9 de fevereiro de 2023

Tempo de Leitura: 3 minutos

Quem tem rede social ou assina algum jornal, viu que tivemos alguns episódios bem alarmantes durante voos de algumas companhias aéreas.

Sempre foram flagrantes o desrespeito e a falta de empatia com crianças de um modo geral durante voos, porém, isso aumenta quando falamos de comportamentos que autistas se utilizam para manejar sua ansiedade do novo, da sensação de confinamento que o avião gera, além dos barulhos, sensação térmica e o aglomerado de pessoas. Motivos não faltam para um meltdown.

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Recentemente a mãe de um garoto que atendo me relatou que ele teve um meltdown ao aterrissar no Brasil. Ele me explica: “Não foi meltdown. Meu pé estava inchado e não cabia no meu sapato e minha meia estava molhada. Eu fiquei assustado.”  Ele chorou porque não entendia o que havia acontecido. No seu retorno penamos em um sapato mais amplo para que a situação não se repetisse.

Uma viagem de avião não é apenas o voo. Tem check-in, tem espera, tem fila, tem lugares apertados e pessoas se atropelando, tem mais espera, tem barulho, tem cinto de segurança e ainda por cima, a sensação de estar dentro de uma caixa gigante que se mexe.

BOM SENSO é a expressão da vez. Como define o dicionário, bom senso é:

a) faculdade natural de julgar (algo, alguém) de maneira correta e equilibrada; b) capacidade ou aptidão de distinguir o certo do errado, o bem do mal, o verdadeiro do falso, em questões cotidianas e corriqueiras que não exijam grandes reflexões ou soluções científicas ou técnicas, resolvendo assim problemas conforme o senso comum”.

Peguemos a situação do pai que entendeu que o filho não deveria usar o cinto de segurança. As aeronaves não podem partir sem que todos estejam com o cinto de segurança afivelados. Entender e cumprir as determinações dos tripulantes é Lei.

Mas meu filho é autista. Ter um filho autista não te isenta de cumprir a lei, principalmente se você não notificou os representantes legais do contexto de que uma variação do cumprimento da lei será necessária.

O que fazer nessas horas? Avisem os terapeutas da criança que ele irá fazer uma viagem e o que pode ser feito para que o voo seja tranquilo para ele. Vamos trabalhar o uso do cinto, a espera, o barulho, e até mesmo consultar o neurologista ou psiquiatra da criança para saber se algo mais pode ser feito. Precisa de abafador de som? Precisa de protetor de cinto? Precisa de máscara para dormir? Precisa de dieta especial? O que seu filho precisa? Separou os jogos e brinquedos preferidos da criança para levar consigo? Fez contato com a companhia aérea para verificar o que eles podem prover? Essas são responsabilidades da família. Não tem como fugir.  Tudo aqui prevê o bem estar da criança durante a viagem. Se ela está bem, tudo vai bem.

Por outro lado, há a falta de informação e bom senso também da companhia sobre como auxiliar uma família nesses momentos. A companhia possui protetor de cinto? A companhia oferece abafador de som? Ficar insistindo por 40 minutos na mesma frase não muda a situação minha gente. Se você quer uma resposta diferente, não insista na mesma pergunta. Simples.

Sobre a situação das famílias que brigaram pelo lugar da janela, não dá nem para comentar. A situação foi tão bizarra que as famílias envolvidas chegaram às vias de fato. Faltou empatia? Na minha opinião não. Faltou foi bom senso e informação: Alô companhia, meu filho é autista e preciso de um lugar na janela. Até porque hoje em dia, ao comprar um ticket de viagem você já marca seu assento no momento da aquisição.

Pensar no conforto do seu filho é conhecê-lo e compreendê-lo e tentar oferecer o máximo para suas necessidades. Isso se chama aceitação. Se a companhia aérea não oferece nada, denuncie, exija e/ou busque outra companhia.

Para lutar por direitos, precisamos saber quais são e busca-los. Para tanto, não posso passar por cima do direito do outro.

E, de novo, responsabilizo a inflexibilidade da tripulação que, poderia ter anunciado a situação no microfone e solicitar a troca dos assentos de outras pessoas que, com certeza poderiam ter mais empatia para tal situação. Simples de novo.

Em ambos os casos, a autoridade máxima do local estava desinformada, inflexível e extremamente despreparada para uma realidade cotidiana.

No mais, me solidarizo com as crianças que ficaram em segundo plano e que, pelas situações vividas e interpretações errôneas, sofreram por um estigma falso e que escraviza.

Mais informação e menos preconceito, por favor.

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É psicóloga clínica, terapeuta de família, diretora do Centro de Convivência Movimento – local de atendimento para autistas –, autora de vários artigos e capítulos de livros, membro do GT de TEA da SMPD de São Paulo e membro do Eu me Protejo (Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes 2020, na categoria Produção de Conhecimento).

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