, sempre disseram sim. Fui fiel a eles. Já na lei da carteira de identificação tive um envolvimento maior, fui atrás de fazer isso acontecer, porque sempre achei uma grande necessidade.

RA — Você tem consciência de que é a pessoa com maior visibilidade no Brasil a falar de autismo?

Mion — Tenho noção dessa responsabilidade, por isso meu cuidado de sempre estar embasado para falar no assunto, para representar milhões de pessoas e o motivo da positividade e de encarar o autismo como uma bênção, pois já é difícil para as pessoas receberem o diagnóstico.

RA — E isso tem um preço, né?

Mion — Tem. A comunidade sabe que eu sou “caçado”. Sou muito blindado e nem sempre as coisas chegam até mim. Tem gente que chega a dizer que falo de autismo para ficar famoso (risos). Os vídeos de menor engajamento nas minhas redes sociais são os que eu falo sobre autismo. Com mais de 20 anos de televisão, a última coisa que a causa me traz é fama. O que ela me traz é propósito!

RA — Com essa sua superexposição, imagino que venham também “superproblemas”, como pessoas que te condenam por chamar autistas de anjos, ou de infantilizar, ou ainda por chamar de bênção. Como você lida com isso?

Mion — Não chega diretamente até mim, mas sei que acontece aqui e ali. Eu abro espaço para todos. Eu já gravei matérias com autistas que me disseram: “O que eu vou ouvir por estar aqui com você, dando entrevista!”. E depois que acaba, falam: “Que bom que sentei com você para esta entrevista. Obrigado pelo que você faz por nós, pela causa!”. Eu não trabalho para ser o destaque, trabalho para colocar a nossa causa no holofote e conseguirmos políticas públicas e respeito para os autistas. Temos que estar unidos para batalhar contra o preconceito.

RA — O que você mais deseja para os autistas no Brasil?

Mion — A aceitação popular da nossa causa, da forma autista de existir, levando em conta que não existe uma forma padrão, pois ainda vejo muito preconceito. E políticas públicas eficientes, pois, infelizmente, a maior parte da nossa população não tem condições de ter terapias e capacitação.

RA — Tem alguma novidade, algum projeto a respeito de autismo que você possa me contar?

Mion — Agora, na Netflix, vamos fazer a tradução e dublagem de “Amor no Espectro”, uma série maravilhosa que fala sobre relacionamentos. Inclusive me pediram que alguém no espectro acompanhasse a gravação para dar o tom certo na dublagem. Aí chamei a Kenya [Diehl], que trabalha comigo na Comunidade Pró-Autismo e é a primeira autista adulta com quem eu converso frequentemente, e ela me dá muitos insights. E, claro, tem outros projetos que, infelizmente, não posso contar ainda, mas vocês vão ficar sabendo.

 

CONTEÚDO EXTRA

Elon Musk e a ideia de superioridade ou inferioridade de autistas

Tempo de Leitura: 2 minutosDono de uma das maiores fortunas do planeta, Elon Musk, CEO da Tesla e fundador da SpaceX, afirmou ser diagnosticado autista durante a apresentação do programa americano de grande audiência “Saturday Night Live” (SNL). A revelação tem mobilizado reações distintas de afetos e desafetos na comunidade do autismo, inclusive no Brasil. A repercussão do diagnóstico de uma figura pública extremamente notória e controversa leva à reflexão sobre pontos importantes concernentes às narrativas acerca do autismo.

A situação abre discussões para refletirmos acerca tanto de questões éticas que ajudam a desconstruir o mito de pessoa autista totalmente pura e sem malícia quanto sobre a própria ideia de superioridade (ou inferioridade) que se encontram arraigadas nas redes comunicacionais sobre autismo.

Precisamos trazer à tona outros fatores que devem ser considerados, como oportunidades e traços de personalidade, para entendermos como ele chegou no patamar em que está.  Assim, o que para muitos se apresenta como um sinal de esperança, por evidenciar que existem pessoas no Espectro Autista bem-sucedidas e pertencentes às mais altas camadas sociais e econômicas, deve ser observado com cautela.

Outro ponto é a problematização em torno do termo Síndrome de Asperger, hoje englobada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), utilizado por Musk para a declaração. Embora esse diagnóstico tenha se popularizado entre pessoas com menor nível de suporte dentro da condição autista, não é mais considerado como uma identificação separada do autismo.

Muitas vezes o nome “Asperger” é utilizado, mesmo por autistas e familiares, para minimizar características do autismo e maximizar estereótipos de genialidade. Além disso, mas não menos importante, é que vários autistas não aderem a essa nomenclatura devido a pesquisas que revelam a contribuição de Hans Asperger, que dá nome a essa manifestação do TEA, ao regime nazista.

Musk não é bilionário por ser autista nem apesar disso, e o seu autismo não o afasta dos desafios e interesses da vida cotidiana. A narrativa de alguém bem-sucedido que se enquadre ao diagnóstico de TEA é, entretanto, sedutora. Mais ainda quando se trata de uma pessoa que se encaixe em diversos parâmetros sociais normativos, os quais contribuem, inclusive, para minimizar possíveis questionamentos ao laudo por leigos (situação pela qual muitos autistas adultos revelam passar).

Elon Musk revela publicamente ser autista

Tempo de Leitura: < 1 minutoElon Musk, CEO da Tesla e fundador da SpaceX, revelou ser diagnosticado com autismo em uma edição do Saturday Night Live deste sábado (8). Um dos homens mais ricos do mundo, Musk disse ser o primeiro autista a apresentar o programa, uma das atrações de maior audiência da televisão estadunidense. “Ou pelo menos o primeiro a admitir isso”, brincou ele.

“É ótimo apresentar o ‘Saturday Night Live’, e eu realmente quero dizer isso”, disse Musk no palco vestido com um terno e camiseta preta. “Às vezes, depois de dizer algo, tenho que dizer o que significa. Olha, eu sei que às vezes digo ou posto coisas estranhas, mas é assim que meu cérebro funciona”, completou.

Saturday Night Live

Assista ao vídeo do início do programa:

Greta Thunberg — Autismo leve que muda o mundo — Revista Autismo

Greta Thunberg

Tempo de Leitura: 4 minutos

Autismo leve e hiperfoco que mudam o mundo

Fatima de Kwant

A pessoa mais comentada do ano é, sem dúvida, a ativista do meio ambiente, Greta Thunberg. A jovem de apenas dezesseis anos, nascida na Suécia, tornou-se a mais conhecida representante juvenil das comunidades mundiais que lutam pela preservação da natureza, tema bem em pauta, internacionalmente.

A curiosidade adicional é que Greta tem o diagnóstico de Síndrome de Asperger.

Caracterizada pelo discurso peculiar – que muitos acreditam ser uma manobra da esquerda internacional – Greta é amada e odiada ao mesmo tempo, um fenômeno mundial dos últimos tempos: ou se gosta ou se desgosta, ou se é a favor ou se é contra, sem meio termo, sem equilíbrio.

Sendo assim, a menina passa a ser “boa ou má”, pensamento maniqueísta da sociedade cada vez mais movida a crer no que outros dizem, em fake news, ou achar que a verdade é fake. Sociedade que acredita nos falsos profetas que os fazem crer em suas verdades como se elas fossem de todos. Por serem muitos, muitas são as opiniões extremas de quem admira ou despreza a jovem ativista.

Mistério

Mas qual é o mistério da Greta? Por que justamente esta jovem chamou tanta atenção do mundo, tendo audiências até com os maiores líderes mundiais? Não foi somente a tenra idade ou a aparência física, com as típicas duas tranças nos cabelos das quais não abre mão. 

Greta Thunberg é menina, autista e ativista pelo meio ambiente — três minorias em uma só pessoa. Todo mundo fala dela. Todo mundo acha que a conhece e conhece suas intenções. Fato é que poucos conhecem o autismo, e como se manifesta em pessoas de alto funcionamento. 

Greta é autista mesmo, Asperger. A dedicação ao meio ambiente, e a paixão com a qual abraçou a causa, a fazem parecer quase um soldado em guerra, enfrentando os líderes mais poderosos do mundo para defender seu ideal. Dizem que seus pais a influenciaram na opção pela causa, e a manipulam em suas escolhas. Porém, sejamos honestos: todos os nossos pais nos influencia(ra)m em alguma (ou mais) fase(s) da vida. Faz parte de pertencer a uma família. Com os autistas não é diferente. 

Autismo leve sempre pesa

A sociedade moderna se empenha na conscientização do autismo. O desconhecimento das décadas anteriores deu lugar à disseminação de informação em massa. No entanto, ao contrário do conhecimento do autismo infantil, ainda falta aprender mais sobre como o TEA se manifesta nas fases posteriores. Crianças autistas crescem e seguem necessitando de apoio. No caso do autismo considerado “leve” (nível 1), crianças bem sucedidas academicamente podem ainda se deparar com alguns desafios na adolescência e vida adulta. Não raro isso se dá nas áreas referentes à comunicação social (comunicação e interação). É o que aparenta ser a questão da jovem Greta, com imenso talento mas algumas limitações de comunicação — incluindo a expressão facial e corporal — que parecem ser a fonte de descrédito de seu discurso político. 

Hiperfoco

A capacidade de absoluta concentração em uma atividade é definida dentro do TEA como hiperfoco. Antigamente chamado de “obsessão”, o hiperfoco pode tomar horas da atenção de uma pessoa (autista), levando-a, por vezes, a comprometer o tempo em outras atividades. Em muitos casos, o hiperfoco é responsável pelo sucesso de muitos autistas de alto funcionamento, no que se destacam, justamente, pelo exercício daquilo em que “focam” com muita dedicação. 

No caso da Greta, o hiperfoco é o meio ambiente. Além disso, o modo de defender sua causa, com uma expressão facial e gestos um tanto irritadiços, quase gritando, podem ser reconhecidos nos autistas inteiramente convictos de suas palavras quando em debate ou discussão. É um jeito muito peculiar de ser, e de se comunicar, quando o autista têm absoluta certeza do que está falando. O próprio déficit de comunicação — inerente às características do Transtorno do Espectro do Autismo — justifica essa maneira de expressão social.

Símbolo

Greta pode não agradar a muitos pelo modo de defender suas convicções, mas, para várias pessoas das comunidades do autismo, a menina se tornou um símbolo de coragem e determinação ao não recuar ante às críticas e, inclusive, comentar sobre estas com um toque de humor sem demonstrar medo — a melhor resposta ao bullying. A dificuldade por ser mulher, autista e ativista por uma causa controversa não a inibiu, e isso, sem dúvida, é inspirador.

Muitos jovens autistas se reconhecem em Greta, ou a vêem como exemplo porque a menina conquista o que todos ambicionam (e merecem): ter voz.

Cada vez que um autista fala e a sociedade o desdenha, a mensagem é “você não tem voz”, “sua história não me interessa”, “você não sabe…não pode…não deve.” 

Seja como for, Greta, que foi uma das candidatas ao Prêmio Nobel da Paz 2019, é um nome já estabelecido mundialmente, fato extraordinário para qualquer jovem da sua idade. 

Greta desafia o preconceito e viaja por vários países levando uma mensagem, usando sua voz. Não é de se admirar que as pessoas a ouçam. O timing não podia ser melhor, já que as gerações mais novas de autistas leves estão, de fato, mudando o mundo.

O ecoativismo e o autismo de Greta Thunberg no podcast Introvertendo 68 — Revista Autismo

O ecoativismo e o autismo de Greta Thunberg no podcast Introvertendo 68

Tempo de Leitura: < 1 minuto

Com apenas 16 anos, Greta Thunberg ganhou popularidade em todo mundo pela sua defesa de medidas práticas contra a crise climática. Apesar disso, a jovem recebe várias críticas, entre elas o fato de ser diagnosticada com Síndrome de Asperger, que está dentro do espectro do autismo. No episódio desta sexta-feira do podcast Introvertendo, os podcasters Luca Nolasco e Tiago Abreu recebem a ativista Tânia Bezerra para discutir o trabalho de Greta e as críticas feitas à adolescente.

Acesse mais episódios deste podcast em Introvertendo.com.br.