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Tratamento do autismo: 5 passos para uma intervenção de sucesso

Tempo de Leitura: 3 minutosAssim que os pais percebem os primeiros sinais que indicam atraso no desenvolvimento de uma criança, é iniciado o tratamento para garantir que ela tenha avanços nas áreas em que apresenta déficit. Vale lembrar que não é necessário ter o diagnóstico de autismo para isso, basta identificar atrasos que comprometem o desenvolvimento daquele indivíduo.

Assim, o sucesso do tratamento depende de algumas etapas importantes que vamos tratar a seguir: 

1 – Intensidade

O primeiro passo para que um tratamento seja efetivo é, justamente, a intensidade com a qual ele acontece. Ou seja, quanto mais sessões ele tiver com a equipe multidisciplinar, mais rápido será o desenvolvimento daquele indivíduo. 

Sabemos que, muitas vezes, este fator é complicado devido às questões financeiras ou aos procedimentos dos planos de saúde. No entanto, de acordo com a advogada e especialista em direito da saúde, Diana Serpe, essa prática é ilegal e os planos de saúde devem fornecer tratamento ilimitado para as pessoas com autismo.

2 – Qualidade

A qualidade é, por si só, uma das etapas mais importantes no que diz respeito ao sucesso no tratamento do autismo. Isso se dá em duas esferas: profissionais adequados e escolha da intervenção correta. 

No campo profissional, é necessário que toda equipe multidisciplinar tenha conhecimento e, principalmente, seja especializada no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Só assim, garante-se uma intervenção precisa. 

Já no que diz respeito ao segundo tópico, de intervenções corretas, estamos falando no tipo de tratamento a que aquele indivíduo terá acesso. No caso do autismo, as intervenções indicadas são aquelas baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), que têm evidências científicas. 

Por isso, é necessário que os especialistas que vão atender aquele indivíduo tenham amplo conhecimento para aplicar este tratamento.

3 – Precocidade

Como já falamos em um artigo anterior, especialistas em autismo afirmam que o diagnóstico precoce é extremamente importante para garantir o desenvolvimento da criança no TEA. Por isso, esse é, também, um dos passos essenciais no que diz respeito a um tratamento de sucesso.

Vale lembrar que não é preciso que o diagnóstico de autismo tenha sido fechado para iniciar o tratamento. Isso porque, normalmente, quando os pais buscam por ajuda profissional, já notaram alguns sinais de atraso no desenvolvimento, como atraso na fala ou problemas na coordenação motora. 

Somente com isso já é possível iniciar intervenções que vão ajudar a criança nesse processo. No livro Propósito azul, os autores afirmam que: “quando as crianças já são maiores, fica mais fácil identificar atrasos, realizar um diagnóstico mais preciso, mas daí já seria tarde demais, você teria perdido a maior fase da vida para realizar esses estímulos, quando a plasticidade cerebral é muito maior, ou seja, nos primeiros anos de vida”. 

E é justamente devido a essa facilidade de aprendizado ainda nos primeiros anos que faz com que a precocidade seja tão importante para o tratamento do autismo.

4 – Adaptação e desenvolvimento da escola

A escola é um dos ambientes mais importantes para o desenvolvimento – tanto de crianças típicas quanto de neurotípicas. Isso porque é lá que elas vão passar a maior parte do tempo e ter possibilidades de interação que vão além do ambiente familiar/terapêutico. 

Isso significa que a escola é, também, o principal local para se colocar em prática os aprendizados das terapias. Mas, para que isso aconteça, é necessário que a escola faça as adaptações necessárias para ajudar no desenvolvimento da criança. 

Uma forma de fazer com que isso aconteça de forma produtiva é garantir que os professores que têm contato com aquele indivíduo recebam a orientação adequada sobre o manejo dos comportamentos. Além disso, é importante também que os professores não estejam somente preocupados com a interação daquela criança e deixem de lado o aprendizado. Isso porque, os autistas têm capacidade de aprender, o que muda é a forma de ensinar.  

5 – Capacitação dos pais

Talvez a etapa mais importante de todas seja o que chamamos de capacitação parental. Mais do que qualquer coisa, é importante que os pais estejam empenhados no tratamento e consigam aplicar os aprendizados na terapia e também incentivar tudo aquilo que acontece na escola. 

Por isso, é necessário que, mais do que investir em profissionais capacitados e especializados no TEA, os próprios pais consigam replicar as estratégias de manejo comportamental e compreendam como elas são importantes. Assim, se as intervenções são baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), por exemplo, é essencial que os pais entendam os fundamentos deste tratamento e saibam, inclusive, criar estratégias para sua aplicação em outros ambientes no qual aquele indivíduo está inserido. 

Tamanha é a importância desta etapa que a Academia do Autismo desenvolveu o curso de ABA para pais e aplicadores, que insere a família neste contexto de tratamento.

Desta forma, garante-se um tratamento de muito sucesso e com muito mais possibilidades de desenvolvimento para a pessoa no espectro autista.

 

Acompanhe, nos próximos artigos, dicas práticas para auxiliar no aprendizado e desenvolvimento de pessoas com autismo em diversos ambientes. 

 

Fonte: Livro ‘Propósito Azul’, Academia do Autismo

Crédito: Gabriela Bandeira

Imagem: Reprodução Google

Funcionalidade do VB-MAPP para crianças brasileiras

Tempo de Leitura: 3 minutosVB-MAPP é a sigla de Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (“Programa de Avaliação e Colocação de Marcos de Comportamento Verbal”, em tradução para o português) e trata-se de um protocolo para avaliação dos níveis de funcionalidade de pessoas com diagnóstico de autismo ou outros distúrbios do desenvolvimento.

Ele é utilizado dentro da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) para saber qual o repertório de habilidades do indivíduo e o que de fato ele sabe. Esta é uma etapa importante antes que sejam iniciadas as intervenções baseadas em ABA. 

Principais aspectos 

Podemos resumir o VB-MAPP como uma avaliação baseada em marcos. Levando em consideração o desenvolvimento de uma criança típica, ela analisa em qual nível a criança com desenvolvimento atípico se encontra. 

Para isso, ela é dividida em três níveis: 

  • Nível 1: 0 a 18 meses
  • Nível 2: 18 a 30 meses
  • Nível 3: 30 a 48 meses

Para determinar o nível, as avaliações são divididas em: 

  • Avaliação de marcos,
  • Avaliação de barreiras,
  • Avaliação de transição,
  • Avaliação de tarefas de habilidades de apoio, 
  • Nivelamento VB-MAPP e objetivos de plano de ensino. 

Quem pode fazer a aplicação do VB-MAPP é o profissional clínico antes de iniciar a intervenção em ABA. No entanto, vale lembrar que mesmo que o profissional seja experiente, é essencial que ele aplique a avaliação antes das intervenções. De acordo com o psicólogo Fábio Coelho, especialista em autismo, é esse processo que ajuda a identificar o fato do paciente ter dificuldades em compreender ou mesmo responder a algumas demandas. “Muitas vezes, pela falta de uma compreensão adequada do que causa determinado comportamento, atuamos de forma equivocada como pais, educadores ou terapeutas de pessoas com TEA”. 

Ele ainda reforça a importância do protocolo na ABA. “O Programa é, na minha opinião, essencial pois serve como um sistema de avaliação e rastreamento para avaliar a linguagem, habilidades motoras, sociais e acadêmicas de crianças com autismo ou outras deficiências de desenvolvimento. O VB-MAPP é um dos principais protocolos de avaliação da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e é amplamente utilizado para avaliação individualizada e planejamento terapêutico/educacional”, pontua. 

Analisando o VB-MAPP em uma amostra de crianças brasileiras

Sendo um instrumento de avaliação criado por norte-americanos, é preciso entender se o VB-MAPP realmente funciona no contexto brasileiro. Essa funcionalidade foi avaliada em um estudo da Universidade Federal do Pará, conduzido pelos pesquisadores Sara Keuffer e Carlos Souza e intitulado “Avaliação da adequação dos níveis de funcionalidade do VB-MAPP em uma amostra de crianças brasileiras”. 

O estudo 

Participaram da pesquisa 61 crianças brasileiras com desenvolvimento típico com idades entre um e cinco anos. Os participantes foram selecionados em escolas e creches da região e os pais foram submetidos a uma anamnese, além da criança ser observada para que os pesquisadores tivessem certeza de que o desenvolvimento das crianças era típico. 

Resultados

Ao final do estudo, os pesquisadores chegaram à conclusão de que os dados obtidos indicavam que os níveis de funcionalidade propostos no VB-MAPP se mostraram adequados para avaliar repertórios verbais e algumas habilidades motoras e sociais de uma amostra de crianças brasileiras com desenvolvimento típico. 

“O resultado obtido é o primeiro a sugerir, empiricamente, uma correspondência entre as faixas etárias dos níveis de funcionalidade definidas por Sudberg (2014) e o desempenho na realização das tarefas dos mesmos por crianças de outra população, ampliando os dados sobre a validade externa do VB-MAPP em termos da possibilidade de generalização para outras circunstâncias/populações (Yin, 1994/2001)”. 

Assim, concluiu-se que o uso do VB-MAPP era pertinente para o contexto brasileiro, mesmo que o protocolo tenha sido estabelecido com base nos marcos típicos de desenvolvimento infantil caracterizados principalmente a partir de estudos com crianças estadunidenses e europeias.

 

Crédito: Gabriela Bandeira.
Créditos da imagem: Google.

O que dizem os estudos sobre ABA?

Tempo de Leitura: 3 minutos

Entenda a importância desta ciência no desenvolvimento de alguém no TEA

A ciência que estuda os comportamentos, ensina a modificá-los e ensina novas habilidades é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês Applied Behavior Analysis), cujas técnicas são recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento de pessoas com desenvolvimento atípico, especialmente o autismo.

A ABA é conhecida como uma das “práticas baseadas em evidências”, o que significa que existe um número significativo de estudos que seguem critérios específicos e têm resultados comprovados. Ou seja: cientificamente funcionam, conforme explica o artigo disponível para download: Contribuições da análise do comportamento aplicada para indivíduos com transtorno do espectro do autismo: uma revisão.

Continuamente, novos estudos sobre ABA são publicados. Segundo a psicóloga e especialista em autismo Chaloê Comim, isso acontece porque: “Tudo em uma ciência é passível de ser falseável, testado, refinado e aprimorado. Desde Skinner, o maior interesse da ABA é social, em sobre como melhorar a interação humana em sociedade. Na Análise do Comportamento, novos estudos são feitos continuamente. Nosso comportamento tem 3 níveis de seleção: A evolução da nossa espécie, nossa história individual e a cultura onde estamos inseridos. As contingências mudam, a sociedade e as necessidades mudam, a cultura muda e novos jeitos de lidar com o comportamento e ensinar novas habilidades, vão surgindo”, explica.

Neste artigo, vamos falar sobre os principais estudos referentes à Análise do Comportamento Aplicada.

O primeiro estudo de ABA da história

Os primeiros registros de terapias e intervenções envolvendo a Análise do Comportamento Aplicada surgiram entre 1961 e 1962, por meio de pesquisas realizadas por Ferster e DeMyer e demonstravam que era possível usar as técnicas para modificar comportamento em pessoas com distúrbios do desenvolvimento. Além disso, os resultados do estudo mostraram, também, que o repertório comportamental aumentava e reduzia os comportamentos considerados problemáticos.

Em 1987, o psicólogo clínico Ivar Loovas publicou um novo estudo que apontava importantes ganhos com o uso destes princípios comportamentais no ensino de crianças diagnosticadas com autismo. Os resultados e dados do estudo foram os seguintes:

  • Ao todo, 19 crianças tiveram acesso às intervenções baseadas em ABA
  • Delas, 47% haviam sido reintegradas com sucesso em escolas regulares
  • Das crianças que fizeram outras intervenções, apenas 2% tiveram sucesso no desenvolvimento.

Prática Baseada em Evidências (PBE)

Como forma de validar cientificamente práticas baseadas em evidências para crianças, jovens e adultos com Autismo, o The National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP), conduziu um projeto para uma revisão sistemática da literatura, sobre intervenções com evidências para Autismo. , O objetivo foi levantar e classificar tratamentos que promovem a saúde do paciente e integram práticas reconhecidas e comprovadas para apoiar a decisão de profissionais para as indicarem.

Em sua versão mais recente, publicada em 2020, a  NCAEP traz 28 práticas consideradas com evidências (PBE) científicas que atingiram todos os critérios propostos pela revisão, para intervenções em pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) são elas:

  1. Intervenção baseada em antecedentes
  2. Comunicação alternativa e aumentativa
  3. Intervenção de Momentum Comportamental
  4. Estratégias instrucionais cognitivo-comportamentais
  5. Reforçamento diferencial de comportamento alternativo, incompatível ou outro comportamento (DRA, DRI, DRO)
  6. Instrução direta (DI)
  7. Ensino por tentativas discretas
  8. Exercício e movimento
  9. Extinção
  10. Avaliação funcional
  11. Treinamento de comunicação funcional
  12. Modelação
  13. Intervenção mediada por música
  14. Intervenção naturalística
  15. Intervenções implementadas pelos pais
  16. Instrução e intervenção mediada por pares
  17. Reforçamento
  18. Dicas
  19. Bloqueio de respostas e redirecionamento
  20. Autogestão
  21. Integração sensorial
  22. Narrativas sociais
  23. Treinamento de habilidades sociais
  24. Análise de tarefas
  25. Instrução e intervenção auxiliada por tecnologia
  26. Atraso de tempo
  27. Videomodelagem
  28. Suportes visuais

Revisão de estudos ABA

Existem ainda outros estudos, como o disponível para download no CIA Autismo, que fazem uma revisão de outras pesquisas já publicadas envolvendo a ABA. Neste, em específico, é feita uma revisão bibliográfica de estudos na íntegra já realizado sobre a ciência, com o objetivo de avaliar a contribuição das intervenções baseadas em ABA em pessoas com TEA.

O artigo analisou dez estudos já realizados sobre os efeitos da Análise do Comportamento Aplicada em indivíduos com autismo no Brasil e em outros países, a fim de concluir como a ciência pode ajudar no desenvolvimento destas pessoas ao longo da vida.

Por meio da análise foi observado que a análise do comportamento aplicada intervém diretamente no comportamento do indivíduo e pode ser totalmente estruturada, colaborando para o processo de aprendizagem deste público. Vale lembrar também que a ABA não acontece somente nas clínicas, mas pode ser aplicada em diversos ambientes, por isso estudar e revisar estudos já realizados sobre o tema ajudam a desmistificar mitos acerca da ciência e traz novas visões sobre como os conceitos da ABA para pais e profissionais.

 

Para ver mais um artigo sobre ABA, clique aqui.

 

Crédito: Gabriela Bandeira e Chaloê Comim
Fonte: Academia do Autismo
Imagem: reprodução / Academia do Autismo

Protocolo VB-MAPP

Tempo de Leitura: 3 minutosO Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program, mais conhecido pela sigla VB-MAPP é um protocolo para avaliação de pessoas com autismo utilizado dentro da Análise do Comportamento (ABA). Embora muitas famílias de quem está no espectro autista não compreendam sua necessidade, especialistas no tema garantem que essa investigação é de extrema importância para o paciente. 

É por meio dela, por exemplo, que se sabe qual o repertório do paciente e o que de fato ele sabe. Assim, será possível iniciar a ABA e fazer o tratamento adequado para alcançar sua autonomia e garantir o máximo de avanços possível. 

Como funciona?

O VB-MAPP é, sobretudo, uma avaliação baseada em marcos. Isso significa que ela analisa como o paciente está levando em consideração o desenvolvimento típico. Dessa forma, imagine que o paciente em questão seja uma criança de 5 anos diagnosticada dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante as avaliações, os profissionais envolvidos em seu tratamento podem classificá-la como alguém com desenvolvimento semelhante ao de uma criança típica de 0 a 18 meses. 

Vale ressaltar, ainda, que o VB-MAPP funciona em três níveis. São eles:

  • Nível 1: 0 a 18 meses
  • Nível 2: 18 a 30 meses
  • Nível 3: 30 a 48 meses

Essas métricas não significam que o protocolo só se aplique a crianças de até dois anos. Pelo contrário, ele pode ser utilizado até os 7 anos, mas nesse caso o marco de desenvolvimento ser de 30 meses, por exemplo. 

Outros Componentes do VB-MAPP

Uma das etapas para iniciar a análise de VB-MAPP em crianças autistas é fazer a avaliação de barreiras. Ela consiste na observação de 24 áreas que podem estar comprometendo a aprendizagem. Assim, vamos supor que os profissionais responsáveis pelo tratamento do paciente ou mesmo a família estejam falhando em ensinar algo a ele. Isso pode acontecer porque há uma barreira que só será descoberta após esse exame. 

Existe ainda a avaliação de transição – mas esse método não é tão usado no Brasil, justamente porque o ensino aqui é diferente dos Estados Unidos, de onde o VB-MAPP foi importado. Essa etapa, basicamente, é como tirar a criança da escola de ensino especial e fazer sua inclusão no ensino regular. Para que isso ocorra de forma a melhorar o aprendizado e não causar danos ao paciente, é realizada a avaliação de transição.

Outro importante instrumento para o VB-MAPP é a Task Analysis (lista de tarefas, em português). Por meio dela, é possível pegar uma habilidade específica e dividi-la em pequenas partes que podem ajudar o profissional a compreender o processo e conquistar um objetivo específico – ou seja, a habilidade maior. 

Chegamos ao último, mas não menos importante, componente do Protocolo VB-MAP: a Elaboração do PEI – Plano de Ensino Individualizado. Ao contrário do que muitos possam achar, o PEI deve ser construído em conjunto, entre escola, família e os terapeutas que acompanham a criança. E é exatamente nessa elaboração que o protocolo VB-MAPP entra como um diferencial, norteando o plano de tratamento e desenvolvimento.

No contexto terapêutico, ele também é construído com base nos resultados da avaliação e é um documento no qual constará as diretrizes que vão nortear o plano de tratamento e desenvolvimento.

Em ambos os contextos, o PEI descreverá a toda equipe envolvida quais são os objetivos de curto, médio e longo prazo no desenvolvimento, como chegar a estes objetivos e quais as adaptações são necessárias para alcançar cada marco no desenvolvimento.

Importância

O VB-MAPP é normalmente aplicado pelo terapeuta antes de iniciar a ABA. No entanto, vale lembrar que mesmo que o profissional seja experiente, é essencial que ele aplique a avaliação antes das intervenções. De acordo com o psicólogo Fábio Coelho, especialista em autismo, é esse processo que ajuda a identificar o fato do paciente ter dificuldades em compreender ou mesmo responder a algumas demandas. “Muitas vezes, pela falta de uma compreensão adequada do que causa determinado comportamento, atuamos de forma equivocada como pais, educadores ou terapeutas de pessoas com TEA”. 

Ele ainda reforça a importância do protocolo na ABA. “O Programa é, na minha opinião, essencial pois serve como um sistema de avaliação e rastreamento para avaliar a linguagem, habilidades motoras, sociais e acadêmica de crianças com autismo ou outras deficiências de desenvolvimento. O VB-MAPP é um dos principais protocolos de avaliação da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e é amplamente utilizado para avaliação individualizada e planejamento terapêutico/educacional”. 

Créditos: Gabriela Bandeira, Chaloê Comim.

Fonte: Academia do Autismo, IEAC

Crédito da Imagem: Reprodução Academia do Autismo.

Mais um degrau rumo a intervenções com evidências científicas para os autistas no país

Tempo de Leitura: 3 minutosCada vez mais a sociedade científica, os familiares e as pessoas com Transtorno do Espectro Autista se aprofundam para tentar responder como podemos oferecer serviços que promovam autonomia e bem-estar, de forma efetiva e ética, para os indivíduos com  TEA. O que já é consenso é que a intervenção para pessoas com TEA deve ser individualizada ⎼ levando em conta, sobretudo, a singularidade do aprendiz – e multiprofissional.

Em 2020, o National Professional Developmental Center (NPDC) publicou uma revisão sistemática com o propósito de descrever uma série de práticas focais que têm evidências claras dos seus efeitos positivos em crianças e jovens com Transtorno do Espectro Autista. O relatório é a terceira versão de uma revisão sistemática que examinou a literatura de intervenção em artigos publicados entre 1990 e 2017.  Após anos de coletas de dados de análises de artigos, sendo que um total de 972 artigos foram considerados aceitáveis para o estudo, resultou uma lista de 28 práticas baseadas em evidência para o TEA. 

Para se considerar uma prática baseada em evidência é necessário, entre outros critérios, que ela tenha sido estabelecida por meio de pesquisa empírica publicada em periódicos científicos revisados por pares em estudos randomizados. 

O documento não é o primeiro grande estudo na área das intervenções baseadas em evidências para o TEA. Em 2015, O National Autism Center (NAC) tornou público o resultado do National Standards Project, um grandioso estudo que teve como objetivo principal fornecer informações críticas sobre quais intervenções se mostraram eficazes para indivíduos com autismo.

Os estudos acima, somados com uma maior disseminação de conhecimento sobre TEA no país, motivam cada vez mais a comunidade a elevar a qualidade dos serviços oferecidos por aqui. Mais recentemente, em manifestação pioneira no país, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou uma proposta de padronização para o tratamento de pessoas com TEA no Brasil, esclarecendo pontos importantes sobre avaliação diagnóstica, exames que devem ser solicitados, e tratamentos com evidências.

Segundo a publicação, a avaliação de crianças com TEA deve incluir, entre outros fatores, a história do desenvolvimento neuropsicomotor, antecedentes gestacionais e neonatais, comportamentos do sono e alimentar, a história médica da criança, a procura de sinais de convulsões, problemas gastrointestinais, deficiência intelectual, síndrome do X-frágil, além da investigação de outras possíveis comorbidades.

Já no tocante às intervenções, segundo a SBNI, o tratamento do TEA caracteriza-se por intervenção precoce através de terapias que visam potencializar o desenvolvimento da criança. O documento prossegue afirmando que atualmente as terapias com maior evidência de benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), associada a terapias auxiliares, como fonoterapia, terapia ocupacional e que outras abordagens devem ser orientadas de acordo com cada caso individual.  

O documento ainda traz questões importantes sobre o uso de medicamentos, que eventualmente pode ser necessário em casos de presença de agressividade e hiperatividade, e faz um alerta sobre dietas, suplementações de vitaminas e vários tipos de abordagens terapêuticas/educacionais que têm sido propostas para o tratamento do TEA, e que, entretanto, não apresentam evidências científicas de que funcionem.

Ainda há um longo caminho a percorrer. Infelizmente, a intervenção analítico-comportamental é inacessível à maioria dos indivíduos diagnosticados com TEA em países em desenvolvimento como o Brasil, uma vez que uma intervenção intensiva, de longa duração e implementada de forma individualizada, requer grande disponibilidade de profissionais devidamente capacitados, o que ainda é um desafio que precisa ser rompido. A fragilidade das redes públicas de educação e de saúde torna o acesso à intervenção analítico-comportamental ao TEA (ABA) difícil de alcançar toda a população que dela necessita. No entanto, é visível que cada vez mais caminha-se nessa direção: o das práticas com evidências.

ABA: entendendo o comportamento para mudá-lo

Tempo de Leitura: 3 minutos

Como desconstruir o comportamento e entender o motivo dele acontecer

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês Applied Behavior Analysis) é uma ciência de aprendizagem cujas técnicas são indicadas para o tratamento de pessoas com desenvolvimento atípico, especialmente o autismo. Assim como o próprio nome diz, a ABA pode ser utilizada para modificar um comportamento inadequado e ensinar novos comportamentos para qualquer pessoa, especialmente aquelas que estão no espectro.

De acordo com a psicóloga e especialista em autismo e análise do comportamento Chaloê Comim, aplicar técnicas da ABA não é uma tarefa simples, e exige cuidado, especialização e ajuda/apoio profissional. “Ciência é para todos, mas não é algo simples e nem fácil, principalmente quando falamos de manejo de comportamento humano. É muita responsabilidade alterar o desenvolvimento de uma pessoa, porque eu posso piorar tudo se eu não souber o que estou fazendo. Aplicar ciência, como a ABA, ao desenvolvimento humano é o melhor caminho, mas exige seriedade, compromisso, estudo, ética e humanidade”.

No que diz respeito ao comportamento, é preciso trabalhar com uma série de processos que vão desde a observação do indivíduo até a criação e mensuração de estratégias específicas para modificar ou ensinar um novo comportamento. Neste artigo, vamos explicar mais sobre esse aspecto, que está abordado no material disponível para download no CIA Autismo: análise funcional/ avaliação funcional do comportamento.

O ‘ABC’ do comportamento

Um dos princípios para entender a análise do comportamento é o que chamamos de ‘ABC’ do comportamento. Termo derivado também das siglas em inglês, ele é formado da seguinte forma:

(A)ntecedent ——> (B)ehavior ——> (C)onsequence

Antecedente ——> Comportamento ——> Consequência

Basicamente, essa estrutura define a forma como todos os comportamentos funcionam. O que significa que sempre existe um antecedente – algo que antecede o comportamento – o comportamento em si é uma consequência que ocorre logo em seguida e pode se tornar um reforçador para que aquele comportamento continue acontecendo no futuro.

De um modo prático, vamos imaginar o seguinte cenário: a criança está na escola, mas não quer mais assistir a aula de matemática e resolver os exercícios. Então, ela começa a chorar e jogar os objetos da carteira no chão. Ao presenciar a situação, o auxiliar de educação inclusiva a retira da sala e leva para o pátio da escola, onde ela pode brincar. Após esse episódio, ela começa a chorar e jogar o material no chão com frequência, para conseguir sair da sala e ser levada ao pátio.

Neste caso dividimos o ABC do comportamento da seguinte forma:

ABA: Entendendo o comportamento para mudá-lo - Academia do Autismo - Canal Autismo / Revista Autismo

Sem observar esse aspecto, é impossível conseguir modificar e ensinar novos comportamentos, uma vez que a observação e avaliação do comportamento é o primeiro passo nesse processo. No material disponível, tem um modelo para observação e anotação de análise funcional para preencher.

Entendendo a função do comportamento

Seja adequado ou inadequado, todo comportamento tem uma função e acontece por um motivo. Quando o comportamento acontece para gerar uma consequência, isso significa que ele está sendo reforçado. Esse reforço pode ser:

  • Social: elogios, atenção etc
  • Tangível: sempre que se comporta daquela forma, a pessoa ganha algo que queria: um doce, um brinquedo etc
  • Se esquivar ou fugir de algum lugar ou atividade: como no caso da aula de matemática do exemplo acima
  • Reforço auto estimulatório: se acalmar, sentir uma sensação agradável. Esse reforço normalmente está ligado às estereotipias
  • Conseguir o controle do ambiente

Créditos: Gabriela Bandeira | Chaloê Comim.

Crédito da Imagem: Reprodução Portal CIA Autismo.

Conflitos de autistas ativistas com intervenções baseadas em ABA é tema de podcast

Tempo de Leitura: 2 minutosO podcast Introvertendo, produzido por autistas adultos e com diálogos sobre o autismo, lançou nesta sexta-feira (1) o seu 189º episódio, chamado “Autistas e a Análise do Comportamento Aplicada (ABA)”. O episódio foi conduzido pelo jornalista Tiago Abreu, com a participação das analistas do comportamento Cíntia Ridi e Táhcita Mizael, ambas autistas.

Ao longo dos diálogos, foram discutidas questões de conflito entre autistas ativistas com a Análise do comportamento aplicada, relacionada a temas como punição, neurodiversidade e práticas baseadas em evidências. Sobre normalização, Táhcita afirmou que, na observação dela, pode ocorrer em intervenções baseadas em ABA, mas também em outras atuações profissionais. “Essa questão de uma possível normalização ou esse desejo de retirar stims que não gerem dano pra pessoa ou pras pessoas que estão ao redor me parece mais uma característica da nossa sociedade enquanto uma sociedade aí que tem alguns valores que considera alguns tipos de comportamentos como ‘normais’ e que tem pouca tolerância e respeito por divergências”, disse ela.

Abreu apresentou um trecho de uma live em que o analista do comportamento Celso Goyos disse: “Se você tem uma doença maligna, todos nós sabemos que quanto mais cedo você souber, ter o diagnóstico e tratar, melhor vai ser. Com autismo não é diferente”. O jornalista fez críticas ao trecho, afirmando que “pra isso soar tão natural, num ambiente por exemplo como uma live, eu imagino que tem que ter um contexto que seja natural pensar o autismo como doença”.

Em conversa com o Canal Autismo, Tiago defendeu que o tema é relevante. “É uma das discussões mais frequentes na comunidade entre autistas e geralmente mal compreendida entre os próprios autistas. Isso porque ABA é um assunto complexo, que gera conflitos intermináveis e desgastantes. Tão complexo que foi o episódio mais difícil que já fizemos até hoje. Levamos meses para organizar a pauta e gravar”, destacou.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Introdução à ABA: o que é ABA?

Tempo de Leitura: 2 minutos

A ABA ficou conhecida por sua eficácia no tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, na realidade, ela faz parte de uma ciência muito mais ampla que pode ser aplicada a qualquer contexto socialmente relevante. Ela também pode ser entendida como a “Ciência da Aprendizagem”, pois suas intervenções visam ampliar repertórios, promover novas aprendizagens e autonomia.
Infelizmente, é comum encontrarmos a ABA sendo propagada como “Método ABA”, como se ela fosse simplesmente um conjunto de técnicas ou uma espécie de “receita mágica” para lidar com algo, principalmente, no autismo. E isso é muito ruim.
A grosso modo, pode-se dizer que existem métodos baseados em ABA, mas a ABA não é “um método”.  A falta de entendimento disso, chega a ser até perigoso, pois aplicar Intervenções “ABA”, sem supervisão e sem conhecimento de suas bases filosóficas e cientificas, ao invés de promover melhora, pode-se desencadear a piora de algumas demandas. Não existe mágica, não existe um método para lidar com todos os casos. Existe uma ciência!
ABA, é uma sigla em inglês que significa Applied Behavior Analysis, em português, Análise do Comportamento Aplicada. A ABA, como falamos, não é um método, nem um “pacote de técnicas”. Suas intervenções são baseadas em evidencias, resultado de décadas de estudos e pesquisas sobre o comportamento, particularmente, o comportamento humano. A Análise do Comportamento Aplicada vai muito além de ser um mero conjunto de intervenções. Resumidamente (bem resumidamente), é a parte aplicada de uma ciência maior chamada Análise do Comportamento.
A Análise do Comportamento é uma ciência que tem 3 “subáreas”, todas interligadas. São elas:
  1. O Behaviorismo Radical – a Filosofia da Análise do Comportamento, a teoria base desta ciência, que começou com Skinner.
  2. A Análise Experimental do Comportamento, incumbida de realizar pesquisas, testar e produzir dados nesta ciência, com estudos experimentais sobre relações comportamentais em contextos socialmente relevantes. Para, assim, ir além da teoria, descartando ou comprovando-a.
  3. E finalmente, A ABA! A Análise Aplicada do Comportamento, que planeja e aplica intervenções, baseadas na filosofia Behaviorista e nas evidências obtidas com os estudos da área Experimental do comportamento. Então, os procedimentos que temos hoje na ABA passaram antes por anos de pesquisas.

Percebem como essas três áreas estão intimamente ligadas?

Em resumo, é impossível trabalhar com a ABA sem um profundo conhecimento das bases cientificas da Análise do Comportamento e identificação com a filosofia behaviorista (comportamental). Intervenções em ABA exigem estudo e entendimento de todas as suas subáreas. A ABA não é uma área exclusiva da Psicologia. É preciso estudar a filosofia behaviorista, estudar Skinner e outros autores contemporâneos da Análise do Comportamento para entender e trabalhar com intervenções em ABA. Há especializações e formações especificas em Análise do Comportamento.

Fonte: Academia do Autismo.
Autoria: Gabriela Bandeira.
Créditos: Chaloê Comim.

Habilidades Básicas e ABA

Tempo de Leitura: 3 minutos

Por Chaloê Comim e Gabriela Bandeira

As habilidades básicas são essenciais para o aprendizado de todas as pessoas. Elas são comportamentos simples e iniciais importantes para conquistarmos objetivos mais complexos.

Por exemplo, fazer contato visual é uma habilidade básica para processos mais elaborados, como interagir socialmente e nos comunicarmos.Quando falamos em autismo, sabemos que pessoas no espectro têm dificuldades em dois pontos centrais, conhecido como díade do autismo:

  • Interação e comunicação social
  • Padrão de comportamentos restritos e repetitivos.

Obviamente, essas dificuldades fazem com que o aprendizado de habilidades básicas e complexas seja um pouco mais complicado. Por isso, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês para Applied Behavior Analysis) é a ciência mais indicada para o ensino e treinamento dessas habilidades. Vamos entender mais sobre isso a seguir.

ABA

A ABA ficou conhecida por sua eficácia no tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, na realidade, ela faz parte de uma ciência muito mais ampla, chamada Análise do Comportamento, que pode ser aplicada a qualquer contexto socialmente relevante. Ela também pode ser entendida como a “Ciência da Aprendizagem”, pois suas intervenções visam ampliar repertórios, promover novas aprendizagens e autonomia.

Suas intervenções são baseadas em evidencias, resultado de décadas de estudos e pesquisas sobre o comportamento, particularmente, o comportamento humano

A Análise do Comportamento Aplicada, vai muito além de ser um mero conjunto de intervenções. Resumidamente (bem resumidamente), é a parte aplicada de uma ciência maior chamada Análise do Comportamento.

A Análise do Comportamento, é uma ciência que tem 3 “subáreas”, todas interligadas. São elas:

1 – O Behaviorismo Radical – a Filosofia da Análise do Comportamento, a teoria base desta ciência, que começou com o Skinner.

2 – A Análise Experimental do Comportamento, incumbida de realizar pesquisas, testar e produzir dados nesta ciência, com estudos experimentais sobre relações comportamentais em contextos socialmente relevantes. Para, assim, ir além da teoria, descartando ou comprovando-a.

3 – E finalmente, A ABA! A Análise Aplicada do Comportamento, que planeja e aplica intervenções, baseadas na filosofia Behaviorista e nas evidências obtidas com os estudos da área Experimental do comportamento. Então, os procedimentos que temos hoje na ABA passaram antes por anos de pesquisas.

Behaviorismo

Para começar a entender a ciência por trás da Análise do Comportamento Aplicada é preciso compreender que todo comportamento que temos foi aprendido e, portanto, pode ser modificado. Esse conceito de como as reações humanas acontecem por meio de comportamentos que foram aprendidos é explicado na psicologia pelo que chamamos de behaviorismo.

O behaviorismo se originou com o fisiologista russo Ivan Pavlov, que fez uso do condicionamento clássico para ensinar cães a salivarem ao ouvir o som de um sino. Esse experimento se dava da seguinte forma:

Mais tarde, o professor e pesquisador norte-americano B.F. Skinner acrescentou dois conceitos em sua teoria, a do condicionamento operante: reforço e punição.

Na Análise do Comportamento Aplicada, reforço e punição são compreendidos como fatores que influenciam todos os nossos comportamentos. São eles que determinam que os comportamentos podem ser ensinados e modificados, quando controlamos as consequências em torno daquela ação.

De uma forma simplificada, podemos dizer o seguinte:

  • Reforço é todo estímulo que aumenta a frequência de uma resposta e garante que o comportamento ocorra se mantenha com mais frequência no futuro;
  • Punição é todo estímulo que diminui a frequência de uma resposta e garante que o comportamento ocorra com menos frequência – e até pare completamente de ocorrer – em situações futuras.

Apesar desses conceitos parecerem bem simples, é necessário conhecimento e planejamento de estratégias efetivas, além de um conhecimento abrangente na Análise do Comportamento Aplicada como um todo antes de aplicar reforços e punições positivas e negativas em qualquer pessoa e situação.

9 elementos – Como tornar seu filho/aluno o mais independente possível?

Tempo de Leitura: 3 minutosMuitos anos atrás, enquanto dirigia um programa numa escola estadual para alunos com autismo, o Dr Andy Bondy, PhD, (co-criador do PECS- Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) desenvolveu a Abordagem Educacional em Pirâmide®. A Abordagem em Pirâmide é uma estrutura abrangente para estabelecer e apoiar ambientes de aprendizagem eficazes e aptos a ensinar pessoas com dificuldades variadas em qualquer ambiente: escola, casa, comunidade.

O Dr. Andy Bondy escolheu a forma de uma pirâmide como um guia visual para esse processo, por causa da interdependência de todos os componentes e para nos lembrar que a construção de uma pirâmide estável começa com uma base sólida. A Abordagem em Pirâmide combina uma ênfase na comunicação funcional com as melhores estratégias baseadas em evidência no campo da Análise Comportamental Aplicada (ABA). Os nove elementos da Abordagem Educacional em Pirâmide são áreas importantes dentro da ABA. 

O que ensinar?

O Dr. Andy Bondy reconheceu que alguns elementos importantes de ABA devem ser abordados primeiro. Estes servem como base, ou elementos básicos, da pirâmide. Se esses elementos não forem devidamente abordados, a lição pode não ser tão eficaz. Os elementos são: atividades funcionais, reforços, comunicação e comportamento.

  1. Atividades Funcionais: Habilidades ensinadas hoje devem ter utilidade para seu filho/aluno no presente ou no futuro. É preciso envolver seu filho/aluno em atividades relevantes, com os materiais mais úteis para ensinar essas competências. Durante essas atividades, o foco se dirige a alcançar um objetivo de cada vez. 
  2. Reforços Poderosos: É necessário avaliar as questões motivacionais, planejando o uso de reforços poderosos apoiando-se em princípios simples, tais como usar a estratégia do “reforço-primeiro” e sistemas de reforço visual.  Se a atividade não for motivadora pode-se acrescentar um reforçador. Pode-se começar com acordo simples: “Para ganhar” ___ /“Faça” ___ e depois avançar para cartões visuais mais complexos “Estou trabalhando para” _____
  3. Comunicação Funcional e Habilidades Sociais: Ensinar ou aperfeiçoar certas habilidades essenciais de comunicação funcional, independentemente de qual seja a modalidade usada por seu filho/aluno (PECS®, língua de sinais, vocalizadores, fala etc). Se ele ainda não tiver um meio de comunicação, a sugestão é iniciar a implementação do PECS. Aprender as habilidades essenciais de comunicação é crucial para a independência dele. Existe um webinar gratuito, “Uma imagem clara: o  uso e benefícios do PECS®”, disponível no site https://pecs-brazil.com/videos/
  4. Comportamento Contextualmente Inadequado: Ao implementar os  três primeiros elementos, provavelmente haverá menos comportamentos inadequados.  Se mesmo assim eles ocorrerem, é preciso determinar a razão de estarem ocorrendo, ou como estão funcionalmente relacionados com acontecimentos circundantes. Uma vez determinado o motivo, cabe ensinar o comportamento substituto que tenha a mesma função: um comportamento alternativo funcionalmente equivalente.

Como ensinar?

Assim como a construção de uma pirâmide começa com a criação de uma fundação firme antes de construir o corpo do edifício, a Abordagem da Pirâmide começa com uma base forte, contando com uma abordagem baseada na ciência da aprendizagem. 

Uma vez implementados os elementos da base, é hora de começar a abordar os elementos do topo da pirâmide, relacionados com o “como” ensinar. Estes são os elementos instrucionais: generalização, lições eficazes, estratégia de ensino, correção de erros e coleta de dados.

  1. Generalização: As metas de longo prazo são planejadas antes do início do ensino, abordando tanto a generalização do estímulo quanto da resposta. A generalização deve ser planejada antes da primeira aula.
  2. Lições Eficazes: Identificar se o tipo de habilidade a ensinar é uma lição discreta (direta e curta) ou sequencial (série de pequenas etapas), e também se será iniciada pelo filho/aluno ou iniciada por você.
  3. Estratégias de Ensino: Identificar as estratégias específicas de ajuda ou modelagem mais adequadas ao tipo de lição. Mais uma vez, antes de ensinar a primeira lição, é necessário um plano para eliminar a ajuda de modo que a nova habilidade ou comportamento ocorra em resposta a estímulos naturais e não à ajuda, visando atingir a independência.
  4. Correção de Erros: Esteja pronto para o erro, quando ele ocorrer, para que seu filho/aluno tenha oportunidade de aprender. Planejar estratégias de correção de erros que levem à aquisição rápida de habilidades. 
  5. Coleta e Análise dos Dados: Finalmente, todo o modelo assenta sobre este elemento porque não há lições perfeitas. A coleta e análise de dados são a “cola” que mantém tudo junto. É preciso monitorar se seu filho/aluno está progredindo e, se não estiver, deve-se planejar alterações da lição de forma sistemática.

Ao implementar a Abordagem Educacional em Pirâmide, você construirá um ambiente de aprendizagem eficaz que resultará em progresso e maior independência para seu filho/aluno.

Antes acorrentado, autista do interior de SP começa a se desenvolver

Tempo de Leitura: < 1 minutoAndré Padilha, um jovem autista que foi alvo de uma edição do Profissão Repórter sobre autismo, viveu por cerca de 15 anos acorrentado dentro da casa de sua família em Fernandópolis (SP). O motivo, de acordo com seus familiares, era seus comportamentos autolesivos em crises. O caso chamou a atenção da comunidade do autismo e André passou a ser atendido por terapeutas.

Nathalia Tavorieri, responsável pela reportagem na época, contou como conheceu o caso na época. “Conheci André no início de 2019 em Fernandópolis, interior de São Paulo. Nunca consegui encontrar palavras para descrever a sensação de ter conhecido um jovem, com quase a minha idade, vivendo acorrentado no chão. Foi uma das raras vezes em que gravei com os olhos marejados, com aquele choro entalado na garganta. Durante as gravações, André não falava, mas berrava muito. Na verdade, ele não precisava dizer nada. Estava claro que aquele era um pedido urgente de ajuda”, disse.

Segundo Nathalia, a psicóloga Mayra Gaiato capacitou profissionais da Clínica Supery, que atuava no município de Fernandópolis, para promover uma intervenção baseada na Análise do comportamento aplicada (ABA). Gaiato é conhecida por trabalhar com o modelo Denver, também baseado em ABA.

Apesar disso, por conta da pandemia de Covid-19, André ficou sem tratamento e, segundo sua família, seu desenvolvimento está regredindo. O jovem tinha adquirido autonomia em algumas atividades domésticas, como escovar os dentes, lavar a louça e varrer a casa.

“Não foi da noite para o dia para retirar as correntes nem para desenvolver essas habilidades. Se ele para de ter um acompanhamento, infelizmente é desesperador pensar que a tendência é voltar a acorrentá-lo”, lamentou a terapeuta Terezinha Santana.

Intervenções baseadas em evidências para o autismo

Tempo de Leitura: 4 minutosNós muitas vezes desconfiamos da ciência porque ouvimos cientistas falando coisas muito diferentes entre si. Isso parece estranho, mas é natural, pois a ciência é um campo em movimento, estamos continuamente produzindo novos conhecimentos e para que isso ocorra é necessário que os cientistas pensem coisas diferentes e explorem todas as possibilidades que se possa imaginar. Fazer ciência é deixar sempre a janela da inovação e exploração aberta.

Mas é normal que muitas coisas investigadas não deem em nada, ou seja, sejam hipóteses falsas, como a ideia de que o autismo era causado pelas “mães geladeira” e, por outro lado, outras coisas ganhem força à medida que as pesquisas avançam, tal como o papel predominante da genética no autismo.

Quando falamos em intervenções (em saúde, educação ou medicamentos) é preciso ter um cuidado redobrado, pois não podemos submeter as pessoas com TEA a condições degradantes como hipóteses que podem ser equivocadas e perigosas. Daí que só consideremos como um tratamento de verdade aquilo que passou por testes rigorosíssimos de segurança e eficácia. É o que chamamos de “ter evidência”, quando a quantidade e qualidade dos estudos é tão grande que podemos garantir que se trata de algo que funciona. 

Pela legislação brasileira, um remédio só pode ser vendido na farmácia quando passou por tudo isso, do contrário, a venda sem evidência é considerada crime hediondo. No entanto, curiosamente, a oferta de terapias e estratégias pedagógicas sem nenhuma evidência, ou mesmo que haja evidências de que são ineficazes, não possui qualquer proibição legal, fazendo com que proliferem, quando há falta informação de qualidade.

Uma intervenção tem evidência quando há a) estudos randomizados com N adequado à população (esse número varia), com controle de variáveis, duplo ou triplo cego e, a depender do caso, multicêntrico; b) revisões sistemáticas com metodologia rigorosa, incluindo descritores adequados, bases de dados amplas e bem reputadas, com controle de revistas predatórias, consideração das metodologias mais rigorosas adequadas à área; ou c) metanálises com o mesmo rigor descrito para as revisões sistemáticas. Esta é a ordem de força estatística, sendo as revisões sistemáticas e as metanálises, no topo, com maior força em termos de evidência.

Os EUA aprovaram duas leis fundamentais: No Child Left Behind, 2002 e depois o Individuals with Disabilities Education Improvement Act, 2004. Ambas reafirmam que só é permitido usar dinheiro federal se houver evidências de que ele está sendo bem usado, que a intervenção financiada possui evidências de eficácia. Essa legislação lançou os holofotes sobre as pesquisas sobre autismo, que passaram a ter o poder vinculativo de “liberação” de verbas do governo estadunidense.

Foram muitas as revisões sistemáticas – com e sem metanálise –  produzidas no mundo a respeito do autismo. Não falaremos de todas elas, mesmo porque seus resultados são semelhantes, com ligeiras diferenças na forma de abordar as intervenções. Concentraremos nosso foco em somente duas iniciativas: na mais completa, que aborda os tratamentos com evidência, os emergente e os ineficazes – o National Standard Project – NSP, que descreve qual é a melhor intervenção global em autismo e a revisão sistemática do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice Review Team – NCAEP, denominado Evidence-based Practices for Children, Youth and Youg Adults with Autism, que foi publicada em 2020 e tem uma revisão traduzida em português

O National Standard Project

O NSP é um projeto do National Autism Center – NAC, nos Estados Unidos, que tem o objetivo de realizar pesquisa aplicada para o TEA e compartilhar informações com a população, sobretudo pais, professores e terapeutas sobre estes tratamentos. O NSP de 2015 descreveu 14 práticas com evidência para autismo, elas são, em sua maioria, práticas focais, isto é, que têm por objetivo atuar em uma questão específica, mas também trouxe uma prática global, e é esta que iremos apresentar agora:

Intervenção Intensiva e Precoce

Trata-se de um modelo de intervenção que é considerado o tratamento prioritário para o TEA e deve ter algumas características fundamentais: 1. Ser o mais precoce possível 2. Ser intensiva – a intervenção é feita entre 25h e 40h semanais; 3. Ser íntegra – com implementação de maneira rigorosa, com fundamento em Análise do Comportamento Aplicada – ABA; 4. Ser distendida no tempo – com cobertura das pesquisas é de 2 a 3 anos.

O conjunto de dados disponíveis sobre este processo de intervenção demonstrou enormes ganhos nos campos da inteligência, da linguagem, das habilidades sociais e do comportamento adaptativo.

A revisão do NCAEP

Além das intervenções globais, há as intervenções focais, isto é, que se dedicam especificamente a um comportamento que deve ser diminuído, alterado ou aumentado. Essas intervenções focais são, portanto, projetadas para abordar uma única habilidade ou objetivo de um aluno com autismo.

Nesta linha, o National Professional Developmental Center – NPDC realizou uma Revisão Sistemática, publicada como artigo científico em 20153, com financiamento de atualização e que migrou, posteriormente, para o Clearinghouse, dando continuidade ao trabalho e produzindo a publicação de 2020 sobre a qual agora nos debruçamos e que trouxe novas práticas com evidência em relação à pesquisa de 2015, além de um reagrupamento de intervenções.

Foram descritas, neste contexto, 28 práticas focais baseadas em evidências:

  1. Análise de Tarefas 
  2. Atraso de tempo 
  3. Autogerenciamento
  4. Avaliação Funcional do Comportamento
  5. Cognitivo Comportamental/ Estratégias de Instrução
  6. Comunicação Alternativa e Aumentativa
  7. Dicas (Prompting)
  8. Ensino por Tentativas Discretas 
  9. Exercício e Movimento 
  10. Extinção
  11. Instrução Direta
  12. Instrução e Intervenção Assistida por Tecnologia 
  13. Instrução e Intervenção Mediadas por Pares 
  14. Integração Sensorial
  15. Interrupção e Redirecionamento da Resposta 
  16. Intervenção Implementada  por pais
  17. Intervenção Mediada por Música 
  18. Intervenção Momentum Comportamental
  19. Intervenção Naturalística
  20. Intervenções baseadas no antecedente 
  21. Modelação
  22. Narrativas Sociais 
  23. Reforçamento
  24. Reforçamento Diferencial de Alternativo, Incompatível ou Outros Comportamentos
  25. Suportes Visuais 
  26. Treino de Comunicação Funcional 
  27. Treino de Habilidades Sociais
  28. Videomodelação

As práticas estão na ordem alfabética e as que estão em negrito são baseadas em ABA. Nos demais casos, temos a intervenção Cognitivo Comportamental, baseada no cognitivismo, a Integração Sensorial, com referencial próprio e as intervenções de Exercício e Movimento e mediada por tecnologia e música que possuem parte das pesquisas com referencial em ABA, mas também com outros referenciais diversos.

Conclusão

Práticas Baseadas em Evidências são aquelas que acumularam dados para garantir que abandonaram a zona de incerteza e que é possível garantir que realmente funcionam. Existem metodologias rigorosas de pesquisa para que concluamos que alguma prática atingiu este nível e os países desenvolvidos exigem que o dinheiro público seja utilizado com estas metodologias, para segurança das pessoas com autismo e zelo com os impostos. O tratamento para autismo é o que chamamos de “Intervenção Baseada em ABA”e outras intervenções focais, tais como a Terapia Cognitivo Comportamental, a Integração Sensorial e o Exercício Físico são alguns dos elementos também com evidência para contribuir no processo de desenvolvimento das pessoas com autismo.

Lucelmo Lacerda é doutor em educação, com pós-doutorado em psicologia, professor da educação básica e da especialização em ABA do CBI of Miami e em autismo na Universidade Federal de Tocantins, além de autor do livro “Transtorno do Espectro Autista: uma brevíssima introdução”.

Paulo Liberalesso é médico neuropediatra, mestre em neurociências, doutor em distúrbios da comunicação, diretor técnico do Centro de Reabilitação Neuropediátrica do Hospital Menino Deus (Cerena), em Curitiba (PR).