1 de junho de 2026

Tempo de Leitura: 2 minutos

Nos últimos anos, o crescimento de clínicas voltadas ao atendimento do transtorno do espectro do autismo (TEA) tem sido exponencial. O aumento da demanda é legítimo, necessário e reflete também um avanço social importante: mais famílias buscam apoio, mais profissionais se dedicam à área e o tema ganha maior visibilidade.

Esse movimento, no entanto, também trouxe um desafio que precisa ser discutido com seriedade. Ao lado de iniciativas comprometidas com a ciência e com a ética profissional, surgem clínicas que passam a tratar o autismo principalmente como uma oportunidade de mercado — e não como responsabilidade social, clínica e acadêmica voltada ao desenvolvimento e à qualidade de vida da pessoa com TEA.

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Genioo

Após 25 anos de atuação na área e duas décadas à frente da Clínica Somar, em Recife (PE), posso afirmar com tranquilidade que o cuidado com pessoas autistas exige muito mais do que estrutura física ou expansão de serviços. Exige formação sólida das equipes, compromisso com práticas baseadas em evidências, supervisão constante e, sobretudo, responsabilidade ética com as famílias atendidas.

Quando decisões clínicas passam a ser orientadas prioritariamente pelo faturamento ou pela lógica de crescimento acelerado, algo essencial se perde no caminho. O cuidado deixa de ser centrado na pessoa e passa a ser moldado por interesses administrativos ou financeiros.

Essa mudança de foco pode parecer sutil no início, mas seus efeitos são profundos. Protocolos são aplicados de forma padronizada e sem a devida individualização, metas terapêuticas deixam de considerar as particularidades de cada criança ou adolescente e o acompanhamento multidisciplinar perde consistência.

O autismo não pode ser tratado como um produto. Cada pessoa autista possui necessidades de apoio (nível de suporte), trajetórias de desenvolvimento e contextos familiares distintos. O trabalho clínico precisa respeitar essa complexidade, valorizando intervenções individualizadas e acompanhamento responsável ao longo do tempo.

Isso não significa negar que clínicas precisam ser sustentáveis financeiramente. Estruturas de qualidade dependem de gestão responsável, investimento em profissionais e planejamento. O problema surge quando a lógica financeira deixa de ser um meio para viabilizar o cuidado e passa a se tornar o objetivo central.

Quando o faturamento passa a guiar decisões clínicas, o cuidado perde o rumo. E quando o cuidado perde o rumo, quem sofre não é o negócio. Quem sofre é a pessoa com TEA e sua família, que depositam confiança em profissionais e instituições esperando encontrar orientação, apoio e caminhos reais de desenvolvimento.

Discutir esse tema de forma aberta é um passo importante para preservar aquilo que deve permanecer no centro de qualquer serviço voltado ao autismo: o compromisso com a ciência, com a ética e, acima de tudo, com a dignidade e a qualidade de vida das pessoas autistas.

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Psicólogo, especialista em neurociência, palestrante e empreendedor com 26 anos de atuação no campo do autismo, é sócio fundador da Clínica Somar há 20 anos, e da Somar Neuro.

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