1 de março de 2024

Tempo de Leitura: 4 minutos

Dia Mundial do Autismo 2024 enfatiza a valorização das capacidades

A campanha nacional do Dia Mundial de Conscientização do Autismo (celebrado todo 2 de abril) deste ano vem com o tema “Valorize as capacidades e respeite os limites!”, destacando a importância de reconhecer e respeitar as habilidades e as particularidades de pessoas com transtorno do espectro do autismo (TEA). O tema vem acompanhado pela hashtag #AutismoValorizeCapacidades, incentivando a sociedade a olhar além das dificuldades comumente associadas ao autismo e a valorizar o potencial único de cada indivíduo.

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ExpoTEA

Refletindo um movimento crescente de conscientização e inclusão social em todos os aspectos da vida, onde as diferenças muitas vezes são vistas como barreiras, a campanha nacional busca enfatizar que cada pessoa autista possui um conjunto de habilidades e interesses que merecem ser reconhecidos e estimulados. Além disso, ressalta a importância de compreender e respeitar os limites de cada um, promovendo um ambiente inclusivo, acessível e acolhedor. “Valorize as capacidades e respeite os limites!” é uma resposta à necessidade de abordar o autismo sob uma perspectiva mais integral e positiva, destacando que a neurodiversidade é uma parte valiosa da sociedade.

A campanha vem pedir dignidade e oportunidade a autistas de todo o espectro. Isso significa entender que, embora algumas pessoas possam enfrentar desafios em áreas como comunicação social e flexibilidade comportamental, elas também têm o direito de viver em um ambiente que respeite suas necessidades e adaptações. A Revista Autismo entrevistou alguns autistas sobre o tema e sobre a relação com seu dia a dia, mas em todos os relatos, vamos utilizar nomes fictícios para proteger a identidade desses autistas e para não fazermos nenhuma exposição desnecessária.

Eu pulo no banheiro

“Eu trabalho numa das 50 maiores empresas do Brasil, sou autista e ninguém aqui dentro sabe disso, porque tenho receio de, ao contar isso ao RH da empresa, passar a sofrer mais preconceito do que já sofro sendo considerado ‘esquisito’ por muitos colegas, além de temer prejudicar minha carreira”, contou Alberto, autista de 31 anos. Ele ainda relatou mais detalhes: “De tempos em tempos, a depender do meu estado emocional, eu tenho que pular e balançar as mãos. É uma necessidade desde minha infância, para eu me autorregular. Quando preciso muito pular, eu me levanto da minha mesa e vou ao banheiro e fico lá pulando por alguns minutos. Se eu fizesse isso na frente dos meus colegas, tenho certeza que seria julgado por isso e me tratariam diferente. Eu não faço isso porque quero, faço porque preciso!”, contou Alberto, emocionado.

Ainda que seja muito reconhecido na empresa, conforme nos contou, por trabalhos que foram muito elogiados e sempre ser considerado um funcionário com performance muito acima da média, Alberto tem certeza de que esses seus “limites” não seriam respeitados. “Esse é um assunto recorrente nas minhas terapias. Mesmo eu sendo muito bom no que faço, estando nesta empresa há mais de dez anos e tendo trazido muito lucro com meus trabalhos, se eu digo aqui que sou autista e começo a pular no meio do departamento, tenho certeza que tudo que conquistei na minha carreira vai embora instantaneamente”, concluiu Alberto.

Presumem uma incapacidade em mim

Kátia é uma autista de 28 anos, nível 2 de suporte, trabalha em casa, em home office, e nunca precisou ir à empresa, exceto no dia da sua contratação. Ela conta que este é seu primeiro emprego: “Nunca passo nas entrevistas, mesmo quando a vaga é para PcD (pessoa com deficiência), sinto que a maioria dos entrevistadores, sem me conhecer, presumem uma incapacidade em mim, por puro preconceito. Nesta empresa a vaga era para trabalho remoto, graças às mudanças pós-pandemia, e estou me dando muito bem. Tenho pânico de usar transporte público, portanto, poder trabalhar de casa não é só o mais cômodo para mim; é o possível”, disse Kátia, que prefere não dizer qual sua atividade na empresa, para preservar sua identidade.

A campanha deste ano também destaca que a neurodiversidade, a variação natural nas diferenças neurológicas entre as pessoas, é uma parte valiosa da sociedade. A neurodiversidade deve ser vista como uma riqueza de perspectivas que pode enriquecer nossas comunidades e locais de trabalho.

Para Kátia, a importância de se ter autistas nas empresas, nas escolas, nas instituições governamentais, enfim, na sociedade como um todo, abre uma perspectiva diferente. “Quase sempre minhas ideias e sugestões são muito diferentes do restante do grupo neurotípico, às vezes melhores, às vezes piores, mas vejo que minha perspectiva sobre os problemas e solução são diferentes e isso contribui para chegarmos em soluções mais criativas”, revelou Kátia, que preferiu ser entrevistada por mensagem.

Se formos pensar nos autistas com nível 3 de suporte — com raríssimas exceções de pessoas que contam com emprego apoiado —, o capacitismo e o descaso é ainda maior. Há muitas pessoas autistas e familiares que relatam diversas atitudes preconceituosas até mesmo por especialistas no assunto. “Meu filho foi alfabetizado porque eu sempre acreditei nele e hoje ele pode se comunicar usando CAA (comunicação alternativa aumentativa), mas todos os professores que passaram pela vida dele jamais botaram fé na capacidade dele. Eu nunca desisti até que encontrei uma professora que não o julgou, somente o ensinou. Foi uma vitória para todos nós!”, comemorou Darci, mãe do José, hoje com 22 anos, autista com nível 3 de suporte, não oralizado e com deficiência intelectual.

Na sociedade em todas as áreas

O mercado de trabalho reflete o que ocorre nos outros setores da sociedade. As mesmas questões, da incapacidade presumida e falta de respeito aos limites (muitas vezes  pelo pouco ou nenhum esforço para adaptar algo possível), acontecem em muitas escolas, universidades, clubes, no esporte, no lazer, na saúde, na segurança, na cidadania e também nas instituições governamentais dos três poderes, em todas as esferas, infelizmente.

Ainda há muito o que aprender como país em relação a autistas e a pessoas com deficiência de um modo geral. Precisamos urgentemente valorizar as capacidades e respeitar os limites — de todos!

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Editor-chefe da Revista Autismo, jornalista, empreendedor.

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