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Autismo feminino e superdotação: sobre-excitabilidade — Canal Autismo / Revista Autismo

Autismo feminino e superdotação: sobre-excitabilidade

Tempo de Leitura: 4 minutosA superexcitabilidade, que também pode ser chamada de hiperexcitabilidade, é uma característica presente em indivíduos superdotados, e os acompanham ao longo da vida. Foi conceituada pelo psicólogo e psiquiatra polonês, Kazimierz Drabowski, e consiste em uma das características que compõem o rol de elementos não cognitivos.

Se trata de um fenômeno orgânico e neurológico que se caracteriza por reação intensa, muito mais do que o esperado para situações corriqueiras. Essa reação amplia a atividade mental, o que por consequência altera o comportamento, o que pode causar estranheza por sua intensidade aos que não possuem superdotação.

Não se trata de uma habilidade, mas de uma atividade mental intensa. A sua manifestação pode acontecer em diversas áreas. São essas 5, as sobre-excitabilidades: intelectual, emocional, imaginativa, motora e sensorial que ampliam os talentos da superdotação.

1.    Sobre-excitabilidade intelectual: é um refinamento da sensibilidade no indivíduo superdotado, a resposta aos estímulos, chega mais rapidamente do que o esperado. Uma das sobre-excitabilidades é a intelectual, ela se manifesta por curiosidade, lembranças detalhadas, incessante busca por leitura e conhecimento, planejamento detalhado, meta-cognição, foco e persistência na resolução de problemas, criticidade nos pensamentos, busca sempre a análise e a lógica. Seguem alguns exemplos de como sobre-excitabilidade intelectual pode se expressar: tendência a perguntas polêmicas, interesse no eu interior, capacidade marcante de análise e síntese, preocupação intensa com a solução de problemas, forte necessidade por obter conhecimento, busca sempre o “como” e o “porquê” dos fatos. Achei que muitas dessas características cabem a mim, e a vida de minha mãe teria sido bem mais fácil se ela soubesse o meu diagnóstico na infância. O que mais me irritava e frustrava era quando eu fazia alguma pergunta e ela respondia: “é porque é” ou “é assim porque Deus fez assim”. Só posso concluir que o diagnóstico salva-vidas!

2.    Sobre-excitabilidade emocional: podemos identificá-la como sensibilidade intensa, expressando emoções exacerbadas, afetividade e empatia desmedidas, relações com grande carga emocional, como também o indivíduo apresentar sentimentos em relação ao eu de maneira diversa. As expressões dos superdotados em relação a essa sobre-excitabilidade podem acontecer potencializadas da seguinte forma: consciência da sua gama de emoções; relações intensas com lugares, animais e objetos; afetuosidade; criar vínculos fortes; a adaptação a novos ambientes pode ser complicada; inibição, orgulho, euforia; diálogos internos muito críticos; autoavaliação; preocupação com os outros e a solução de seus problemas; sensação de inadequação, medo,  culpa, ansiedade; estados depressivos; dor de estômago, melancolia, manchas roxas, rubor, sudorese, palpitações entre outros.

A sobre-excitabilidade emocional é a principal responsável pelo desenvolvimento da personalidade, pois ela integra e potencializa as demais sobre-excitabilidades, como também os aspectos da cognição. Eu tive um estranhamento quando recebi o diagnóstico de superdotação, e houve até uma negação em relação a ele, pois a minha visão também era a do senso comum, que vê o superdotado como um gênio acadêmico. Estudando para me apropriar do conhecimento sobre essa deficiência, a cada texto fui me encontrando. As minhas características estão muito marcadas dentro da superdotação. E, como uma pessoa de carga emocional intensa a cada texto que escrevo me reconheço e ressignifico uma vida inteira sem saber quem eu realmente era. Hoje digo que sou sim autista e superdotada, e me muito orgulho disso.

3.    Sobre-excitabilidade imaginativa: a sobre-excitabilidade é uma característica da superdotação que potencializa os estímulos internos e externos, é uma sensibilidade maior do que a dos pares. Essa é das que mais me identifiquei, embora me veja nas cinco existentes. Podemos identificá-la como imaginação super criativa, ligada a imagens e percepções, fantasias, criação de mundos e personagens, percepção dramática, pensamento mágico, forte reação a sentir tédio, companhias imaginárias, percepção poética, busca pelo novo. Nas características da sobre-excitabilidade imaginativa, vejo que em mim também são potencializadas características do autismo, como: busca forte por imagens (pessoas autistas são extremamente visuais), medo do desconhecido (pessoas autistas necessitam de previsibilidade), associação de ideias com imagens (pessoas autistas necessitam de imagens na criação de conceitos). Além das características ligadas ao autismo, percebo outras em mim: sonhos detalhados, preferências por histórias mágicas (contos de fadas), realidades imaginárias, muitos planos e ideias, inventividade, diálogos internos fantasiosos, mistura realidade e fantasia, criação poética. Ah, que lindo isso! Eu adorei minha identificação com essa característica. Vejo o quanto a minha diversidade é linda e interessante. Por muitos anos mascarei não intencionalmente essas características, para tentar me aproximar das outras pessoas. Muitas vezes ouvi que era esquisita, e assim fui me fechando. A Arteterapia está me ajudando a retomar minhas emoções e sentimentos genuínos. Essa minha escrita nos posts é terapêutica. Minhas fotos nas imagens é auto-afirmação do amor em mim e por mim. Eu nunca coube nas “caixas” que me impuseram, eu sempre transbordei! E hoje, posso dizer como Anne de Green Gables: “Não é maravilhoso imaginar?”

4.    Sobre-excitabilidade motora: alcança os indivíduos da seguinte forma: há uma busca incessante por atividades físicas, jogos e esportes intensos, são competitivos demais, podem ser impulsivos, ter tiques nervosos, fala acelerada, entre outras características. Exemplos de como se expressam as pessoas que tem mais características dessa forma de sobre-excitabilidade: Agitação, hiperatividade, buscam por jogos violentos, são curiosos, fazem esportes radicais, tem muita necessidade de mudanças, sua fala e pensamentos são acelerados, além de também agirem sem refletir.

5.    Sobre-excitabilidade sensorial: é identificada por uma intensa busca por saciar os 5 dos sentidos (visão, audição, paladar, tato e olfato)e interesse intenso por tudo o que diz respeito a estética, como produtos de beleza, necessidade que as atenções voltem-se para si, e os prazeres que os sentidos podem proporcionar. Temos como maneira de expressar-se nessa sobre-excitabilidade as seguintes formas: gostar de beijos e abraços, mesmo de desconhecidos, não gostar de estar só, interesse intenso por sexo, explorar seu corpo e do outro.

Por Cláudia Moraes  

Vice-presidenta da ONDA-Autismo

A deficiência intelectual e as altas habilidades no TEA

Tempo de Leitura: 2 minutosA deficiência intelectual ou as altas habilidades podem coexistir no Transtorno do Espectro Autista (TEA), embora nenhuma delas seja critério diagnóstico para o autismo. Entretanto, eu sempre me incomodei com a fala de alguns autistas sobre a própria superdotação.

É que esses autistas, geralmente, possuem menor demanda de suporte. Dessa maneira, soava desnecessário enfatizar tal característica. Além disso, a ênfase era vista como um fator que hierarquizava pessoas. Ou seja, pessoas acima ou abaixo uma das outras.

O discurso da deficiência intelectual e as altas habilidades

O senso comum sobre deficiência intelectual e as altas habilidades mexe comigo. Certamente, devido à de minha experiência. Desde a infância, minha inteligência tem sido ressaltada. Mas isso me trouxe muitos sofrimentos por causa da minha percepção aguçada diante dos fatos e situações.

Fica claro que o mais efetivo é o que fazemos com nossa inteligência. Afinal, a inteligência é um conceito de complexa definição científica. Então, o uso das habilidades deve ser funcional, o que resulta em uma pessoa mais feliz.

Teste de QI, vale a pena fazer?

Recebi, há pouco tempo, a devolutiva de meu mais recente teste de QI . A avaliação é baseada na Escala Welscher de Inteligência. Assim, ela se divide entre duas grandes áreas: O QI verbal, focado em conhecimento adquirido e processos verbais. E o QI de execução, mais ligado ao raciocínio lógico e resolução de problemas.

Dessa forma, descobri alta discrepância entre esses dois principais aspectos da medição do QI: estou entre os 3% da população que tem essa expressiva diferença entre esses dois aspectos do QI. Por exemplo, minhas habilidades ligadas a aspectos da linguagem e comunicação são muito acima da média. Mas, há uma diferença de quase 40 pontos em relação às habilidades do QI de execução.

O que eu senti ao receber essa devolutiva, foi uma sensação de alívio. Entendi porque eu era vista como uma menina extremamente inteligente e comunicativa. Mas também, como uma garota que enfrentava desafios ao desempenhar tarefas simples do dia a dia.

O autoconhecimento nos liberta dos rótulos

Em minha trajetória, por diversos momentos, fui rotulada como preguiçosa. E até pouco cuidadosa. O resultado do teste de QI me deu um sentimento de rebeldia. Mas não revolta. Notei que posso seguir em frente. E não vou me limitar a essas características. Ao contrário, vou trabalhá-las para me tornar a pessoa mais feliz que puder ser. E o mais bem adaptada possível. O que faço com o resultado do que sou é o que realmente importa. O autoconhecimento nos permite a aceitação do jeito que somos. E também nos estimula a transformar o que precisa ser modificado.

Podcast Introvertendo conversa com adolescente aprovado em vestibular - episódiio 46 - Revista Autismo

Podcast Introvertendo conversa com adolescente aprovado em vestibular

Tempo de Leitura: < 1 minuto

Lançado excepcionalmente numa segunda-feira, o novo episódio do podcast Introvertendo se chama “Um papo com Enzo Grechi” e trata-se de uma conversa com o adolescente de 14 anos Enzo, que foi aprovado num curso de graduação e conseguiu cursar o ensino superior com o aval da Justiça.

O episódio também se diferencia da maior parte do conteúdo do Introvertendo por não trazer, desta vez, uma figura diagnosticada com autismo em seu material. Grechi possui altas habilidades e, no diálogo, falou sobre seu processo escolar, além de outras questões, como seus gostos culturais.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas, como o Spotify, iTunes, Google Podcasts, e também no canal do YouTube do Introvertendo. Neste último caso, também há uma versão alternativa do episódio sem músicas de fundo, feita especialmente para autistas com sensibilidade auditiva.