Por

Luciana Viegas

É autista, mãe do Luiz (autista) e da Elisa, professora da Rede Estadual de São Paulo. Ativista pela neurodiversidade e membro da ABRAÇA. Atua nas redes falando sobre a relação entre a luta antirracista e anticapacitista.

Twitter de Luciana Viegas

E quando quem cuida é neurodivergente?

1 de março de 2021

Tempo de Leitura: 2 minutosComeço esse texto ressignificando o termo “gestar”. Todos nós gestamos sejam sonhos,  pessoas, projetos. Aqui, gestar é sobre escolher acolher uma vida (parindo ou não).

Gestar uma vida durante meses dentro de nós (seja no coração ou no útero) faz com que algo novo, humano, simples e confuso aconteça em nossas cabeças e no nosso coração quando olhamos pela primeira vez para aqueles olhos que acabaram de nos encontrar em seu mundo. 

Academia do Autismo

Eu não estou romantizando, eu estou dizendo que acontece algo, algo muda a nossa realidade.

Mas e quanto a nós, pessoas autistas/neurodiversas que têm filhos(as)? 

Quando o  Luiz  nasceu  e eu o pude pegar pela primeira vez no colo,  imediatamente quis colocá-lo no berço. Não queria chorar. Eu queria pular, girar, “autistar, tamanha a emoção e felicidade. Na época, eu não sabia ainda que era autista e sempre encarei esses “impulsos” como minha “maluquice” (no sentido capacitista da palavra). Assim que peguei o Luiz, fiquei com ele pouco tempo no colo e o coloquei no berço da maternidade, e fui andar pelo quarto. Todos no quarto me olharam com um “olhar acusador”. Um ar de: “você não esperou isso durante a gestação toda?”  e foi nesse dia que conheci a “culpa de ser uma mãe neurodiversa”. 

Há um estereótipo da maternagem nas expressões:“o cuidador cuida mas nunca é cuidado”, “não reclama”, “não enfraquece”. E quando quem exerce a parentalidade é neurodivergente? Esses processos nos deixam um ar de: “será que tenho sido suficiente?”.

Veja bem, quando na semana tudo que nos sobra é uma crise de disfunção executiva e a vontade de não levantar da cama, como ficam nossos filhos? 

Quando o choro é alto e nos falta o controle de entender que aquilo é um processo do aprendizado, gerando crise  de transtorno do processamento sensorial em nós: neurodiversos?

A idealização do cuidar perfeito é inalcançável, e atinge todas as mulheres de maneira muito mais intensa. Entretanto, nós, pessoas neurodiversas, sabemos que nosso cuidar é diferente. Nossa maneira de lidar com as crises, birras e afetos do dia a dia é diferente, não incomum, mas diferente. Não há erro em às vezes se irritar com choro, em precisar de  uma hora de silêncio para o corpo voltar ao normal e se regular, em não passar horas amamentando sem ter uma desregulação sensorial após a amamentação.  Não está errada a maneira incomum de demonstrar afeto, caso ele não seja através do abraço e do toque, caso ele seja por meio de ações. 

Não deveríamos nos sentir culpadas por não corresponder à expectativa capacitista da sociedade de que “nunca seremos como outras mães”. Que possamos romper com a ideia do  “cuidar” perfeito na sociedade, para nós, neurodiversos; que possamos autistar em paz, sorrir sem culpa e ficar em silêncio sem nos sentirmos insuficientes.

Afinal, qual criar é ideal? 

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