26 de agosto de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Em muitas discussões sobre Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), especialmente ao falar sobre Dispositivos Geradores de Fala (SGDs), um termo aparece com frequência: robusto. No entanto, esse conceito é frequentemente mal utilizado. Muitas pessoas acreditam que um sistema é robusto simplesmente porque contém milhares de palavras, centenas de categorias ou um grande número de figuras disponíveis na tela. Essa interpretação está levando famílias e profissionais a fazerem escolhas que podem não ser as mais funcionais para os alunos.

Imagine que estamos ensinando uma criança a ler. Dar a eles um dicionário completo seria o melhor ponto de partida? Provavelmente não. Embora um dicionário contenha milhares de palavras, ele não ensina a criança a usá-las. Antes de acessar um vocabulário extenso, a criança precisa desenvolver as habilidades necessárias para entender, usar e combinar palavras para uma comunicação eficaz. O mesmo princípio se aplica à CAA.

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O que realmente significa um sistema robusto?

Um sistema robusto não é definido pelo número de palavras ou figuras que contém. Um sistema é robusto quando permite ao aluno desenvolver, expandir e usar habilidades de comunicação de maneira funcional e independente.

A robustez está relacionada à capacidade do usuário de crescimento na comunicação, não ao tamanho da biblioteca de figuras/símbolos disponível. Muitos dispositivos geradores de fala vêm com milhares de palavras pré-programadas. No entanto, a mera presença dessas palavras não garante que o usuário as encontre, compreenda ou use para expressar necessidades, pensamentos e sentimentos. Ter milhares de palavras na sua frente é diferente de saber como usá-las.

Quantidade vs. funcionalidade

Não é incomum encontrar crianças que têm acesso a centenas de figuras em um dispositivo, mas usam apenas um pequeno número delas ao longo do dia. Quando isso acontece, devemos fazer uma pergunta importante: quantas dessas palavras estão sendo usadas de forma significativa?

Uma criança pode ter acesso a 3.000 palavras e usar apenas dez delas regularmente. Outra criança pode ter acesso a um conjunto menor de palavras, mas usá-las para pedir ajuda, fazer comentários, responder perguntas, rejeitar atividades, compartilhar interesses e participar de interações sociais. Qual criança está se comunicando de forma mais eficaz?

Se você acha que é a segunda criança, está absolutamente certo. A comunicação eficaz não é definida pela quantidade enorme de palavras disponíveis em um sistema. Isso é medido pela forma significativa e flexível com que essas palavras são usadas para se conectar com os outros e participar da vida cotidiana.

A perspectiva do PECS

O Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (PECS) foi desenvolvido com foco no desenvolvimento sistemático das habilidades de comunicação.  Em vez de enfatizar o maior vocabulário possível, o PECS ensina as pessoas a se comunicarem de forma espontânea e eficaz para que suas necessidades sejam atendidas, com o vocabulário se expandindo como essas habilidades de comunicação ao longo do tempo

Ao longo das fases do PECS, os usuários desenvolvem habilidades progressivas como: Iniciar comunicação espontaneamente; solicitando itens e atividades; persistindo na comunicação; discriminar entre imagens; construir frases; fazer comentários; fazendo e respondendo perguntas.

Cada nova figura é introduzida porque serve a uma função comunicativa útil para o usuário. O crescimento do vocabulário ocorre de maneira planejada, com base nas reais necessidades, interesses e oportunidades de comunicação do indivíduo no dia a dia.

O que devemos avaliar?

Ao selecionar um sistema de comunicação, a pergunta mais importante não é “Quantas palavras ele tem?”, mas sim “Como vamos ensinar o sistema em um processo estruturado?

Indicadores significativos para examinar se os métodos de ensino estão funcionando incluem:

  • Número de figuras usadas (ex. quantas figuras estão no CAA e quantas são usadas em uma semana)
  • Frequência das iniciações da comunicação (ex. Número de iniciações espontâneas x Número de respostas a perguntas ou após ajuda)
  • Variedade de funções comunicativas demonstradas (ex. Eu quero, Eu sinto, Onde está, Olá)
  • Habilidade de combinar palavras (ex. Eu vejo peixe dourado, Eu gosto bolo e café)
  • Participação em atividades sociais (ex. Minha vez, Posso jogar)
  • Generalização das habilidades de comunicação em diferentes ambientes e parceiros de comunicação (ex. leva o CAA a uma padaria/mercado e se comunica com a equipe lá)

Esses indicadores fornecem informações muito mais valiosas do que simplesmente contar o número de ícones disponíveis em uma tela.

Construindo comunicação, não apenas catálogos de palavras

Quando profissionais e familiares concentram seus esforços exclusivamente em aumentar o número de fotos disponíveis, correm o risco de criar sistemas de comunicação visualmente complexos e menos funcionais.

O verdadeiro objetivo da intervenção da CAA deve ser expandir a capacidade do indivíduo de participar do mundo ao seu redor. Isso significa ensinar a pessoa a pedir, comentar, responder, protestar, tomar decisões, compartilhar experiências, fazer perguntas e se envolver socialmente.

Um sistema com milhares de palavras raramente usadas dificilmente promoverá uma comunicação eficaz. Por outro lado, um sistema cuidadosamente construído, baseado em vocabulário funcional e usado diariamente em situações significativas, pode levar a ganhos significativos na independência comunicativa.

Conclusão

Pais e profissionais precisam lembrar que robustez não é uma característica definida pelo tamanho do vocabulário armazenado em um sistema de comunicação. Um dispositivo ou pasta de comunicação não se torna robusto simplesmente porque contém milhares de palavras/figuras. A verdadeira robustez está em sua capacidade de apoiar o desenvolvimento contínuo da comunicação funcional.

Assim como não ensinamos uma criança a ler entregando um dicionário, também não ensinamos comunicação apenas fornecendo acesso a uma enorme coleção de palavras. O que promove o desenvolvimento é o ensino sistemático, oportunidades naturais de comunicação e a expansão gradual do vocabulário que é significativo para a vida do indivíduo.

Bibliografia

Bondy, A. S., & Frost, L. A. (2024). Manual de Treinamento PECS. Consultores Educacionais da Pyramid.

Bondy, A. S., & Frost, L. A. (2026). Material de treinamento do PECS para DGF [Materiais do curso de treinamento]. Consultores Educacionais da Pyramid.

Gilroy, McCleery & Líder, (2017). Revisão sistemática de métodos para ensino do comportamento social e comunicativo com modalidades de comunicação aumentativa e alternativas de alta tecnologia. Review Journal of Autism and Developmental Disorders 4 (4), 307-320

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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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