18 de setembro de 2023

Tempo de Leitura: 5 minutos

Quando o autista perde a vontade de viver

Setembro é o mês internacional da prevenção do suicídio. Batizada de “Setembro Amarelo”, a campanha criada em 2013, por Antônio Geraldo da Silva, então presidente da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria, pretende conscientizar a população mundial sobre algo que faz parte do pensamento diário para muitos jovens adultos, principalmente.

Segundo a última pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), em 2014, o índice de suicídio aumentou em 24% em comparação com o ano de 1999 (foi de 10,5% para 13%). Entre jovens de 15 a 29 anos, encontram-se as taxas mais altas. No que diz respeito ao autismo, em particular, o autismo nível 1‒ popularmente chamado de leve ‒, o suicídio é nove vezes mais frequente do que nos jovens sem autismo. Além disso, 28% dos autistas de nível 1 (pouco suporte funcional) já pensaram, ou pensam constantemente, em tirar a própria vida. São dados alarmantes. Ao mesmo tempo, especialistas afirmam que 96,8% dos casos de suicídio podem ser evitados quando há investimento na sua prevenção. 

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Suicídio é coisa séria

A vida é difícil para todos. Porém, para um adulto autista a vida pode ser muito complicada, e tão desafiadora, que ele pode sentir vontade de desistir dela. 

Muitas vezes, devido ao cansaço de usar o masking, que designa a camuflagem social da qual fazem uso em casa, na faculdade, no trabalho, nas relações sociais, em geral. Esse mascaramento de seus déficits sociais são artifícios que usam após anos de frustração, na tentativa de se adaptar às expectativas da sociedade. 

Pessoas autistas com a cognição e capacidade intelectual média-alta lidam com o preconceito quase diariamente. A falta de compreensão no meio da comunidade em que vivem pode ser o estopim para pensamentos sombrios que as levem a cogitar o término de sua vida. 

Fato é que, para uma grande parte desses (jovens) adultos autistas, viver é um “trabalho” exaustivo, uma função que lhes custa tempo, energia e muito esforço. 

É preciso que eles (re)descubram a alegria de viver. É dever da sociedade proporcionar-lhes as ferramentas para que atinjam o bem-estar pessoal. 

Um bom começo

A família é a primeira comunidade onde uma criança pratica a participação na vida. Ali, geralmente, existe uma aceitação instintiva da diferença que ela apresenta por seus pais e irmãos. Apesar de diferentes na socialização e no comportamento, no cenário ideal, as crianças autistas recebem amor, carinho e compreensão da família. No entanto, à medida que crescem, descobrem que “o mundo lá fora” (escola e ambientes fora de casa) não pensa igual a seus pais. A criança é considerada estranha e pode até sofrer bullying por ser como é. 

Graças à sua inteligência, a criança autista com pouca necessidade de suporte na sua funcionalidade e aprendizado passa a agir como as outras, imitando seu comportamento, o que, muitas vezes, gera comentários como: “Mas ela não parece autista”. Outras vezes, podem ser estimulados por seus pais a agirem “normalmente”, para não chamarem atenção negativa. Ao contrário dos autistas de nível três – com muita necessidade de suporte ‒, autistas com menos suporte sentem a pressão social de agirem como os outros pares, neurotípicos. Ansiosos por estabelecerem e manterem relacionamentos com os pares não autistas, fazem um grande esforço para absorverem o comportamento considerado normal ou adequado. Isso lhes custa muito, ainda que não percebam. O nível de ansiedade e estresse aumenta a cada tentativa de se adaptarem ao que todo mundo (menos eles) parecem fazer, dizer, gostar, achar etc. 

Um dia, esse esforço sobrenatural, durante tanto tempo, vem cobrar sua paz. É quando a pessoa autista pode  entrar numa fase de depressão profunda, quando parece que, por mais que se esforce, nunca será “boa o suficiente” para agradar os neurotípicos. 

Na adolescência é comum pais relatarem que seus filhos autistas não mais acreditam no que eles falam, quando dizem que são pessoas especiais, inteligentes,  lindas, incríveis. Apesar de sentirem o amor verdadeiro e incondicional da família, muitos querem ser aceitos pelos outros ‒ a sociedade. Querem ter amigos, um relacionamento amoroso, conseguirem um estágio ou trabalho. Estas pessoas, muitas vezes, querem fazer parte da sociedade e não conseguem. 

A Máscara que cai – o espectro da neurodiversidade

Toda mudança de paradigma leva anos, senão décadas, para acontecer. Com o autismo, observamos que a sociedade iniciou o processo de compreensão através do ativismo dos próprios autistas e de suas famílias na luta pela neurodiversidade e inclusão.  

A mais recente incidência do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), nos Estados Unidos, aponta que 1 a cada 36 crianças até a idade de 8 anos seja autista, o que traz a mensagem cada vez mais conhecida de que o autismo não seja tão raro como se pensava. Mais ainda: o autismo é normal.  

No “espectro da neurodiversidade”, existem pessoas autistas e pessoas não autistas que podem ter, ou não, comorbidades (ocorrência de duas ou mais doenças/condições numa só pessoa), e uma diversidade de características que os une e/ou separa. 

Na verdade, somos todos seres humanos querendo ser aceitos, compreendidos e incluídos na sociedade como pessoas plenas; isso independente de um diagnóstico. Portanto, para ajudar pessoas autistas a quererem viver e para combater a estatística preocupante de suicídios entre essa população, a sociedade deve promover meios para que se orgulhem de serem quem são e queiram existir em um mundo que também é seu. Esse é, sem dúvida, um processo que começa em casa, e continua na escola e segue nos demais setores da vida.

Autoestima – um presente 

Um dos maiores presentes que podemos dar às pessoas autistas é cultivar a autoestima. Uma pessoa cuja autoimagem está preservada tende a não se abalar pelo julgamento alheio. Saber quem se é, o que se quer, o que não se quer, o que se pode, seus pontos fortes e fracos, pode definir a qualidade de vida da pessoa com autismo, no futuro. 

 

A família tem uma função importante na autoestima do autista. Quanto mais cedo o autismo for considerado normal e parte da criança, mais fácil será a sua própria aceitação nos anos futuros. Ser autista não deveria ter uma conotação negativa, com certeza, não na família. Com frequência, pais e mães não sabem como contar a seus filhos que estes são autistas e têm receio de tocar no assunto com seus filhos. 

Na maioria das vezes, o adolescente autista sabe que é diferente. Não espere que ele ouça na escola ou descubra na internet que é autista. Seu adolescente, provavelmente, é inteligente e vai pesquisar o que há “de errado” com ele. Fale sobre o autismo de um modo natural, leve e positivo. À medida que cresce, elabore a conversa, apontando as dificuldades que encontra e que têm relação com o autismo. Peça ajuda de um psicólogo, um profissional especializado em autismo, para reforçar a confiança do autista em si mesmo. Assim, estará mais preparado para enfrentar eventuais preconceitos que, por vezes, acarretam depressão e pensamentos sombrios, como o suicídio.

O autista não está só

Apesar de muitos autistas carregarem o peso da solidão, eles deveriam saber que não estão sós, pois dividem receios e medos em comum com mais milhões de pessoas no mundo. Conversar com quem os queira ouvir, de verdade, é muito positivo. 

Se o leitor conhece um autista que esteja deprimido ou com pensamentos suicidas, ofereça-se a ouvi-lo. Ouça mais do que fale. Faça perguntas evitando dar conselhos ou se mostrando chocado por ele falar em suicídio. 

O que fazer?

Se há desconfiança de que um autista conhecido considere o suicídio, ofereça ajuda. Ouça o que ele tem a dizer. Escute sua história, sem interrompê-lo com frases que possam agravar seu estado, como: “Não faça isso! Não pense assim! Você tem tudo… Por que quer se matar?…” Rechaçar um sentimento legítimo ‒ ainda que indesejável – não vai ajudar, pelo contrário. 

Entenda que o assunto é sério e que domina a mente de quem cogita a ideia de tirar a vida. Dê atenção ao autista. Sugira buscarem ajuda juntos. Indique um especialista, ou recomende uma visita ao site do Centro de Valorização da Vida (CVV), por exemplo. Ali, o autista vai encontrar ajuda gratuita, por pessoas treinadas para ouvi-lo e direcioná-lo da melhor forma.

O autismo leve “pesa” para muitos. Leia mais sobre o tema, informe-se para entender e respeitar as pessoas autistas.

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Jornalista, mãe de um autista adulto, radicada na Holanda desde 1985, escritora — autora do livro Caminhos do Espectro (lançado no Brasil em dezembro de 2021) —, especialista em autismo & desenvolvimento e autismo & comunicação, além de ativista internacional pela causa do autismo.

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