23 de setembro de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Algumas crianças podem apresentar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a Apraxia de Fala na Infância (AFI) simultaneamente. Estudos indicam que, em grupos clínicos específicos, a coexistência dessas condições é mais frequente do que se pensava anteriormente. Um estudo publicado por Tierney et al. (2015) mostrou que 63,6% das crianças inicialmente diagnosticadas com autismo também receberam diagnóstico de apraxia de fala. Esses dados destacam a importância de avaliações cuidadosas e intervenções que abordem tanto os aspectos sociais da comunicação quanto as dificuldades motoras da fala. Nesses casos, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), incluindo o Sistema de Comunicação por Troca de Figuras® (PECS®), desempenha um papel fundamental para garantir acesso a uma comunicação significativa e eficaz.

O que é apraxia de fala na infância?

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A Apraxia de Fala na Infância (AFI) é um transtorno motor da fala de origem neurológica. Não se trata de falta de vontade de falar, desinteresse ou limitação intelectual. A dificuldade está no planejamento e na coordenação dos movimentos necessários para produzir sons e palavras, mesmo quando a criança sabe exatamente o que deseja comunicar.

Na AFI, o cérebro não envia de forma eficiente as instruções necessárias para que os músculos da boca, língua e lábios se movimentem na sequência correta. Esses músculos não são fracos nem paralisados — o desafio está no planejamento motor da fala.

Como resultado, a criança pode:

  • ter um repertório de fala muito limitado ou inconsistente;
  • produzir a mesma palavra de maneiras diferentes a cada tentativa;
  • apresentar grande dificuldade em imitar sons e sequências de sílabas;
  • compreender bem a linguagem falada, mas não conseguir se expressar com clareza.

A AFI é um diagnóstico específico, e a intervenção precoce é essencial para ampliar as oportunidades de comunicação e desenvolvimento da linguagem.

Comunicação é um direito — mesmo sem fala

Quando a fala não é funcional, as crianças frequentemente vivenciam frustração intensa, isolamento social e sofrimento emocional. Muitas vezes, comportamentos considerados “desafiadores” surgem simplesmente porque a criança não consegue expressar necessidades, desejos ou sentimentos.

Garantir meios acessíveis de comunicação não significa desistir da fala; significa respeitar um direito fundamental de toda criança: o direito de ser compreendida. Ao oferecer recursos alternativos, reduzimos a frustração, aumentamos a participação social e criamos condições mais favoráveis para o desenvolvimento da fala e da linguagem.

O que é Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)?

A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) inclui métodos, estratégias e ferramentas que apoiam ou substituem temporariamente a fala, permitindo que o indivíduo se comunique de forma eficaz.

A CAA é recomendada quando a fala está ausente, muito limitada ou difícil de compreender; quando a pessoa se beneficia de suportes visuais, simbólicos, gestuais ou tecnológicos; e quando é necessário garantir comunicação funcional enquanto a fala ainda está em desenvolvimento.

A ciência é clara: a CAA não impede o desenvolvimento da fala. Pelo contrário, promove engajamento, interação social e pode apoiar ganhos de linguagem quando integrada à terapia fonoaudiológica.

O Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (PECS): Uma ferramenta prática dentro da CAA

Entre os sistemas de CAA, o PECS se destaca como uma abordagem estruturada, baseada em recursos visuais, que é ensinada em fases progressivas, começando com itens altamente motivadores para a criança.

O PECS permite que a criança:

  • inicie a comunicação de forma espontânea;
  • faça escolhas e pedidos funcionais;
  • progrida gradualmente para discriminação de figuras, construção de mensagens mais complexas, comentários e muito mais.

O PECS tem sido utilizado com sucesso com crianças com diferentes desafios de comunicação, incluindo aquelas com AFI.

Como sistemas de CAA, como o PECS, podem ajudar crianças com apraxia de fala

1) Redução da frustração
Ao fornecer um meio claro e eficaz de expressão, o PECS diminui a angústia e reduz comportamentos desafiadores relacionados às dificuldades de comunicação.

2) Apoio ao processamento de sequências
Muitas crianças com AFI têm dificuldade em organizar sequências verbais. As estruturas visuais do PECS ajudam a organizar a intenção comunicativa, funcionando como uma ponte entre o pensamento e a fala.

3) Desenvolvimento da linguagem
O uso da CAA reduz barreiras comunicativas, apoia o desenvolvimento da linguagem e frequentemente abre caminho para o surgimento da fala em um ambiente de apoio.

4) Inclusão social em casa e na escola
Com o PECS, a criança pode pedir ajuda, expressar preferências e opiniões, participando ativamente das rotinas familiares e escolares.

5) Apoio ao planejamento motor e prática da fala
Crianças com Apraxia de Fala na Infância se beneficiam de oportunidades frequentes e estruturadas para praticar a comunicação. O PECS cria tentativas repetidas e significativas de comunicação em contextos naturais. Ao combinar símbolos visuais com modelos verbais consistentes, fortalece a conexão entre planejamento motor e produção da fala.

Conclusão

A Apraxia de Fala na Infância pode limitar severamente a expressão verbal, mesmo quando a criança compreende a linguagem e tem forte desejo de se comunicar. A ausência de fala não significa que ela não tenha o que dizer — significa que precisa de suporte eficaz para se expressar.

A Comunicação Aumentativa e Alternativa, especialmente por meio de sistemas como o PECS, oferece às crianças uma forma concreta de serem ouvidas, de participarem e aprenderem. Valorizar essas estratégias significa promover inclusão, desenvolvimento e qualidade de vida — garantindo que toda criança tenha uma voz, mesmo antes da fala estar plenamente estabelecida.

Nota

Durante muitos anos, a Apraxia de Fala na Infância foi pouco discutida e frequentemente subdiagnosticada. As famílias enfrentavam incertezas, falta de protocolos claros e dificuldade para encontrar profissionais devidamente capacitados.

Com a atualização da CID-11, a Apraxia de Fala na Infância passou a ser contemplada dentro do código 6A01.0 — Transtornos do Desenvolvimento dos Sons da Fala, trazendo maior precisão diagnóstica, respaldo científico e alinhamento com protocolos internacionais.

No Brasil, embora a Organização Mundial da Saúde tenha adotado oficialmente a CID-11 em 2022, a implementação completa está prevista para 2027. Até lá, a CID-10 ainda é utilizada para registros administrativos. Esse avanço fortalece o reconhecimento da condição, melhora a formação profissional e amplia o acesso a intervenções adequadas.

Referências

  • Bondy, A., & Frost, L. (2024). PECS Training Manual: Image Exchange Communication System. Newark, DE: Pyramid Educational Consultants.
  • Tierney, C. D., Mayes, S. D., Lohs, S. R., Black, A., Gisin, E., & Veglia, M. (2015). Quão válido é o Checklist para Transtorno do Espectro Autista quando a criança tem apraxia de fala? Journal of Developmental and Physical Disabilities, 27(3), 333–347.
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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

Superinteressante publica edição com reportagem sobre autismo

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