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Autistas diagnosticados tardiamente falam de características na infância em podcast

Tempo de Leitura: < 1 minutoO podcast Introvertendo, produzido por autistas adultos e com diálogos sobre o autismo, lançou nesta sexta-feira (05) o seu 194º episódio, chamado “Autismo na Infância sem Diagnóstico”. O episódio contou com três integrantes do podcast: o jornalista Tiago Abreu, a arquiteta Carol Cardoso e o programador e pesquisador Willian Chimura, todos autistas.

Os três podcasters exploraram histórias da infância que indicavam características do autismo, mas que passou despercebido por familiares e profissionais. Sobre isso, Willian Chimura afirmou que “eu era uma pessoa leiga, claro. Não entendia que existia pessoas que poderiam ter desenvolvimentos fora do típico. Isso não me passava pela cabeça e muito menos que eu seria uma dessas pessoas. Então eu nunca sequer considerei essa hipótese”, disse.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Dia das Crianças

Tempo de Leitura: 2 minutos

Por Fábio Cordeiro

Presidente da ONDA-Autismo.

 

 

 

Neste mês de outubro, no dia 12, comemoramos o Dia das Crianças e nada mais especial para ser comemorado do que nossas crianças.
Elas trazem renovação, felicidade, são o futuro e a esperança de que podemos sempre evoluir. E nada nos motiva mais a sermos pessoas melhores do que a chegada e a companhia deles.

A nós, cabe protegê-los, proporcionarmos oportunidades, dar conforto, lazer e, mais do que tudo, amá-los. E hoje, neste mês, que marca essa data tão relevante, é sobre essa troca que quero falar.

É preciso refletir sobre como convivemos com nossas crianças e sobre as expectativas que colocamos nelas. É comum que façamos planos para elas, que idealizemos seus trajetos e ações, que projetemos seus caminhos para um futuro próspero e feliz.
Mas, na correria do nosso dia a dia, não podemos deixar de fora desse cálculo a parte mais importante dessa equação. A própria criança.
E aí muitos podem estar se perguntando: como assim? E tudo que faço não é para o bem do futuro deles? O que estou deixando de fora então?
Pois é, por vezes, nessa ânsia louca de buscar um futuro feliz, esquecemos do presente. Atropelamos o agora e passamos por cima do fato de que a vida se vive no agora. Nossas crianças têm que viver felizes hoje. O bem-estar pleno se constrói todos os dias, e esse é o momento de estarmos bem.
Quando tratamos de crianças autistas ou divergentes em qualquer outro sentindo, essas questões tornam-se ainda mais cruciais, pois sabemos bem das dificuldades que essa jornada traz, tanto para nós adultos como cuidadores, quanto para as próprias crianças que muitas vezes demandam de um apoio mais enfático do que a própria fase de desenvolvimento infantil já traz.
Porém, é preciso ter consciência de que a diversidade humana é um fato. Quando alguém vem ao mundo, existe a possibilidade que esse ser exista dentro de qualquer condição que a humanidade abriga. Então, não podemos colocar expectativas nesses indivíduos baseados apenas em uma prospecção de um trajeto típico. Tratemos a diversidade respeitando as diferenças de cada um.
Dentro das diversas maneiras passíveis do desenvolvimento e da existência, cabe a possibilidade de felicidade. Não devemos, em prol de uma espera por um amanhã, deixar que o hoje seja sempre pesado.
E não achem que estou dizendo que não devemos ou que não podemos aspirar a um futuro com as expectativas que almejamos. Óbvio que devemos trabalhar para que nossas crianças tenham uma vida lá na frente com qualidade e capacidade de fazer coisas maravilhosas.

O que não devemos fazer, na minha humilde opinião, é querer que nossas expectativas tornem-se realidade a qualquer custo, pois, dependendo de como for o cotidiano da criança, dos vários fatores que influenciam essa caminhada e não apenas da condição em que a pessoa se encontra dentro da diversidade humana, nossos anseios podem tornar-se verdade ou não, mas, de fato, independentemente do que algum dia tivermos pretendido, tudo só valerá a pena se isso não custar a infância de alguém.

Bilinguismo em crianças autistas

Tempo de Leitura: 3 minutosUm estudo recente, publicado no jornal Autism Research no dia 19 de maio deste ano, revela que o bilinguismo de crianças autistas compensa, parcialmente, os déficits na Teoria da Mente e nas Funções Executivas.

Famílias bilíngues sabem o quanto é difícil usar um ou outro idioma quando uma criança tem atraso de linguagem ou autismo. Meu próprio filho (autista) cresceu numa família bilíngue. Não sendo verbal até seus 7 anos de idade, sempre fomos aconselhados por especialistas a usarmos uma só língua, no caso, o holandês. A sugestão faz sentido, a priori, seguindo a dedução de não complicar (ainda mais) o desenvolvimento das habilidades comunicativas da criança autista. Por isso mesmo, o resultado da pesquisa desenvolvida pela Universidade de Genebra (UNIGE, na Suíça) surpreende os terapeutas acostumados a lidar com crianças autistas de famílias bilíngues. 

Com apoio da Universidade Thessaly (Grécia) e da Universidade de Cambridge (Grã Bretanha), os pesquisadores concluíram que falar/ouvir mais de um idioma pode beneficiar crianças com déficit na teoria da mente (habilidade de compreender as intenções, crenças, perspectivas, e emoções de outras pessoas), assim como nas funções executivas, responsáveis pelo planejamento, organização, e controle de pensamentos, emoções e ações.

Uma das co-autoras do estudo é Stéphanie Durrleman, pesquisadora no Departamento de Linguística da UNIGE. Ela explica que uma das dificuldades do TEA é colocar-se no lugar do interlocutor, focando o próprio ponto de vista e se distanciando da perspectiva do outro

E onde entra o benefício do bilinguismo no autismo?

“Já havia estudos sobre o bilinguismo apontando que crianças bilíngues aperfeiçoavam a teoria da mente e as funções executivas. O bilinguismo traz benefícios precisamente onde os autistas demonstram dificuldades, por isso, nós nos perguntamos se crianças bilíngues autistas conseguiriam suavizar os desafios do seu transtorno do neurodesenvolvimento usando dois idiomas todos os dias”, diz Stéphanie Durrleman.

Desse modo, os pesquisadores das três universidades acompanharam 103 autistas com idade de 6 a 15 anos, dos quais 43 eram bilíngues. Todos foram agrupados de acordo com idade, gênero, e intensidade (grau) de autismo. Os participantes executaram diversas tarefas com a intenção de acessar suas teorias da mente e funções executivas. Os bilíngues, rapidamente, se sobressaíram em relação aos não bilíngues.

Eleni Peristeri, outra co-autora do estudo, da Universidade de Thessaly, diz: “Bilinguismo exige que a criança primeiro trabalhe as habilidades que envolvem conhecimento de outras pessoas: A pessoa com a qual eu falo, fala grego ou albanês? Em que língua eu devo falar com ele? Numa segunda fase, a criança usa suas funções executivas para focar sua atenção em uma só língua, enquanto inibe a segunda”, explica Eleni.

Ginástica para o cérebro – uma terapia natural

Segundo os estudiosos, a prática de lidar com dois ou mais idiomas seria como uma ginástica para o cérebro, já que atua exatamente nos déficits relacionados ao TEA.

Outros resultados da pesquisa apontaram que o nível socioeconômico não influenciou o resultado, já que a maioria das crianças autistas participantes vinha de famílias com baixa renda/status socioeconômico. 

Apesar de relativamente pequeno, o estudo é um breakthrough para especialistas de autismo de todo o mundo, que costumavam indicar o uso de uma só língua em casa para a comunicação com o autista. A partir dessa pesquisa, fica comprovado o benefício do bilinguismo para o neurodesenvolvimento de crianças autistas. 

A sugestão, portanto, é para que famílias bilíngues sigam usando ambos idiomas, ainda que, aparentemente, isso possa comprometer o aprendizado do autista. Não somente não prejudica, como auxilia as crianças a superarem vários aspectos do TEA.  Ou, como a linguista Stéphanie Durrleman diz: “Bilinguismo é como uma terapia natural.”

CONTEÚDO EXTRA