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Autismo e saúde mental

10 de junho de 2022Autismo e saúde mental - artigo da Academia do Autismo no Canal Autismo / Revista AutismoPixbay / Creative Commons

Tempo de Leitura: 4 minutos

Depressão e transtorno de ansiedade são comuns, especialmente em pessoas com TEA nível 1

“Sempre fui uma criança muito deprimida, tinha pensamentos suicidas desde criança. Tinha a sensação de não pertencer a esse mundo, não querer estar aqui, não querer voltar pra casa ”, é assim que a estudante de psicologia Michelle Malab define o sentimento de sofrer de depressão e ansiedade. Ao receber o diagnóstico de transtorno do espectro do autismo (TEA) na fase adulta, logo depois do filho Pedro, ela diz que passou a sentir que, muitas vezes, o TEA faz com que esses transtornos sejam ainda mais exacerbados. 

Academia do Autismo

De acordo com um estudo realizado pela Universidade da Suécia, em 2016, pessoas autistas morrem, em média, 16 anos mais cedo que a população em geral. Entre os motivos para que isso aconteça, está o suicídio. Segundo outra pesquisa publicada em British Journal of Psychiatry, aqueles que têm o diagnóstico de TEA e não apresentavam deficiência cognitiva, tinham 9 vezes mais chances de morrer por suicídio, se comparados ao restante da população. Esses números são ainda maiores em mulheres e pessoas autistas nível 1. 

“Digo que autismo é como ‘Kinder Ovo’, nunca vem sozinho, sempre vem uma surpresinha dentro dele. É muito difícil encontrar uma pessoa que tem apenas um quadro de autismo puro, sempre tem as comorbidades, e depressão e ansiedade são as campeãs delas, no caso de autismo nível 1”, diz. 

Segundo a psicóloga Chaloê de Jesus Comim, pesquisas como a realizada na Suécia são extremamente raras. “É uma questão bem negligenciada mesmo, tanto fora do país quanto aqui no nosso país. Não existe nenhum estudo científico mais aprofundado que fale qual é a prevalência. Existem algumas publicações que falam que pelo menos metade dos autistas nível 1 têm depressão e que pelo menos 80% deles, têm algum transtorno de ansiedade”. 

Convivendo com autismo e depressão/ ansiedade

Para Michelle, entender que estava no espectro do autismo ajudou a entender algumas dificuldades que enfrentava desde criança. No livro ‘Menina Aspie’, ela aborda um pouco sobre como se sentia na infância e adolescência, quando ainda não tinha diagnóstico, mas já se sentia diferente das outras pessoas com as quais convivia. 

Nesta época, ela diz que se sentia deprimida e bastante ansiosa, o que ocasionava alguns problemas. Por esse motivo, foi indicado por um médico que fizesse uso de medicamentos controlados. 

No entanto, mesmo tendo passado grande parte da vida medicada, Michelle afirma a importância de buscar um profissional antes de se medicar ou mesmo se diagnosticar com um transtorno. “As pessoas têm a mania de dizer ‘mas todo mundo sente isso’. Sim, todo mundo sente isso. Todo mundo tem depressão? Não. Todo mundo se sente triste, sim. Todo mundo pode acordar um dia e não querer levantar da cama? Sim”. 

“Tem uma série de fatores que, em quantidade, qualidade e intensidade, se tem um transtorno. E o que o transtorno faz? Traz prejuízo funcional para a vida daquela pessoa. Isso caracteriza que a pessoa tem TEA, depressão, ansiedade. É bom que fique bem delineado, porque as pessoas tendem a confundir sinais isolados com um conjunto de fatores, sinais que, em intensidade e quantidade, determinam um transtorno”, pontua.

Associado ao autismo, ela sente que a depressão e a ansiedade tendem a ser um pouco mais acentuadas.  “O autismo aumenta muito esses sinais. Uma coisa que pode ser tolerável, em uma pessoa no autismo se torna insuportável”. 

Tempos de pandemia

Ainda conforme Michelle explica, a pandemia provocada pelo novo coronavírus também foi responsável por trazer à tona sentimentos depressivos e de ansiedade. Há cerca de um ano sem tomar nenhuma medicação, ela frequentava a academia e sentia ter o total controle das próprias emoções e sentimentos. No entanto, a necessidade do isolamento social e as mudanças que a situação trouxe, modificaram bastante esse cenário.

“A pandemia foi praticamente um retrocesso na minha vida em todos os sentidos, porque ela tirou toda minha rotina, acabou com minha agenda de palestras, me afetou financeiramente, emocionalmente, trouxe a dura constatação da realidade que nós não temos o controle de absolutamente nada na nossa vida e nós, pessoas com autismo, temos muita necessidade de controle. O cérebro precisa de rotina, tanto pessoas autistas como não autistas, o cérebro funciona melhor quando tem uma rotina. De repente essa rotina é quebrada, aí você imagina que ela é quebrada em um cérebro que funciona ao extremo”, explica.

Lidando com isso

Estudar psicologia e ter oportunidade de ler e compreender mais sobre transtornos, patologias e também as medicações. Esse processo, segundo Michelle, foi essencial para que ela também passasse a se compreender mais. No entanto, ela afirma que isso não significa que consegue resolver os problemas ocasionados pela depressão e ansiedade. 

Por esse motivo, faz sessões de terapia e, por vezes, uso de medicamentos controlados e indicados por um psiquiatra. Para muitos psicólogos especialistas em autismo, esses transtornos mentais devem sempre ser observados e tratados. “Acho que é algo que vai além de fora, de ser tratado quando surge. Eu acho que o mundo ideal é que as habilidades emocionais, as habilidades socioemocionais, precisam ser o foco de intervenção desde a infância como prevenção do desenvolvimento de algum transtorno depressivo, ansiedade, outros transtornos de saúde mental. Acho que, desde a infância, muitas coisas acabam sendo negligenciadas por dar foco demais em questões mais ‘formais’, digamos assim, né? Há comportamento inadequado, birra, estereotipia e fica sem trabalhar essa questão das habilidades emocionais e isso é importantíssimo, como prevenção do desenvolvimento de alguns transtornos na fase da adolescência e na fase adulta”, conclui Chaloê.

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