Por

Diego Lomac

É videomaker, fotógrafo e editor, graduado em Cinema, Rádio e TV e irmão de Rafael, autista adulto.

Crítica Cultural: Farol das Orcas

1 de setembro de 2020Crítica Cultural: Farol das Orcas — Canal Autismo / Revista AutismoReprodução / Revista AutismoImagem: Divulgação

Tempo de Leitura: 2 minutos“Há pessoas que se irritam com aquilo que não entendem, e outras que não querem entender o que as irrita.” A frase dita por Beto se refere ao conflito de seu supervisor por seus métodos de se aproximar e interagir com orcas, mas claramente pretende proporcionar uma dupla interpretação que se aplica também ao espectro autista.

Farol das Orcas conta a história real de Roberto Bubas, um biólogo que trabalhava em uma praia da Patagônia, no sul da Argentina, se dedicando ao estudo de orcas que desenvolveram uma técnica especial de caça não vista em nenhum outro lugar do mundo, avançando até a areia para pegar sua presa. Um dia, uma mulher aparece na frente de sua cabana: Lola, e seu filho Tristán, ambos vindos da Espanha. Tristán possui autismo, mas a conexão que ele demonstrou com as orcas ao assistir um documentário da National Geographic sobre Beto fez com que Lola o levasse até a Patagônia para tentar um tipo de terapia experimental, similar às feitas utilizando golfinhos.

Academia do Autismo

O filme toma liberdades em relação à história na qual se baseia: Agustin, o garoto autista que inspirou o personagem de Tristán, também era surdo e mudo, um elemento que o filme decidiu descartar. Outra mudança envolve a dinâmica familiar: os pais de Agustin na vida real o levaram juntos para a Patagônia, mas no filme, Lola é separada do marido, que abandonou a família. É possível ver essa mudança na adaptação da história como uma forma de também retratar um fator muito recorrente da quebra familiar que costuma acontecer neste tipo de situação. Porém, também pode ser visto apenas como uma desculpa para o filme introduzir um romance entre os personagens de Beto e Lola.

Isso não é necessariamente uma crítica negativa ao conteúdo do filme, pois a história é contada com uma sinceridade e pureza emocional muito cativante. Somente dois elementos na história podem incomodar: o personagem Bonetti, supervisor de Beto, que é escrito de forma completamente unidimensional, sendo apenas desagradável ao longo de todo o filme; e um incidente que ele causa durante o terceiro ato que é um recurso barato e preguiçoso de roteiro. Quando dois personagens que já estão com um vínculo estabelecido passam por um desentendimento simples que poderia ser facilmente resolvido com uma conversa, ao invés disso, brigam e se afastam. Felizmente, esse ponto da história não é arrastado por muito tempo na duração do filme, sendo brevemente resolvido duas cenas depois.

Dois pontos a serem elogiados e que contribuem muito para a qualidade da experiência proporcionada pelo filme são: A atuação de Quinchu Rapalini como Tristán, que na maioria das cenas consegue interpretar o papel com maestria – salvo alguns momentos em que a falta de contato visual chega a beirar o absurdo, mesmo para os padrões esperados do personagem – e a fotografia e cenário da praia, completamente vazia exceto pela cabana e farol onde Beto mora. Há uma paz de espírito que é proporcionada, e quando chegamos à culminação do laço entre Tristán e a natureza, a cena final que o filme apresenta é muito poderosa. Uma sensação de que os grandes conflitos e problemas do resto do mundo sempre vão importar menos do que o aprendizado e crescimento pessoal, e as conexões que cada um de nós consegue realizar. Um sentimento que, nos tempos atuais, é muito necessário.

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