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Selma Sueli Silva

Jornalista e relações públicas, diagnosticada com autismo, autora dos livros "Minha Vida de Trás pra Frente", "Dez Anos Depois", "Camaleônicos" e "Autismo no Feminino", mantém o site "O Mundo Autista" no Portal UAI e o canal do YouTube "Mundo Autista".

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Cérebro neurodivergente e hiperexcitado

17 de dezembro de 2021

Tempo de Leitura: 3 minutosDesde criança, eu penso demais. Aliás, sempre emendei um pensamento a outro. Dessa forma, meu esforço contínuo, sempre me causou enjoo. Minha mãe dizia: “você não está enjoada. Você é enjoada.” Porém, eu não entendia que era brincadeira dela. Ficava muito brava. Ou seja, era como se ninguém me levasse a sério. Por isso, preferia me manter calada. E pensativa. Mais tarde, colocaram essas características na conta de meu cérebro neurodivergente e hiperexcitado.

O tempo e meu cérebro hiperexcitado

Lembro que eu não entendia o tempo. Não fazia sentido. Afinal, diziam que há tempo para tudo e não era assim. Mal amanhecia e uma lista de ‘coisas a fazer’ me atormentava. Nem respirava e me diziam que estava na hora de dormir. Comecei a imaginar que Carlos Drummond de Andrade estava certo: “Êta vida besta, meu Deus.” Não havia tempo para degustar a vida. O sentimento de urgência me acompanhava dia e noite. A insônia era constante. O cansaço também.

Academia do Autismo

Que sentido teria toda aquela correria? Então, eu quis entender o tempo. Passei a estudá-lo. Descobri que o tempo era uma criação cultural de cada civilização. Dessa maneira, existem diferentes formas para compreendê-lo e até para contá-lo. Isso mesmo, nas aulas de História aprendi que havia diferentes calendários, mundo afora.

Nosso tempo

A nossa civilização se baseia, sobretudo, no calendário gregoriano. Ele é organizado de forma linear, com começo, meio e fim. O início é marcado pelo nascimento de Jesus Cristo e o fim, segundo a Bíblia, será marcado com o retorno dele. Confesso que não acredito que seja assim.

Outras civilizações, no entanto, compreendem o tempo de maneira diferente. Para os Maias e Astecas, por exemplo, o tempo acontecia em ciclos que se repetiam. Por isso, o calendário deles era circular. Faz sentido…

E ainda tem o Kairós

Kairós, palavra de origem grega, significa “momento certo” ou “oportuno”.  É uma antiga noção dos gregos sobre o tempo. O termo kairós teria surgido a partir de um personagem da mitologia grega. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo e das estações.

Ao contrário do pai, Kairós expressava uma ideia metafórica do tempo. Para ele, o tempo era não-linear. Não se pode determinar ou medir. Assim, “kairós” é um momento oportuno único. Então, ele pode estar no espaço de um tempo físico, determinado por Cronos.

Meu cérebro hiperexcitado e o entendimento do tempo

Concluí que kairós simbolizava o momento único do aqui e agora. Assim, essa seria a oportunidade para a realização de determinada atividade, por exemplo. O momento da ação. Como acontece na conjugação dos verbos. Aliás, a ação perfeita só acontece no tempo do presente do indicativo. Ao contrário, o tempo cronos está relacionado com a ideia de tempo cronológico e físico, como as horas, os minutos, os dias.

Minha busca pelo entendimento do tempo

Diante disso, por vezes, quis parar meu cérebro neurodivergente e hiperexcitado. Contudo, não era possível. Primeiro porque sempre foi mais forte que eu. Segundo, porque um psiquiatra me disse, certa vez, que o cérebro de um autista empenha um esforço duas vezes maior que o cérebro da pessoa típica.

Eu e minha filha Sophia temos um cansaço que batizamos de cansaço histórico. Ou seja, o nosso cansaço diuturno para entender tudo o que está à nossa volta. Assim, penso que agora, a humanidade já está preparada para um esforço semelhante para entender nossas diferenças. Entender a diversidade composta por nossas diferenças é o que torna a humanidade mais fortalecida e criativa.

Que tal começarmos pela educação, caminho efetivo das grandes transformações? Já é tempo de a Escola do século 21 reconhecer e legitimar o cérebro neurodivergente e hiperexcitado. Porém, não é só isso. Certamente, está na hora de abandonarmos nossa escravidão ao cronos. E, assim, nos rendermos ao Kairós. Como me ensinou a professora Rosângela Machado, mestre e doutora em educação:

O tempo Kayrós nos encanta, nos afeta, nos toca. Assim, ele é diferente do tempo Cronos, que nos engessa.  Em outras palavras, ninguém afeta o outro se não estiver afetado. E então, correr, para quê? Afinal, se não pararmos a gente não olha. Não experimentamos os muitos olhares, com olhares mais abertos!

Agradecimento à @_marianarosa_01, responsável por me afetar positivamente, sempre. Uma expert na utilização do tempo kairós. Aliás, ela e a pequena Alice. Viva! (Selma Sueli Silva)

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