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Dificuldade com funções executivas no autismo é tema de podcast

Tempo de Leitura: < 1 minutoO podcast Introvertendo, produzido por autistas adultos e com diálogos sobre o autismo, lançou nesta sexta-feira (26) o seu 214º episódio, chamado “Disfunção Executiva”. Com apresentação de Thaís Mösken e participação da psicóloga Gabriela Parpinelli e da estudante Andy, o episódio aborda as funções executivas no autismo e no TDAH.

Gabriela explicou, no episódio, o que são funções executivas. “Uma ampla variedade de habilidades e capacidades que permitem com que a gente execute ações que sejam necessárias para atingir uma meta, um objetivo. Então basicamente a gente pensar as funções executivas como uma capacidade da gente se organizar para conseguir fazer algo”, afirmou. A psicóloga também usou exemplos para ilustrar a complexidade das funções executivas, como o ato de pegar o ônibus e chegar a um destino.

Andy, que é autista e TDAH, falou de suas experiências com a disfunção executiva. “Eu fiz um bullet journal, nele tem minha rotina milimetricamente escrita com todos os horários, eu botei horário pra tomar banho, horário pra escovar os dentes, porque colocando os horários que eu preciso fazer as coisas, programo o meu cérebro”, destacou.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Por que o autista transforma aprendizado em regras?

Tempo de Leitura: 2 minutosPor que o autista transforma aprendizado em regras? Vamos entender esse ‘fascinante mundo do autismo’. Um mundo de muito aprendizado, sofrimento e vitórias. Uma das primeiras lições aprendidas foi que:

Na contramão do que acontece quando você constrói uma casa, em que a obra leva meses para ficar pronta, o autista toma para si tudo que vê e observa. Na hora. E, dessa forma, imediatamente, transforma aquilo em regra.

Por exemplo, “todas às vezes que vamos à casa de minha avó, passamos por essas ruas.” Então, ao mudar o caminho, você desorganiza uma regra criada por seu filho. Isso significa que nunca mais vocês vão poder fazer outro caminho? Não. Isso quer dizer que a desconstrução de uma regra leva mais tempo.

Dessa forma, precisamos estar atentos com essa construção de regras. Elas podem, inclusive, se consolidar como crenças limitantes para os autistas. O que vai, certamente, comprometer o seu futuro. Mas por que o cérebro neurodivergente tenta criar regras para tudo? Para que o mundo e a vida se tornem mais previsíveis para ele. E, também, mais confortável.

Funções executivas

As funções executivas são um conjunto de processos comportamentais complexos. Esse conjunto é que permite que a pessoa seja independente e autônoma. Elas estão ligadas a processos volitivos. Esses processos nos permitem expressar nossa vontade. Em outras palavras, eles são cognitivos. Ou seja, dependem de nossa capacidade para adquirir conhecimento e desenvolver emoções. Tudo isso, com base no raciocínio, linguagem e memória.

Os processos volitivos podem ser aplicados conscientemente ou podem ser automatizados. Ou seja, pode, se transformar em hábitos, com o tempo. É o que acontece com os autistas. Os processos volitivos também são ligados à capacidade da pessoa de estabelecer metas. Certamente, com base na motivação e na consciência de si mesmo e do ambiente.

Além disso, eles envolvem processos emocionais e motivacionais. Ou seja, como uma ação intencional para um objetivo planejado. Em outras palavras, uma ação produtiva baseada na capacidade de iniciar, manter, modificar ou interromper um conjunto complexo de ações. E, também, de atitudes organizadas e integradas.

As funções executivas começam a se desenvolver nos primeiros anos de vida. E terminam o processo de maturação no final da adolescência. Elas são responsáveis ​​pelo processo cognitivo que inclui o planejamento e execução de atividades como controle de impulsos, iniciação de tarefas, memória de trabalho, cuidados, entre outros.

Em suma, o desenvolvimento das funções executivas durante a infância, aos poucos, proporciona adequação e melhor desempenho para a iniciar, manter e finalizar tarefas.

O autista transforma aprendizado em regras e sistematiza o mundo ao seu redor

No Transtorno do Espectro Autista – TEA a pessoa que possui disfunção executiva pode apresentar:

  • Autocrítica diminuída, falta de preocupação com o futuro
  • Indiferença afetiva, apatia
  • Senso crítico diminuído ou ausente
  • Irritabilidade, desinibição, impulsividade
  • Baixa flexibilidade e rigidez de comportamento

Além disso, apresentam, também, em muitos casos, a perseveração e euforia. Essa perseveração é a repetição contínua e persistente na exposição de uma opinião, ou ideia. A medicina define como aquele processo contínuo de uma atividade. Após, certamente, à finalização de um estímulo. Ou seja, é a insistência no mesmo estado de espírito.

Percebem como tudo isso é mais desafiador para os autistas? Mas, que fique claro. Nada é impossível. Afinal, para o autista, tudo isso, pode ocorrer. De forma diferente, mas ocorre.

Diálogos interiores

Tempo de Leitura: 2 minutosFunções executivas são habilidades cognitivas. Estão incorporados nessa categoria o controle inibitório, pensamento rígido, organização, planejamento, controle da execução, foco, memória de trabalho etc. Mas, você sabe como pode ser estressante para uma pessoa autista lidar com o funcionamento aquém do esperado de suas funções executivas?

Acordo: “Hummmm, adoro escurinho… puxa vou ter que sair do escurinho? Nossa… a atividade das crianças, como eu vou passar pra eles hoje? Esqueci do upload daquele arquivo… Nossa, e da aula da faculdade.” 

Bate o desespero, mas me auto-regulo: “Comece com o primeiro passo… café!” 

Sim, eu abro os olhos e acontece tudo isso junto mesmo! Ali, na hora! 

Café! Adoro ficar sentindo o gosto das coisas, num momento “nada”. De repente, me arrancaram do “nada”. Tento preparar as coisas. 

“Mãe, posso passar requeijão?”

“Requeijão? Claro!” 

Pego o requeijão: “Quantos pães eu já fiz mesmo?” Olho um por um novamente pra ver qual estava pronto. 

“Mãe, você assistiu ao filme do King Kong com o Godzilla?”

Eu escutei, mas não entendi uma palavra: “Qual pão já está cortado mesmo?” Olho novamente um por um:  “Leite, quem quer leite?”

“Mãe, posso jogar videogame primeiro?” 

“Videogame? Ok, joga primeiro.”

“Quem queria leite mesmo? Por que eu estou ficando com raiva do leite?”

“Pê ajuda a mãe, dá uma força pros seus irmãos enquanto eu preparo as aulas antes que a Nana acorde.” Entre a luta e a fuga, preferi fugir!

Vou imprimir as atividades, mas…: “Nossa, agora tem agenda… e se eu clicar aqui? Tudo da mesma cor? Deveriam ser cores diferentes para dar a noção de categorias, um autista nunca faria desse jeito… Que sistema idiota! Puxa, eu poderia transcrever minhas aulas…” Salto de uma atividade para outra e começo a transcrever.  

Após muitas tentativas: “Como é que eu vou transcrever isso tudo se a cada dez palavras eu esqueço cinco?”

Vou fazer pão:  “Quatro ovos, três xícaras de farinha…”

“Mãe, o Pê não quer me emprestar a espada, ele está fazendo chantagem!”

“Será que vocês podem me deixar fazer o pão em paz?!” 

Até o vizinho escutou ― vergonha alheia! “Quantas xícaras de farinha eu já coloquei mesmo?”

Assim meu dia vai, ou não vai, empaca. Também desempaca. Às vezes isso faz eu me  perguntar se consigo ser competente, se fiz escolhas certas, se tudo vai dar realmente certo. Às vezes me deprimo, noutras, lembro que amanhã o sol estará de pé e terei uma nova chance. 

O desafio é constante e desgasta, mas uma coisa eu sei: autista é fogo, a gente raramente desiste! Errou? Tenta de novo!

Cérebro neurodivergente e as atividades de vida diária

Tempo de Leitura: 2 minutosComo vocês sabem, sou autista e mãe de uma mulher autista, de 24 anos. Recorrentemente, ao observá-la, cenas de minha vida retornam à minha mente com riqueza de detalhes e, infelizmente com os mesmos sentimentos da época em que foram vividas. Quem já passou por isso, sabe como o ressentimento, ressentir emoções já passadas, é nocivo desgastante.

Quando Sophia era adolescente, meu psicólogo, não raras vezes, me orientou como lidar com ela. Eu, apavorada, contra-argumentava: “Não consigo, você está me pedindo que eu lide com minhas próprias neuroses”. Então, ele me ensinava o passo a passo, o que me deixava mais segura. Uma de suas orientações era para que a Sophia (e eu) relativizasse a situação que a perturbava. O cérebro neurodivergente pode apresentar algumas armadilhas e uma delas é exatamente intensificar as emoções: ou estamos muito felizes ou, profundamente, infelizes. Coisas do tipo: “Meu mundo caiu e me fez ficar assim… você conseguiu (…)”. Dessa maneira, nosso cérebro potencializa os sentimentos envolvidos na situação, mesmo que não saibamos como nominá-los ou expressá-los para quem nos pergunta: “o que aconteceu.” Essa pode ser a maior dificuldade da pessoa autista: comunicar suas emoções. Mesmo quando é expert em discursar sobre seus hiperfocos.

Quando estamos naquela fase em que nosso cérebro ainda não é totalmente maduro, até os 25 anos aproximadamente, segundo estudos da Neurociências, perceber e relativizar as situações é algo muito, mas muito difícil mesmo. E é nessa fase, que os pais são mais rigorosos e cobram mais [email protected] [email protected] que não é mais criança. Mesmo que, paradoxalmente, muitos deles ainda infantilizem seus filhos autistas, numa atitude que beira ao capacitismo e só complica o amadurecimento do cérebro neurodivergente que pode se dar mais lentamente que o cérebro típico. Mas criança, nenhum adulto autista é.

O que é necessário nessa fase é ensinar o passo a passo de como lidar com as mais diversas situações. Vale até simular algumas delas como: ouvir de alguém da família algo que se discorde frontalmente; ouvir um não a algo que se quer muito; estar chateado porque não pode passar o tempo todo nos jogos eletrônicos – exceto se você faz disso um hiperfoco que vá se transformar em seu trabalho.

Uma outra orientação é que não precisamos responder a uma pergunta imediatamente. Há sempre como ganhar tempo dizendo: Ainda não estou bem [email protected] Vou pensar mais um pouco e te retorno.” Essa pode ser também, uma boa estratégia para que a gente não seja levada pela impulsividade que nos assombra a vida.
Não precisamos aceitar a ansiedade, quase uma constante ao cérebro neurodivergente, porém em doses mais elevadas que nos cérebros típicos, não precisamos aceitar a ansiedade como uma sentença imutável. E nem como desculpa que nos libere de construir melhores reações. Para tanto, é bom que [email protected] autista treine a respiração que é forte aliada nos momentos de crise ou de ansiedade.

Um exercício muito bom, vem da terapia cognitivo comportamental: é preciso analisar o que de real existe num medo paralisante e o que é uma construção de nossas vivências. Eu tenho pavor de ir a lugares que não conheço, dirigindo. Percebi que os motivos são: medo de me perder. Para esse, o GPS e coração sereno, caso contrário, não conseguimos entender nem as indicações do GPS. Medo de estar sozinha pois quando estou nervosa não consigo me expressar direito. Para esse, a companhia daquela pessoa que é nosso suporte mesmo quando somos adultos (uma prima, um colega, pai, mãe, terapeuta/acompanhante.) Medo do imprevisível e incontrolável. Para esse, a vida me ensinou que não tem estratégia 100% eficaz. Por isso, diminuímos a tensão com o que podemos, de alguma maneira, controlar para enfrentar o imprevisível que, no mínimo, nos servirá de um rico aprendizado.