Por

Rosana Ponomavenco

"Rosana רחל Ponomavenco é tradutora, publicitária, mestre em distúrbios do desenvolvimento, pós-graduanda em análise do comportamento aplicada ao TEA e desenvolvimento atípico, instrutora do IN Movimento INclusivo e mãe de um moço com autismo, de 25 anos."

O amor e o afeto que deixamos de dar!

3 de setembro de 2021

Tempo de Leitura: 3 minutosHá dois anos fui convidada para um encontro com 25 adolescentes do ensino médio de uma escola particular aqui em Cotia. O tema era inclusão e eu, como mãe de um ex-aluno com TEA, fui compartilhar um pouco da minha vivência e tentar deixar esses jovens, ainda em formação, mais sensíveis ao tema.

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Nosso acordo, logo de cara, foi que eles poderiam me perguntar qualquer coisa, e mesmo que fosse uma coisa dolorosa ou desconfortável eu diria a eles a verdade dentro do meu coração. Sentamos juntos no tablado de uma das salas de aula e começamos a conversar. Falamos sobre os desafios da maternidade atípica, das expectativas, do preconceito e dos desafios enfrentados pelos pais para vencer o medo de soltar seus filhos (típicos ou atípicos) e deixá-los experimentar o mundo.

Então, no final eles resolveram fazer um bate e volta de perguntas rápidas e uma delas foi: “Existe alguma coisa da qual você se arrependa?” Nesse momento parei e minha cabeça começou a trabalhar rapidamente porque eu tinha sim uma história muito valiosa para compartilhar com eles. Uma história que eu não havia verbalizado nem para mim mesma, pois me trazia vergonha, medo e arrependimento. Respirei fundo e comecei a falar.

“Quando eu tinha 15 anos, a idade de vocês, eu estava sentada numa praia em São Sebastião, tomando sol na areia e esperando meu grupo de amigos que deveria chegar a qualquer momento. A uns cinco metros de distância estava uma família com um filho adolescente, e percebi que ele estava ficando muito agitado. Eu não olhava diretamente para eles porque estava constrangida, percebi que o menino tinha alguma deficiência, falava estranho, gritava, a cabeça estava um pouco caída para o lado e os braços curvados para dentro. Ele estava bastante excitado, ficava olhando para mim fixamente e aquilo estava me incomodando muito. Eu não sabia direito o que fazer, nem para onde olhar, achei melhor ignorar e olhar para o lado oposto. Então o pai e a babá o levaram até o mar, e a mãe veio na minha direção. Ela disse ‘Oi’, bem timidamente, e perguntou se poderia falar comigo. Começou a me contar que alguns anos antes seu filho tinha sofrido um acidente e ficado com aquelas sequelas, mas que a mente dele era como a de qualquer outro garoto de 16 anos, que ele tinha me achado muito bonita e ela gostaria de saber se eu poderia conversar um pouco com ele. 

Eu, do alto do meu corpo esguio, num biquíni amarelo cavado da década de 80, fiquei desconcertada, me senti extremamente desconfortável. E fui levantando, pegando minha canga na areia e dizendo que estava esperando meus amigos, que eles já deveriam estar chegando, que eu estava atrasada e precisava ir embora. 

Saí andando e larguei a mãe parada na areia olhando para mim.

Andei uns 300 metros pensando sobre aquilo e de repente me perguntei: por quê? Por que eu saí correndo? Por que eu não fiquei ali apenas para trocar uma ideia com aquele menino e dar umas risadas? Imediatamente dei meia volta e voltei a passos largos com meu melhor sorriso, resolvida a perguntar se ele gostaria de falar comigo, afinal eu havia me comportado tão mal! 

Quando cheguei naquele ponto da praia a família já tinha ido embora. 

Fiquei ali, parada por alguns minutos, olhando para os lados sem saber muito bem o que fazer, com um sentimento ruim dentro de mim. Um sentimento do qual eu não tinha mais como me livrar, não havia nada que eu pudesse fazer oportunidade tinha passado, e só me restava sentir-me envergonhada de mim mesma.

Essa história ficou esquecida na minha memória por quase 20 anos, até me bater como um soco na boca do estômago alguns anos atrás, quando meu filho estava na escola, sabe aquele soco que deixa a gente sem respirar?

 Hoje eu sei que eu sou aquela mãe, eu sou aquela mulher. Cada vez que pedi para algum adolescente ajudar meu filho em alguma coisa da escola, cada vez que eu pedi a outra mãe para, por favor, levar o filho dela à festa de aniversário do meu filho, cada vez que eu fiquei triste e inconsolada quando alguém deixou meu filho num canto, esquecido, ignorado, fingindo que ele não estava ali. 

Recordar essa história foi um dos aprendizados mais doloridos que eu já tive na vida, porque literalmente eu descobri o que era estar no lugar daquela mulher. Eu e ela éramos iguais, parte de uma mesma história com uma roupagem diferente, separadas 20 anos uma da outra e, mesmo assim, mais unidas do que já estive a qualquer outra mulher neste mundo! Eu e ela somos uma.

Sim, eu daria tudo para voltar àquele momento, naquela praia e falar com aquele menino! Porque um dos arrependimentos que levo até hoje é o amor e o afeto que eu não fui capaz de dar naquele dia.”

Ficamos em silêncio. Depois de eu enxugar as minhas lágrimas, finalmente um dos adolescentes me perguntou: “E qual é a música mais significativa para você?” 

Eu sorri e respondi: Paciência, do Lenine.

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