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Meme Sincero: Dualidade no TEA

Tempo de Leitura: 3 minutosO autismo é algo realmente muito complexo e ainda hoje, apesar das características do transtorno estarem mais conhecidas, dos critérios de diagnóstico já serem muito bem definidos e de cada vez mais existirem profissionais capacitados para lidar com essa condição, ainda assim é muito complicado e o entendimento não é tão simples em vários aspectos.

Mesmo entre as características mais conhecidas ainda há muitas dúvidas sobre o que é bom ou ruim, quando algo é benéfico e quando é prejudicial. E por isso hoje venho falar para vocês sobre essa dualidade no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Comecemos pelo hiperfoco que, com certeza, quem já buscou entender um pouquinho sobre o autismo já ouviu falar. Muito comum ouvir do próprio autista que o hiperfoco é algo maravilhoso, e estar envolvido com aquele assunto que faz parte do interesse específico do indivíduo dá muito prazer. E garanto que o hiperfoco é realmente maravilhoso. Ele oferece oportunidades para que a pessoa autista seja muito boa naquele tópico, que saiba coisas difíceis de se saber sobre aquilo e que realmente possa ser especialista naquele tema.

Mas o que pode ter de ruim nisso então? É que ao focar muito em algo, consequentemente a pessoa não estará abordando outros temas, muitas vezes nem mesmo dando atenção de maneira superficial, deixando totalmente de lado outras demandas. E qualquer um pode imaginar que na vida não tem como se atentar a apenas aquilo que gostamos ou que temos interesse. E ainda mais penosa pode se tornar essa característica quando muitas das pessoas com TEA percebem que estão deixando outras coisas que são importantes de lado para dedicarem-se ao hiperfoco.

E as estereotipias ou stims, como muitos autistas preferem chamar, ajudam ou atrapalham?

Aqui mais um aspecto onde a resposta é dicotômica. Por muito tempo, profissionais que trabalhavam com o tratamento do TEA, pais e mães, buscaram manobras visando eliminar esses movimentos repetitivos porque acreditava-se que seriam algo sem função, portanto passíveis de serem extintos. Hoje, com os conhecimentos mais evoluídos, já se entende que nenhum comportamento é sem função. E, com os relatos de muitas pessoas autistas afirmando que essa característica é importante para regulação, demonstração de sentimentos e até mesmo comunicação, os rumos de terapias já são outros, dando um olhar mais cuidadoso para esse aspecto.

E isso quer dizer que sempre os stims são bons? Definitivamente não! Mesmo com esse entendimento de todas essas funções que as estereotipias exercem, ainda assim algumas podem ser extremamente prejudiciais no sentido de que acarretam um malefício extremamente superior as benesses. Como exemplo, podemos tomar o ato de arranhar a pele a ponto de fazer feridas, de bater nas próprias orelhas ao tanto de causar deformações no local. Ou seja, essas estereoripias também tem função de comunicar algo, expressar alegria ou tristeza ou até mesmo aliviar sobrecargas, mas de maneira a causar danos ao indivíduo. Portanto, é necessário que sejam reprimidas e substituídas.

Para complicar um pouco mais, mesmo em relação a aspectos que se têm como deficitários no TEA, ainda assim podemos ter, em contrapartida, algumas vantagens. Por exemplo, as questões relacionadas ao que chamamos de coerência central fraca, que é inerente ao TEA.

Explicando de maneira simplificada, essa é uma característica em que a pessoa tem dificuldade em olhar o todo, seja dentro de um contexto de socialização (o qual sinais dispersos indicam a nuance de uma conversa além do que é falado oralmente), seja na percepção de um ambiente (em que o contexto indica o tom do que está acontecendo) ou até mesmo na percepção de como funciona um brinquedo (por não conseguir focar no geral atentando apenas a uma peça específica ao invés de fazer de maneira funcional, como quando a criança pega um carrinho e brinca apenas com as rodinhas).

Entretanto, ao ter isso como características, a de focar no todo, ou seja, a coerência central fraca propriamente dita, logo a pessoa autista apresenta o que podemos chamar de uma coerência específica forte, que nada mais é do que justamente essa capacidade de focar tanto num ponto específico de modo que possa enxergar coisas que outros não perceberiam, de resolver problemas que uma pessoa típica teria mais dificuldades de solucionar e de maneira que muitas vezes pode surpreender pela originalidade e astúcia.

Por isso, é importante entender que antes de autistas as pessoas com TEA são indivíduos e como para qualquer outro ser humano, o importante é buscar o bem-estar sem se preocupar com o que parece ou não normal, mas sim com o que traz felicidade e respeito ao próximo, mesmo que o próximo seja bem diferente de você.

Autistas falam sobre dificuldade de lidar com mudanças

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O podcast Introvertendo, atualmente o principal podcast sobre autismo do Brasil, lançou nesta sexta-feira (29), o seu 104º episódio, cujo título é Lidando com Mudanças. Apresentado por Thaís Mösken e com as participações de Michael Ulian e Willian Chimura, o episódio da semana é uma discussão sobre previsibilidade, rotina e estresse no dia a dia com relação a mudanças.

Durante o episódio, os três podcasters, que também são diagnosticados com autismo, partem do pressuposto de que é impossível evitar mudanças, e por isso autistas precisam desenvolver habilidades sociais e flexibilidade perante as questões da vida social. Além de trazer exemplos cotidianos, eles também falam suas visões sobre as mudanças.

“Manter rituais é uma técnica que todas as pessoas fazem para ter certeza de que os resultados esperados serão garantidos. E a gente sabe que os autistas têm uma certa rigidez maior, justamente porque as pequenas mudanças podem afetar muito a gente. Então a gente precisa de mais controle, mais rigidez no nosso ambiente para justamente safar. Mas mudanças são inevitáveis e infelizmente a gente não pode simplesmente ficar no mesmo ambiente com as mesmas variáveis do mesmo jeito sempre”, disse Willian Chimura.

Thaís Mösken deu, também, um exemplo de como se prepara para mudanças. “Então, o melhor que eu faço realmente é pensar com calma nos vários cenários. Sempre que possível também eu peço pra avisarem com antecedência de que vai ter uma mudança, por exemplo, no meu trabalho”, afirmou.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas, como o Spotify, Deezer, iTunes, Google Podcasts, e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

As emoções impulsionam o comportamento

Tempo de Leitura: 4 minutos

O desafio é aprender a regular emoções, confortáveis e desconfortáveis, que ocorrem naturalmente

Eric Hamblen, dos Estados Unidos

Embora as emoções impulsionem a maior parte dos nossos comportamentos, esse fato é muitas vezes um conceito tênue e fácil de ser esquecido à medida que orientamos nossos filhos sobre como compreender suas experiências. Por gerações, a gestão comportamental tem sido o pilar nas instituições de ensino, serviços profissionais, cursos e livros para pais em todo o mundo. O comportamento é importante. Quando percebemos que os comportamentos são movidos por emoções, abrimos nossos corações e mentes para ajudar as crianças em sua necessidade emocional básica de sentirem -se conectadas usando nossa compaixão, um instinto humano.

Uma vez que tenhamos em mente que os comportamentos são motivados por emoções, poderemos mudar nossa atitude baseada em controle para uma conexão emocional, a fim de envolver naturalmente os outros. A conexão emocional genuína tem a capacidade de deixar as pessoas à vontade, reduzindo o sofrimento emocional, o que faz com que as crianças não ajam com tanta freqüência com comportamentos desafiadores, o que permite que os adultos se preocupem menos com a tentativa de controlar seus comportamentos.

Aprender a regular nossas emoções, confortáveis e desconfortáveis, que ocorrem naturalmente, é um desafio. Para efetivamente ajudarmos a nós mesmos e aos nossos filhos a regular as emoções, precisamos nos concentrar no conceito de “encher o copo relacional”. Quando nosso copo relacional está cheio, nos tornamos mais resistentes ao estresse, somos mais flexíveis e demonstramos um aumento na capacidade de sair da nossa zona de conforto e experimentar novas experiências. A maioria das aprendizagens significativas ocorrem quando estamos fora da nossa zona de conforto.

Encher o copo relacional é menos complexo do que parece. No entanto, muitas vezes é um conceito de difícil explicação. O importante é lembrar que preencher esse “copo” exige que criemos espaço e nos conectemos a cada uma de nossas emoções, confortáveis ou incômodas, e que também ocorrem naturalmente com as pessoas que amamos. Expressar nossos sentimentos e ter esses sentimentos validados é essencial para preencher nosso copo relacional. Pense nas pessoas mais próximas a você, os laços mais fortes — provavelmente são aqueles que estiveram presentes nos bons e maus momentos. O objetivo, portanto, não é apenas tentar criar bons momentos com as crianças.

Crianças, como adultos, experimentam uma gama completa de emoções. Elas precisam de relacionamentos com pessoas que possam estar com elas quando as coisas ficam difíceis e que permitam que elas sintam e compartilhem seus sentimentos mais desconfortáveis, para que possam aprender com esses sentimentos, em vez de evitá-los ou , pior ainda, aprender que seus sentimentos desconfortáveis são “errados”.

Também é importante notar que os adultos podem ter dificuldades para reconhecer suas próprias necessidades emocionais e, portanto, haverá essa dificuldade também para atender às necessidades de seus filhos. A culpa é de ninguém, no entanto, quanto mais os pais se conscientizarem do fato de que as emoções impulsionam o comportamento, mais eficazes eles serão em sua capacidade de influenciar o desenvolvimento saudável de seus filhos.

Emoções e comportamentos seguem regras muito diferentes. Já os comportamentos PODEM estar certos ou errados, ser bons ou ruins, corretos ou incorretos. Emoções NÃO PODEM ser boas ou ruins, certas ou erradas, corretas ou incorretas. Essa distinção pode tornar mais fácil, para os pais, estabelecerem limites claros sobre o comportamento, ao mesmo tempo em que é permitido que a criança “sinta o que está sentindo”. Por exemplo, “Não há problema em estar bravo. Mas há problema se você bater em alguém.”

Há um número infinito de comportamentos para se ensinar, ou gerenciar, a uma criança. Todavia, há um número finito de emoções fundamentais, que precisamos aprender a ter e compreender: raiva, medo, nojo, alegria, curiosidade e tristeza. Cada uma dessas emoções tem um propósito distinto para nos proteger e nos manter seguros, tanto física como emocionalmente. Ajudar uma criança a aprender a tolerar e a compreender essas emoções aumentará a qualidade das relações entre pais e filhos, bem como com outras pessoas com quem a criança se relacione dentro e fora de casa.

Estar com uma emoção é um conceito forte. É a capacidade de permanecer em uma dinâmica relacional com uma criança enquanto ela está experimentando emoções, confortáveis e/ou desconfortáveis, que ocorrem naturalmente. Por exemplo, a maioria dos pais acha fácil manter uma dinâmica relacional quando uma criança está sentindo alegria. No entanto, muitos pais acham mais difícil permanecer nessa dinâmica quando uma criança está se sentindo zangada ou triste. Frequentemente, os pais procuram minimizar o sofrimento de seus filhos, tentando “consertar” o problema ou concentrando-se em controlar o comportamento. Sem qualquer intenção, os pais enviam a mensagem para o filho que eles, pais, estão desconfortáveis com a forma como o seu filho está se sentindo e que os sentimentos do filho não podem ser tolerados neste momento. Todas as crianças aprendem cedo na vida (nos primeiros 18 meses) quais de suas emoções que afligem seus pais. As crianças aprendem a aproveitar ou “esmagar” essas emoções para controlar seu acesso aos pais. O objetivo é tornar-se consciente desses processos naturais, a fim de vermos as forças que impulsionam nossas emoções — e comportamentos subseqüentes — para desenvolvermos relacionamentos saudáveis com cada uma de nossas emoções, o que nos permitirá desenvolver e manter relacionamentos para compartilhar todas as habilidades, já que seríamos capazes de administrar nosso comportamento ao sermos expostos a novos aprendizados.