29 de julho de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Quando falamos de comunicação, muitas pessoas imediatamente pensam em fala. No entanto, a comunicação vai muito além das palavras faladas. Para pais e professores, entender o que realmente é comunicação faz uma diferença significativa em como ensinamos, incentivamos e respondemos às crianças, especialmente às crianças com autismo.

Intervenções baseadas em Análise do comportamento Aplicada (ABA) incluem estratégias fundamentadas em evidências cientificas que podem ser altamente eficazes no ensino de habilidades de comunicação a crianças com autismo. Simplificando, essa abordagem estuda como o comportamento se relaciona com o ambiente, ou seja, o que acontece antes, durante e depois de uma ação.

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Como profissionais, podemos analisar o comportamento por meio de uma estrutura antecedente-comportamento-consequência para entender melhor como e por que o comportamento, como a comunicação, ocorre.

Por exemplo, uma criança não consegue abrir um pacote de cookies (antecedente), começa a chorar ou pede ajuda usando um cartão do PECS (comportamento) e então recebe ajuda de um adulto (consequência). Essa sequência ajuda a explicar por que o comportamento ocorreu e por que é provável que volte a acontecer; quando a criança está motivada a acessar o cookie, não poder abri-lo cria uma oportunidade de comunicação.

Nem todo comportamento é comunicação

Um ponto muito importante — e que frequentemente causa confusão — é entender que nem todo comportamento é comunicativo.

Imagine uma criança que entra em um quarto, vai até uma prateleira, pega uma bola e começa a brincar sozinha. A criança interagiu com um objeto no ambiente, mas nenhuma comunicação ocorreu. Mesmo que um adulto interprete essa ação como “ele queria a bola”, essa interpretação não faz o comportamento comunicar.

Para que um comportamento seja considerado comunicativo, dois critérios devem estar presentes. Primeiro, o comportamento deve ser direcionado a outra pessoa. Segundo, essa pessoa deve responder, seja fornecendo algo ou fornecendo feedback social. Sem esses dois elementos, não estamos observando comunicação, mas sim ação direta sobre o meio ambiente.

Quando o comportamento se torna comunicação

Agora imagine que a bola está fora do alcance da criança e um adulto está presente. Se a criança empurra o adulto para o lado e pega a bola sozinha, a comunicação ainda não ocorreu. No entanto, se a criança direciona seu comportamento para outra pessoa, seja apontando, entregando um cartão PECS*(Sistema de Comunicação de Troca de Figuras*), fazendo um gesto, vocalizando ou sinalizando — e o adulto então entrega a bola — temos um exemplo claro de comunicação.

O ponto mais importante aqui é entender que qualquer forma de comportamento pode funcionar como comunicação, desde que atenda a dois critérios essenciais: é direcionado a outra pessoa e produz uma resposta dessa pessoa (ouvinte).

Comunicação, comportamento observável e função

A principal contribuição dessa perspectiva é seu foco no comportamento observável e na função da comunicação, em vez de interpretações subjetivas de intenções ou pensamentos internos. Sob esse ponto de vista, comunicação pode ser definida como um comportamento direcionado a outra pessoa que produz uma resposta — seja concreta ou social (Frost & Bondy, 2024).

Essa definição ajuda pais e professores a identificar quando uma criança realmente está se comunicando e criar condições nas quais esse comportamento pode ser ensinado, fortalecido e generalizado em diferentes áreas (por exemplo, escola, lar e comunidade)

Por que nós comunicamos? O papel das consequências

Do ponto de vista comportamental, nos comunicamos principalmente por dois motivos.

A primeira é conseguir coisas. Uma pessoa pede um brinquedo, comida, ajuda, um abraço ou uma atividade, por exemplo. Quando um adulto responde fornecendo o que foi solicitado, essa comunicação é reforçada.

O segundo motivo é compartilhar experiências. Uma criança comenta algo que viu, ouviu ou percebeu, por exemplo. Nesse caso, a comunicação é reforçada por respostas sociais: atenção, palavras, comentários e sorrisos.

Essas duas funções — solicitar e comentar — formam a base do desenvolvimento da comunicação. Quando uma criança não tem meios eficientes para se expressar, ela tende a depender de outros comportamentos para satisfazer seus desejos e necessidades, como chorar, gritar ou outros comportamentos desafiadores.

O que isso muda para pais e professores?

Quando entendemos comunicação como comportamento, nossa perspectiva muda significativamente. Começamos a observar o que a criança faz, em vez de tentar adivinhar o que ela quer dizer. Criamos oportunidades para a criança interagir com pessoas, não apenas com objetos. E valorizamos todas as formas de comunicação, não apenas a fala.

Isso significa reconhecer um gesto, um toque de botão, a troca de um cartão do PECS ou um sinal como tentativas legítimas de comunicação — e responder a elas de forma consistente.

Conclusão

Para pais e professores, essa mudança de perspectiva é essencial. Quando reconhecemos e fortalecemos diferentes formas de comunicação, criamos oportunidades mais acessíveis, funcionais e respeitosas para que crianças com autismo se expressem, participem ativamente e construam conexões significativas com o mundo ao seu redor.

*A Comunicação de Troca de Imagens é um sistema amplamente utilizado de CAA (Comunicação Aumentativa/Alternativa) para apoiar a comunicação funcional de aprendizes com desafios de comunicação. Ela se baseia nos princípios da Análise Comportamental Aplicada (ABA) e frequentemente recomendada por profissionais de saúde e educação, incluindo pediatras, como parte da intervenção precoce e interdisciplinar.

Referência

Bondy, A., & Frost, L. (2011). A Abordagem Educacional da Pirâmide – Um Guia para ABA Funcional Newark, DE: Pyramid Educational Consultants, LLC.

Bondy, A., & Frost, L. (2024). Manual de Treinamento do Sistema® de Comunicação de Troca de Imagens (PECS®) (3ª ed.) Newark, DE: Pyramid Educational Consultants, LLC.

Bondy, A., & Frost, L. (2011) O valor de uma imagem: PECS e outras estratégias de comunicação visual no autismo (2ª ed.). Casa Woodbine.

Sociedade Brasileira de Pediatria. (2019). Transtorno do Espectro Autista: Manual de Orientação. São Paulo: SBP.

 

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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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