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Messi não é autista

Tempo de Leitura: 8 minutos

Fake news foi criada no Brasil em 2013 e circula até hoje na internet

(Reportagem de capa da edição número 14, de set/out/nov.2021)

Messi jamais se declarou autista. Também nunca houve um familiar ou uma fonte minimamente próxima a ele que confirmasse esse diagnóstico. Mas, de onde saiu essa “informação”, que pode ser encontrada em milhares de sites, e como ganhou repercussão mundo afora?

Acredite! Foi uma fake news originada no Brasil. Mais que uma notícia falsa ou imprecisa, uma fake news (termo tão citado nos últimos anos e que foi considerada palavra do ano pelo dicionário inglês Collins em 2017) é uma notícia fraudulenta, criada propositadamente para enganar as pessoas e disseminar algo que interessa a seu criador, nem que seja apenas para obter mais atenção ou audiência. E, muitas vezes, o criador dissemina a fake news sem se importar se isso prejudicará a imagem de outra pessoa ou instituição.

Capa da Revista Autismo edição número 14 (set/out/nov.2021) - Canal Autismo / Revista Autismo

Capa da edição número 14.

Essa lenda urbana nasceu em 27 de agosto de 2013, quando o escritor e jornalista Roberto Amado (sobrinho de Jorge Amado) publicou em seu site, à época, o “Poucas Palavras“, um longo texto dizendo que o craque Lionel Messi “foi diagnosticado aos 8 anos de idade, ainda na Argentina, com a síndrome de Asperger”.

Amado enumerou diversas características que “provariam” que Messi é autista, como a timidez com a imprensa e a peculiaridade de sempre dar dribles e chutar a gol da mesma maneira, o que seriam indícios de padrões repetidos, típicos de um “portador da síndrome” (sim, ele ainda usou o termo “portador”!).

No mesmo texto — intitulado “Como o autismo de Messi ajudou-o a ser gênio” —, Roberto Amado destaca o famoso filme “Rain Man”, de 1988, com Tom Cruise e Dustin Hoffman, o que deixa o artigo mais atraente, e acaba por misturar pontos totalmente diferentes do espectro do autismo, comparando síndrome de savant com asperger. Uma confusão só!

Após esse diagnóstico à distância do brasileiro, a história (como toda boa fake news), depois de publicada na internet, se alastrou e ganhou o planeta.

Romário no Twitter

Poucos dias depois, em 8 de setembro de 2013, o ex-jogador Romário entrou na polêmica. Ele publicou na rede social Twitter: “Vocês sabiam que o Messi tem Síndrome de Asperger? É uma forma leve de autismo, que deu a ele o dom do foco e concentração acima de tudo e de todos. Newton e Einstein também tinham níveis de autismo. Espero que, como eles, Messi se supere a cada dia e continue nos apresentando esse belo futebol”. Em seguida, postou o link do artigo de Roberto Amado. Isso foi parar na mídia internacional e chegou a Jorge Messi, pai do craque, que disse que processaria o brasileiro. Romário, novamente via Twitter, respondeu: “Sites da Espanha divulgaram que eu havia dito que Messi tem um transtorno mental e estão fazendo sensacionalismo em cima do assunto. Divulguei uma informação que veículos no Brasil têm abordado. Até uma TV abordou o assunto. Então fica aqui a informação: de acordo com o pai do Messi, ele não tem autismo. Não sou médico para confrontar a informação. Ah, ele disse que vai me processar por isso. Pode processar à vontade”, escreveu Romário.

No dia 26 de setembro de 2013, a reportagem do UOL Esporte falou com Diego Schwarzstein, médico que tratou o principal e conhecido problema de saúde de Messi: uma deficiência hormonal que comprometeu seu crescimento. O médico, que ainda mora em Rosário (Argentina), cidade natal de Messi, não deu margem a dúvidas: “Leo nunca foi diagnosticado como Asperger ou qualquer outra forma de autismo. Isso é realmente uma bobagem”, afirmou categoricamente.

Capa do Livro de Guillem Balague: reprodução do site: guillembalague.com

Outro aspecto muito importante que corrobora a falsidade da afirmação é o “autismo” de Messi ter sido ignorado pelas principais e mais respeitadas biografias (em texto e em vídeo) já lançadas sobre sua vida e carreira em 2009, 2010, 2011, 2012 e 2015. Um exemplo vem do jornalista e escritor espanhol Guillem Balague, especialista em futebol e em biografias de craques, que naquele mesmo ano de 2013 publicou o livro “Messi“, uma biografia autorizada do argentino. “Essa história é um lixo!”, exclamou ele ao ser perguntado sobre o assunto.

Dois anos depois, em 2015, no jornal Extra, o sobrinho de Jorge Amado reafirmou a história e ainda desafiou: “Conversei com pessoas envolvidas com o assunto e ninguém sequer contestou o contrário. Se eu cometi uma imprudência é problema meu. Não preciso provar nada para ninguém. Se ele quiser me processar, que vá provar na Justiça. Há dois anos que falo isso porque eu conheço o olhar e pessoas envolvidas nessa questão. Não é demérito nenhum ter autismo. É só uma curiosidade mesmo (sic)”, argumentou.

Uma mentira contada mil vezes…

Em 2017​​, no programa de TV “Encontro” (Rede Globo), Fátima Bernardes teve que corrigir um convidado que fez novamente tal afirmação sobre o autismo de Messi. O convidado Gustavo Cerbasi disse: “Um bom exemplo, Messi, astro do futebol, tem no autismo uma explicação para as qualidades que ele tem. Maior precisão, maior foco”. Mas, a apresentadora corrigiu-o de imediato, dizendo que isso é uma lenda urbana que não tem confirmação. E, minutos depois, ainda reforçou: “Olha, a gente tá aqui recebendo [a informação de] que o médico do Messi, por conta disso [a suspeita de que o atleta tem autismo] deu uma declaração dizendo que ele não tem autismo”.

Recentemente, a história voltou à tona, em julho de 2020, quando o ex-jogador francês Christophe Dugarry, ao comentar sobre a polêmica envolvendo o compatriota Griezmann, acabou atingindo também o craque argentino. “De que ele [Griezmann] tem medo? De um garoto de um metro e meio de altura que é meio autista? O que precisa fazer é se impor de vez em quando. Faz um ano que se diz que ele tem problemas com Messi. O que tem que fazer é dar um soco na cara”, disse Dugarry, de maneira rude, em entrevista à RMC Sport. Três dias depois ele se desculpou.

A construção de uma fake news

O jornalista Tiago Abreu destacou, no episódio “Messi não é autista” do podcast Introvertendo, de junho de 2020, sete pontos que mostram a fragilidade dessa fake news:

“1º ponto — Roberto Amado se baseia numa informação difícil de se verificar.  Ele fala que Messi foi diagnosticado com Síndrome de Asperger aos oito anos de idade, e que o diagnóstico foi pouco divulgado como uma maneira de protegê-lo. E aí ele já levanta aquela suspeita de que o Messi esconde algo e, como ele esconde, seria difícil o jogador assumir que é autista. Aliás, se Messi tivesse sido diagnosticado com Asperger como Amado afirmou, seria em meados de 1995, período em que o diagnóstico era extremamente recente (e raro) nos manuais médicos.

2º ponto — Ele tenta produzir uma evidência anedótica. Você já deve ter ouvido falar naquelas histórias de: ‘eu ouvi dizer que a pessoa tal é isso ou aquilo’, você tenta passar isso de boca em boca e aí, à medida que as pessoas vão repetindo, isso se transforma numa verdade. Esse texto é todo construído dessa forma. Ele procura relatos de pais e mães, se justifica dizendo que é filho de profissionais médicos, tenta juntar vários elementos que são frágeis por si só para poder construir essa opinião de que o Messi é autista. Pra dizer: ‘não só eu penso que o Messi é autista, outras pessoas pensam da mesma forma’.

3º ponto — ele usa verdades para sustentar um ponto de vista geral questionável. Então, por exemplo, Amado cita o surfista Clay Marzo, que é realmente diagnosticado com autismo, como exemplo de autistas nos esportes.

4º ponto — o autor coloca outras fake news dentro dessa pra endossar a visão. Então, ele fala que Einstein e Bill Gates são autistas e gênios. O texto gira em torno da ideia de que o autista é um gênio. 

5º ponto — o mais óbvio é que ele inverte o ônus da prova. Ele publicou o texto, foi contestado, e teve uma reação do tipo: ‘são eles que têm que se virar e provar que o Messi não é autista. Eu estou afirmando, e vocês tem que provar o contrário’. É uma linha de raciocínio completamente bizarra. 

6º ponto — o médico pessoal do Messi afirmou que o que foi dito pelo Roberto Amado é uma completa ‘bobagem’. 

7º ponto — nenhuma biografia séria e bem construída sobre o Messi tem qualquer menção ao autismo.”

Aliás, vale ouvir (ou ler) aquele episódio todo (tem link abaixo) do Introvertendo, pois há muitos comentários e informações interessantes vindas de quem realmente pode falar de um diagnóstico de autismo: os próprios autistas.

Muitas vezes, porém, uma mentira “floreada” pode ser muito mais agradável e desejável que a verdade nua e crua. Tiago conta que muitos pais repudiaram um texto seu, publicado um ano antes, com argumentações de que Messi não é autista e contestaram essa oposição ao que muitos chamaram de “uma história tão inspiradora” — de que o Messi seria autista. “Pais e mães que tiveram contato com aquele meu texto vieram xingar a gente!” conta o jornalista, abismado.

Famosos autistas, autistas famosos

Quer citar pessoas famosas que estão no espectro do autismo? Cite quem declara isso abertamente, como a escritora e especialista em ciência animal Temple Grandin, o ator Anthony Hopkins, a ecoativista Greta Thunberg, ou o mais recente famoso a mencionar publicamente seu diagnóstico de autismo, o bilionário Elon Musk, e tantos outros.

(Com colaboração de Tiago Abreu)

 

A história de Messi

Pedro Henrique Quiste

Nasceu na Argentina no final da década de oitenta e começou a jogar no Newell’s Old Boys, que era o time da sua cidade natal, Rosário, aos seis anos. Quando criança, mostrava muita habilidade com a bola, mas tinha um problema hormonal que dificultava o seu crescimento.

Entre nove e dez anos, ele foi diagnosticado com esse problema hormonal e teve de começar um tratamento complicado, que custava mil pesos argentinos por mês, em que ele precisava aplicar, uma vez por noite, uma injeção em sua perna. Ele mesmo a aplicava e ficava tudo tranquilo. O Newell’s Old Boys se recusou a pagar o tratamento e a família decidiu levar o garoto para fazer um teste no time do Barcelona, na Catalunha (Espanha) — um dos maiores times da história do futebol. 

No ano 2000, Messi foi levado para lá, fez um teste e, poucos meses depois, foi aprovado. Chegaram a um acordo e o Barcelona passou a ajudar naquele tratamento. Messi finalmente cresceu 30 centímetros em estatura após o começo do tratamento — quando ele começou ali, aos 10 anos, tinha um metro e quarenta e hoje tem um metro e setenta. Uma história de superação. 

Estreou em 2005 como profissional e em 2008 chegou ao seu auge. Há quem diga que, depois do Pelé e do Maradona, ele é o maior, o mais conhecido. Com uma lista imensa de premiações pessoais, as principais foram: Bola de Ouro da FIFA (2010, 2011, 2012 e 2015) e Melhor jogador do mundo pela FIFA (2009 e 2019).

Pedro Henrique Quiste é estudante de jornalismo, apaixonado por esportes e pela criação de conteúdo nessa área. Twitter: @ph_quiste.

 

CONTEÚDO EXTRA

Entrevista exclusiva com Marcos Mion

Tempo de Leitura: 8 minutos

Uma entrevista exclusiva com o pai do Romeo

Revista Autismo nº 13 - Entrevista Exclusiva com Marcos Mion — Canal Autismo

 Entrevista foi capa da edição número 13 da Revista Autismo.

Francisco Paiva Junior,
editor-chefe da Revista Autismo

Sabe aquele papo que a gente tem na varanda, num domingo de sol, com alguém que não vemos há muito tempo? Foi assim que me senti nesta entrevista exclusiva que Marcos Mion concedeu à Revista Autismo.

Um papo de mais de uma hora, da maneira mais franca e aberta possível, sem evitar nenhum assunto e com uma riqueza de detalhes que só a versão em vídeo na íntegra, que está no nosso canal no Youtube, poderá lhe mostrar.

Sintetizo aqui os pontos mais importantes da conversa e tento dar a dimensão da pessoa com maior visibilidade no Brasil a falar abertamente a respeito de autismo. Mais que isso, a ser mais um ativista da causa.

Revista Autismo — Como você chegou à suspeita de que o seu filho mais velho, Romeo, tinha um atraso no desenvolvimento?

Marcos Mion — Antes de contar a nossa história, eu gosto de reforçar que ela não é um exemplo, não é o ideal. Venho de uma família de médicos e, por isso, não se encaixa na maioria dos exemplos de casos do nosso país. Logo no nascimento do Romeo, minha mãe já me puxou de lado e me deu o alerta: “Eu acho que tem alguma coisa!”. Pra mim, foi o mesmo que ouvir “Seu filho é a coisa mais linda do mundo!”, não fez nenhuma diferença. O Romeo nasceu com uma luxação congênita, o autismo veio só depois. A minha postura quanto à situação do Romeo e como eu levo isso hoje em dia está ajudando muito a mudar a forma com que as pessoas encaram o autismo. No começo, eu recebia muitas mensagens lamentando, com tristeza. E hoje, por incrível que pareça, mudou muito. A maioria dos recados que eu recebo são de pais e mães felizes. Que tiveram a aceitação de uma forma muito positiva e muito simples. De certa forma — e falo isso com muita humildade —, pelo holofote que eu coloco na situação, ouço muito assim: “Cara, meu filho é igual ao do Marcos Mion! E o filho dele é incrível”.  Então, essa mudança de foco e de approach pro transtorno ou para a deficiência é uma enorme vitória. Juro pra você que eu não gastei um minuto da minha vida lamentando. Simplesmente entendi, aceitei, aprendi, me adaptei, segui em frente e agradeci. Ter meu filho era o sonho da minha vida. Não me interessa se meu filho veio autista, neurotípico, verde com bolinhas rosa ou deficiente físico. Nada disso foi importante para mim e não é até hoje. Foi o maior presente que Deus poderia me dar: me dar a honra de ser o guardião de um anjo na Terra. E eu falo “anjo”! Sei que tem um monte de autistas que não gostam e tudo bem. Cada um fala o que quer, faz o que quer. Eu encaro dessa forma os autistas do nível do meu filho, considero anjos porque eles não trabalham com palavras, eles trabalham com amor, com coisas etéreas. É diferente de um autista leve que consegue argumentar, se defender, ter voz ativa. Meu filho e inúmeros autistas não têm. É uma pessoa que “cai”, ilumina e muda a vida de todos ao redor, essas pessoas iluminam as outras. É um efeito cascata de amor, de pureza, de rever os conceitos. Então, eu falo, sim! Meu filho é um anjo. Eu sou a voz dele. Ele não consegue lutar pelos direitos dele e age 24 horas baseado em sentimento, em amor, em decepção, em alegria, em tristeza… algo muito puro. É bom eu poder falar isso, pois eu sei que tem um movimento enorme, e muitas vezes vem contra mim, que eu virei a referência de ver o autismo com positividade. Muitos acham que vivo um autismo “café-com-leite”. Porque você tem dinheiro para terapias, para tirar seu filho do país. Óbvio que sou privilegiado e tenho condições de dar o melhor para o meu filho e é exatamente por isso que eu me imponho a obrigação de lutar por todos os autistas. Nada que você faça para beneficiar só você ou os seus vale a pena. Você tem que beneficiar o maior número de pessoas possível, sempre. Esse é o lema da minha vida. Eu faço tanta coisa, não só pelas leis, mas temos um grupo no Facebook [chamado “Comunidade Pró-Autismo“], com mais de 260 mil pessoas, que virou um centro de apoio, de alento, de informação. Então, independente da condição financeira, o autismo não muda. A genética que funciona é igual para qualquer um que recebe o diagnóstico. Se eu quiser fazer um relato de sofrimento, de dor, de desespero, eu preciso de meio segundo pra começar.

RA — Você escolheu o caminho da positividade?

Mion — Exatamente. Esse é o ponto, Paiva. Ontem eu passei 10 minutos tentando explicar ao Romeo como pendurar uma toalha num gancho. Eu não quis fazer por ele, quis fazer ele entender. Se a gente quiser contar essa história, de um menino que vai fazer 16 anos e não consegue ter o cognitivo para entender como pendurar uma toalha no gancho, posso contar, tem todos os dias. A minha dificuldade como pai é igual a de todos os pais. A essência é a mesma. Então é uma decisão diária minha encarar como uma bênção, como uma positividade.

RA — Você considera ter sido lapidado pelo Romeo? Isso também foi uma opção?

Mion — Sem o Romeo eu não teria conseguido nada na minha vida. Eu era muito egocêntrico! Foi me dada a chance de me lapidar. O número de  homens que vão embora quando a família recebe um diagnóstico de [um filho com] autismo ou qualquer outra deficiência é gigantesco. Ficar é amar. Virar as costas e ir embora é muito fácil. Se alguém que abandonou a família estiver lendo isso, volte, ainda dá tempo, o propósito que Deus te deu, seu filho, sua família estão lá. Volta, pois eles precisam de você.

RA — O diagnóstico mesmo do Romeo veio quando?

Mion — Quando ele tinha sete ou oito anos. A gente já trabalhava desde um ano, um ano e meio. Não começamos só depois do diagnóstico. Por isso eu digo que minha história é diferente. Recomendo o diagnóstico sempre o quanto antes, mas eu tenho que ser sincero que, na minha vida, o diagnóstico veio muito tempo depois, pois já estávamos trabalhando desde o início.

RA — Como foi a decisão de tornar público o autismo na sua vida? Você poderia manter sua privacidade e ninguém saber que o Romeo é autista e isso teria de ser respeitado, como muitos famosos devem fazer.

Mion — Foi difícil. Tudo que foi muito fácil na aceitação, nessa parte foi muito difícil por medo. A gente não tinha ideia de como as pessoas iam receber isso, além de ser uma exposição grande de um filho, né!? E, na época, não tinha uma referência. Com toda humildade, mas não tinha um Marcos Mion com milhões de seguidores para falar tão aberta e claramente sobre autismo. Eu não fui o primeiro artista a ter um filho ou um parente com autismo! Chegou um momento, que conversei com minha mulher, e a gente cansou de viver de uma forma… escondida! Aí fiz um texto nas redes sociais falando, explicando isso, saiu publicado em outros veículos grandes de mídia e esse texto virou meio que um símbolo. É, de longe, o meu conteúdo mais replicado!

RA — Qual a primeira lição que o Romeu te ensinou?

Mion — Não é nem a primeira, mas uma lição que eu tenho todos os dias: todo dia eu tenho que passar por cima de mim. Todos os dias eu tenho que parar alguma coisa importante para escovar os dentes dele, para dar banho nele, para ajudá-lo nas coisas mais corriqueiras para pessoas com 15 anos de idade (Romeo faz 16 dia 23.jun.2021). E você ter essa responsabilidade te faz ver as coisas de uma forma muito diferente, mais altruísta. O foco não pode ser você, não pode ser a pessoa, tem que sempre ser o próximo.

RA — O que te motivou a lutar por leis, como a Lei Romeo Mion, com a carteira de  identificação dos autistas, e a que inclui perguntas sobre autismo no Censo Demográfico?

Mion — Não fiz sozinho, fui um instrumento. Eu estava lá com ativistas, mães, pais, com décadas de trabalho em cima disso a mais do que eu. Me honra somar ao trabalho dessas pessoas. Aí a gente volta para a questão do propósito: não preenche a minha alma saber que dou para o meu filho o melhor e ver milhões de pessoas não conseguindo as mesmas condições para os seus filhos. Aí enveredei para o lado das políticas públicas, com influência da Fátima de Kwant e da Berenice Piana, que são pessoas que considero minhas mentoras no autismo. Aliás, graças à Fátima existe a Comunidade Pró-Autismo no Facebook, que considero trazer mais benefícios que uma lei, afinal são mais de 260 mil pessoas sendo beneficiadas com carinho e informação diariamente. Os livros, colunas, vídeos, textos que publico também ajudam muita gente. E, na lei do Censo, especificamente, a equipe do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e dos ministérios da Saúde e Educação me convenceram [ainda em 2019, antes da pandemia] de que o Censo não era o melhor caminho para ter a informação de quantos autistas temos, que teríamos formas melhores, menos arcaicas, como a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), também do IBGE. Porém, o presidente da República, na hora de sancionar,  me perguntou se eu queria ou não. Mesmo convencido de que não, eu disse que sim, pois eu estava lá representando outras pessoas e não a minha vontade. Todos com quem eu havia conversado antes, para me preparar, ativistas e instituições, sempre disseram sim. Fui fiel a eles. Já na lei da carteira de identificação tive um envolvimento maior, fui atrás de fazer isso acontecer, porque sempre achei uma grande necessidade.

RA — Você tem consciência de que é a pessoa com maior visibilidade no Brasil a falar de autismo?

Mion — Tenho noção dessa responsabilidade, por isso meu cuidado de sempre estar embasado para falar no assunto, para representar milhões de pessoas e o motivo da positividade e de encarar o autismo como uma bênção, pois já é difícil para as pessoas receberem o diagnóstico.

RA — E isso tem um preço, né?

Mion — Tem. A comunidade sabe que eu sou “caçado”. Sou muito blindado e nem sempre as coisas chegam até mim. Tem gente que chega a dizer que falo de autismo para ficar famoso (risos). Os vídeos de menor engajamento nas minhas redes sociais são os que eu falo sobre autismo. Com mais de 20 anos de televisão, a última coisa que a causa me traz é fama. O que ela me traz é propósito!

RA — Com essa sua superexposição, imagino que venham também “superproblemas”, como pessoas que te condenam por chamar autistas de anjos, ou de infantilizar, ou ainda por chamar de bênção. Como você lida com isso?

Mion — Não chega diretamente até mim, mas sei que acontece aqui e ali. Eu abro espaço para todos. Eu já gravei matérias com autistas que me disseram: “O que eu vou ouvir por estar aqui com você, dando entrevista!”. E depois que acaba, falam: “Que bom que sentei com você para esta entrevista. Obrigado pelo que você faz por nós, pela causa!”. Eu não trabalho para ser o destaque, trabalho para colocar a nossa causa no holofote e conseguirmos políticas públicas e respeito para os autistas. Temos que estar unidos para batalhar contra o preconceito.

RA — O que você mais deseja para os autistas no Brasil?

Mion — A aceitação popular da nossa causa, da forma autista de existir, levando em conta que não existe uma forma padrão, pois ainda vejo muito preconceito. E políticas públicas eficientes, pois, infelizmente, a maior parte da nossa população não tem condições de ter terapias e capacitação.

RA — Tem alguma novidade, algum projeto a respeito de autismo que você possa me contar?

Mion — Agora, na Netflix, vamos fazer a tradução e dublagem de “Amor no Espectro”, uma série maravilhosa que fala sobre relacionamentos. Inclusive me pediram que alguém no espectro acompanhasse a gravação para dar o tom certo na dublagem. Aí chamei a Kenya [Diehl], que trabalha comigo na Comunidade Pró-Autismo e é a primeira autista adulta com quem eu converso frequentemente, e ela me dá muitos insights. E, claro, tem outros projetos que, infelizmente, não posso contar ainda, mas vocês vão ficar sabendo.

 

CONTEÚDO EXTRA