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A camuflagem social no autismo

Tempo de Leitura: 3 minutosNa infância, era recorrente receber críticas por ser inconveniente. Embora os adultos as chamassem de orientações. Eles me viam como uma criança que não se importava em magoar os outros. Mas não por eu fazer mal a alguém, de propósito. Na verdade, como autista, eu não tinha uma percepção adequada das regras sociais.

Eu dizia frases do tipo: “Porque você não vai pra sua casa?”, se a visita demorava para ir embora. Ou “Olá, pessoas que eu não conheço”, quando me pediam para cumprimentar um desconhecido. Certo é que, analisando hoje, parecia mesmo ter um tom irônico ou proposital no que eu falava. Contudo, a realidade é que eu era profundamente literal. Além de que eu não tinha noção da ‘esquisitice social’ de meus comentários.

A minha interação com outras pessoas, quase sempre adultas, me fez perceber o quanto eu era desagradável em meus comentários e observações. Nascia, nessa época, a necessidade intensa de agradar o outro. E essa exigência me acompanhou e se intensificou ao longo de minhas experiências. Comecei, então, a chamada camuflagem social no autismo.

O que é a camuflagem social?

Assim, o processo de camuflagem social é comum em pessoas que estão no TEA. Mas com um grau mais sutil. Desse modo, a camuflagem é um conjunto de estratégias elaboradas para disfarçar características do autismo. Ou seja, são táticas que envolvem desde gestos e entonações da voz até a modulação de assuntos para uma conversa. Em geral, isso acontece, com a utilização de mecanismos de cópia. Por exemplo, ao copiar comportamentos de pessoas neurotípicas.

A camuflagem social, ou masking, é um mecanismo importante para a adaptação de autistas ao convívio social. Principalmente, quando se trata de um ambiente pouco acessível a diferenças. Contudo, esse esforço para agir conforme o esperado socialmente, pode contribuir para o surgimento ou piora de condições coexistentes. Como quadros de ansiedade ou depressão que podem se intensificar pelo esforço. O que gera um gasto acentuado de energia.

Autismo em mulheres e a camuflagem social

A professora do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Amélia Cardoso, explica que a camuflagem do autismo é mais comum nas mulheres. Ou seja, as meninas são criadas para atender às expectativas sociais. Embora homens autistas também possam usar a camuflagem de forma eficiente também. Mas as mulheres tendem a ter maior habilidade na percepção e no uso dessas estratégias.

A neuropsiquiatra Raquel Del Monde ressalta que mulheres costumam ser mais ágeis e eficazes na apreensão de habilidades sociais por meio da cópia. Isso por questões neurológicas ou por maior cobrança de socialização. Grupos de meninas, por exemplo, tendem a favorecer brincadeiras de modelagem. Ou seja, situações em que amigas oferecem dicas e corrigem comportamentos considerados inadequados.

Mulheres autistas, assim, costumam ser mais extrovertidas. Além de atentas às reações de outras pessoas e mais preocupadas com as regras sociais. Assim, essa aparente facilidade na interação social acaba por dificultar o diagnóstico delas. Certamente também, porque o autismo no feminino apresenta características mais sutis. Embora não menos impactantes à vida da pessoa.

A camuflagem na minha trajetória

Eu sempre gostei de analisar as nuances e camadas que envolvem cada atitude das pessoas. Os comportamentos delas, ao meu redor, eram alvo de meu interesse. Assim como a reflexão sobre o que estava por trás de cada atitude. A verdade é que eu queria compreender o que não estava óbvio. Aliás, queria entender o que sequer, era comentado.

Então, eu anotava motivações. Ou questões mal resolvidas. E até os traços mais complexos da personalidade do outro. Eram aspectos que, muitas vezes, nem mesmo a pessoa percebia. Ou assumia.

Dessa maneira, criava “personagens” diferentes. Um para cada interação social. Antes, eu observava as características do grupo que queria me relacionar. Assim, eu detectava o que era esperado de mim. Além disso, traçava o perfil de de cada um deles.

O mais interessante é que eu chegava a reproduzir ideias das outras pessoas. Mesmo que discordasse delas. Meu objetivo era ganhar a simpatia de todos. Eu agia de forma inconsciente. É que tinha grande receio da rejeição.

Essa atitude foi marcante na minha pré-adolescência. Nessa época, colegas e familiares diziam que eu parecia ter mais de uma personalidade. Afinal, eu me adaptava às características do grupo social com que interagia. E essas turmas agiam, cada qual à sua maneira.

A busca por equilíbrio

Escrevi o romance “Danielle, Asperger” em 2016. Nele, eu falo sobre essa camuflagem social. O livro é sobre uma adolescente autista. Ela sonha em se encontrar com a sua atriz favorita. A narrativa ficcional foi a oportunidade para minha reflexão, autocrítica e autoaceitação do autismo.

Até que ponto é interessante abraçarmos nossas características mais profundas? Como saber quando a adaptação é fundamental ao aprimoramento social? Como ter qualidade de vida? Esses são alguns dos questionamentos levantados na obra.

A busca pelo equilíbrio é constante. O verdadeiro caminho do meio não está no ponto médio entre eles. E sim, em conhecer e aplicar, com sabedoria, o melhor de cada extremo.

Meme Sincero: Máscaras sociais— Canal Autismo / Revista Autismo

Meme Sincero: Máscaras sociais

Tempo de Leitura: 3 minutosQuem acompanha mais de perto a história do autismo também acompanha uma crescente no número de casos de pessoas com TEA no mundo. Até mesmo quem não está tão a par do assunto consegue perceber o aumento nessa incidência o que pode até levar a um pensamento equivocado sobre uma possível epidemia de autismo, como já ouvi por aí.

Mas a realidade é que essa ascenção não se deve a uma epidemia ou a modismo, afinal definitivamente o diagnóstico de TEA não tem a ver com “estar na moda”.

A verdade é que atualmente os critérios para diagnóstico estão mais bem definidos e quando somamos isso com o fato de que temos profissionais melhores preparados para identificar tal condição é que chegamos as estatísticas que vemos atualmente.

Apesar do Autismo ser uma condição que permanece por toda a vida do indivíduo, sendo possível e inclusive indicado que se faça esse diagnóstico ainda na primeira infância, atualmente, pelos mesmos motivos supra citados, muitos adultos estão sendo diagnosticados tardiamente com essa condição.

Importante ressaltar que mesmo sendo diagnosticados apenas na fase adulta, essas pessoas sempre foram autistas, apenas não tinham um laudo profissional e por consequência, muitas vezes, também não tinham o acompanhamento adequado.

E aqui chegamos ao ponto da nossa pauta de hoje. Como é possível que alguém cresça e fique adulto sem que se perceba a sua condição de Autista?

Algumas coisas podem explicar isso. Pensando no próprio motivo citado para o aumento de diagnósticos atualmente, fazendo uma reflexão da cronologia pregressa, chegamos a conclusão que se hoje temos mais e melhores profissionais, no que diz respeito ao entendimento do TEA, há algumas décadas esses eram escassos e o acesso a um profissional capacitado para reconhecer o Transtorno era muito mais difícil.

Os manuais diagnósticos anteriores também não traziam tão claramente os aspectos a serem observados e não era incomum que pessoas autistas fossem diagnosticadas com outras condições ou até mesmo doenças como esquizofrenia, depressão, etc…

Mas ainda tem outro fator que acaba por dificultar. As máscaras sociais ou o “masking” que é como o termo é conhecido em inglês.

Muitos autistas costumam fazer uso desse artifício para tentar se enquadrar no contexto social. Isso é feito quase que inconscientemente, o que faz com que muitas vezes não apenas as pessoas ao redor não reconheçam a condição de Autista do indivíduo como também pode confundir profissionais no processo diagnóstico.

Às vezes a pessoa Autista consegue executar esse masking tão bem que passa a vida toda sem uma resposta para as questões inerentes a sua existência como pessoa neurodivergente.

Vejam que mesmo após o diagnóstico, sabendo de sua condição, alguns tendem a mascarar suas características autísticas, seja com intuito de não se sentirem diferentes, medo de serem excluídos ou mesmo por falta de aceitação própria.

Para os que não têm um diagnóstico então, essa máscara social vem muito mais forte pois ao mesmo tempo que não entende porque não é como os outros, acha que pode se inserir se agir como os demais.

Porém, isso tem um preço para o bem estar do cidadão, não sai de graça esse mascaramento. “Fingir” ser o que não é traz uma estafa, física e mental, que muitas vezes apenas quem convive mais intimamente ou a própria pessoa vivencia no seu lar os resultados disso.

E esses resultados vêm em forma de crises, dores no corpo, cansaço, desânimo, depressão, agressividade, isolamento e por fim, mais dificuldade de socialização.

Daí a importância do diagnóstico, mesmo que tardio, porque o autoconhecimento traz aceitação. E aceitação traz paz de espírito e pode livrar de culpas que muitas vezes nem eram suas mas que você carregava.