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Sophia Mendonça

Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no Portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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Amor no Espectro: No autismo, a vida real supera a ficção

1 de setembro de 2020Amor no Espectro: No autismo, a vida real supera a ficção — Canal Autismo / Revista AutismoReprodução / Revista Autismo

Tempo de Leitura: 2 minutos“Amor no Espectro” é um delicioso reality show que retrata o autismo com bom humor e responsabilidade, além de conferir protagonismo às pessoas com essa condição. A série apresenta uma perspectiva quase completa dos relacionamentos entre autistas. O processo de flerte, as habilidades sociais, as questões de hiper ou hipossensibilidade sensorial, as expectativas individuais e familiares, as pressões sociais e visões sobre o amor, tudo isso é abordado na produção. A série é repleta de detalhes no que se refere à linguagem corporal, reciprocidade, coordenação motora, hiperfoco e diferenças culturais. Há até uma leve discussão sobre racismo e xenofobia. 

A série é uma grata surpresa da plataforma de streaming Netflix no que se refere a abordagem do tema. Afinal, se os meios de comunicação necessitam construir narrativas que tenham princípio, meio e fim bem delineados, a complexa rede de vivências que atravessa cada espectador pode abrir margem para uma série de percepções e questionamentos. Portanto, como cada autista é único, é sempre desafiador abordar as intrincadas nuances do espectro em seriados. Haverá sempre abertura para novas discussões e, mesmo que não seja totalmente diferente com esse caso específico, há significativos diferenciais.

Academia do Autismo

“Amor no Espectro” aproxima-se muito mais do que os pares fictícios (como “Atypical” e “The Good Doctor”) da “missão impossível” que é sintetizar a heterogeneidade da condição autista. Esse resultado é, em grande medida, reflexo do próprio conceito documental da série. O formato permite que sejam selecionados personagens de personalidades, etnias e orientações sexuais diversas, agindo como eles mesmos, às vezes com um desconforto natural das câmeras por perto. Isso permite uma boa noção do comportamento autista no cotidiano. 

Percebe-se o cuidado dos produtores também ao trazerem uma visão científica atualizada. Isso não se restringe à presença de especialistas, mas também diz respeito a debates que surgem de maneira natural, como o subdiagnóstico em mulheres autistas. Olivia, jovem atriz diagnosticada aos 18 anos de idade como autista, é a principal personagem a suscitar essa discussão. Ela se apresenta com um jeito alegre e aparentemente extrovertido que camufla todo um “nervosismo” vindo dos desafios de interação social. Ela se destaca em meio a personagens cujas dificuldades e habilidades são bastante distintas e ora óbvias, ora sutis. A história de Mark, jovem com hiperfoco em paleontologia, também merece uma menção especial. Embora ele seja na superfície alguém bastante educado e sociável, o contato mais próximo com sua trama revela muitas dificuldades de variar os interesses e  habilidades sociais.  

Algumas cenas mostram-se constrangedoras ou desconfortáveis, bem como o sentimento de frustração e dor contida, mas também há muita alegria no desenrolar dos capítulos. É certo que as relações amorosas são desafiadoras até para pessoas típicas. Entretanto, a série evidencia, sem estereótipos, o quanto uma rede de fatores, de naturezas diversas e por vezes quase imperceptíveis, tornam a busca e o envolvimento nesses relacionamentos ainda mais complexos para autistas.

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