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Autismo e saúde mental

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Depressão e transtorno de ansiedade são comuns, especialmente em pessoas com TEA nível 1

“Sempre fui uma criança muito deprimida, tinha pensamentos suicidas desde criança. Tinha a sensação de não pertencer a esse mundo, não querer estar aqui, não querer voltar pra casa ”, é assim que a estudante de psicologia Michelle Malab define o sentimento de sofrer de depressão e ansiedade. Ao receber o diagnóstico de transtorno do espectro do autismo (TEA) na fase adulta, logo depois do filho Pedro, ela diz que passou a sentir que, muitas vezes, o TEA faz com que esses transtornos sejam ainda mais exacerbados. 

De acordo com um estudo realizado pela Universidade da Suécia, em 2016, pessoas autistas morrem, em média, 16 anos mais cedo que a população em geral. Entre os motivos para que isso aconteça, está o suicídio. Segundo outra pesquisa publicada em British Journal of Psychiatry, aqueles que têm o diagnóstico de TEA e não apresentavam deficiência cognitiva, tinham 9 vezes mais chances de morrer por suicídio, se comparados ao restante da população. Esses números são ainda maiores em mulheres e pessoas autistas nível 1. 

“Digo que autismo é como ‘Kinder Ovo’, nunca vem sozinho, sempre vem uma surpresinha dentro dele. É muito difícil encontrar uma pessoa que tem apenas um quadro de autismo puro, sempre tem as comorbidades, e depressão e ansiedade são as campeãs delas, no caso de autismo nível 1”, diz. 

Segundo a psicóloga Chaloê de Jesus Comim, pesquisas como a realizada na Suécia são extremamente raras. “É uma questão bem negligenciada mesmo, tanto fora do país quanto aqui no nosso país. Não existe nenhum estudo científico mais aprofundado que fale qual é a prevalência. Existem algumas publicações que falam que pelo menos metade dos autistas nível 1 têm depressão e que pelo menos 80% deles, têm algum transtorno de ansiedade”. 

Convivendo com autismo e depressão/ ansiedade

Para Michelle, entender que estava no espectro do autismo ajudou a entender algumas dificuldades que enfrentava desde criança. No livro ‘Menina Aspie’, ela aborda um pouco sobre como se sentia na infância e adolescência, quando ainda não tinha diagnóstico, mas já se sentia diferente das outras pessoas com as quais convivia. 

Nesta época, ela diz que se sentia deprimida e bastante ansiosa, o que ocasionava alguns problemas. Por esse motivo, foi indicado por um médico que fizesse uso de medicamentos controlados. 

No entanto, mesmo tendo passado grande parte da vida medicada, Michelle afirma a importância de buscar um profissional antes de se medicar ou mesmo se diagnosticar com um transtorno. “As pessoas têm a mania de dizer ‘mas todo mundo sente isso’. Sim, todo mundo sente isso. Todo mundo tem depressão? Não. Todo mundo se sente triste, sim. Todo mundo pode acordar um dia e não querer levantar da cama? Sim”. 

“Tem uma série de fatores que, em quantidade, qualidade e intensidade, se tem um transtorno. E o que o transtorno faz? Traz prejuízo funcional para a vida daquela pessoa. Isso caracteriza que a pessoa tem TEA, depressão, ansiedade. É bom que fique bem delineado, porque as pessoas tendem a confundir sinais isolados com um conjunto de fatores, sinais que, em intensidade e quantidade, determinam um transtorno”, pontua.

Associado ao autismo, ela sente que a depressão e a ansiedade tendem a ser um pouco mais acentuadas.  “O autismo aumenta muito esses sinais. Uma coisa que pode ser tolerável, em uma pessoa no autismo se torna insuportável”. 

Tempos de pandemia

Ainda conforme Michelle explica, a pandemia provocada pelo novo coronavírus também foi responsável por trazer à tona sentimentos depressivos e de ansiedade. Há cerca de um ano sem tomar nenhuma medicação, ela frequentava a academia e sentia ter o total controle das próprias emoções e sentimentos. No entanto, a necessidade do isolamento social e as mudanças que a situação trouxe, modificaram bastante esse cenário.

“A pandemia foi praticamente um retrocesso na minha vida em todos os sentidos, porque ela tirou toda minha rotina, acabou com minha agenda de palestras, me afetou financeiramente, emocionalmente, trouxe a dura constatação da realidade que nós não temos o controle de absolutamente nada na nossa vida e nós, pessoas com autismo, temos muita necessidade de controle. O cérebro precisa de rotina, tanto pessoas autistas como não autistas, o cérebro funciona melhor quando tem uma rotina. De repente essa rotina é quebrada, aí você imagina que ela é quebrada em um cérebro que funciona ao extremo”, explica.

Lidando com isso

Estudar psicologia e ter oportunidade de ler e compreender mais sobre transtornos, patologias e também as medicações. Esse processo, segundo Michelle, foi essencial para que ela também passasse a se compreender mais. No entanto, ela afirma que isso não significa que consegue resolver os problemas ocasionados pela depressão e ansiedade. 

Por esse motivo, faz sessões de terapia e, por vezes, uso de medicamentos controlados e indicados por um psiquiatra. Para muitos psicólogos especialistas em autismo, esses transtornos mentais devem sempre ser observados e tratados. “Acho que é algo que vai além de fora, de ser tratado quando surge. Eu acho que o mundo ideal é que as habilidades emocionais, as habilidades socioemocionais, precisam ser o foco de intervenção desde a infância como prevenção do desenvolvimento de algum transtorno depressivo, ansiedade, outros transtornos de saúde mental. Acho que, desde a infância, muitas coisas acabam sendo negligenciadas por dar foco demais em questões mais ‘formais’, digamos assim, né? Há comportamento inadequado, birra, estereotipia e fica sem trabalhar essa questão das habilidades emocionais e isso é importantíssimo, como prevenção do desenvolvimento de alguns transtornos na fase da adolescência e na fase adulta”, conclui Chaloê.

‘Pessoas autistas geralmente crescem achando que são de outro planeta’, afirma psicóloga autista

Tempo de Leitura: < 1 minutoAline Provensi, psicóloga e também autista, é administradora da página Tirinhas da Sara no Instagram, que atualmente tem mais de 10 mil seguidores. Ela utiliza os quadrinhos para disseminar informações sobre o autismo de forma leve e divertida.

Em entrevista dada a Gazeta do Povo, Provensi falou sobre a importância do diagnóstico do autismo. “Pessoas autistas geralmente crescem achando que são de outro planeta. Quando elas têm acesso ao diagnóstico, elas têm acesso a uma comunidade autista, a uma identidade”, afirmou.

Ela ainda disse que o diagnóstico é importante para a autoaceitação e para que autistas consigam compreender quais são seus limites. “Muitas pessoas autistas, eu inclusa, não conseguem respeitar seus limites, porque ouviram a vida toda que não tentaram o suficiente, são preguiçosos”, concluiu.

Segundo ela, um livro com suas tirinhas, escrito em parceria com a também psicóloga e autista Kmylla Borges será lançado em breve.

“O tratamento psicológico no Brasil ainda é muito elitizado”, afirma Lucas Pontes

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O podcast Introvertendo, produzido por autistas e dedicado a discutir autismo, lançou o seu 136º episódio nesta sexta-feira (7). Chamado “Autistas na Psicologia”, o episódio traz as participações da psicóloga Kmylla Borges e do estudante de psicologia Lucas Pontes, ambos autistas e produtores de conteúdo sobre autismo na internet.

Entre as discussões comandadas pelos podcasters Tiago Abreu e Otávio Crosara, foi o acesso aos serviços de saúde no Brasil por autistas. Sobre isso, Lucas defendeu que as mudanças positivas tem sido lentas. “Eu acho que o tratamento psicológico aqui no Brasil ainda é muito elitizado. Os profissionais estão sempre falando sobre a importância de um tratamento precoce ou de um tratamento na vida adulta e contínuo. Só que são poucos aqueles que têm capacidade financeira para arcar com os custos de um tratamento”, afirmou.

Kmylla, por sua vez, também opinou sobre o fenômeno. “Infelizmente, por diversos motivos, a gente tem que ir no profissional que tem, por conta do plano de saúde, ou pelo preço, ou algum outro motivo. E nem sempre a gente tem o privilégio de ter contato com um profissional específico de nossa escolha. E aí a gente vai estar de cara com profissionais que falam coisas absurdas do tipo: ‘Se você olha nos olhos, então você não é autista’.”, lamentou.

Durante a conversa, Lucas e Kmylla também traçaram reflexões sobre o Setembro Amarelo, suicídio entre autistas, abordagens dentro da psicologia. Além disso, os dois também compartilharam o desejo de utilizar os conhecimentos adquiridos com a profissão para ajudar outros autistas.

O episódio está disponível para audição em diferentes plataformas, como o Spotify, Deezer, iTunes, Google Podcasts, e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.