Por

Nora Cavaco

Nora Cavaco é PhD em autismo, psicóloga da educação e reabilitação.

Mapeando o mundo do autismo

1 de dezembro de 2021

Tempo de Leitura: 3 minutosAs novas práticas de estimulação multissensorial para um desenvolvimento pleno no Autismo

O conhecimento que as pesquisas atuais nos dão sobre o autismo possibilita-nos, numa fase precoce do desenvolvimento humano, enquanto técnicos e pais, uma atuação cada vez mais ajustada e eficaz, no sentido de, após conhecer o potencial da pessoa autista na fase em que se encontra, poder conduzi-la a uma maior funcionalidade na sociedade em que se insere. 

Academia do Autismo

Na ausência de um trabalho multidisciplinar que visualize a pessoa com autismo como um ser bio-sócio-psico-histórico e cultural, ela passa pelo estigma das incapacidades e inabilidades como sendo definidoras do seu destino durante toda a vida. Desse modo, leva-se em consideração muito mais os aspectos sintomáticos do transtorno do que a procura de estratégias intervenientes para a superação das dificuldades encontradas. É na prática que tudo se vislumbra, dado que a maneira como agimos reflete os nossos valores, as nossas atitudes e a sensibilidade que temos em relação a determinadas situações e problemas com que nos deparamos diariamente no contexto educativo, com as crianças com quem trabalhamos.

Após longos anos de estudo e pesquisa, com evidências na prática profissional, foi elaborado um plano de ação pelo The Nora Cavaco Institute – International Center of Neuropsychology & Autism e o Centro Clínico Al Gharb, de Portugal. Tal plano visa o desenvolvimento pleno, harmonioso e equilibrado da pessoa, considerando a faixa etária em que ela se encontra, assim como o potencial preservado e as capacidades cognitivas, psicossociais, afetivas e comportamentais que revela. 

A intervenção psicológica é assim desenhada para a pessoa nas suas singularidades, respeitando os seus interesses, motivações e em simultâneo utilizando os recursos materiais e tecnológicos da actualidade. Através da utilização de jogos interativos projetados nos ambientes circundantes da criança, jovem e/ou adulto, com enfoque motivacional, permite-se à pessoa a aquisição e consolidação de habilidades em prol de desenvolvimento mais sustentável e feliz. 

Essa intervenção, com a utilização dos mais variados estímulos sonoros, visuais, imagéticos concretos e abstratos –, contribui para a assimilação e consolidação das mais variadas aprendizagens. A prática terapêutica com incidência no entendimento de crenças existentes, assim como as emoções presentes e adquiridas e os comportamentos, desde os mais peculiares aos mais generalizados dentro do quadro do neurodesenvolvimento presente, pretende proporcionar à pessoa em questão outras formas de aprender, respeitando as bases do processo de ensino-aprendizagem (se é autista, disléxico ou ansioso, depressivo), do quadro clínico e, ludicamente, ativando todos os sentidos do ser  sempre na atmosfera do respeito pelo seu potencial e suas limitações. 

Além disso, a prática terapêutica pretende proporcionar e promover novos saberes e propiciar a aquisição de conhecimentos sobre técnicas possíveis de utilização diária nos mais diversos contextos (casa, escola) que ajudem o indivíduo a lidar com as circunstâncias da vida, superando assim possíveis limitações (autolimitações e limitações ambientais/sociais). 

A Intervenção Psicocomportamental Multissensorial visa proporcionar, de forma gradual, indo do mais simples ao mais complexo, novos ambientes de aprender.  Além de modificar ambientes que inicialmente podem ser considerados “problema” no processo de aprender  (projeção de ambientes, casa, escola, sala de aula, palavras, letras, sono, alimentação, relaxamento, canalização de energia) para que novas crenças (positivas e estruturantes) surjam e se consolidem, visando maior e mais ajustada funcionalidade na sociedade.  

Esse passo-a-passo é desenvolvido minuciosamente numa interface lúdica e psicoterapêutica visando o melhor para crianças, jovens e adultos. Estratégias e recursos lúdico-terapêuticos levam a alterações significativas nos comportamentos, no entendimento das emoções, na elaboração do processo linguístico significativo e na reconstrução e alteração de crenças rígidas e impeditivas para um caminhar saudável e harmonioso. O foco é desenhar sorrisos, promover aprendizagens, permitir sonhar a quem, muitas vezes, é roubado esse direito pelas inflexibilidades de terceiros. 

O mais importante para os pais e para os técnicos é focalizar os pontos fortes dessas crianças, em lugar dos pontos fracos, e potencializar suas competências em detrimento das fragilidades, identificando e eliminando as barreiras ao desenvolvimento, assim como os facilitadores a serem reforçados. 

Esse processo de observação, avaliação, intervenção e reavaliação permite à equipe transdisciplinar incluir a cooperação e o acompanhamento dos pais através de um trabalho complementar efetuado em casa e em clínica. O desenvolvimento de ações e estratégias adaptativas, visando a flexibilidade das práticas e dos objetivos e conteúdos que se quer desenvolver e ver atingidos utilizando uma relação proximal baseada na empatia, na assertividade, na afetividade e clareza das informações é, assim, uma realidade e o objetivo maior. 

O ambiente de apoio que se desenvolve, de ajuda mútua através da cooperação de todos os intervenientes é fundamental, assim como o reconhecimento da importância de um trabalho conjunto visando o sucesso do todo. Essas experiências positivas proporcionam a todos os envolvidos uma oportunidade de crescimento social e emocional, nomeadamente nas crianças e famílias com autistas!

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