Tempo de Leitura: 5 minutos
O Dia do Orgulho Autista é celebrado mundialmente em 18 de junho. A data traz à tona debates profundos, dores reais e vitórias importantes. Para muitas pessoas, enxergar o lado bom da vida sendo autista tornou-se um ato subversivo. Entre a celebração da identidade neurodivergente e a dura realidade da falta de políticas públicas, a comunidade autista brasileira vivencia um cenário de contrastes. Nesta reportagem, mergulhamos nas vivências de pessoas autistas, familiares e ativistas para entender o que realmente significa esse orgulho e por que ele, muitas vezes, gera tantas controvérsias.
A origem da data e a proteção à vida
O Dia do Orgulho Autista foi instituído pelo grupo Aspies for Freedom (AFF), fundado em 2004, e celebrado pela primeira vez em 2005. O movimento ganhou força com o lema “aceitação, não cura”. O objetivo central da data é evitar que as representações do autismo se restrinjam a uma visão estigmatizante do senso comum, que por muito tempo tratou o autismo como uma condição fatalista, diante da qual a possibilidade de uma vida feliz e saudável parecia quase uma utopia.
Dessa forma, a proposta é perceber o autismo como diferença, sem que isso anule a deficiência nem as necessidades de apoio. O orgulho autista, inspirado também em movimentos de afirmação de identidade, reconhece o potencial inato de todas as pessoas. Trata-se de criar uma cultura de identidade autista e também de proteção à vida, especialmente em uma população que, muitas vezes, sente-se um peso para suas famílias e para a sociedade.
A dor e a realidade escolar
A ideia de “orgulho” não é unanimidade, e o sofrimento gerado pela falta de suporte não pode ser romantizado. Eduarda Guerrin, diagnosticada na infância após enfrentar intenso bullying escolar, desenvolveu comorbidades psiquiátricas graves. Assim como ocorreu comigo, ela recebeu, na vida adulta, laudos de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), altas habilidades, transtorno de personalidade borderline e transtorno de estresse pós-traumático complexo.
Para ela, a data é um momento de reconhecer lutas e conquistas, mas não de se orgulhar do transtorno em si. “Eu entendo por que muitas mães atípicas falam que odeiam o autismo. Elas odeiam pelo simples fato de seus filhos não terem o mínimo que é, por direito, [terem] na escola, nas terapias. [Pela] presença da solidão e do descaso. É importante saber a realidade e lutar para ter mais políticas públicas.”
O autismo com maiores necessidades de apoio e as vitórias cotidianas
A controvérsia sobre a data frequentemente esbarra na realidade de pessoas autistas com maiores necessidades de apoio. Eliane, neuropsicopedagoga e ativista baseada em Pelotas (RS), é mãe de Márcio, de 21 anos. Adotado e diagnosticado aos 6 anos, Márcio era não verbal e enfrentava crises graves de autoagressão.
Por meio de terapias, acompanhamento adequado e uso de canabidiol (CBD), a família transformou a qualidade de vida do jovem. Eliane defende que o orgulho autista abarca, sim, indivíduos com maiores necessidades de apoio. Ela cita grandes vitórias do rapaz, como o desenvolvimento da fala, passando da ecolalia para a capacidade de manter diálogos. Márcio também evoluiu em habilidades motoras e cotidianas, como subir escadas e pular em camas elásticas. Além disso, houve redução expressiva das crises de agressão e autoagressão.
Eliane considera que o orgulho não é do autismo como condição em si, mas da pessoa autista e de sua trajetória. “Para uma família atípica, conquistas como o bem-estar emocional e a possibilidade de viver dias mais leves têm um valor imenso”, pondera.
Leis no papel e polarização
Com mais de duas décadas de atuação na comunidade do autismo, a jornalista e ativista Fátima de Kwant traz um olhar crítico sobre o cenário atual. Apesar da popularização do tema e de avanços legislativos importantes, a prática continua excludente. O apagamento sistemático de adultos autistas com menores necessidades de apoio (nível 1 de suporte) no mercado de trabalho e a falta de terapias para crianças continuam sendo regra. Fátima aponta que um dos maiores retrocessos atuais é a divisão dentro das próprias comunidades autistas. As redes sociais se tornaram palco de disputas internas, enfraquecendo a luta coletiva por inclusão escolar, social e profissional.
Para Fátima de Kwant, o Dia do Orgulho Autista é um momento importante para a sociedade olhar de verdade para o autismo como parte da diversidade humana, que precisa ser entendida e apoiada. Quando uma criança autista recebe as ferramentas certas, ela tem mais chances de se desenvolver, ganhar autonomia e precisar de menos suporte ao longo da vida. “O orgulho celebrado nessa data não é sobre ‘ter autismo’, mas sobre tudo o que muitas pessoas autistas carregam no dia a dia: a vontade de aprender, a força para enfrentar ambientes que nem sempre são acolhedores, a paciência para lidar com olhares tortos e a resiliência diante do preconceito que ainda existe. É por isso que essa data importa.”
Manter o Dia do Orgulho Autista, para a jornalista, é lembrar à sociedade que essa luta não acabou. Ainda há crianças sendo recusadas em escolas, adultos autistas ignorados em entrevistas de emprego e famílias sem acesso ao básico. “O orgulho é um convite para que as pessoas entendam o que está em jogo: direitos, dignidade e a chance de viver sem precisar justificar a própria existência”, considera.
A descoberta tardia e a força das vozes femininas na literatura
O apagamento histórico das mulheres no espectro reflete, com frequência, a idade em que o laudo finalmente chega. Para Camila Paz, pesquisadora e acadêmica da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a resposta veio apenas na fase adulta, aos 26 anos, em meio à reta final de sua graduação. O estresse extremo do período a levou ao limite e potencializou sintomas que, até então, ela conseguia “mascarar” com mais êxito para se adaptar socialmente.
Durante a infância e a adolescência, Camila passou por diagnósticos equivocados de depressão, ansiedade generalizada e crises de pânico. Ela tentava tratar algo que, na verdade, ninguém sabia exatamente o que era. A suspeita de autismo partiu de sua psicóloga, o que deu início a uma jornada de quase dois anos de avaliações neurológicas e psicológicas.
Com a confirmação diagnóstica, veio também uma virada de chave sobre a própria identidade e sobre a importância do debate. Para a acadêmica, o Dia do Orgulho Autista representa um marco de transição na narrativa sobre a neurodivergência. “Ao longo dos anos, o Dia do Orgulho Autista deixou de ser focado apenas no que médicos e familiares têm a dizer e passou a abrir espaço para que pessoas dentro do espectro possam falar sobre suas próprias experiências. Não acredito em uma ideia de inclusão se não escutarmos as vozes de dentro para fora”, pontua ela.
Para Camila, que pesquisa poetisas autistas, a aproximação de experiências por meio da escrita poética permite que os sujeitos líricos dialoguem, criando laços de pertencimento e uma coletividade que ameniza a solidão de mulheres neurodivergentes. “De certa forma, o orgulho está na esfera de não ter mais medo nem vontade de me esconder. Orgulho de saber que essa é uma parte indissolúvel de quem eu sou, e de compreender como minhas ações e percepções são marcadas pelo espectro, fazendo com que isso se torne uma força, e não mais uma fraqueza”, reflete a pesquisadora. “Aos poucos, através da nossa própria voz, vamos ocupando todos os espaços.”
A subversão de vencer
Tanto a minha trajetória quanto a de minha mãe, Selma Sueli Silva, jornalista e também diagnosticada autista, foram marcadas por desafios intensos de saúde mental. No meu caso, enfrentei fobia social durante a adolescência e, no início da fase adulta, vi minhas dificuldades sensório-motoras se intensificarem em razão dos efeitos de medicamentos voltados ao controle do humor e da ansiedade. Cheguei a tomar um antídoto para os efeitos colaterais dessas medicações. Ainda hoje, mesmo se analisados individualmente, nossos gastos com medicamentos ficam na casa dos quatro dígitos.
Apesar disso, temos muita gratidão por nossa trajetória. Não apenas porque hoje sou doutoranda em literatura, contrariando prognósticos de que não chegaria nem à graduação, e minha mãe, que já perdeu trabalhos e relacionamentos por falta de habilidade social e passou uma vida tendo seus colapsos mal interpretados, hoje cursa o mestrado na mesma linha de pesquisa. Mas, principalmente, porque conseguimos jogar luz sobre as potencialidades de nosso cérebro neurodivergente e, independentemente das opiniões de descrédito alheias e do rigor das circunstâncias, transformamos a dor em incentivo para novos desafios.
Enxergar o lado bom da vida rejeita a visão fatalista da condição. No entanto, hoje, pessoas autistas consideradas “bem-sucedidas” nas esferas profissional e acadêmica não raro sofrem ataques na internet. Isso ocorre porque celebrar vitórias muitas vezes é percebido como algo que invalida a dor de quem tem maiores prejuízos. Ignora-se, dessa forma, todo um histórico de vida difícil, no qual pessoas recusaram-se a ceder à resignação.
Sophia Mendonça





