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‘Há uma má interpretação sobre autistas serem autocentrados’, afirma Sophia Mendonça

Tempo de Leitura: < 1 minutoA jornalista e escritora Sophia Mendonça publicou nesta segunda-feira (16) um vídeo sobre empatia no autismo no canal “Mundo Autista“, do qual é uma das apresentadoras. A youtuber defende que ocorre uma dissolução da crença de que autistas não seriam empáticos após o aumento de estudos sobre aspectos cognitivos e emocionais da empatia. Ela também afirma que há uma má interpretação sobre o funcionamento autocentrado de pessoas no Espectro, como se isso significasse necessariamente egocentrismo.

“Quando você é autocentrado, até o seu sofrimento você deposita na percepção do outro. Então, muitas vezes você move terras por uma pessoa que nem quer a sua ajuda, que vivencia o sofrimento de uma maneira até mais leve do que você, mas você acha que porque você estaria sofrendo nessa situação, você quer dar o seu melhor para ela dessa maneira”, pontua a jornalista. “No contato com outras pessoas isso é visto como algo até negativo. Ao longo da minha vida, ouvia isso como uma crítica ou algo que deve ser compensado. Ser autocentrado não é necessariamente algo ruim. A questão de ser autocentrada me faz ter uma possibilidade de cuidar melhor dos outros se eu souber lidar com essa característica. Por ser autocentrada, eu olhava para mim e fazia uma autoanálise. Eu consigo trabalhar alguns pontos em mim para ser mais plena no contato com o outro”, finaliza.

Assista o vídeo:

O desejo de ser mãe por uma jovem autista

Tempo de Leitura: 2 minutosComo quem me acompanha sabe, sou uma jovem autista de 24 anos, filha de outra mulher também diagnosticada com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e não tenho filhos até o momento.  Recentemente, acompanhei um amigo também autista em reunião com o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) da universidade onde ele estuda. Apesar de esse amigo ser alguns poucos anos mais jovem do que eu, o técnico do NAI responsável por conduzir o encontro por videoconferência é uma pessoa cega e perguntou se eu era a mãe daquele aluno. Confesso que fiquei surpresa e positivamente tocada com esse comentário. 

Curiosa sobre o porquê de uma dúvida tão simples me impactar de forma agradável, fiz um exercício nos dias que se passaram após nossa conversa. Todas as pessoas com quem conversei sobre maternidade nesse período comentaram que são características da mãe ser cuidadosa e atenciosa. Apesar de não ter realizado uma pesquisa científica quantitativa, me chamou a atenção como esses dois atributos eram rapidamente os que vinham à mente das pessoas com quem dialogava sobre “instinto materno”. E, mais ainda, como elas naturalmente associavam a mim essa capacidade de ter cuidado e atenção com amigos, reforçando se tratarem de características minhas no trato com pessoas pelas quais nutro bons sentimentos. Essa percepção, contudo, não iria na direção contrária do estereótipo que muitas vezes é relacionado a pessoas autistas, de que elas são frias e podem ter dificuldades de criar vínculos e demonstrar sentimentos?

Na vivência com minha mãe, pude perceber o que Tony Attwood e outras grandes referências mundiais em TEA  abordam no livro “Asperger no Feminino” (2006), no que diz respeito a uma parte específica na qual sugere-se que as mães autistas costumam evidenciar maior empatia na relação com os filhos do que os pais também enquadrados ao Espectro. No entanto, até por observar na relação com minha mãe o quão desafiador pode ser para uma mulher lidar com o próprio autismo e se doar à criação de outro ser humano, com tudo que nos é peculiar, eu há muito tempo alimento um receio sobre ser mãe. 

Eu não sou uma mulher cisgênero e, em função de algumas particularidades minhas, não posso gerar filhos. No entanto, não posso negar que por vezes me vem um desejo forte de adotar uma criança em um futuro mais estável. Aí entra a rigidez de pensamento, os medos que rondam a ideia de ter uma vida quase que inteiramente dependente de mim. Conheço mães e pais autistas incríveis, todavia, Enfim, enquanto a ideia amadurece, busco seguir cuidadosa e atenciosa com os meus amigos  Essas são características das quais não abro mão!

Hiperfoco e Ansiedade

Tempo de Leitura: 2 minutosEm meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis. 

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista”. 

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar. 

Vacinação para Covid-19 de autistas adultos

Tempo de Leitura: 2 minutosHoje foi dia de eu e minha mãe, Selma Sueli Silva, recebermos a primeira dose da vacina contra a Covid-19, por sermos pessoas com deficiência permanente (no caso, o Transtorno do Espectro do Autismo, TEA). Ficamos muito felizes por sermos vacinadas, já que o nosso quadro de saúde apresenta peculiaridades em função do tratamento medicamentoso e de questões sensoriais e motoras, dentre outras. Foi um alívio perceber uma luz no fim do túnel, o começo de uma nova esperança. 

Minha mãe estava muito nervosa para ir ao posto de vacinação, já que ela tem muita dificuldade de locomoção a locais que não conhece, principalmente se forem barulhentos ou repletos de outros estímulos sensoriais. Para aumentar a tensão, aqui em Belo Horizonte alguns postos já vacinam autistas e pessoas com outras deficiências permanentes, mas isso ainda não ocorre em todos os pontos de referência da cidade. Portanto, aqui, é preciso primeiro ligar ao local onde ocorre a aplicação da vacina para apurar se esse público já está sendo atendido.

Ficamos na fila da triagem por um bom tempo até sermos atendidas. Eu estava com meu lado de Transtorno do Espectro Autista e minha mãe, com dois relatórios, um atestado de Síndrome de Asperger e o outro também de TEA, todos os três com o mesmo CID F84.5. Apesar do código indicar a mesma condição de saúde, só foram aceitos os laudos que mencionam explicitamente o Transtorno do Espectro Autista.  Felizmente, pudemos vacinar.

Uma moça muito simpática nos recebeu para aplicar a dose da Pfizer. Minha mãe, a essa altura, já estava muito desconstruída, o que é comum acontecer em lugares públicos, e eu estava mais calma. Ainda assim, a profissional de saúde conversou muito mais comigo, foi mais cuidadosa e atenciosa até, o que me leva à hipótese de que quanto mais velha é a pessoa, mais ela se torna invisível socialmente como autista. Contudo, foi recompensador perceber que formamos uma boa dupla e que uma pode compensar as dificuldades da outra.