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Nos últimos anos, o vocabulário essencial (vocabulário Core) tornou-se um foco central no ensino da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Presente em aplicativos, pranchas de comunicação e práticas clínicas, esse conjunto de palavras de alta frequência é frequentemente apresentado como a base para o desenvolvimento da linguagem. Muitos fonoaudiólogos e equipes têm adotado o vocabulário essencial para promover uma comunicação mais flexível, permitindo combinações de palavras e ampliando as possibilidades expressivas.
No entanto, surge uma questão importante: o que acontece quando o vocabulário essencial deixa de ser uma ferramenta e passa a ser o principal, ou até o único, foco de uma intervenção? Estamos ensinando de forma a garantir a expansão da linguagem ou estamos negligenciando a promoção da comunicação funcional?
À medida que as evidências científicas e a experiência clínica avançam, cresce o reconhecimento de que pode haver um desalinhamento entre o que está sendo ensinado e como a comunicação realmente se desenvolve, especialmente nos estágios iniciais.
Vocabulário essencial: por que é tão popular?
O vocabulário essencial refere-se a palavras amplamente utilizadas no cotidiano, como “querer”, “mais”, “ir” e “meu”. Essas palavras são valorizadas por sua versatilidade, pois podem ser usadas em diferentes contextos e combinadas de diversas formas.
Essa característica faz do vocabulário essencial uma ferramenta poderosa para promover a expansão da linguagem. No entanto, um ponto importante deve ser considerado: não existe uma única lista padronizada de vocabulário essencial, e sua seleção pode variar dependendo de quem ensina e do sistema de CAA utilizado.
Além disso, muitas dessas palavras carregam significados abstratos e múltiplas interpretações, o que pode representar um desafio significativo para indivíduos que ainda estão desenvolvendo habilidades iniciais de comunicação.
Para comunicadores emergentes, especialmente crianças, aprender palavras utilizadas em vários contextos pode ser complexo e confuso. Uma única palavra pode desempenhar diferentes funções dependendo da situação, exigindo um nível mais avançado de compreensão. Por exemplo, a palavra “ir” pode ser usada para indicar uma atividade desejada (“ir rápido”) ou situações menos motivadoras (“vai embora”). Essa variabilidade pode dificultar a aprendizagem e, principalmente, reduzir a motivação da criança para usar a palavra.
É essencial reconhecer que o início da comunicação está profundamente conectado à motivação e ao significado.
Vocabulário específico (fringe): o ponto de partida natural do desenvolvimento da linguagem
Diferentemente do vocabulário essencial, o vocabulário específico (Fringe) inclui palavras diretamente relacionadas à experiência da criança, como nomes de pessoas, objetos e atividades do cotidiano — por exemplo, “mamãe”, “bola”, “cachorro” e “balanço”.
Essas são, geralmente, as primeiras palavras adquiridas no desenvolvimento da linguagem. Isso ocorre porque são concretas, facilmente associadas a experiências reais e, portanto, mais significativas.
Ao priorizar o vocabulário específico, aumentamos a probabilidade de a criança compreender, usar e se engajar na comunicação de forma funcional.
O que as pesquisas recentes nos mostram
Estudos recentes têm reforçado essa perspectiva ao questionar o papel do vocabulário essencial nos estágios iniciais da comunicação. Pesquisas sugerem que listas comuns de vocabulário essencial frequentemente subestimam muitas palavras que predominam nos vocabulários expressivos iniciais das crianças e, portanto, podem não ser a base mais eficaz para o desenho de sistemas de CAA ou para intervenções precoces (LAUBSCHER; LIGHT, 2020).
Em consonância com esses achados, estudos mais recentes indicam que palavras presentes em listas de vocabulário essencial tendem a emergir mais tarde no desenvolvimento típico da linguagem. Introduzi-las muito precocemente, ao trabalhar com comunicadores simbólicos iniciantes que utilizam CAA, pode levar a repertórios limitados e variáveis, com lacunas significativas (FRICK SEMMLER et al., 2023).
Em conjunto, essas evidências sugerem que a introdução precoce do vocabulário essencial pode não refletir o curso natural do desenvolvimento da linguagem e, em alguns casos, pode resultar em repertórios comunicativos mais restritos. Isso não significa que o vocabulário essencial não deva ser utilizado, mas sim que é fundamental considerar o momento adequado para sua introdução, bem como as características individuais de cada comunicador.
O risco dos sistemas de vocabulário idênticos na CAA
Na prática, ainda é comum observar pranchas de vocabulário essencial idênticas sendo utilizadas para diferentes crianças. Embora essa abordagem possa facilitar o trabalho do professor, ela desconsidera um princípio fundamental da comunicação: a individualidade.
Cada criança possui interesses, motivações e necessidades únicas. Quando essas variáveis não são consideradas, a comunicação perde seu valor funcional e passa a ser apenas uma tarefa a ser executada.
Um caminho mais eficaz: começar pelo que importa
É essencial refletir sobre como a CAA é introduzida.
O ponto de partida mais eficaz é identificar o que é realmente significativo para a criança: suas preferências, interesses e necessidades. A partir disso, é possível criar oportunidades reais de comunicação, nas quais a linguagem tem uma função clara e imediata.
À medida que a criança desenvolve habilidades comunicativas, o vocabulário essencial pode, e deve, ser introduzido gradualmente, ampliando suas possibilidades expressivas.
Conclusão
O desenvolvimento da comunicação não depende apenas das palavras que ensinamos, mas do significado que essas palavras têm para quem as utiliza.
Embora o vocabulário essencial seja uma ferramenta valiosa para a expansão da linguagem, seu uso precoce e generalizado pode não atender às necessidades de comunicadores iniciantes.
Ao priorizar palavras baseadas nas preferências da criança, promovemos não apenas o crescimento da linguagem, mas também o desenvolvimento de uma comunicação funcional, significativa e motivadora.
No fim, a pergunta mais importante não é quais palavras ensinar primeiro, mas sim: quais palavras realmente importam para esta criança neste momento?
Agradecimento
Gostaria de agradecer à minha colega Catherine Horton, Fonoaudióloga, BCBA e Diretora da Pyramid Consultants nos Estados Unidos, por discutir este tema de forma tão clara e significativa, além de autorizar a adaptação e disseminação deste conteúdo. Sua contribuição tem sido essencial para ampliar a reflexão e aprimorar práticas na área de Comunicação Aumentativa e Alternativa.
Referências
Bondy, A.; Frost, L. PECS Training Manual: Picture Exchange Communication System. Newark, DE: Pyramid Educational Consultants, 2024.
Core Vocabulary in AAC: what the research (and experience) tell us. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QJ9ZBoYqj1c. Acesso em: Março 2026.
Frick Semmler, B. et al. Research on vocabulary use in AAC and early communication development. 2023.
Laubscher, C.; Light, J. Core vocabulary in AAC: considerations for effective practice. 2020.
Soraia Vieira





