23 de abril de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

Recentemente, eu e meus colegas pesquisadores — o orientador Gustavo Ruckert, Camila de Oliveira Paz e Selma Sueli Silva — publicamos um artigo na revista Nau Literária sobre Poesia Autista. Em nosso estudo, buscamos compreender as profundas relações entre o recurso poético da apóstrofe. E o modo como nós, pessoas autistas, nos engajamos com os objetos e o mundo ao nosso redor. Para isso, focamos a nossa análise na produção de dois poetas autistas brilhantes: o indiano Tito Mukhopadhyay e a brasileira Mô Ribeiro. Como quatro pesquisadores autistas, propomos que a nossa linguagem oferece um importante contraponto à violência epistêmica ocidental e ao seu “império cognitivo”.

A apóstrofe além da metáfora literária e a poesia autista:

O coração da nossa pesquisa recai sobre o uso da “apóstrofe”. Este é o ato poético de se dirigir a um interlocutor que não é regular ou esperado, como objetos ou forças da natureza.

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  • O teórico Jonathan Culler sugere que esse diálogo com seres inanimados funciona historicamente como um pacto poético e um ritual simbólico
  • No entanto, ao analisarmos a obra de poetas autistas, percebemos que para nós esse uso vai muito além da retórica.
  • Em Mukhopadhyay e Ribeiro, notamos um alargamento dessa utilização. Nele, a alteridade de elementos da natureza e de seres ditos inanimados é reconhecida de forma genuína.
  • Acreditamos que o uso da apóstrofe por esses poetas propõe uma renovação do próprio conceito de poesia. Isso, ao unir a tradição lírica à mimese da nossa linguagem cotidiana, reivindicando, no fundo, o nosso direito de existir como somos.

Comunicação como engajamento, poesia autista e existência

Historicamente, a tradição médica tentou definir a nossa linguagem autista por meio de uma “taxonomia da ausência”. Dessa forma, focou naquilo que supostamente nos falta, como lógica, coerência central ou intencionalidade. Em nosso trabalho, nós refutamos essa definição. Afinal, apoiados em autoras como Elizabeth Fein e Laura Sterponi, defendemos que a nossa comunicação é, na verdade, um constante “modo de engajamento” com o ambiente. Nós estamos em constante comunicação, seja repetindo sons ou movimentando objetos, pois é a partir da corporalidade que expressamos anseios e estados.

O movimento cósmico de Tito Mukhopadhyay

Tito é um autor indiano com limitações na fala que se expressa brilhantemente por meio de recursos de comunicação alternativa.

  • Em seus poemas, o uso da apóstrofe permite que ele dialogue francamente com nuvens, plantas, ventos e até mesmo com conceitos abstratos, como a distância.
  • Em seu poema “Misfit” (“Desajustado”), o eu lírico compara seus movimentos repetitivos (stims) ao rodopiar da própria Terra.
  • Isso demonstra que não há motivo para a sociedade patologizar a nossa expressão corporal.
  • Enquanto os homens e mulheres o rotulam como “desajustado”, os elementos personificados da natureza, como os pássaros, não encontram nada de errado nele. O que, aliás, confirma seu pleno pertencimento ao cosmos.

O corpo e a alma das coisas em Mô Ribeiro

A poeta brasileira Mô Ribeiro traz essa interlocução direta para as partes fragmentadas do seu próprio corpo e para os objetos em seu livro de estreia, Paganíssima trindade;

  • Em vez de aceitar o diagnóstico da “falta” de uma visão global, Mô trabalha com a presença do detalhe e da parte.
  • Ela dá vida, voz e atenção a dentes, ombros, cabeças e maxilares, tratando-os como entidades independentes e geniosas.
  • A poeta nos convida a “ouvir o dentro”. E a assumir que até mesmo as coisas inanimadas possuem uma alma ou “ânima”. O que resiste ativamente à objetificação imposta pelo logocentrismo da nossa sociedade

Uma consciência planetária necessária

Nas considerações do nosso artigo, queríamo fazer uma proposição essencial para os dias atuais. Então, ao considerar que estrelas, pássaros, espelhos ou partes do corpo são sujeitos aptos à interlocução, percebemos que a nossa linguagem autista se aproxima das visões de mundo (epistemes) ameríndias e africanas. Essa perspectiva confronta o utilitarismo prático humano, que reduz árvores, animais e águas a meras commodities em um capitalismo predatório.

Como unimos nossas vozes no final do texto: no momento em que passarmos a ouvir e dialogar com todos os elementos ao nosso redor “a partir de dentro”, deixaremos de reduzi-los a peças exploráveis e descartáveis. Afinal, percebemos que é exatamente isso que a história tem feito com todas as minorias, incluindo nós, pessoas autistas.

(Originalmente publicado em O Mundo Autista, no portal UAI)

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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