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Algumas crianças podem apresentar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a Apraxia de Fala na Infância (AFI) simultaneamente. Estudos indicam que, em grupos clínicos específicos, a coexistência dessas condições é mais frequente do que se pensava anteriormente. Um estudo publicado por Tierney et al. (2015) mostrou que 63,6% das crianças inicialmente diagnosticadas com autismo também receberam diagnóstico de apraxia de fala. Esses dados destacam a importância de avaliações cuidadosas e intervenções que abordem tanto os aspectos sociais da comunicação quanto as dificuldades motoras da fala. Nesses casos, a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), incluindo o Sistema de Comunicação por Troca de Figuras® (PECS®), desempenha um papel fundamental para garantir acesso a uma comunicação significativa e eficaz.
O que é apraxia de fala na infância?
A Apraxia de Fala na Infância (AFI) é um transtorno motor da fala de origem neurológica. Não se trata de falta de vontade de falar, desinteresse ou limitação intelectual. A dificuldade está no planejamento e na coordenação dos movimentos necessários para produzir sons e palavras, mesmo quando a criança sabe exatamente o que deseja comunicar.
Na AFI, o cérebro não envia de forma eficiente as instruções necessárias para que os músculos da boca, língua e lábios se movimentem na sequência correta. Esses músculos não são fracos nem paralisados — o desafio está no planejamento motor da fala.
Como resultado, a criança pode:
- ter um repertório de fala muito limitado ou inconsistente;
- produzir a mesma palavra de maneiras diferentes a cada tentativa;
- apresentar grande dificuldade em imitar sons e sequências de sílabas;
- compreender bem a linguagem falada, mas não conseguir se expressar com clareza.
A AFI é um diagnóstico específico, e a intervenção precoce é essencial para ampliar as oportunidades de comunicação e desenvolvimento da linguagem.
Comunicação é um direito — mesmo sem fala
Quando a fala não é funcional, as crianças frequentemente vivenciam frustração intensa, isolamento social e sofrimento emocional. Muitas vezes, comportamentos considerados “desafiadores” surgem simplesmente porque a criança não consegue expressar necessidades, desejos ou sentimentos.
Garantir meios acessíveis de comunicação não significa desistir da fala; significa respeitar um direito fundamental de toda criança: o direito de ser compreendida. Ao oferecer recursos alternativos, reduzimos a frustração, aumentamos a participação social e criamos condições mais favoráveis para o desenvolvimento da fala e da linguagem.
O que é Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA)?
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) inclui métodos, estratégias e ferramentas que apoiam ou substituem temporariamente a fala, permitindo que o indivíduo se comunique de forma eficaz.
A CAA é recomendada quando a fala está ausente, muito limitada ou difícil de compreender; quando a pessoa se beneficia de suportes visuais, simbólicos, gestuais ou tecnológicos; e quando é necessário garantir comunicação funcional enquanto a fala ainda está em desenvolvimento.
A ciência é clara: a CAA não impede o desenvolvimento da fala. Pelo contrário, promove engajamento, interação social e pode apoiar ganhos de linguagem quando integrada à terapia fonoaudiológica.
O Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (PECS): Uma ferramenta prática dentro da CAA
Entre os sistemas de CAA, o PECS se destaca como uma abordagem estruturada, baseada em recursos visuais, que é ensinada em fases progressivas, começando com itens altamente motivadores para a criança.
O PECS permite que a criança:
- inicie a comunicação de forma espontânea;
- faça escolhas e pedidos funcionais;
- progrida gradualmente para discriminação de figuras, construção de mensagens mais complexas, comentários e muito mais.
O PECS tem sido utilizado com sucesso com crianças com diferentes desafios de comunicação, incluindo aquelas com AFI.
Como sistemas de CAA, como o PECS, podem ajudar crianças com apraxia de fala
1) Redução da frustração
Ao fornecer um meio claro e eficaz de expressão, o PECS diminui a angústia e reduz comportamentos desafiadores relacionados às dificuldades de comunicação.
2) Apoio ao processamento de sequências
Muitas crianças com AFI têm dificuldade em organizar sequências verbais. As estruturas visuais do PECS ajudam a organizar a intenção comunicativa, funcionando como uma ponte entre o pensamento e a fala.
3) Desenvolvimento da linguagem
O uso da CAA reduz barreiras comunicativas, apoia o desenvolvimento da linguagem e frequentemente abre caminho para o surgimento da fala em um ambiente de apoio.
4) Inclusão social em casa e na escola
Com o PECS, a criança pode pedir ajuda, expressar preferências e opiniões, participando ativamente das rotinas familiares e escolares.
5) Apoio ao planejamento motor e prática da fala
Crianças com Apraxia de Fala na Infância se beneficiam de oportunidades frequentes e estruturadas para praticar a comunicação. O PECS cria tentativas repetidas e significativas de comunicação em contextos naturais. Ao combinar símbolos visuais com modelos verbais consistentes, fortalece a conexão entre planejamento motor e produção da fala.
Conclusão
A Apraxia de Fala na Infância pode limitar severamente a expressão verbal, mesmo quando a criança compreende a linguagem e tem forte desejo de se comunicar. A ausência de fala não significa que ela não tenha o que dizer — significa que precisa de suporte eficaz para se expressar.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa, especialmente por meio de sistemas como o PECS, oferece às crianças uma forma concreta de serem ouvidas, de participarem e aprenderem. Valorizar essas estratégias significa promover inclusão, desenvolvimento e qualidade de vida — garantindo que toda criança tenha uma voz, mesmo antes da fala estar plenamente estabelecida.
Nota
Durante muitos anos, a Apraxia de Fala na Infância foi pouco discutida e frequentemente subdiagnosticada. As famílias enfrentavam incertezas, falta de protocolos claros e dificuldade para encontrar profissionais devidamente capacitados.
Com a atualização da CID-11, a Apraxia de Fala na Infância passou a ser contemplada dentro do código 6A01.0 — Transtornos do Desenvolvimento dos Sons da Fala, trazendo maior precisão diagnóstica, respaldo científico e alinhamento com protocolos internacionais.
No Brasil, embora a Organização Mundial da Saúde tenha adotado oficialmente a CID-11 em 2022, a implementação completa está prevista para 2027. Até lá, a CID-10 ainda é utilizada para registros administrativos. Esse avanço fortalece o reconhecimento da condição, melhora a formação profissional e amplia o acesso a intervenções adequadas.
Referências
- ABRAPRAXIA Brasil. Apraxia de Fala na Infância. Disponível em: https://www.apraxiabrasil.org
- American Speech-Language-Hearing Association (ASHA). Apraxia de Fala na Infância. Disponível em: https://www.asha.org
- Bondy, A., & Frost, L. (2024). PECS Training Manual: Image Exchange Communication System. Newark, DE: Pyramid Educational Consultants.
- Tierney, C. D., Mayes, S. D., Lohs, S. R., Black, A., Gisin, E., & Veglia, M. (2015). Quão válido é o Checklist para Transtorno do Espectro Autista quando a criança tem apraxia de fala? Journal of Developmental and Physical Disabilities, 27(3), 333–347.
Soraia Vieira





