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‘Há uma má interpretação sobre autistas serem autocentrados’, afirma Sophia Mendonça

Tempo de Leitura: < 1 minutoA jornalista e escritora Sophia Mendonça publicou nesta segunda-feira (16) um vídeo sobre empatia no autismo no canal “Mundo Autista“, do qual é uma das apresentadoras. A youtuber defende que ocorre uma dissolução da crença de que autistas não seriam empáticos após o aumento de estudos sobre aspectos cognitivos e emocionais da empatia. Ela também afirma que há uma má interpretação sobre o funcionamento autocentrado de pessoas no Espectro, como se isso significasse necessariamente egocentrismo.

“Quando você é autocentrado, até o seu sofrimento você deposita na percepção do outro. Então, muitas vezes você move terras por uma pessoa que nem quer a sua ajuda, que vivencia o sofrimento de uma maneira até mais leve do que você, mas você acha que porque você estaria sofrendo nessa situação, você quer dar o seu melhor para ela dessa maneira”, pontua a jornalista. “No contato com outras pessoas isso é visto como algo até negativo. Ao longo da minha vida, ouvia isso como uma crítica ou algo que deve ser compensado. Ser autocentrado não é necessariamente algo ruim. A questão de ser autocentrada me faz ter uma possibilidade de cuidar melhor dos outros se eu souber lidar com essa característica. Por ser autocentrada, eu olhava para mim e fazia uma autoanálise. Eu consigo trabalhar alguns pontos em mim para ser mais plena no contato com o outro”, finaliza.

Assista o vídeo:

Sobre autismo, colapsos, estresse pós-traumático e esperança na Pandemia

Tempo de Leitura: 3 minutosGostaria de dividir uma experiência bastante pessoal, sobre a qual muito raramente relato publicamente, seja na tentativa de fazer uma analogia esperançosa com a crise que vivemos, ou pelo menos para compartilhar algo positivo, ao menos para mim, nos difíceis tempos do Covid-19.

Por volta de agosto de 2017, eu e minha mãe fomos vítimas de um abuso psicológico muito forte. Após o encontro com o agressor, passei por um período extremamente tenso de estresse pós-traumático.

Com isto, os meltdowns (crises de agressividade), que sempre apresentei por vez ou outra na vida, como é comum em alguns autistas, se tornaram mais frequentes, além de ficarem muito mais intensos, me tornando uma pessoa auto destrutiva e até perigosa.

O estresse pós-traumático foi tão intenso que, entre 2018 e 2019, fiz terapia com uma psicóloga especializada em trauma, a quem tenho imensa gratidão, antes de retornar à Terapia Cognitivo Comportamental, que é mais indicada a pessoas com o meu perfil.

Não era fácil. Lembro-me que, em um destes meltdowns, em dezembro de 2018, quase fui internada em um hospital psiquiátrico. Em outro momento, ocorrido no mês de setembro de 2017, tive que fazer lavagem estomacal pela enorme quantidade de remédios ingeridos tentando esquecer a situação. Em 08 de maio de 2019, ainda rememorando os traumas vividos, a situação se repetiu.

08 de maio ‘celebrei’ dois anos sem sinal dessas crises nervosas. Eu nunca fiquei tanto tempo sem um meltdown, desde a infância, por isso, conto cada dia sem crise de forma similar ao que fazem os membros do alcoólicos anônimos. Eu não quero ter crises assim nunca mais, e sei que isso será impossível sem o meu impulso interno, que, ainda bem, permanece muito forte e determino que continuará sempre dessa forma.

Sobre o agressor e as pessoas que o conduziram a este ato (que, ainda assim, ele realizou por opção própria), prefiro fugir do senso comum da vingança x perdão. Nunca vi vingança como forma de justiça, pelo contrário, pensar nisso só me faria mais mal. Não sei exatamente se perdoei, também, essas pessoas. Eu tenho registro, mas, mais importante que isso é que elas não fazem mais parte da minha vida. Então, como diz a música de Tina Turner que tenho ouvido recorrentemente nesta quarentena, “I don’t really want to fight no more. This is time for letting go“.

Pode parecer um relato pequeno ou muito pessoal para alguns, mas quem convive com autistas ou é autista que apresente crises muito intensas (nem todos são assim), como as quem eu tinha, sabe a grandiosidade de se sentir livre delas e, também, de pensamentos obsessivos muito negativos.

É isso que eu queria compartilhar com vocês em tempos de Covid-19. Há uma famosa frase de Nichiren Daishonin: “O Inverno nunca falha em se tornar primavera.” É necessário o rigor do inverno para desabrochar as flores da primavera. Ao mesmo tempo, em outro escrito, ele afirma que até o inferno pode ser a Terra da Luz Tranquila. Para nós, praticantes do Budismo Nichiren, tanto o inferno quando a Terra Pura só existem na mente e no coração das pessoas. De acordo com essa filosofia, o que é chamado “Deus” em outras culturas é uma condição que existe dentro de todos nós, e pode ser ativada.

Assim, mesmo os tempos difíceis podem ser encarados com sabedoria que preencham nossos dias com maior leveza e se tornem combustível para utilizar os golpes duros da vida como forma de nos auto aprimorarmos e incentivarmos uns aos outros. O sofrimento existe e deve ser tratado com a maior seriedade e cuidado possíveis. O que vamos fazer com os efeitos que ele gera a longo prazo é escolha nossa.

O desejo de ser mãe por uma jovem autista

Tempo de Leitura: 2 minutosComo quem me acompanha sabe, sou uma jovem autista de 24 anos, filha de outra mulher também diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e não tenho filhos até o momento.  Recentemente, acompanhei um amigo também autista em reunião com o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) da universidade onde ele estuda. Apesar de esse amigo ser alguns poucos anos mais jovem do que eu, o técnico do NAI responsável por conduzir o encontro por videoconferência é uma pessoa cega e perguntou se eu era a mãe daquele aluno. Confesso que fiquei surpresa e positivamente tocada com esse comentário. 

Curiosa sobre o porquê de uma dúvida tão simples me impactar de forma agradável, fiz um exercício nos dias que se passaram após nossa conversa. Todas as pessoas com quem conversei sobre maternidade nesse período comentaram que são características da mãe ser cuidadosa e atenciosa. Apesar de não ter realizado uma pesquisa científica quantitativa, me chamou a atenção como esses dois atributos eram rapidamente os que vinham à mente das pessoas com quem dialogava sobre “instinto materno”. E, mais ainda, como elas naturalmente associavam a mim essa capacidade de ter cuidado e atenção com amigos, reforçando se tratarem de características minhas no trato com pessoas pelas quais nutro bons sentimentos. Essa percepção, contudo, não iria na direção contrária do estereótipo que muitas vezes é relacionado a pessoas autistas, de que elas são frias e podem ter dificuldades de criar vínculos e demonstrar sentimentos?

Na vivência com minha mãe, pude perceber o que Tony Attwood e outras grandes referências mundiais em TEA  abordam no livro “Asperger no Feminino” (2006), no que diz respeito a uma parte específica na qual sugere-se que as mães autistas costumam evidenciar maior empatia na relação com os filhos do que os pais também enquadrados ao Espectro. No entanto, até por observar na relação com minha mãe o quão desafiador pode ser para uma mulher lidar com o próprio autismo e se doar à criação de outro ser humano, com tudo que nos é peculiar, eu há muito tempo alimento um receio sobre ser mãe. 

Eu não sou uma mulher cisgênero e, em função de algumas particularidades minhas, não posso gerar filhos. No entanto, não posso negar que por vezes me vem um desejo forte de adotar uma criança em um futuro mais estável. Aí entra a rigidez de pensamento, os medos que rondam a ideia de ter uma vida quase que inteiramente dependente de mim. Conheço mães e pais autistas incríveis, todavia, Enfim, enquanto a ideia amadurece, busco seguir cuidadosa e atenciosa com os meus amigos  Essas são características das quais não abro mão!

Hiperfoco e Ansiedade

Tempo de Leitura: 2 minutosEm meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis. 

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista”. 

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar. 

Vacinação para Covid-19 de autistas adultos

Tempo de Leitura: 2 minutosHoje foi dia de eu e minha mãe, Selma Sueli Silva, recebermos a primeira dose da vacina contra a Covid-19, por sermos pessoas com deficiência permanente (no caso, o Transtorno do Espectro do Autismo, TEA). Ficamos muito felizes por sermos vacinadas, já que o nosso quadro de saúde apresenta peculiaridades em função do tratamento medicamentoso e de questões sensoriais e motoras, dentre outras. Foi um alívio perceber uma luz no fim do túnel, o começo de uma nova esperança. 

Minha mãe estava muito nervosa para ir ao posto de vacinação, já que ela tem muita dificuldade de locomoção a locais que não conhece, principalmente se forem barulhentos ou repletos de outros estímulos sensoriais. Para aumentar a tensão, aqui em Belo Horizonte alguns postos já vacinam autistas e pessoas com outras deficiências permanentes, mas isso ainda não ocorre em todos os pontos de referência da cidade. Portanto, aqui, é preciso primeiro ligar ao local onde ocorre a aplicação da vacina para apurar se esse público já está sendo atendido.

Ficamos na fila da triagem por um bom tempo até sermos atendidas. Eu estava com meu lado de Transtorno do Espectro Autista e minha mãe, com dois relatórios, um atestado de Síndrome de Asperger e o outro também de TEA, todos os três com o mesmo CID F84.5. Apesar do código indicar a mesma condição de saúde, só foram aceitos os laudos que mencionam explicitamente o Transtorno do Espectro Autista.  Felizmente, pudemos vacinar.

Uma moça muito simpática nos recebeu para aplicar a dose da Pfizer. Minha mãe, a essa altura, já estava muito desconstruída, o que é comum acontecer em lugares públicos, e eu estava mais calma. Ainda assim, a profissional de saúde conversou muito mais comigo, foi mais cuidadosa e atenciosa até, o que me leva à hipótese de que quanto mais velha é a pessoa, mais ela se torna invisível socialmente como autista. Contudo, foi recompensador perceber que formamos uma boa dupla e que uma pode compensar as dificuldades da outra. 

Dirigido por Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, documentário ‘AutWork’ é selecionado para festival no Reino Unido

Tempo de Leitura: 2 minutosO curta-metragem documental “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho“, uma produção do “Mundo Autista” dirigida por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, mãe e filha diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), foi classificado para a seleção oficial do festival “List-Off Global Network: First-Time Filmmaker Sessions“.  O documentário, que concorre na categoria Melhor Curta-Metragem, marca a estreia na direção cinematográfica da dupla de jornalistas e escritoras e investiga a inclusão de autistas no mercado de trabalho.

Dirigido por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, documentário "AutWork" é selecionado para festival no Reino Unido — Canal Autismo / Revista AutismoO evento é sediado em Pinewood Road, na Inglaterra e ocorre entre 24 e 31 de maio deste ano. Os cinco melhores filmes de cada categoria serão selecionados pelo público após exibição e votação online. Os finalistas serão avaliados pelo júri interno do festival, que definirá os vencedores, e exibidos no Pinewood Road e no Los Angeles Lift-Off Film Festival em Raleigh Studios, Hollywood. Para Selma Sueli Silva, a repercussão internacional é uma oportunidade de “ampliar a visibilidade do Espectro e da pessoa autista, facilitando a oportunidade de mais acolhimento e menos preconceito”.

A dupla de cineastas atualmente se vê envolvida em novos projetos no cinema e o próximo documentário tem previsão de lançamento no final deste ano. “Como contadoras de histórias, estamos sempre em busca da oportunidade de ampliar o repertório sobre temas que foram pouco ou nada discutidos, ou não tiveram a chance de serem discutidos sob determinada ótica”, analisa Sophia Mendonça.

Trailer

Confira o trailer de “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”:

 

Documentário