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Sobre autistas, sincericídio e padrões do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutosA busca de autistas por padrões para compreender o mundo à sua volta, acontece frequentemente, porque pessoas com cérebro neurodivergente necessitam de padrões para criar regras que os ajudem na decodificação do mundo e das relações sociais.

Há uma crença generalizada de que o autista não sabe mentir e, por isso, cometem sincericídio a todo momento. Não é bem assim. No sincericídio, a verdade costuma ser relativa, e a pessoa não pensa para falar, desconsiderando o que o outro sente ou mesmo deseja. Simplificando, cometer sincericídio significa expressar fatos e opiniões sem refletir sobre como aquilo pode afetar as pessoas e o mundo à sua volta.

O autista não é levado por motivos tão rasos ao não ter filtro quando expressa uma opinião e acaba por cometer o suicídio na fala sem filtro ao se expressar com autenticidade e excesso de sinceridade. Essa falta de filtro traz situações constrangedoras à família, à relação amorosa e até ao mercado de trabalho. Sabemos que a verdade absoluta nas relações poderia gerar o fim da convivência social. Por isso mesmo, algumas mentirinhas são incentivadas e conhecidas como ‘mentirinhas sociais’. Como o comportamento é resultado do processamento de informações que acontecem de forma diferente no cérebro considerado típico e o cérebro neurodivergente, essas mentirinhas podem ser aprendidas.

Literalidade da Linguagem, Teoria da Mente, Rigidez de Pensamento e Disfunção Executiva

No entanto, alguns fatores complicam esse aprendizado para as pessoas que estão dentro do TEA – Transtorno do Espectro do Autismo, como a literalidade da linguagem, que nos impede de perceber jogos com as palavras, segundas intenções ou indiretas, nos leva, também, à utilização das palavras com seu significado denotativo, literal.

Outro fator é o déficit de teoria da mente que é, praticamente, inexistente na pessoa autista. Dessa maneira, temos muita dificuldade para reconhecer sentimentos, interesses, expectativas, ou até mesmo intenções da pessoa com quem falamos. É como uma ‘cegueira’ diante do contexto social.

A rigidez de pensamento é um pesadelo para mim até hoje. Sou do tipo 8 ou 80, tudo ou nada. Sempre tive dificuldades para relativizar, ou amo ou odeio. Hoje menos, pois há muitos anos, desenvolvo a leitura do caminho do meio. Por isso, sou budista do budismo de Nichiren Daishonin – buda japonês do século 13. A relativização das coisas e circunstâncias é um bem precioso para evitar sofrimentos intensos. Por isso, essa habilidade é tão perseguida pelos autistas.

Por último, o fantasma da disfunção executiva nos arranca o freio social que é o que não permite que a maioria das pessoas aja no impulso. Oh, God! Antes que pudesse evitar já tinha falado e as consequências da minha fala ou ação é que me apontavam que (de novo) eu agi sem considerar tais consequências.

Mas, com toda a sinceridade (risos!) não posso dizer a vocês que nunca minto. Tenho dificuldades sim, mas até a mentira pode ser aprendida. Por exemplo, um dia um namorado chegou com um bolo de fubá para me agradar pois eu amo bolos – menos o de fubá. Já haviam me alertado que dizer isso, exatamente, como eu penso, poderia magoar meu namorado. Então, fingi que havia gostado. Não entendo como ele percebeu que eu não estava sendo sincera.

Nesse dia, meu namorado me ensinou uma lição preciosa. Ele falou que nessa situação eu deveria ser sincera, usando palavras carinhosas pois, caso contrário, ele poderia sempre trazer bolo de fubá para mim. Assim, eu entendi que até as mentiras sociais são complicadas e podem trazer consequências desagradáveis. Resolvi ler o passo 2 do Manual das ‘Mentirinhas Sociais’: como dizer a verdade e escolher as palavras certas para diminuir o risco de magoar quem a gente gosta. Difícil? Um pouco. Impossível? De jeito nenhum.

Diálogos interiores

Tempo de Leitura: 2 minutosFunções executivas são habilidades cognitivas. Estão incorporados nessa categoria o controle inibitório, pensamento rígido, organização, planejamento, controle da execução, foco, memória de trabalho etc. Mas, você sabe como pode ser estressante para uma pessoa autista lidar com o funcionamento aquém do esperado de suas funções executivas?

Acordo: “Hummmm, adoro escurinho… puxa vou ter que sair do escurinho? Nossa… a atividade das crianças, como eu vou passar pra eles hoje? Esqueci do upload daquele arquivo… Nossa, e da aula da faculdade.” 

Bate o desespero, mas me auto-regulo: “Comece com o primeiro passo… café!” 

Sim, eu abro os olhos e acontece tudo isso junto mesmo! Ali, na hora! 

Café! Adoro ficar sentindo o gosto das coisas, num momento “nada”. De repente, me arrancaram do “nada”. Tento preparar as coisas. 

“Mãe, posso passar requeijão?”

“Requeijão? Claro!” 

Pego o requeijão: “Quantos pães eu já fiz mesmo?” Olho um por um novamente pra ver qual estava pronto. 

“Mãe, você assistiu ao filme do King Kong com o Godzilla?”

Eu escutei, mas não entendi uma palavra: “Qual pão já está cortado mesmo?” Olho novamente um por um:  “Leite, quem quer leite?”

“Mãe, posso jogar videogame primeiro?” 

“Videogame? Ok, joga primeiro.”

“Quem queria leite mesmo? Por que eu estou ficando com raiva do leite?”

“Pê ajuda a mãe, dá uma força pros seus irmãos enquanto eu preparo as aulas antes que a Nana acorde.” Entre a luta e a fuga, preferi fugir!

Vou imprimir as atividades, mas…: “Nossa, agora tem agenda… e se eu clicar aqui? Tudo da mesma cor? Deveriam ser cores diferentes para dar a noção de categorias, um autista nunca faria desse jeito… Que sistema idiota! Puxa, eu poderia transcrever minhas aulas…” Salto de uma atividade para outra e começo a transcrever.  

Após muitas tentativas: “Como é que eu vou transcrever isso tudo se a cada dez palavras eu esqueço cinco?”

Vou fazer pão:  “Quatro ovos, três xícaras de farinha…”

“Mãe, o Pê não quer me emprestar a espada, ele está fazendo chantagem!”

“Será que vocês podem me deixar fazer o pão em paz?!” 

Até o vizinho escutou ― vergonha alheia! “Quantas xícaras de farinha eu já coloquei mesmo?”

Assim meu dia vai, ou não vai, empaca. Também desempaca. Às vezes isso faz eu me  perguntar se consigo ser competente, se fiz escolhas certas, se tudo vai dar realmente certo. Às vezes me deprimo, noutras, lembro que amanhã o sol estará de pé e terei uma nova chance. 

O desafio é constante e desgasta, mas uma coisa eu sei: autista é fogo, a gente raramente desiste! Errou? Tenta de novo!