17 de junho de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Quando se fala em PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras), ainda é comum ouvir frases como: “Ah, é aquele sistema de figuras para crianças que não falam”. Embora essa definição pareça simples, ela reduz enormemente o verdadeiro potencial do protocolo.

Um dos maiores desafios no Brasil é justamente esse: muitas pessoas ainda enxergam o PECS apenas como uma troca mecânica de figuras, e não como uma abordagem estruturada para o desenvolvimento da comunicação funcional, espontânea e socialmente significativa.

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Na prática, o PECS foi desenvolvido para ensinar algo muito maior do que “pedir objetos”. Seu objetivo é ajudar a pessoa a iniciar interações, expressar desejos, responder perguntas, comentar sobre o ambiente e participar ativamente da vida social. Em outras palavras, trata-se de ensinar comunicação com propósito.

Comunicação x fala

Pais e professores frequentemente associam comunicação exclusivamente à fala. No entanto, a comunicação humana vai muito além das palavras faladas.

Uma criança pode se comunicar por meio da fala, de gestos, sinais, expressões faciais, dispositivos eletrônicos ou recursos da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). O mais importante não é a forma utilizada, mas sua capacidade de interagir, participar e ser compreendida.

Por isso, o PECS não deve ser visto como o “último recurso” ou apenas como uma ferramenta para crianças sem fala. Ele pode desempenhar um papel fundamental no estabelecimento da iniciativa comunicativa, da autonomia e da interação social.

Aplicação sem seguir o protocolo

Outro desafio importante no Brasil é a grande variação na formação dos profissionais que utilizam o PECS. Em alguns contextos, o protocolo acaba sendo aplicado sem fidelidade ao modelo original. Etapas importantes são ignoradas, estratégias fundamentais deixam de ser utilizadas e o foco fica restrito a ensinar a criança a solicitar objetos altamente desejados.

Isso pode gerar resultados limitados e, muitas vezes, levar famílias e escolas a concluírem que “o PECS não funcionou”, quando, na realidade, o problema esteve na forma como foi implementado.

Também temos observado a oferta de capacitações com nomes semelhantes ao PECS oficial e a comercialização de certificados, sem a formação teórica e prática necessária. Essa situação tem gerado confusão entre famílias e instituições.

Muitos pais acreditam que qualquer profissional que ofereça serviços de PECS está qualificado para implementar o sistema de acordo com o protocolo original. No entanto, alguns profissionais se promovem como provedores de PECS sem terem concluído o treinamento oficial em PECS ou demonstrado competência no protocolo.

Como consequência, a intervenção perde a qualidade e deixar de produzir os resultados esperados.

O protocolo PECS é composto por fases estruturadas, objetivos específicos e estratégias cuidadosamente planejadas para promover a independência comunicativa. Quando aplicado com fidelidade ao protocolo, ele desenvolve habilidades fundamentais para a comunicação funcional, como a iniciativa espontânea, a persistência comunicativa, a discriminação de figuras, a construção de frases, a participação em interações sociais, a realização de comentários espontâneos e a formulação de perguntas e respostas. Dessa forma, o PECS cria oportunidades para que a comunicação se torne cada vez mais ampla, significativa e presente nas diferentes situações do cotidiano.

Por isso, a qualidade da formação do profissional é um fator decisivo para o sucesso da intervenção. Conhecer o protocolo e aplicá-lo com fidelidade são condições essenciais para que a criança tenha acesso a todo o potencial da abordagem.

Comunicação além do consultório

Outro fator essencial para o sucesso da intervenção é a parceria entre família, escola e profissionais. Muitas vezes, a criança utiliza recursos de comunicação apenas durante as sessões de terapia. No entanto, a comunicação acontece o tempo todo: em casa, na escola, no recreio, durante as refeições, nas brincadeiras e em inúmeras situações do cotidiano.

O progresso é mais rápido e consistente quando todos os adultos envolvidos incentivam e valorizam as tentativas de comunicação da criança. Quando pais, professores e terapeutas trabalham de forma alinhada, a criança encontra oportunidades reais para praticar suas habilidades comunicativas em diferentes contextos e com diferentes parceiros de comunicação.

Quando a espera atrasa a comunicação

Muitas famílias ainda recebem a orientação de “esperar mais um pouco” antes de introduzir recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Essa espera geralmente significa a perda de oportunidades valiosas para o desenvolvimento da comunicação.

Um dos mitos mais persistentes é a crença de que a CAA pode atrapalhar o desenvolvimento da fala. As evidências científicas mostram justamente o contrário: sistemas como o PECS frequentemente favorecer o desenvolvimento da comunicação verbal em muitos indivíduos.

Isso ocorre porque a criança passa a compreender que a comunicação produz resultados, que suas ações têm impacto sobre o ambiente e que interagir com outras pessoas é algo significativo. Esse aumento da intenção comunicativa frequentemente contribui também para o desenvolvimento da fala.

Além disso, mesmo quando a fala não se desenvolve plenamente, a criança continua tendo acesso a algo fundamental: a comunicação. E comunicar-se é um direito humano básico.

Um futuro promissor para a CAA no Brasil

Apesar dos desafios, existem motivos concretos para otimismo. O Brasil conta com profissionais extremamente criativos, famílias altamente engajadas e um interesse crescente por práticas baseadas em evidências. Cada vez mais escolas, clínicas e famílias buscam compreender a comunicação de forma mais ampla, respeitando diferentes formas de expressão.

O crescimento da CAA no país representa não apenas um avanço técnico, mas também um avanço em inclusão, acessibilidade e participação social.

O PECS tem contribuído significativamente para esse movimento como a principal abordagem baseada em evidências científicas, sustentada por décadas de pesquisas. Um amplo conjunto de estudos científicos tem documentado sua eficácia na promoção da comunicação funcional, no aumento das iniciativas comunicativas espontâneas e no apoio ao desenvolvimento da linguagem de muitas pessoas com necessidades complexas de comunicação. Essa sólida base de pesquisas ajudou a consolidar o PECS como uma das intervenções em Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) mais reconhecidas e amplamente estudadas no mundo.

Quando entendemos que a comunicação não depende exclusivamente da fala, abrimos espaço para que mais crianças possam participar, aprender, se relacionar, desenvolver autonomia e prosperar.

Talvez essa seja a maior contribuição do PECS: não apenas ensinar o uso de figuras, mas abrir caminhos para que crianças e adultos tenham mais autonomia, participação social e oportunidades reais de serem compreendidos. Porque, no fim, comunicar-se não é apenas uma habilidade, é um direito que está na nossa lei.

Nota: A Pyramid Educational Consultants é a única organização que oferece cursos oficiais de treinamento PECS no Brasil e no mundo. Mais informações estão disponíveis em www.pecs.com.

Referências

Bondy, A. S., & Frost, L. A. (2025). PECS Training Manual. Pyramid Educational Consultants.

Brasil. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).

Brasil. Lei nº 15.249, de 3 de novembro de 2025. Altera a Lei da Acessibilidade e a Lei Brasileira de Inclusão para dispor sobre a instalação de sistemas de Comunicação Aumentativa e Alternativa de baixa tecnologia em espaços públicos e abertos ao público.

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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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