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Provas voltadas ao autismo se multiplicam pelo Brasil e mobilizam entidades, políticos e corredores
Quando Aleixo Júnior, 38, entrou pela primeira vez em uma corrida de rua, descobriu que a “prioridade na largada” garantida aos atletas autistas estava longe de bastar. “Não existia um ambiente menos cheio, ou seja, reservado, e com som muito alto”, relata.
Diagnosticado com autismo na infância, Aleixo passou pelo futsal na primeira infância, manteve-se no judô até os 23 anos (quando problemas de joelho o obrigaram a parar) e hoje combina musculação com caminhada e corrida, rotina adotada há cerca de um ano e meio. A mudança, segundo ele, transformou também sua saúde mental. “Quando voltei a fazer exercícios regularmente, diminuí a quantidade de remédios que tomo, incluindo para TDAH e depressão. Saí de cinco remédios por dia para me manter estável em dois, em cerca de um ano”, disse.
Em 19.abr.2026, Aleixo foi um dos participantes do Circuito Orgulho de Viver, em Goiânia, corrida temática de autismo que reuniu autistas de diferentes faixas etárias e que reflete, também, a interface do autismo com o boom das corridas no Brasil.
Do estalo à expertise
Ezequiel Santos é presidente da Associação dos Corredores de Pernambuco (ACOP), entidade com quase três décadas de atuação. Em entrevista à Revista Autismo, relembra que a ideia da Autismo Run surgiu em 2017, depois de anos de convívio com famílias atípicas em sua comunidade religiosa. “Deus colocou no meu coração para eu usar a minha expertise em corrida e desenvolver um projeto que desse visibilidade a essa causa”, afirma. Designer gráfico, Santos desenhou a primeira identidade visual da prova de madrugada, num impulso, e estreou o evento em Olinda naquele mesmo ano.
Interrompido pela pandemia, o projeto foi retomado com força e já circulou por diferentes cidades nordestinas, como Recife, João Pessoa, Campina Grande e Fortaleza, sempre com a mesma equipe à frente. “A gente é a base em Olinda, e em todas elas a gente leva toda a equipe”, explica. A oitava edição em Recife, que se deu em 5.abr.2026, reuniu mais de 5 mil participantes. “A aglomeração fica muito grande, e todo mundo quer largar no mesmo instante”, justifica Ezequiel. “Os pais que nunca correram terminam correndo, acompanhando de lado.” Já autistas adultos que disputam os 5 km com o público geral concorrem em categoria própria, com troféu, e não apenas medalha de participação.
Muito além das corridas
Na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, as corridas de autismo ganharam um significado diferente para a comunidade. Kezia Queiroz, 33, pedagoga e psicopedagoga, mestranda em educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), presidente fundadora da Comunidade Autismo em Xerém e vice-presidente da Associação Brasileira de Autismo (Abra), conta que a Corrida dos Autistas da Baixada Fluminense nasceu numa reunião de diretoria, em 2023. “A corrida teve um peso simbólico, não era nem pelo esporte, mas era uma alusão à vida corrida que a mãe atípica tem, em busca do diagnóstico, em busca do direito, em busca de melhor qualidade de vida para essa criança.”
Sem prática prévia em organização esportiva, a equipe se apoiou em parcerias. O deputado federal Gutemberg Reis (MDB-RJ) acompanha o projeto desde a primeira edição, viabilizando policiamento, ambulância, parte gráfica e a liberação do espaço público pela prefeitura de Duque de Caxias. A partir de 2024, porém, o evento migrou da rua para a Arena da Baixada, uma decisão tomada justamente para contemplar especificidades do público. “Tem a questão do comportamento de fuga”, observa Kezia. “Lá é um espaço enorme, então a gente cria uma pista, um circuito, e consegue atingir todas essas metas”, acrescenta.
Brinquedos infláveis, atividades recreativas com profissionais de educação física, tendas sensoriais e parcerias com clínicas que oferecem serviços terapêuticos fizeram parte das atrações do evento, 100% gratuito tanto na largada principal quanto na corrida kids. “Para nós, que somos os organizadores, não custou nada, porque a gente conseguiu tudo, inclusive empresas que doaram lanches, kits, água”, relata. “É a prova de que, quando você tem uma rede de parceiros, quando você tem a iniciativa da prefeitura, quando você tem apoio de políticos engajados com a causa, a coisa funciona”.
Custos e parcerias
A realidade de Kezia contrasta com a de quem opera em escala maior. Em Recife, Ezequiel calcula em torno de R$ 200 mil o custo médio de uma edição do Autismo Run. O dinheiro vem majoritariamente de patrocinadores privados, como clínicas especializadas, montadoras e bancos, atraídos por cotas que podem ser parceladas em até dez vezes. “[Apenas] inscrições não cobrem nenhum evento”, explica. A consolidação no estado é tamanha que, segundo ele, parceiros já procuram a organização logo após o encerramento de cada edição para garantir presença na seguinte.
A dependência do setor privado, no entanto, tem limites geográficos claros. Ezequiel conta que tentou levar a Autismo Run para o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, mas esbarrou na dificuldade de encontrar um captador de recursos disposto a abraçar a empreitada. “O projeto está pronto. Algumas pessoas têm pedido à gente, e estamos aguardando respostas, porque é um projeto muito caro. Quanto mais longe fica a cidade, mais o custo aumenta”, argumenta. A esperança, ele diz, está nas leis de incentivo ao esporte. “Quando aprova esse tipo de projeto, a gente vai ter recurso, baseado em cima de imposto. Aí você consegue levar para mais cantos”, disse.
Adaptações em competições
Apesar das diferenças de escala e modelo, a capacitação profissional é um dos diferenciais geralmente descritos em corridas temáticas de autismo. Kezia conta que a orientação dada aos voluntários, e profissionais atuantes em seus eventos têm o acolhimento como palavra-chave. “A gente evita questões sonoras que podem trazer uma desregulação, busca trazer um espaço bem amplo para que não haja aglomeração”. Segundo ela, nenhuma das três edições da corrida na Baixada registrou crises de pessoas autistas, resultado que credita a “medidas de acessibilidade simples que funcionam ali para adaptar o espaço para aquele indivíduo”.
A próxima edição da Corrida dos Autistas da Baixada Fluminense, prevista para o Dia do Orgulho Autista, é mais uma parceria com as secretarias municipais de Esporte e de Inclusão. Para Aleixo, que participou de sua primeira corrida em Goiânia no último mês de abril, a acessibilidade pode ser oferecida de forma simples. “Um lounge, um espaço reservado antes do início das provas e ao término, seria um pulo enorme no quesito de acessibilidade e inclusão”, afirma.
Tiago Abreu





