1 de junho de 2026

Tempo de Leitura: 2 minutos

Confesso: poucas coisas me tiram o sono como uma consulta odontológica do Gabriel.

E não é exagero.

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Genioo

Quem é pai ou mãe de uma criança autista sabe que não estamos falando apenas de “ir ao dentista”. Estamos falando de um ambiente novo, sons desconhecidos, cheiros fortes, toques inesperados… e, principalmente, de um mundo que nem sempre está preparado para acolher.

Nossa jornada começou pelo SUS.

Ou melhor… “tentou começar”.

Conseguir a primeira consulta na UBS já foi um desafio por si só. Foram meses esperando e, nesse tempo, a gente vai lidando com aquela ansiedade silenciosa: “Será que está piorando? Será que vai doer?”.

Quando finalmente fomos atendidos, a dentista da UBS identificou dois pontos de cárie. Nada muito avançado, mas suficiente para nos encaminhar a um especialista.

Mais espera.

Mais expectativa.

Até que chegou o dia.

Na consulta com a especialista, ela confirmou o diagnóstico e tentou iniciar o tratamento. Primeiro, sem a maquininha, o que, para muitas crianças, já é um alívio.

Para o Gabriel… não foi suficiente.

Ela tentou, tentou mais um pouco… mas não conseguiu avançar muito. Optou por colocar um curativo provisório.

Até aí, tudo bem.

Mas teve um momento que me marcou.

O Gabriel estava com o tablet, o principal meio de comunicação dele. Quem convive com comunicação alternativa sabe o quanto esse recurso é mais do que um objeto. É voz. É autonomia. É segurança.

A doutora então pediu:

“Pai, guarda o tablet. Assim não dá para trabalhar, ele se mexe muito.”

Naquele instante, eu pensei: “Isso não vai funcionar”.

Mas também pensei: “Estamos no ambiente dela, vamos tentar”.

Guardei o tablet.

O Gabriel ficou cerca de 10 segundos tranquilo.

Dez segundos.

Depois disso, levantou da cadeira como quem diz: “isto aqui não faz sentido pra mim”.

E ali começou uma pequena tempestade. Tentativas de acalmar, de reorganizar, de reconectar.

No fim, conseguimos terminar aquele dia.

Mas não sem um detalhe importante: precisei assinar um termo autorizando, caso necessário, a imobilização na próxima consulta.

Assinei.

Cheguei em casa, conversei com a Grazy… e ficamos com aquilo na cabeça.

A consulta de retorno seria dali a um mês.

E, na noite anterior, eu simplesmente não dormi.

Ficava imaginando o Gabriel preso na cadeira.

E quem o conhece sabe: ele não gosta nem de pulseira no braço… imagina ser imobilizado.

Era angustiante.

No dia seguinte, fomos.

Com o coração apertado.

Mas algo foi diferente.

A doutora chamou o Gabriel… e não pediu o tablet.

Só isso já mudou tudo.

Ele entrou mais seguro, mais conectado, mais ele.

E, para nossa surpresa e alívio, não foi necessário imobilizá-lo.

O tratamento aconteceu.

Não exatamente da forma “tradicional”. Em alguns momentos, foi preciso adaptar, e uma boa parte foi feita em uma cadeira de rodinhas, daquelas de escritório mesmo.

Improviso?

Talvez.

Mas, para nós, foi cuidado.

Foi respeito ao tempo dele.

Foi entender que nem sempre o protocolo precisa ser seguido à risca… quando o paciente pede outro caminho.

Saímos de lá com algo muito maior do que um tratamento dentário em andamento.

Saímos com um aprendizado:

Às vezes, não é a criança que precisa se adaptar ao ambiente.

É o ambiente que precisa, pelo menos um pouco, ser adaptado à criança.

E quando isso acontece… tudo muda.

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Pai do Gabriel (que tem autismo) e da Thata, casado com a Grazy Yamuto, fundador da Adoção Brasil, criador do app matraquinha, autor e um grande sonhador.

André e a Turma da Mônica em: Cacto

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