Francisco Paiva Jr.

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Francisco Paiva Jr.

Grupos ligados ao autismo e pessoas com deficiência defendem a priorização na vacinação

16 de janeiro de 2021

Tempo de Leitura: 5 minutos

Associações e movimentos de pessoas com deficiência pedem que essa população seja priorizada nos planos de vacinação contra Covid-19

Autistas e demais pessoas com deficiência não estão priorizados no Plano Nacional de Imunização no Brasil. E este tem sido um assunto que ganha cada vez mais repercussão nas redes sociais com a chegada da possibilidade real de nos vacinarmos contra o novo coronavírus. Cresce dia após dia um movimento pedindo a priorização dessa população nos planos de vacinação durante a pandemia.

Uma carta aberta (veja aqui na íntegra), assinada por diversas instituições e grupos, pede a priorização das pessoas com deficiência nos planos de vacinação. O documento é endereçado a todos os gestores de Saúde, das três esferas: federal, estadual e municipal. A carta cita, inclusive, o pedido da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no mês passado (11.dez.2020), num ofício que cita toda a legislação que justificaria tal medida.

Grupo de risco

Segundo alguns médicos que a reportagem da Revista Autismo ouviu, o motivo das pessoas com deficiência não serem consideradas parte do grupo de risco para os planos de imunização é o seguinte: o risco avaliado nos planos é o risco de a pessoa desenvolver uma forma grave de Covid-19 (precisando de internação) e risco de morte. Não se leva em conta o risco de contaminação. Assim, segundo essa análise, uma criança de 10 anos com deficiência intelectual (DI) e outra criança da mesma idade, sem deficiência, têm, ambas, o mesmo risco de desenvolver uma forma grave de Covid-19. Não se leva em conta que a criança com DI tem mais risco de contaminação, pois não consegue seguir todas as regras de higiene e conduta para evitar o contato com o novo coronavírus. Assim acontece também com um adulto cego e um adulto que enxerga (vidente), ambos têm a mesma chance estatística de desenvolver Covid-19 grave; ou ainda um idoso cadeirante e um não cadeirante, novamente, os dois com as mesmas chances. Em resumo: ignora-se o risco de ser contaminado, avaliando apenas o risco da pessoas desenvolver uma forma de Covid-19 grave ou morte.

Preservar pessoas e serviços de saúde

Para Paula Ayub, diretora do Centro de Convivência Movimento, temos que discutir o tema. “Sou psicóloga e trabalho com pessoas com autismo há mais de 30 anos. E, nesse período, fui chamada para acompanhar essas pessoas, jovens, crianças, adultos, em vários hospitais, na rede pública e privada, por conta de uma total falta de aptidão ou de costume dos médicos e enfermeiros atender essas pessoas e dar o tratamento necessário. Já tive de fazer plantão em UTI e pedir para o médico oferecer sedação e agir rápido em função do tempo de reação daquela pessoa ao medicamento. Já tive que correr atrás de enfermeiro e ouvir um ‘não consigo segurar’ e eu ter que dizer ‘isso não é força, é o modo de fazer’ para conseguir segurar a pessoa. Já presenciei uma extubação em que o médico pedia ao paciente para apertar sua mão se estivesse lhe ouvindo. E eu tive de explicar que não era assim, que ele não iria apertar a mão, que a gente precisava procurar outras formas de observar se ele estava reagindo, outros sinais”, contou Paula, que reconheceu que na rede pública encontra profissionais com aptidão até maior, pela prática com a diversidade de pacientes que atendem.

Ela explica que “para fazer um exame de sangue, diversos outros procedimentos, tem que ter acompanhamento”. E ainda questiona: “Se uma pessoa dessas precisa ir para a UTI com Covid-19, no caos que nós estamos, como essas pessoas vão se salvar? Como teremos dois ou três médicos para atender? Quatro enfermeiros para segurar? Como teremos um acompanhante lá dentro o tempo todo? Pensando nisso, temos que preservar essas pessoas com deficiência e preservar o serviço de saúde também!”, argumentou ela de forma enfática.

Síndromes raras, cegos e baixa visão

“Muitas das crianças e adultos com síndromes raras colocam tudo na boca. Inclusive o vírus da Covid-19. Além disso, muitas têm deficiência imunológica. Por esses dois principais motivos, pedimos prioridade na vacinação”, declarou Sandra Doria Xavier,  médica, mãe do Caio de 8 anos (neurotípico) e do Luis Fernando de 15 anos (com síndrome de Cri du Chat), que representa a ABCDC (Associação Brasileira da Síndrome de Cri Du Chat).

Para Anderson Almeida Batista, assistente social e especialista na área da deficiência visual, “é fundamental que pessoas com deficiências sejam consideradas nos grupos prioritários de acesso à vacinação. No caso específico das pessoas cegas e com baixa visão, por terem que aproximar objeto dos olhos, tocar corrimões, botoeiras, objetos e de necessitarem de atendimento especializado, da ajuda de terceiros em algumas situações específicas, dentre outras, isso as coloca em vulnerabilidade e maior risco de contrariem a Covid-19”, relatou ele, que atua na Instituição Laramara desde 1999.

Alguns especialistas ouvidos temem que a quantidade de pessoas com deficiência, mas que não precisam realmente de priorização na “fila” da vacina contra Covid-19 pelas suas boas condições de saúde e características, inviabilize o pedido por tornarem o grupo grande e generalizado  demais diante da inicial pouca oferta de vacina.

Signatários

Assinam o documento: a Revista Autismo, o 
Instituto Rafa, o 
Centro de Convivência Movimento, a 
Associação de Pais Inspirare, a Associação Paulista de Autismo, a 
Escola Mosaicos, a Instituição Laramara, a REUNIDA (Rede Unificada nacional e Internacional pelos Direitos dos Autistas), o MOAB (Movimento Orgulho Autista Brasil), a 
Incluir Treinamentos, a 
Associação Paulista de Autismo, o 
Instituto UniTEA, o Movimento Down, o 
CODDEDE (Conselho das Pessoas com Deficiência do DF) a Amaviraras, o projeto
”A Fada do Dente”, a 
Abre-Te (Associação Brasileira de Síndrome de Rett), a 
Pastoral das Pessoas com Deficiência da Região Episcopal Ipiranga (SP) e Fórum da Pessoa com Deficiência da Regional Vila Mariana (SP), o 
Instituto Lagarta Vira Pupa, além de mães de autistas e demais pessoas com deficiência.

O documento está também num site de abaixo-assinado (neste link) para quem quiser divulgar a ação e também assinar o documento virtualmente “engrossar o coro” desta solicitação ao Poder Público.

A seguir, a pedido de inúmeras pessoas, deixamos um link para quem quiser baixar o arquivo da carta aberta e assiná-la, para enviar às autoridades que tiverem contato e reforçarem tal pedido.

CONTEÚDO EXTRA

Imagens da campanha do Movimento Down:

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