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Hiperfoco e Ansiedade

Tempo de Leitura: 2 minutosEm meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis. 

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista”. 

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar. 

Vacinação para Covid-19 de autistas adultos

Tempo de Leitura: 2 minutosHoje foi dia de eu e minha mãe, Selma Sueli Silva, recebermos a primeira dose da vacina contra a Covid-19, por sermos pessoas com deficiência permanente (no caso, o Transtorno do Espectro do Autismo, TEA). Ficamos muito felizes por sermos vacinadas, já que o nosso quadro de saúde apresenta peculiaridades em função do tratamento medicamentoso e de questões sensoriais e motoras, dentre outras. Foi um alívio perceber uma luz no fim do túnel, o começo de uma nova esperança. 

Minha mãe estava muito nervosa para ir ao posto de vacinação, já que ela tem muita dificuldade de locomoção a locais que não conhece, principalmente se forem barulhentos ou repletos de outros estímulos sensoriais. Para aumentar a tensão, aqui em Belo Horizonte alguns postos já vacinam autistas e pessoas com outras deficiências permanentes, mas isso ainda não ocorre em todos os pontos de referência da cidade. Portanto, aqui, é preciso primeiro ligar ao local onde ocorre a aplicação da vacina para apurar se esse público já está sendo atendido.

Ficamos na fila da triagem por um bom tempo até sermos atendidas. Eu estava com meu lado de Transtorno do Espectro Autista e minha mãe, com dois relatórios, um atestado de Síndrome de Asperger e o outro também de TEA, todos os três com o mesmo CID F84.5. Apesar do código indicar a mesma condição de saúde, só foram aceitos os laudos que mencionam explicitamente o Transtorno do Espectro Autista.  Felizmente, pudemos vacinar.

Uma moça muito simpática nos recebeu para aplicar a dose da Pfizer. Minha mãe, a essa altura, já estava muito desconstruída, o que é comum acontecer em lugares públicos, e eu estava mais calma. Ainda assim, a profissional de saúde conversou muito mais comigo, foi mais cuidadosa e atenciosa até, o que me leva à hipótese de que quanto mais velha é a pessoa, mais ela se torna invisível socialmente como autista. Contudo, foi recompensador perceber que formamos uma boa dupla e que uma pode compensar as dificuldades da outra. 

Dirigido por Sophia Mendonça e Selma Sueli Silva, documentário ‘AutWork’ é selecionado para festival no Reino Unido

Tempo de Leitura: 2 minutosO curta-metragem documental “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho“, uma produção do “Mundo Autista” dirigida por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, mãe e filha diagnosticadas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), foi classificado para a seleção oficial do festival “List-Off Global Network: First-Time Filmmaker Sessions“.  O documentário, que concorre na categoria Melhor Curta-Metragem, marca a estreia na direção cinematográfica da dupla de jornalistas e escritoras e investiga a inclusão de autistas no mercado de trabalho.

Dirigido por Sophia Mendonça & Selma Sueli Silva, documentário "AutWork" é selecionado para festival no Reino Unido — Canal Autismo / Revista AutismoO evento é sediado em Pinewood Road, na Inglaterra e ocorre entre 24 e 31 de maio deste ano. Os cinco melhores filmes de cada categoria serão selecionados pelo público após exibição e votação online. Os finalistas serão avaliados pelo júri interno do festival, que definirá os vencedores, e exibidos no Pinewood Road e no Los Angeles Lift-Off Film Festival em Raleigh Studios, Hollywood. Para Selma Sueli Silva, a repercussão internacional é uma oportunidade de “ampliar a visibilidade do Espectro e da pessoa autista, facilitando a oportunidade de mais acolhimento e menos preconceito”.

A dupla de cineastas atualmente se vê envolvida em novos projetos no cinema e o próximo documentário tem previsão de lançamento no final deste ano. “Como contadoras de histórias, estamos sempre em busca da oportunidade de ampliar o repertório sobre temas que foram pouco ou nada discutidos, ou não tiveram a chance de serem discutidos sob determinada ótica”, analisa Sophia Mendonça.

Trailer

Confira o trailer de “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”:

 

Documentário