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Bilinguismo em crianças autistas

Tempo de Leitura: 3 minutosUm estudo recente, publicado no jornal Autism Research no dia 19 de maio deste ano, revela que o bilinguismo de crianças autistas compensa, parcialmente, os déficits na Teoria da Mente e nas Funções Executivas.

Famílias bilíngues sabem o quanto é difícil usar um ou outro idioma quando uma criança tem atraso de linguagem ou autismo. Meu próprio filho (autista) cresceu numa família bilíngue. Não sendo verbal até seus 7 anos de idade, sempre fomos aconselhados por especialistas a usarmos uma só língua, no caso, o holandês. A sugestão faz sentido, a priori, seguindo a dedução de não complicar (ainda mais) o desenvolvimento das habilidades comunicativas da criança autista. Por isso mesmo, o resultado da pesquisa desenvolvida pela Universidade de Genebra (UNIGE, na Suíça) surpreende os terapeutas acostumados a lidar com crianças autistas de famílias bilíngues. 

Com apoio da Universidade Thessaly (Grécia) e da Universidade de Cambridge (Grã Bretanha), os pesquisadores concluíram que falar/ouvir mais de um idioma pode beneficiar crianças com déficit na teoria da mente (habilidade de compreender as intenções, crenças, perspectivas, e emoções de outras pessoas), assim como nas funções executivas, responsáveis pelo planejamento, organização, e controle de pensamentos, emoções e ações.

Uma das co-autoras do estudo é Stéphanie Durrleman, pesquisadora no Departamento de Linguística da UNIGE. Ela explica que uma das dificuldades do TEA é colocar-se no lugar do interlocutor, focando o próprio ponto de vista e se distanciando da perspectiva do outro

E onde entra o benefício do bilinguismo no autismo?

“Já havia estudos sobre o bilinguismo apontando que crianças bilíngues aperfeiçoavam a teoria da mente e as funções executivas. O bilinguismo traz benefícios precisamente onde os autistas demonstram dificuldades, por isso, nós nos perguntamos se crianças bilíngues autistas conseguiriam suavizar os desafios do seu transtorno do neurodesenvolvimento usando dois idiomas todos os dias”, diz Stéphanie Durrleman.

Desse modo, os pesquisadores das três universidades acompanharam 103 autistas com idade de 6 a 15 anos, dos quais 43 eram bilíngues. Todos foram agrupados de acordo com idade, gênero, e intensidade (grau) de autismo. Os participantes executaram diversas tarefas com a intenção de acessar suas teorias da mente e funções executivas. Os bilíngues, rapidamente, se sobressaíram em relação aos não bilíngues.

Eleni Peristeri, outra co-autora do estudo, da Universidade de Thessaly, diz: “Bilinguismo exige que a criança primeiro trabalhe as habilidades que envolvem conhecimento de outras pessoas: A pessoa com a qual eu falo, fala grego ou albanês? Em que língua eu devo falar com ele? Numa segunda fase, a criança usa suas funções executivas para focar sua atenção em uma só língua, enquanto inibe a segunda”, explica Eleni.

Ginástica para o cérebro – uma terapia natural

Segundo os estudiosos, a prática de lidar com dois ou mais idiomas seria como uma ginástica para o cérebro, já que atua exatamente nos déficits relacionados ao TEA.

Outros resultados da pesquisa apontaram que o nível socioeconômico não influenciou o resultado, já que a maioria das crianças autistas participantes vinha de famílias com baixa renda/status socioeconômico. 

Apesar de relativamente pequeno, o estudo é um breakthrough para especialistas de autismo de todo o mundo, que costumavam indicar o uso de uma só língua em casa para a comunicação com o autista. A partir dessa pesquisa, fica comprovado o benefício do bilinguismo para o neurodesenvolvimento de crianças autistas. 

A sugestão, portanto, é para que famílias bilíngues sigam usando ambos idiomas, ainda que, aparentemente, isso possa comprometer o aprendizado do autista. Não somente não prejudica, como auxilia as crianças a superarem vários aspectos do TEA.  Ou, como a linguista Stéphanie Durrleman diz: “Bilinguismo é como uma terapia natural.”

CONTEÚDO EXTRA

 

‘Desenvolvimento da fala até os 4 anos’

Tempo de Leitura: < 1 minutoO neuropediatra Paulo Liberalesso publicou um vídeo nesta segunda-feira (24), comentando a respeito do desenvolvimento da fala até os quatro anos de idade.

Liberalesso fala sobre o equívoco de alguns médicos em dizer que a criança não falar até os quatro anos de idade é normal e que faz parte do processo. Paulo comenta: “Ela pode, sim, ter algumas alterações motoras na fala, mas até completar esses quatro anos, a criança tem que estar em um processo de evolução constante, com a fala quase perfeita”. Ele ainda destaca a importância de uma intervenção precoce quando se constata alguma alteração no desenvolvimento da fala.

Vídeo

Paulo Liberalesso é médico neuropediatra, mestre em neurociência, doutor em distúrbios da comunicação e diretor técnico do Cerena.

Apraxia da fala — Canal Autismo / Revista Autismo

Apraxia da fala

Tempo de Leitura: 2 minutosAposentei meu despertador!

Desde a chegada do Gabriel, minha esposa e eu não precisamos mais de despertador. Faça chuva ou faça sol, em domingos e feriados despertamos entre 6h e 6h30.

Normalmente sou acordado com alguém puxando minha cabeça do travesseiro, e quando me dou conta, já estou sentado na cama. No começo era difícil, mas com o passar do tempo acabei entendendo que este era o “Bom dia” do nosso filho, já que ele tem muita dificuldade em pronunciar palavras por causa da apraxia da fala.

Recentemente acordei com alguém dizendo:

— Bom di — disse, assim mesmo, sem o “a”.

— Bom di — respondi.

E quando abri os olhos, era o Gabriel que aos onze anos de idade, conseguiu desejar bom dia com palavras.

A emoção que senti foi indescritível, minha esposa vibrou e ele, sem entender nada do que estava acontecendo, puxou minha cabeça do travesseiro como faz todos os dias.

Mas acordar cedo tem seu lado bom, o dia rende mais, o clima da manhã é mais agradável e além disso é um bom horário para ir ao parque.

Certo dia, o Gabriel nos acordou no horário de sempre, abrimos a janela e o céu de brigadeiro estava lá, implorando para ser curtido e apreciado em um belo parque.

Levamos as bicicletas e notamos que os pneus estavam murchos, mas para sorte nossa, dentro do parque havia uma daquelas tendas que fazem reparos simples nas bikes, como encher os pneus, regular os freios e, de quebra, comprar aquela buzina que as crianças adoram.

O senhor que nos atendeu foi super gentil e cobrou apenas o café. O Gabriel olhou para aquele senhor que salvou o nosso passeio e que tinha aquela famosa “barriguinha de chopp” e não fez por menos, também resolveu agradecê-lo.

Deu um belo de um abraço, beijou sua “barriguinha de chopp” e disse:

— Neném.

Numa hora dessas, em que a apraxia da fala deveria entrar em ação, não entrou.

Felizmente todos riram da situação, desejamos um bom dia e seguimos para nosso passeio de bike.