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Desequilíbrio na saúde da mente não é vergonha e nem sinal de fraqueza

Tempo de Leitura: 2 minutos

Nas Olimpíadas de Tóquio, a ginasta Simone Biles admitiu dificuldades psicológicas.

Uma das surpresas da Olimpíada de Tóquio foi a comunicação de Simone Biles, estrela dos Estados Unidos, de desistir de boa parte das decisões da ginástica artística. E não foi somente ela. Após a conquista da medalha de bronze nos 200m rasos, o velocista Noah Lyles também falou sobre a saúde mental e revelou que tem utilizado antidepressivos. Lyles alertou: “… se vocês me veem sob uma ótima luz, eu quero que vocês saibam que não há problema em não se sentir bem. … Isso é um problema sério. Eu não quero acordar um dia e pensar: ‘Não quero mais estar aqui’”.

Noah Lyles falou sobre a saúde mental após participação nos Jogos Olímpicos de Tóquio (AFP) Foto: Lance!
Noah Lyles falou sobre a saúde mental após participação nos Jogos Olímpicos de Tóquio (AFP)
Foto: Lance!

Simone Biles, depois que desistiu de participar da final do individual geral da ginástica artística, ao cometer uma falha em sua primeira tentativa, no salto, explicou: “Depois do desempenho que tive, eu só não queria continuar. Preciso focar em minha saúde mental. Eu realmente sinto que às vezes tenho o peso do mundo sobre meus ombros. Eu sei que eu ignoro e faço parecer que a pressão não me afeta, mas às vezes é difícil”

Os números da depressão e ansiedade no mundo

Mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão no mundo todo, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS. No Brasil, existem cerca de 11,5 milhões de pessoas diagnosticadas com a doença, (Dados do 1º semestre de 2021). Além disso, em 2017, 18,6 milhões de brasileiros tinham o transtorno da ansiedade, o que corresponde a quase 10% da população, (Dados da World Health Organization. Depression and Other Common Mental Disorders.)

De acordo com a OMS, as doenças relacionadas à saúde mental afetam mais de 400 milhões de pessoas no mundo. Mas, mesmo com a alta incidência, o preconceito ainda é uma realidade frequente. E não devia ser assim. O desequilíbrio na saúde mental não é motivo para vergonha, não é falha de caráter ou, muito menos, sinal de fraqueza. É uma questão de saúde, o cérebro faz parte de nosso corpo e pode funcionar dentro de determinada normalidade ou não, dependendo, para isso, de uma série de fatores..

Obrigada pela coragem, Simone Biles

É bom sempre lembrar do que disse a grande ginasta: “Fiquei muito feliz por poder competir, independentemente do resultado. Fiz isso por mim e estou orgulhosa por ser capaz de competir mais uma vez“. E ela complementa com naturalidade: “Todos os dias eu tinha que ser avaliada pelos médicos, e fazia duas sessões com um psicólogo esportivo que me ajudou a me manter mais equilibrada.” Todos nós, enquanto sociedade, precisamos buscar informações e acolher cada ser humano para, dessa maneira, eliminar toda e qualquer discriminação e o preconceito.

Cachorrinho de pelúcia, com um tapa olhos que traz o desenho do Mickey e Minnie, sobre um cobertor roxo.

Sou autista, sou ansiosa e não sei relaxar

Tempo de Leitura: 3 minutos

Capa do livro Neurodivergentes, autismo na contemporaneidade de Sophia Mendonça.

Capa do livro Neurodivergentes, autismo na contemporaneidade de Sophia Mendonça.

Eu recebi o diagnóstico já adulta e não tive acesso aos estímulos necessários para aprender algumas habilidades, como relaxar, por exemplo. A ansiedade é presente na maioria das pessoas dentro do TEA – Transtorno do Espectro do autismo, no meu caso, ela veio como condição coexistente. Desde pequena, eu considerava dormir uma perda de tempo, estava sempre fazendo duas ou mais tarefas ao mesmo tempo, como ler e assistir TV, fazer as unhas e ouvir um podcast ou até mesmo, escovar os dentes, enquanto faço xixi.

Ansiedade e sintomas físicos

Eu tinha sintomas físicos de ansiedade como taquicardia, palpitação, sudorese, mal estar, enjoo e tontura, toda vez que tinha prova na escola, ou estava diante de uma situação nova, em lugares públicos, ao falar ao telefone. Passei a adolescência ouvindo piadinhas sobre essas situações. Coisas do tipo, “parece que você está grávida.” Hoje sei que se a ansiedade não for tratada, ela pode levar o autista à automutilação ou mesmo depressão.

A entidade britânica National Autistic Society, que é referência internacional no TEA, orienta para os sintomas:

  1. Suor em excesso
  2. Dificuldade para dormir
  3. Ataques de pânico
  4. Hiperventilação (quando a respiração fica acelerada)
  5. Pensamentos negativos e de que tudo vai dar errado
  6. Automutilação (quando a pessoa causa dor ou ferimentos em si mesma) em autistas mais graves e com dificuldade de entender e expressar o que estão sentindo.

Gatilhos que podem provocar a ansiedade

  1. Podem ser gatilhos, o processamento sensorial quando o autista é mais ou menos sensível a barulhos, cheiros, luzes, cores, sabores, entre outros.
  2. Dificuldade de prever ou de se adaptar a algumas situações, sejam sensoriais ou sociais.
  3. Situações sociais prejudicadas pela falta das habilidades ou falta de interesse.
  4. Alexitimia, que é a dificuldade de identificar e nomear as próprias emoções. Portanto, fica bem mais difícil se autorregular.
  5. Preocupação com tudo que saia da rotina, o que é incerto, com as mudanças, com as transições.
  6. A cobrança e a tentativa de “se encaixar”. Diante de uma situação social, o autista pode esconder tudo que está sentindo apenas para parecer como as outras pessoas. O que, certamente, é um gatilho para um colapso.
  7. Ser cobrado ter um desempenho específico, como na escola ou no emprego também é fator de muito estresse para o autista

Como evitar a ansiedade

Das alterações sensoriais até os desafios de interação social, tudo é muito estressante para a pessoa autista. Existem alguns aliados contra a ansiedade como a meditação, tipo mindfullness, técnicas comportamentais como a terapia da exposição, que é quando a pessoa vai se expondo, aos poucos, às situações que causam a ansiedade, programações visuais com histórias sociais que funciona muito bem para crianças.

Além disso, é importante a participação em grupos de habilidades sociais e treinamento de vocação, que vão ensinar o autista a lidar com situações estressantes mais específicas.

Como lidar com a ansiedade do autista

Existem várias formas de lidar com a ansiedade de pessoas autistas. Inicialmente, é preciso entender de onde surgem os motivos que levam à ansiedade. Para isso, você pode manter um diário para anotar os principais acontecimentos e como você se sente naquele momento.

Dizer, simplesmente, para a pessoa autista relaxar, é como pedir calma durante situações de nervosismo. É preciso, primeiro, aprender a relaxar.

Aprendendo a relaxar

Anote também, em outro diário, tudo aquilo que você faz e que deixa você leve e feliz. Sempre que possível, o ambiente em que o autista está deve ser adaptado para diminuir os impactos sensoriais. Se, por exemplo, o incômodo for com sons, dá para usar fones que abafem os ruídos, em casa ou mesmo no transporte público.

Há objetos que podem servir como verdadeiros calmantes e acabam virando algo dos quais o autista não se desgruda por um bom tempo, até mesmo na vida adulta. Eu tenho um cachorrinho, com enchimento de pequenas bolinhas, que eu vou apertando até me sentir relaxada.

Cachorrinho de pelúcia, com um tapa olhos que traz o desenho do Mickey e Minnie, sobre um cobertor roxo.

Cachorrinho de pelúcia, com um tapa olhos que traz o desenho do Mickey e Minnie, sobre um cobertor roxo.

Um bom planejamento do dia também ajuda, desde que não vire uma demanda, um engessamento. É preciso ensinar ao autista que, algumas vezes, tudo bem mudar um item. Escolha itens de treinamento que não sejam ações imprescindíveis ao autista.

Hiperfoco e Ansiedade

Tempo de Leitura: 2 minutosEm meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis. 

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista”. 

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar.