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Uma criança aprende a pedir seu lanche favorito: Aprovado. Ela responde a perguntas durante a terapia: Aprovado. Realiza uma atividade em sala de aula de forma independente: Aprovado. Mas o que acontece entre esses momentos? O que acontece quando essa criança precisa conectar várias habilidades para lidar com as demandas da vida cotidiana?
Com muita frequência, nosso foco está em verificar se a criança consegue executar uma habilidade específica. Embora essas conquistas sejam importantes, elas representam apenas uma parte do que realmente estamos tentando alcançar.
A vida não acontece em um laboratório. A vida flui.
Por isso, uma nova maneira de compreender a aprendizagem tem ganhado destaque entre especialistas e merece espaço em nossas casas, clínicas e salas de aula: o conceito de Flow of Actions (Fluxo de Ações), desenvolvido pelo Dr. Andy Bondy e que faz parte da Abordagem Educacional em Pirâmide (ABA Funcional).
A ideia é simples, mas poderosa: em vez de focarmos em uma única habilidade, precisamos pensar em como ajudar o aluno (independentemente da idade) a desenvolver diferentes ações, em uma variedade de situações, com diferentes pessoas e ao longo de extensos períodos de tempo.
O que é Fluxo de ações?
Imagine uma cachoeira. A água está em contante movimento. Ela não permanece parada em um único lugar. O desenvolvimento humano funciona de forma semelhante. A aprendizagem não é um evento isolado, mas um processo contínuo que ocorre em diferentes contextos ao longo da vida.
Quando falamos sobre comunicação, por exemplo, não estamos interessados apenas em ensinar uma criança a pedir algo durante uma sessão de terapia ou em uma atividade específica. O objetivo é que essa comunicação aconteça em muitos lugares, com diferentes pessoas e em diferentes momentos. O que buscamos é uma comunicação integrada à vida real.
Uma das explicações de Bondy resume bem essa ideia: “Estamos estudando o fluxo de ações nas quais crianças e adultos realizam em diferentes situações, diferentes lugares, com diferentes pessoas e ao longo de extensos períodos de tempo.” Não estamos pensando apenas no que acontece hoje, mas também em todos os dias que ainda virão.
Além das “habilidades de prateleira”
Muitas vezes, uma criança aprende uma habilidade, mas a utiliza apenas em uma situação muito específica. Ela responde corretamente durante a terapia, mas não usa a mesma habilidade na escola. Consegue realizar uma atividade com um determinado profissional, mas não com outros.
Quando isso acontece, podemos dizer que essa habilidade ainda não entrou no fluxo natural da vida da criança. Ela existe, mas permanece restrita a determinadas condições.
O conceito de Fluxo de Ações nos convida a ir além dessas “habilidades de prateleira”, aquelas que ficam guardadas e só aparecem em circunstâncias específicas.
O verdadeiro objetivo da aprendizagem é que aquilo que foi ensinado passe a fazer parte do repertório da criança em diferentes contextos e situações.
Generalização × Fluxo de Ações
O conceito de Fluxo de Ações está intimamente relacionado à generalização. Uma habilidade torna-se verdadeiramente funcional quando pode ser utilizada em diferentes ambientes, com diferentes pessoas e em diferentes momentos.
Se uma criança aprende a pedir água apenas com sua terapeuta, a aprendizagem ainda está incompleta. O fluxo acontece quando ela consegue fazer o mesmo pedido na escola, em casa, durante um passeio na comunidade ou em qualquer outro contexto relevante.
Por isso, ao avaliarmos o progresso de uma criança, não devemos perguntar apenas: “Ela consegue fazer?” Também precisamos perguntar: “Ela consegue fazer com pessoas diferentes”? “Em lugares diferentes”? “Ao longo do tempo?”
Pensando no futuro
Outro aspecto importante do Fluxo de Ações é a dimensão do tempo. Não estamos interessados apenas no que a criança faz neste momento. Também queremos saber o que ela fará amanhã, na próxima semana, no próximo ano e nos anos que virão.
Essa perspectiva nos ajuda a enxergar o desenvolvimento como algo dinâmico. As habilidades não são estáticas. Elas podem crescer, expandir-se e assumir novas formas à medida que a criança vivencia novas experiências e enfrenta novos desafios.
Assim como a água de uma cachoeira continua fluindo, a aprendizagem permanece em movimento.
O que pais, terapeutas e professores podem fazer?
Uma maneira prática de aplicar esse conceito é ampliar continuamente as oportunidades para que as crianças utilizem as habilidades que aprenderam.
Em vez de focarmos exclusivamente em uma habilidade específica, começamos a pensar em como ela pode gerar impactos significativos e funcionais em áreas mais amplas da vida da criança.
Na prática, isso significa:
- Criar oportunidades para o uso das habilidades em diferentes ambientes;
- Envolver diferentes pessoas no processo de ensino;
- Valorizar o uso funcional das habilidades no cotidiano;
- Planejar pensando no futuro, e não apenas no desempenho imediato;
- Observar como as habilidades se conectam, evoluem e se expandem ao longo do tempo.
Quando fazemos isso, deixamos de ensinar comportamentos isolados e começamos a construir repertórios que acompanharão a criança por toda a vida.
O desenvolvimento é dinâmico, como um fluxo.
Por isso, em vez de pensar:
“Ela aprendeu. Terminamos.”
Devemos pensar:
“Como essa habilidade continuará crescendo, mudando e se expandindo?”
Conclusão
O conceito de Fluxo de Ações nos lembra que o desenvolvimento não deve ser avaliado apenas por respostas corretas ou por habilidades ensinadas individualmente. O que realmente importa é como essas habilidades passam a fazer parte da vida cotidiana da criança.
Mais do que ensinar uma habilidade específica, nosso objetivo é promover mudanças que favoreçam a participação, a comunicação e a aprendizagem em múltiplos contextos.
Afinal, o objetivo não é simplesmente aquilo que uma criança consegue fazer hoje, mas como ela continuará aprendendo, participando e se desenvolvendo em todos os amanhãs que ainda estão por vir.
Notas: O conceito de Fluxo de Ações apresentado neste artigo baseia-se nos princípios descritos por Andy Bondy na Abordagem Educacional em Pirâmide e nos conteúdos de formação profissional desenvolvidos pela Pyramid Educational Consultants.
Bibliografia
Bondy, A.; Frost, L. (2001). A Abordagem Educacional em Pirâmide – ABA Funcional. Pyramid Educational Consultants.
Soraia Vieira





