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O que dizem os estudos sobre ABA?

Tempo de Leitura: 3 minutos

Entenda a importância desta ciência no desenvolvimento de alguém no TEA

A ciência que estuda os comportamentos, ensina a modificá-los e ensina novas habilidades é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês Applied Behavior Analysis), cujas técnicas são recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento de pessoas com desenvolvimento atípico, especialmente o autismo.

A ABA é conhecida como uma das “práticas baseadas em evidências”, o que significa que existe um número significativo de estudos que seguem critérios específicos e têm resultados comprovados. Ou seja: cientificamente funcionam, conforme explica o artigo disponível para download: Contribuições da análise do comportamento aplicada para indivíduos com transtorno do espectro do autismo: uma revisão.

Continuamente, novos estudos sobre ABA são publicados. Segundo a psicóloga e especialista em autismo Chaloê Comim, isso acontece porque: “Tudo em uma ciência é passível de ser falseável, testado, refinado e aprimorado. Desde Skinner, o maior interesse da ABA é social, em sobre como melhorar a interação humana em sociedade. Na Análise do Comportamento, novos estudos são feitos continuamente. Nosso comportamento tem 3 níveis de seleção: A evolução da nossa espécie, nossa história individual e a cultura onde estamos inseridos. As contingências mudam, a sociedade e as necessidades mudam, a cultura muda e novos jeitos de lidar com o comportamento e ensinar novas habilidades, vão surgindo”, explica.

Neste artigo, vamos falar sobre os principais estudos referentes à Análise do Comportamento Aplicada.

O primeiro estudo de ABA da história

Os primeiros registros de terapias e intervenções envolvendo a Análise do Comportamento Aplicada surgiram entre 1961 e 1962, por meio de pesquisas realizadas por Ferster e DeMyer e demonstravam que era possível usar as técnicas para modificar comportamento em pessoas com distúrbios do desenvolvimento. Além disso, os resultados do estudo mostraram, também, que o repertório comportamental aumentava e reduzia os comportamentos considerados problemáticos.

Em 1987, o psicólogo clínico Ivar Loovas publicou um novo estudo que apontava importantes ganhos com o uso destes princípios comportamentais no ensino de crianças diagnosticadas com autismo. Os resultados e dados do estudo foram os seguintes:

  • Ao todo, 19 crianças tiveram acesso às intervenções baseadas em ABA
  • Delas, 47% haviam sido reintegradas com sucesso em escolas regulares
  • Das crianças que fizeram outras intervenções, apenas 2% tiveram sucesso no desenvolvimento.

Prática Baseada em Evidências (PBE)

Como forma de validar cientificamente práticas baseadas em evidências para crianças, jovens e adultos com Autismo, o The National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP), conduziu um projeto para uma revisão sistemática da literatura, sobre intervenções com evidências para Autismo. , O objetivo foi levantar e classificar tratamentos que promovem a saúde do paciente e integram práticas reconhecidas e comprovadas para apoiar a decisão de profissionais para as indicarem.

Em sua versão mais recente, publicada em 2020, a  NCAEP traz 28 práticas consideradas com evidências (PBE) científicas que atingiram todos os critérios propostos pela revisão, para intervenções em pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) são elas:

  1. Intervenção baseada em antecedentes
  2. Comunicação alternativa e aumentativa
  3. Intervenção de Momentum Comportamental
  4. Estratégias instrucionais cognitivo-comportamentais
  5. Reforçamento diferencial de comportamento alternativo, incompatível ou outro comportamento (DRA, DRI, DRO)
  6. Instrução direta (DI)
  7. Ensino por tentativas discretas
  8. Exercício e movimento
  9. Extinção
  10. Avaliação funcional
  11. Treinamento de comunicação funcional
  12. Modelação
  13. Intervenção mediada por música
  14. Intervenção naturalística
  15. Intervenções implementadas pelos pais
  16. Instrução e intervenção mediada por pares
  17. Reforçamento
  18. Dicas
  19. Bloqueio de respostas e redirecionamento
  20. Autogestão
  21. Integração sensorial
  22. Narrativas sociais
  23. Treinamento de habilidades sociais
  24. Análise de tarefas
  25. Instrução e intervenção auxiliada por tecnologia
  26. Atraso de tempo
  27. Videomodelagem
  28. Suportes visuais

Revisão de estudos ABA

Existem ainda outros estudos, como o disponível para download no CIA Autismo, que fazem uma revisão de outras pesquisas já publicadas envolvendo a ABA. Neste, em específico, é feita uma revisão bibliográfica de estudos na íntegra já realizado sobre a ciência, com o objetivo de avaliar a contribuição das intervenções baseadas em ABA em pessoas com TEA.

O artigo analisou dez estudos já realizados sobre os efeitos da Análise do Comportamento Aplicada em indivíduos com autismo no Brasil e em outros países, a fim de concluir como a ciência pode ajudar no desenvolvimento destas pessoas ao longo da vida.

Por meio da análise foi observado que a análise do comportamento aplicada intervém diretamente no comportamento do indivíduo e pode ser totalmente estruturada, colaborando para o processo de aprendizagem deste público. Vale lembrar também que a ABA não acontece somente nas clínicas, mas pode ser aplicada em diversos ambientes, por isso estudar e revisar estudos já realizados sobre o tema ajudam a desmistificar mitos acerca da ciência e traz novas visões sobre como os conceitos da ABA para pais e profissionais.

 

Para ver mais um artigo sobre ABA, clique aqui.

 

Crédito: Gabriela Bandeira e Chaloê Comim
Fonte: Academia do Autismo
Imagem: reprodução / Academia do Autismo

Protocolo VB-MAPP

Tempo de Leitura: 3 minutosO Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program, mais conhecido pela sigla VB-MAPP é um protocolo para avaliação de pessoas com autismo utilizado dentro da Análise do Comportamento (ABA). Embora muitas famílias de quem está no espectro autista não compreendam sua necessidade, especialistas no tema garantem que essa investigação é de extrema importância para o paciente. 

É por meio dela, por exemplo, que se sabe qual o repertório do paciente e o que de fato ele sabe. Assim, será possível iniciar a ABA e fazer o tratamento adequado para alcançar sua autonomia e garantir o máximo de avanços possível. 

Como funciona?

O VB-MAPP é, sobretudo, uma avaliação baseada em marcos. Isso significa que ela analisa como o paciente está levando em consideração o desenvolvimento típico. Dessa forma, imagine que o paciente em questão seja uma criança de 5 anos diagnosticada dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Durante as avaliações, os profissionais envolvidos em seu tratamento podem classificá-la como alguém com desenvolvimento semelhante ao de uma criança típica de 0 a 18 meses. 

Vale ressaltar, ainda, que o VB-MAPP funciona em três níveis. São eles:

  • Nível 1: 0 a 18 meses
  • Nível 2: 18 a 30 meses
  • Nível 3: 30 a 48 meses

Essas métricas não significam que o protocolo só se aplique a crianças de até dois anos. Pelo contrário, ele pode ser utilizado até os 7 anos, mas nesse caso o marco de desenvolvimento ser de 30 meses, por exemplo. 

Outros Componentes do VB-MAPP

Uma das etapas para iniciar a análise de VB-MAPP em crianças autistas é fazer a avaliação de barreiras. Ela consiste na observação de 24 áreas que podem estar comprometendo a aprendizagem. Assim, vamos supor que os profissionais responsáveis pelo tratamento do paciente ou mesmo a família estejam falhando em ensinar algo a ele. Isso pode acontecer porque há uma barreira que só será descoberta após esse exame. 

Existe ainda a avaliação de transição – mas esse método não é tão usado no Brasil, justamente porque o ensino aqui é diferente dos Estados Unidos, de onde o VB-MAPP foi importado. Essa etapa, basicamente, é como tirar a criança da escola de ensino especial e fazer sua inclusão no ensino regular. Para que isso ocorra de forma a melhorar o aprendizado e não causar danos ao paciente, é realizada a avaliação de transição.

Outro importante instrumento para o VB-MAPP é a Task Analysis (lista de tarefas, em português). Por meio dela, é possível pegar uma habilidade específica e dividi-la em pequenas partes que podem ajudar o profissional a compreender o processo e conquistar um objetivo específico – ou seja, a habilidade maior. 

Chegamos ao último, mas não menos importante, componente do Protocolo VB-MAP: a Elaboração do PEI – Plano de Ensino Individualizado. Ao contrário do que muitos possam achar, o PEI deve ser construído em conjunto, entre escola, família e os terapeutas que acompanham a criança. E é exatamente nessa elaboração que o protocolo VB-MAPP entra como um diferencial, norteando o plano de tratamento e desenvolvimento.

No contexto terapêutico, ele também é construído com base nos resultados da avaliação e é um documento no qual constará as diretrizes que vão nortear o plano de tratamento e desenvolvimento.

Em ambos os contextos, o PEI descreverá a toda equipe envolvida quais são os objetivos de curto, médio e longo prazo no desenvolvimento, como chegar a estes objetivos e quais as adaptações são necessárias para alcançar cada marco no desenvolvimento.

Importância

O VB-MAPP é normalmente aplicado pelo terapeuta antes de iniciar a ABA. No entanto, vale lembrar que mesmo que o profissional seja experiente, é essencial que ele aplique a avaliação antes das intervenções. De acordo com o psicólogo Fábio Coelho, especialista em autismo, é esse processo que ajuda a identificar o fato do paciente ter dificuldades em compreender ou mesmo responder a algumas demandas. “Muitas vezes, pela falta de uma compreensão adequada do que causa determinado comportamento, atuamos de forma equivocada como pais, educadores ou terapeutas de pessoas com TEA”. 

Ele ainda reforça a importância do protocolo na ABA. “O Programa é, na minha opinião, essencial pois serve como um sistema de avaliação e rastreamento para avaliar a linguagem, habilidades motoras, sociais e acadêmica de crianças com autismo ou outras deficiências de desenvolvimento. O VB-MAPP é um dos principais protocolos de avaliação da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e é amplamente utilizado para avaliação individualizada e planejamento terapêutico/educacional”. 

Créditos: Gabriela Bandeira, Chaloê Comim.

Fonte: Academia do Autismo, IEAC

Crédito da Imagem: Reprodução Academia do Autismo.

Mais um degrau rumo a intervenções com evidências científicas para os autistas no país

Tempo de Leitura: 3 minutosCada vez mais a sociedade científica, os familiares e as pessoas com Transtorno do Espectro Autista se aprofundam para tentar responder como podemos oferecer serviços que promovam autonomia e bem-estar, de forma efetiva e ética, para os indivíduos com  TEA. O que já é consenso é que a intervenção para pessoas com TEA deve ser individualizada ⎼ levando em conta, sobretudo, a singularidade do aprendiz – e multiprofissional.

Em 2020, o National Professional Developmental Center (NPDC) publicou uma revisão sistemática com o propósito de descrever uma série de práticas focais que têm evidências claras dos seus efeitos positivos em crianças e jovens com Transtorno do Espectro Autista. O relatório é a terceira versão de uma revisão sistemática que examinou a literatura de intervenção em artigos publicados entre 1990 e 2017.  Após anos de coletas de dados de análises de artigos, sendo que um total de 972 artigos foram considerados aceitáveis para o estudo, resultou uma lista de 28 práticas baseadas em evidência para o TEA. 

Para se considerar uma prática baseada em evidência é necessário, entre outros critérios, que ela tenha sido estabelecida por meio de pesquisa empírica publicada em periódicos científicos revisados por pares em estudos randomizados. 

O documento não é o primeiro grande estudo na área das intervenções baseadas em evidências para o TEA. Em 2015, O National Autism Center (NAC) tornou público o resultado do National Standards Project, um grandioso estudo que teve como objetivo principal fornecer informações críticas sobre quais intervenções se mostraram eficazes para indivíduos com autismo.

Os estudos acima, somados com uma maior disseminação de conhecimento sobre TEA no país, motivam cada vez mais a comunidade a elevar a qualidade dos serviços oferecidos por aqui. Mais recentemente, em manifestação pioneira no país, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou uma proposta de padronização para o tratamento de pessoas com TEA no Brasil, esclarecendo pontos importantes sobre avaliação diagnóstica, exames que devem ser solicitados, e tratamentos com evidências.

Segundo a publicação, a avaliação de crianças com TEA deve incluir, entre outros fatores, a história do desenvolvimento neuropsicomotor, antecedentes gestacionais e neonatais, comportamentos do sono e alimentar, a história médica da criança, a procura de sinais de convulsões, problemas gastrointestinais, deficiência intelectual, síndrome do X-frágil, além da investigação de outras possíveis comorbidades.

Já no tocante às intervenções, segundo a SBNI, o tratamento do TEA caracteriza-se por intervenção precoce através de terapias que visam potencializar o desenvolvimento da criança. O documento prossegue afirmando que atualmente as terapias com maior evidência de benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), associada a terapias auxiliares, como fonoterapia, terapia ocupacional e que outras abordagens devem ser orientadas de acordo com cada caso individual.  

O documento ainda traz questões importantes sobre o uso de medicamentos, que eventualmente pode ser necessário em casos de presença de agressividade e hiperatividade, e faz um alerta sobre dietas, suplementações de vitaminas e vários tipos de abordagens terapêuticas/educacionais que têm sido propostas para o tratamento do TEA, e que, entretanto, não apresentam evidências científicas de que funcionem.

Ainda há um longo caminho a percorrer. Infelizmente, a intervenção analítico-comportamental é inacessível à maioria dos indivíduos diagnosticados com TEA em países em desenvolvimento como o Brasil, uma vez que uma intervenção intensiva, de longa duração e implementada de forma individualizada, requer grande disponibilidade de profissionais devidamente capacitados, o que ainda é um desafio que precisa ser rompido. A fragilidade das redes públicas de educação e de saúde torna o acesso à intervenção analítico-comportamental ao TEA (ABA) difícil de alcançar toda a população que dela necessita. No entanto, é visível que cada vez mais caminha-se nessa direção: o das práticas com evidências.

ABA: entendendo o comportamento para mudá-lo

Tempo de Leitura: 3 minutos

Como desconstruir o comportamento e entender o motivo dele acontecer

A Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês Applied Behavior Analysis) é uma ciência de aprendizagem cujas técnicas são indicadas para o tratamento de pessoas com desenvolvimento atípico, especialmente o autismo. Assim como o próprio nome diz, a ABA pode ser utilizada para modificar um comportamento inadequado e ensinar novos comportamentos para qualquer pessoa, especialmente aquelas que estão no espectro.

De acordo com a psicóloga e especialista em autismo e análise do comportamento Chaloê Comim, aplicar técnicas da ABA não é uma tarefa simples, e exige cuidado, especialização e ajuda/apoio profissional. “Ciência é para todos, mas não é algo simples e nem fácil, principalmente quando falamos de manejo de comportamento humano. É muita responsabilidade alterar o desenvolvimento de uma pessoa, porque eu posso piorar tudo se eu não souber o que estou fazendo. Aplicar ciência, como a ABA, ao desenvolvimento humano é o melhor caminho, mas exige seriedade, compromisso, estudo, ética e humanidade”.

No que diz respeito ao comportamento, é preciso trabalhar com uma série de processos que vão desde a observação do indivíduo até a criação e mensuração de estratégias específicas para modificar ou ensinar um novo comportamento. Neste artigo, vamos explicar mais sobre esse aspecto, que está abordado no material disponível para download no CIA Autismo: análise funcional/ avaliação funcional do comportamento.

O ‘ABC’ do comportamento

Um dos princípios para entender a análise do comportamento é o que chamamos de ‘ABC’ do comportamento. Termo derivado também das siglas em inglês, ele é formado da seguinte forma:

(A)ntecedent ——> (B)ehavior ——> (C)onsequence

Antecedente ——> Comportamento ——> Consequência

Basicamente, essa estrutura define a forma como todos os comportamentos funcionam. O que significa que sempre existe um antecedente – algo que antecede o comportamento – o comportamento em si é uma consequência que ocorre logo em seguida e pode se tornar um reforçador para que aquele comportamento continue acontecendo no futuro.

De um modo prático, vamos imaginar o seguinte cenário: a criança está na escola, mas não quer mais assistir a aula de matemática e resolver os exercícios. Então, ela começa a chorar e jogar os objetos da carteira no chão. Ao presenciar a situação, o auxiliar de educação inclusiva a retira da sala e leva para o pátio da escola, onde ela pode brincar. Após esse episódio, ela começa a chorar e jogar o material no chão com frequência, para conseguir sair da sala e ser levada ao pátio.

Neste caso dividimos o ABC do comportamento da seguinte forma:

ABA: Entendendo o comportamento para mudá-lo - Academia do Autismo - Canal Autismo / Revista Autismo

Sem observar esse aspecto, é impossível conseguir modificar e ensinar novos comportamentos, uma vez que a observação e avaliação do comportamento é o primeiro passo nesse processo. No material disponível, tem um modelo para observação e anotação de análise funcional para preencher.

Entendendo a função do comportamento

Seja adequado ou inadequado, todo comportamento tem uma função e acontece por um motivo. Quando o comportamento acontece para gerar uma consequência, isso significa que ele está sendo reforçado. Esse reforço pode ser:

  • Social: elogios, atenção etc
  • Tangível: sempre que se comporta daquela forma, a pessoa ganha algo que queria: um doce, um brinquedo etc
  • Se esquivar ou fugir de algum lugar ou atividade: como no caso da aula de matemática do exemplo acima
  • Reforço auto estimulatório: se acalmar, sentir uma sensação agradável. Esse reforço normalmente está ligado às estereotipias
  • Conseguir o controle do ambiente

Créditos: Gabriela Bandeira | Chaloê Comim.

Crédito da Imagem: Reprodução Portal CIA Autismo.

Conflitos de autistas ativistas com intervenções baseadas em ABA é tema de podcast

Tempo de Leitura: 2 minutosO podcast Introvertendo, produzido por autistas adultos e com diálogos sobre o autismo, lançou nesta sexta-feira (1) o seu 189º episódio, chamado “Autistas e a Análise do Comportamento Aplicada (ABA)”. O episódio foi conduzido pelo jornalista Tiago Abreu, com a participação das analistas do comportamento Cíntia Ridi e Táhcita Mizael, ambas autistas.

Ao longo dos diálogos, foram discutidas questões de conflito entre autistas ativistas com a Análise do comportamento aplicada, relacionada a temas como punição, neurodiversidade e práticas baseadas em evidências. Sobre normalização, Táhcita afirmou que, na observação dela, pode ocorrer em intervenções baseadas em ABA, mas também em outras atuações profissionais. “Essa questão de uma possível normalização ou esse desejo de retirar stims que não gerem dano pra pessoa ou pras pessoas que estão ao redor me parece mais uma característica da nossa sociedade enquanto uma sociedade aí que tem alguns valores que considera alguns tipos de comportamentos como ‘normais’ e que tem pouca tolerância e respeito por divergências”, disse ela.

Abreu apresentou um trecho de uma live em que o analista do comportamento Celso Goyos disse: “Se você tem uma doença maligna, todos nós sabemos que quanto mais cedo você souber, ter o diagnóstico e tratar, melhor vai ser. Com autismo não é diferente”. O jornalista fez críticas ao trecho, afirmando que “pra isso soar tão natural, num ambiente por exemplo como uma live, eu imagino que tem que ter um contexto que seja natural pensar o autismo como doença”.

Em conversa com o Canal Autismo, Tiago defendeu que o tema é relevante. “É uma das discussões mais frequentes na comunidade entre autistas e geralmente mal compreendida entre os próprios autistas. Isso porque ABA é um assunto complexo, que gera conflitos intermináveis e desgastantes. Tão complexo que foi o episódio mais difícil que já fizemos até hoje. Levamos meses para organizar a pauta e gravar”, destacou.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Introdução à ABA: o que é ABA?

Tempo de Leitura: 2 minutos

A ABA ficou conhecida por sua eficácia no tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, na realidade, ela faz parte de uma ciência muito mais ampla que pode ser aplicada a qualquer contexto socialmente relevante. Ela também pode ser entendida como a “Ciência da Aprendizagem”, pois suas intervenções visam ampliar repertórios, promover novas aprendizagens e autonomia.
Infelizmente, é comum encontrarmos a ABA sendo propagada como “Método ABA”, como se ela fosse simplesmente um conjunto de técnicas ou uma espécie de “receita mágica” para lidar com algo, principalmente, no autismo. E isso é muito ruim.
A grosso modo, pode-se dizer que existem métodos baseados em ABA, mas a ABA não é “um método”.  A falta de entendimento disso, chega a ser até perigoso, pois aplicar Intervenções “ABA”, sem supervisão e sem conhecimento de suas bases filosóficas e cientificas, ao invés de promover melhora, pode-se desencadear a piora de algumas demandas. Não existe mágica, não existe um método para lidar com todos os casos. Existe uma ciência!
ABA, é uma sigla em inglês que significa Applied Behavior Analysis, em português, Análise do Comportamento Aplicada. A ABA, como falamos, não é um método, nem um “pacote de técnicas”. Suas intervenções são baseadas em evidencias, resultado de décadas de estudos e pesquisas sobre o comportamento, particularmente, o comportamento humano. A Análise do Comportamento Aplicada vai muito além de ser um mero conjunto de intervenções. Resumidamente (bem resumidamente), é a parte aplicada de uma ciência maior chamada Análise do Comportamento.
A Análise do Comportamento é uma ciência que tem 3 “subáreas”, todas interligadas. São elas:
  1. O Behaviorismo Radical – a Filosofia da Análise do Comportamento, a teoria base desta ciência, que começou com Skinner.
  2. A Análise Experimental do Comportamento, incumbida de realizar pesquisas, testar e produzir dados nesta ciência, com estudos experimentais sobre relações comportamentais em contextos socialmente relevantes. Para, assim, ir além da teoria, descartando ou comprovando-a.
  3. E finalmente, A ABA! A Análise Aplicada do Comportamento, que planeja e aplica intervenções, baseadas na filosofia Behaviorista e nas evidências obtidas com os estudos da área Experimental do comportamento. Então, os procedimentos que temos hoje na ABA passaram antes por anos de pesquisas.

Percebem como essas três áreas estão intimamente ligadas?

Em resumo, é impossível trabalhar com a ABA sem um profundo conhecimento das bases cientificas da Análise do Comportamento e identificação com a filosofia behaviorista (comportamental). Intervenções em ABA exigem estudo e entendimento de todas as suas subáreas. A ABA não é uma área exclusiva da Psicologia. É preciso estudar a filosofia behaviorista, estudar Skinner e outros autores contemporâneos da Análise do Comportamento para entender e trabalhar com intervenções em ABA. Há especializações e formações especificas em Análise do Comportamento.

Fonte: Academia do Autismo.
Autoria: Gabriela Bandeira.
Créditos: Chaloê Comim.

Habilidades Básicas e ABA

Tempo de Leitura: 3 minutos

Por Chaloê Comim e Gabriela Bandeira

As habilidades básicas são essenciais para o aprendizado de todas as pessoas. Elas são comportamentos simples e iniciais importantes para conquistarmos objetivos mais complexos.

Por exemplo, fazer contato visual é uma habilidade básica para processos mais elaborados, como interagir socialmente e nos comunicarmos.Quando falamos em autismo, sabemos que pessoas no espectro têm dificuldades em dois pontos centrais, conhecido como díade do autismo:

  • Interação e comunicação social
  • Padrão de comportamentos restritos e repetitivos.

Obviamente, essas dificuldades fazem com que o aprendizado de habilidades básicas e complexas seja um pouco mais complicado. Por isso, a Análise do Comportamento Aplicada (ABA, da sigla em inglês para Applied Behavior Analysis) é a ciência mais indicada para o ensino e treinamento dessas habilidades. Vamos entender mais sobre isso a seguir.

ABA

A ABA ficou conhecida por sua eficácia no tratamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, na realidade, ela faz parte de uma ciência muito mais ampla, chamada Análise do Comportamento, que pode ser aplicada a qualquer contexto socialmente relevante. Ela também pode ser entendida como a “Ciência da Aprendizagem”, pois suas intervenções visam ampliar repertórios, promover novas aprendizagens e autonomia.

Suas intervenções são baseadas em evidencias, resultado de décadas de estudos e pesquisas sobre o comportamento, particularmente, o comportamento humano

A Análise do Comportamento Aplicada, vai muito além de ser um mero conjunto de intervenções. Resumidamente (bem resumidamente), é a parte aplicada de uma ciência maior chamada Análise do Comportamento.

A Análise do Comportamento, é uma ciência que tem 3 “subáreas”, todas interligadas. São elas:

1 – O Behaviorismo Radical – a Filosofia da Análise do Comportamento, a teoria base desta ciência, que começou com o Skinner.

2 – A Análise Experimental do Comportamento, incumbida de realizar pesquisas, testar e produzir dados nesta ciência, com estudos experimentais sobre relações comportamentais em contextos socialmente relevantes. Para, assim, ir além da teoria, descartando ou comprovando-a.

3 – E finalmente, A ABA! A Análise Aplicada do Comportamento, que planeja e aplica intervenções, baseadas na filosofia Behaviorista e nas evidências obtidas com os estudos da área Experimental do comportamento. Então, os procedimentos que temos hoje na ABA passaram antes por anos de pesquisas.

Behaviorismo

Para começar a entender a ciência por trás da Análise do Comportamento Aplicada é preciso compreender que todo comportamento que temos foi aprendido e, portanto, pode ser modificado. Esse conceito de como as reações humanas acontecem por meio de comportamentos que foram aprendidos é explicado na psicologia pelo que chamamos de behaviorismo.

O behaviorismo se originou com o fisiologista russo Ivan Pavlov, que fez uso do condicionamento clássico para ensinar cães a salivarem ao ouvir o som de um sino. Esse experimento se dava da seguinte forma:

Mais tarde, o professor e pesquisador norte-americano B.F. Skinner acrescentou dois conceitos em sua teoria, a do condicionamento operante: reforço e punição.

Na Análise do Comportamento Aplicada, reforço e punição são compreendidos como fatores que influenciam todos os nossos comportamentos. São eles que determinam que os comportamentos podem ser ensinados e modificados, quando controlamos as consequências em torno daquela ação.

De uma forma simplificada, podemos dizer o seguinte:

  • Reforço é todo estímulo que aumenta a frequência de uma resposta e garante que o comportamento ocorra se mantenha com mais frequência no futuro;
  • Punição é todo estímulo que diminui a frequência de uma resposta e garante que o comportamento ocorra com menos frequência – e até pare completamente de ocorrer – em situações futuras.

Apesar desses conceitos parecerem bem simples, é necessário conhecimento e planejamento de estratégias efetivas, além de um conhecimento abrangente na Análise do Comportamento Aplicada como um todo antes de aplicar reforços e punições positivas e negativas em qualquer pessoa e situação.

9 elementos – Como tornar seu filho/aluno o mais independente possível?

Tempo de Leitura: 3 minutosMuitos anos atrás, enquanto dirigia um programa numa escola estadual para alunos com autismo, o Dr Andy Bondy, PhD, (co-criador do PECS- Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) desenvolveu a Abordagem Educacional em Pirâmide®. A Abordagem em Pirâmide é uma estrutura abrangente para estabelecer e apoiar ambientes de aprendizagem eficazes e aptos a ensinar pessoas com dificuldades variadas em qualquer ambiente: escola, casa, comunidade.

O Dr. Andy Bondy escolheu a forma de uma pirâmide como um guia visual para esse processo, por causa da interdependência de todos os componentes e para nos lembrar que a construção de uma pirâmide estável começa com uma base sólida. A Abordagem em Pirâmide combina uma ênfase na comunicação funcional com as melhores estratégias baseadas em evidência no campo da Análise Comportamental Aplicada (ABA). Os nove elementos da Abordagem Educacional em Pirâmide são áreas importantes dentro da ABA. 

O que ensinar?

O Dr. Andy Bondy reconheceu que alguns elementos importantes de ABA devem ser abordados primeiro. Estes servem como base, ou elementos básicos, da pirâmide. Se esses elementos não forem devidamente abordados, a lição pode não ser tão eficaz. Os elementos são: atividades funcionais, reforços, comunicação e comportamento.

  1. Atividades Funcionais: Habilidades ensinadas hoje devem ter utilidade para seu filho/aluno no presente ou no futuro. É preciso envolver seu filho/aluno em atividades relevantes, com os materiais mais úteis para ensinar essas competências. Durante essas atividades, o foco se dirige a alcançar um objetivo de cada vez. 
  2. Reforços Poderosos: É necessário avaliar as questões motivacionais, planejando o uso de reforços poderosos apoiando-se em princípios simples, tais como usar a estratégia do “reforço-primeiro” e sistemas de reforço visual.  Se a atividade não for motivadora pode-se acrescentar um reforçador. Pode-se começar com acordo simples: “Para ganhar” ___ /“Faça” ___ e depois avançar para cartões visuais mais complexos “Estou trabalhando para” _____
  3. Comunicação Funcional e Habilidades Sociais: Ensinar ou aperfeiçoar certas habilidades essenciais de comunicação funcional, independentemente de qual seja a modalidade usada por seu filho/aluno (PECS®, língua de sinais, vocalizadores, fala etc). Se ele ainda não tiver um meio de comunicação, a sugestão é iniciar a implementação do PECS. Aprender as habilidades essenciais de comunicação é crucial para a independência dele. Existe um webinar gratuito, “Uma imagem clara: o  uso e benefícios do PECS®”, disponível no site https://pecs-brazil.com/videos/
  4. Comportamento Contextualmente Inadequado: Ao implementar os  três primeiros elementos, provavelmente haverá menos comportamentos inadequados.  Se mesmo assim eles ocorrerem, é preciso determinar a razão de estarem ocorrendo, ou como estão funcionalmente relacionados com acontecimentos circundantes. Uma vez determinado o motivo, cabe ensinar o comportamento substituto que tenha a mesma função: um comportamento alternativo funcionalmente equivalente.

Como ensinar?

Assim como a construção de uma pirâmide começa com a criação de uma fundação firme antes de construir o corpo do edifício, a Abordagem da Pirâmide começa com uma base forte, contando com uma abordagem baseada na ciência da aprendizagem. 

Uma vez implementados os elementos da base, é hora de começar a abordar os elementos do topo da pirâmide, relacionados com o “como” ensinar. Estes são os elementos instrucionais: generalização, lições eficazes, estratégia de ensino, correção de erros e coleta de dados.

  1. Generalização: As metas de longo prazo são planejadas antes do início do ensino, abordando tanto a generalização do estímulo quanto da resposta. A generalização deve ser planejada antes da primeira aula.
  2. Lições Eficazes: Identificar se o tipo de habilidade a ensinar é uma lição discreta (direta e curta) ou sequencial (série de pequenas etapas), e também se será iniciada pelo filho/aluno ou iniciada por você.
  3. Estratégias de Ensino: Identificar as estratégias específicas de ajuda ou modelagem mais adequadas ao tipo de lição. Mais uma vez, antes de ensinar a primeira lição, é necessário um plano para eliminar a ajuda de modo que a nova habilidade ou comportamento ocorra em resposta a estímulos naturais e não à ajuda, visando atingir a independência.
  4. Correção de Erros: Esteja pronto para o erro, quando ele ocorrer, para que seu filho/aluno tenha oportunidade de aprender. Planejar estratégias de correção de erros que levem à aquisição rápida de habilidades. 
  5. Coleta e Análise dos Dados: Finalmente, todo o modelo assenta sobre este elemento porque não há lições perfeitas. A coleta e análise de dados são a “cola” que mantém tudo junto. É preciso monitorar se seu filho/aluno está progredindo e, se não estiver, deve-se planejar alterações da lição de forma sistemática.

Ao implementar a Abordagem Educacional em Pirâmide, você construirá um ambiente de aprendizagem eficaz que resultará em progresso e maior independência para seu filho/aluno.

ABA e o ensino da fala — Celso Goyos — Revista Autismo

ABA e o ensino da fala

Tempo de Leitura: 3 minutos

Com evidências científicas, ABA é ferramenta útil no ensino da fala como linguagem natural

A fala antecede a aquisição da linguagem complexa e é uma das características mais marcantes que o ser humano apresenta, sendo, para muitos, o divisor de águas entre seres humanos e infra-humanos. Quando, após a idade de 18 meses, a criança não apresenta a fala, ou a apresenta, mas de forma menos desenvolvida do que outras crianças de mesma idade e de nível sócio-econômico-cultural semelhante, é motivo de grande preocupação para os pais. Se a ausência, ou atraso, da fala persiste após os 18 meses, e a criança não apresenta prejuízo na estrutura auditiva e na estrutura da fala, tampouco apresenta prejuízos neurológicos significativos que justifiquem a condição, esta criança pode estar sob suspeita do diagnóstico de autismo. Este diagnóstico pode se confirmar, ou não, a depender das outras características definidoras apresentadas na condição do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

A partir deste diagnóstico, a necessidade de tratamento é imediata e intensa (conforme Lovaas publicou, em 1987). Aqui, é interessante fazer uma comparação para se ter uma real dimensão do trabalho a ser imediatamente enfrentado. A criança com desenvolvimento típico adquire nove palavras novas por dia (como Gândara e Befi-Lopes escreveram, em 2010) a partir dos 18 meses, ou seja, aos três anos de idade a criança deverá apresentar um léxico correspondente a 5 mil palavras. Para não perder contato com a linha de desenvolvimento típico, é necessário atendimento imediato e eficaz. A decisão sobre qual terapia é a mais eficaz requer atenção muito especial da parte dos pais.

Dentre as possibilidades de tratamento disponíveis para o TEA, está a Análise de Comportamento Aplicada, cuja sigla mais conhecida é ABA, do inglês, Applied Behavior Analysis. Trata-se de uma ciência relativamente antiga, que se tornou mais conhecida a partir do trabalho de Lovaas em 1987. Não se trata de qualquer modismo, como muitas outras formas de tratamento atuais. A análise de comportamento tem origem no início do século 20 e, como alicerce, evidências experimentais sólidas e fidedignas e os resultados de sua tecnologia encontram-se ampla e fartamente divulgados em periódicos científicos de reconhecimento nacional e internacional.

Existem sólidas evidências científicas de que ABA se constitui na mais eficaz estratégia para o tratamento do autismo. As evidências iniciais datam da década de 1980, tendo sido o primeiro trabalho científico a mostrar como terapia comportamental intensiva e precoce pode ajudar crianças autistas, dando os primeiros sinais de esperança e alento para os pais.  Esses resultados foram replicados em diversos estudos posteriores (como Howard, Sparkman, Cohen, Green & Stanislaw, em 2005; Virués-Ortega, em 2010; Eikeseth, Klintwall, Jahr & Karlsson, em 2012; e Howard, Stanislaw, Green, Sparkman & Cohen, em 2014).

Particularmente, os avanços recentes registrados na área de linguagem foram extraordinários. A partir da concepção sobre o comportamento verbal, foram desenvolvidas novas teorias comportamentais sobre a linguagem: a Teoria da Nomeação (estudada por Horne & Lowe, em 1996), a Teoria da Equivalência de Estímulos (em 1994) e a Teoria dos Quadros Relacionais (de Hayes, Barnes-Holmes, & Roche, em 2001). O resultado destes avanços podem ser observados na enorme variedade de procedimentos de ensino que tem sido desenvolvida, com possibilidades notáveis de aplicação prática, particularmente com crianças com autismo, mas não restritamente a elas.

Um exemplo da conjunção dessas teorias comportamentais sobre o comportamento verbal encontra-se no livro “ABA: Ensino da fala para pessoas com autismo” — de minha autoria, publicado no fim de 2018. O programa de ensino proposto nesta obra é uma alternativa e/ou complemento a outros existentes, já descritos na literatura analítico-comportamental. Enfatizamos, neste livro, a importância do ensino da fala como linguagem natural da criança que não possui qualquer impedimento para a fala. A fala é entendida como comportamento como outro qualquer, com a especificidade de se apresentar como resposta verbal oral e, como tal, é instalada e mantida pelas consequências que ela produz sobre o meio ambiente.

Antes de se dar início ao desenvolvimento da fala propriamente dita, há que se pavimentar a estrada para a sua ocorrência, através da instalação de seus pré-requisitos ou de eliminação de barreiras. Os primeiros constituem-se em comportamentos pivotais ou cúspides comportamentais, tais como, contato visual sob controle instrucional, conceito de imitação generalizada, o conceito de identidade e o ouvir generalizado, dentre outros. As barreiras são basicamente todos os comportamentos que se incompatibilizam com o ensino dos comportamentos pivotais. Em seguida, ensina-se a fala, através do operante verbal conhecido como ecoico para, como base fundamental, em seguida, ensinar os operantes verbais de mando, tato e intraverbal, a leitura com compreensão, a composição da linguagem, falada e  escrita, de forma ordenada, o passado, o futuro, a linguagem matemática e mais outras formas de linguagem complexa.

ABA: uma intervenção comportamental eficaz em casos de autismo

Tempo de Leitura: 6 minutos

Por Sabrina Ribeiro

O autismo é uma condição crônica, caracterizado pela presença de importantes prejuízos em áreas do desenvolvimento, por esta razão o tratamento deve ser contínuo e envolver uma equipe multidisciplinar (Schwartzman, 2003).

A eficácia de um tratamento depende da experiência e do conhecimento dos profissionais sobre o autismo e, principalmente, de sua habilidade de trabalhar em equipe e com a família (Bosa, 2006).

Existem vários tipos de tratamento que podem ser usados para ajudar uma criança com autismo. Independente da linha escolhida, a maioria dos especialistas ressalta que: o tratamento deve começar o mais cedo possível; as terapias devem ser adaptadas às necessidades específicas de cada criança e a eficácia do tratamento deve ser medida com os avanços da criança.

Sabe-se que uma boa intervenção consegue reduzir comportamentos inadequados e minimizar os prejuízos nas áreas do desenvolvimento. Os tratamentos visam tornar os indivíduos mais independentes em todas as suas áreas de atuação, favorecendo uma melhoria na qualidade de vida das pessoas com autismo e suas famílias.

Neste artigo tentarei explicar ao leitor um pouco sobre a metodologia ABA, que é usada como um método de intervenção comportamental no tratamento dos sintomas do autismo.

A análise do comportamento aplicada, ou ABA (Applied Behavior Analysis, na sigla em inglês) é uma abordagem da psicologia que é usada para a compreensão do comportamento e vem sendo amplamente utilizada no atendimento a pessoas com desenvolvimento atípico, como os transtornos invasivos do desenvolvimento (TIDs). ABA vem do behaviorismo e observa, analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento humano e a aprendizagem (Lear, K., 2004)

As origens experimentais da terapia comportamental trouxeram algumas vantagens importantes ao clínico: ele foi treinado na observação de comportamentos verbais e não verbais, seja em casa, na escola e/ou no próprio consultório, o que é fonte de dados relevantes. Ele estuda o papel que o ambiente desempenha – ambiente este onde é possível interferir e verificar as hipóteses levantadas. Outra habilidade é o entendimento do que é observado como um processo comportamental, com contínuas interações e, portanto, sujeito a mudanças (Windholz, 2002).

As técnicas de modificação comportamental têm se mostrado bastante eficazes no tratamento, principalmente em casos mais graves de autismo. Para o analista do comportamento ser terapeuta significa atuar como educador, uma vez que o tratamento envolve um processo abrangente e estruturado de ensino-aprendizagem ou reaprendizagem (Windholz, 1995).

Um dos princípios básicos da ABA é que um comportamento é qualquer ação que pode ser observada e contada, com uma freqüência e duração, e que este comportamento pode ser explicado pela identificação dos antecedentes e de suas consequências. É a identificação das relações entre os eventos ambientais e as ações do organismo. Para estabelecer estas relações devemos especificar a ocasião em que a resposta ocorre, a própria resposta e as conseqüências reforçadoras (Meyer, S.B., 2003).

Estes comportamentos são motivados, de forma prazerosa. Eles têm uma função: servem para conseguir algo que se deseja.

Sabemos que todos os comportamentos de um modo geral são aprendidos, bem como os comportamentos problemas. Isso não significa que alguém intencionalmente nos ensinou a exibir este tipo de comportamento problema, apenas que aprendemos que eles são eficazes para conseguirmos o que queremos.

O método ABA pode intencionalmente ensinar a criança a exibir comportamentos mais adequados no lugar dos comportamentos problemas.

Comportamentos estão relacionados a eventos ou estímulos que os precedem (antecedentes) e a sua probabilidade de ocorrência futura está relacionada às conseqüências que os seguem.

Todo comportamento é modificado através de suas conseqüências (Moreira e Medeiros, 2007). Tentamos fazer coisas e se elas funcionam faremos novamente; quando nossas ações não funcionam é menos provável que as realizemos novamente no futuro.

Os objetivos da intervenção são:

1. Trabalhar os déficits, identificando os comportamentos que a criança tem dificuldades ou até inabilidades e que prejudicam sua vida e suas aprendizagens.

2. Diminuir a freqüência e intensidade de comportamentos de birra ou indesejáveis, como, por exemplo: agressividade, estereotipias e outros que dificultam o convívio social e aprendizagem deste indivíduo.

3. Promover o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas, adaptativas, cognitivas, acadêmicas etc.

4. Promover comportamentos socialmente desejáveis

A intervenção é baseada em uma análise funcional, ou seja, análise da função do comportamento determinante, para eliminar comportamentos socialmente indesejáveis. Este é um ponto central para entendermos qual é o propósito do comportamento problema que a criança está apresentando e, com isso, montarmos a intervenção para modificá-lo. Se o comportamento é influenciado por suas consequências, podemos manipulá-las para entendermos melhor como essa sequência se dá e também modificar os comportamentos das pessoas, programando conseqüências especiais para tal (Moreira e Medeiros, 2007).

O primeiro passo para se resolver um comportamento problema é identificar a sua função. Se não soubermos por que uma criança deve se engajar em um comportamento adequado (qual a função ou propósito), será difícil saber como devemos ensiná-la.

Pais, terapeutas e professores tendem a imaginar ou achar um motivo para o comportamento e isso incorrerá no insucesso da intervenção. A avaliação comportamental é a fase da descoberta, e visa à identificação e o entendimento de alguns aspectos relativos à criança com autismo e seu ambiente. Alguns dos objetivos da avaliação são:

  • Entender o repertório de comunicação da criança: presença ou não de linguagem funcional, contato visual, atendimento de ordens, entre outros;
  • Como ela se relaciona em seu ambiente: brinquedos preferidos, apresenta birras frequentes, como reage às pessoas; 
  • Qual a função de seus comportamentos;
  • Em que circunstâncias certos problemas ocorrem ou deixam de ocorrer com maior freqüência ou intensidade?
  • Quais as conseqüências fornecidas a esses comportamentos problema?

Com base nestas informações, o segundo passo é traçar pequenos objetivos a curto prazo, visando à ampliação de habilidades e eliminação de comportamentos inadequados, realizando a manipulação dos antecedentes (estratégias de prevenção).

É importante que a modificação de comportamentos desafiadores seja feita gradualmente, sendo a redução da ansiedade e do sofrimento o objetivo principal. Isto é feito pelo estabelecimento de regras claras e consistentes (quando o comportamento não é admitido ou permitido); uma modificação gradativa; identificação de funções subjacentes, tais como ansiedade ou incerteza; modificações ambientais (mudança nas atitudes ou tornar a situação mais previsível) e transformação das obsessões em atividades adaptativas (Bosa, 2006).

Modificando os antecedentes podemos prevenir que o comportamento problema aconteça.

Isto é realizado de diferentes maneiras:

1. Evitando situações ou pessoas que sirvam como antecedentes para o comportamento problema;

2. Controlando o meio ambiente – no decorrer da vida do indivíduo o ambiente modela, cria um repertório comportamental e o mantém; o ambiente ainda estabelece as ocasiões nas quais o comportamento acontece, já que este não ocorre no vácuo (Windholz, 2002).

3. Dividindo as tarefas em passos menores e mais toleráveis, o que chamamos de aprendizagem sem erro. Toda a intervenção está baseada na aprendizagem sem erros, ou seja, deixamos de lado o histórico de fracassos e ensinamos a criança a aprender.

Esta aprendizagem deve ser prazerosa e divertida para a criança, podendo-se usar reforçadores para manter a criança motivada. Um reforço é uma conseqüência que aumenta a probabilidade de esta resposta acontecer novamente. Quando um comportamento é fortalecido, é mais provável que ele ocorra no futuro.

Além do reforço, usamos a hierarquia de dicas: quando iniciamos o ensino de qualquer comportamento, ajudamos a criança a realizá-lo com a dica necessária, que pode ser verbal (total ou parcial), física, leve, gestual, visual ou auditiva – e planejamos a retirada dessa dica até que a criança seja capaz de realizar o comportamento de maneira independente.

O terceiro passo é a elaboração de programas de ensino. Os programas de ensino são individualizados, geralmente ocorrem em situação de “um para um” e envolvem as diversas áreas do desenvolvimento: acadêmica, linguagem, social, verbal, motora, de brincar, pedagógica e atividades de vida diária.

A metodologia ABA e seus procedimentos são constantes e padronizados, o que possibilita que mais de um professor (pessoa que realiza os programas) trabalhe com a criança.

Este é um programa intensivo e deve ser feito de 20 a 30 horas por semana. É importante ressaltar que este programa não é aversivo e rejeita qualquer tipo de punição.

A participação dos familiares da criança no programa é de grande contribuição para seu sucesso e assegura a generalização e manutenção de todas as habilidades aprendidas pela criança.


Sabrina Helena Bandini Ribeiro é psicóloga, trabalha com pessoas com autismo desde 1995, é mestre em Distúrbios do Desenvolvimento, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especialista em Assistência Psicoprofilática em Medicina Fetal, pela Universidade Federal de São Paulo, e atende em São Paulo e Atibaia (SP), além de ser professora do curso de graduação em Psicologia da FAAT (Faculdades Atibaia) e fez parte do grupo de pesquisa sobre transtornos invasivos do desenvolvimento e avaliação neuropsicológica do Laboratório de Distúrbios do Desenvolvimento, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: [email protected]


Conteúdo Extra

Bibliografia:

  • Bosa, A.C.; Autismo: Intervenções Psicoeducacionais, Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(Supl I):S47-53
  • Lear, K. Ajude-nos a Aprender. (Help us Learn: A Self-Paced Training Program for ABA Part 1:Training Manual). Traduzido por Windholz, M.H.; Vatavuk, M.C.; Dias, I. S.;Garcia Filho, A.P. e Esmeraldo, A.V.Canadá, 2004.
  • MEYER, S. B. Análise funcional do comportamento. In: COSTA, C E; LUZIA, J C; SANT’ANNA, H H N. (Org.). Primeiros Passos em Análise do Comportamento e Cognição. Santo André, 2003, p. 75-91.
  • Moreira, M.B.; Medeiros, C.A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento, Artmed, 2007, Porto Alegre.
  • Schwartzman, J.S. Autismo infantil, Editora Memnon, 2003.São Paulo
  • Windholz. M.H.; Passo a Passo, Seu caminho: Guia Curricular para o Ensino de Habilidades Básicas, Edicon, 1988. São Paulo.
  • Windholz. M.H.; A TERAPIA COMPORTAMENTAL COM PORTADORES DE TID (Transtornos Invasivos de Desenvolvimento). In: “Transtornos Invasivos de Desenvolvimento”, 3º Milênio,Walter Camargos Jr. e cols,Brasília, DF – Ministério da Justiça, 2002.