1 de dezembro de 2019

Tempo de Leitura: 3 minutos

Diferentemente do que acontece com a maioria das crianças que têm o diagnóstico de TEA em razão de suas características centrais, como alterações na comunicação, habilidades sociais e comportamento, o histórico do meu filho foi um pouco atípico. Os primeiros sintomas observados estavam relacionados a alterações motoras, como atraso nos marcos do desenvolvimento motor, hipotonia (a criança é mais “molinha”), déficit no equilíbrio e no padrão do andar.

Eu não sabia que ele era autista, mas por ser fisioterapeuta eu já tinha um olhar afinado para questões motoras que, embora fossem sutis, já me diziam muito sobre eventuais problemas futuros no desenvolvimento neuropsicomotor dele.

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A hipótese diagnóstica de TEA só veio depois dos 2 anos e meio. Entretanto, aos 12 meses de vida ele já havia iniciado as sessões de fisioterapia. As questões motoras do meu filho não são diferentes de tantas outras histórias que ouvimos.

Sabe-se que o desenvolvimento motor é frequentemente implicado como um biomarcador precoce de autismo. Entretanto, pelo fato de as alterações motoras não estarem incluídas no critério diagnóstico, ainda que observadas na avaliação médica, elas não são consideradas relevantes. Um estudo recente (link na versão online) com mais de 2.000 crianças autistas revela que pelo menos 1 em cada 3 têm dificuldades significativas no movimento. E que problemas de movimento (ou alterações motoras) são tão comuns em autistas quanto a deficiência intelectual.

Dentre as principais alterações motoras observadas em autistas devem ser destacadas:

  • Praxia (alterações na sequência de movimentos coordenados, voluntários e intencionais, realizados com um propósito final)
  • Percepção (alterações perceptuais que interferem no controle motor)
  • Equilíbrio (alteração na estabilização do corpo; auxilia no controle postural)
  • Coordenação (alteração na capacidade de execução de diferentes movimentos de forma eficiente em diversos segmentos corpóreos ao mesmo tempo)
  • Tônus muscular (alteração no estado parcial de contração/prontidão de um músculo em repouso)
  • Resistência (alteração no condicionamento físico e cardiovascular)
  • Uniformidade (alteração na consistência do desempenho motor)
  • Desenvolvimento dos marcos motores nos primeiros anos de vida (atraso para rolar, sentar, ficar de pé, andar).

Faço parte de um grupo de apoio aos familiares de pessoas com autismo, o que permitiu uma aproximação com outras três mães de autistas e fisioterapeutas (Fabiana, Mariana e Wania). Nossas trocas diárias nos fizeram perceber o quão deficitária é a atuação da fisioterapia na saúde mental e também no caso do TEA.

A capacitação de profissionais que trabalham com pessoas autistas, assim como a orientação de pessoas autistas e seus familiares sobre como lidar e minimizar alterações motoras, é fundamental. Pessoas autistas que apresentam uma postura “desleixada”, movimentos desarmônicos ou incoordenados, ou ainda dificuldades nos esportes devem procurar ajuda de um fisioterapeuta que tenha experiência com TEA. A intervenção fisioterapêutica precoce acelera a aquisição dos marcos motores e melhora o tônus muscular. O acompanhamento com um fisioterapeuta otimiza a aprendizagem sensório-motora ao longo de todo o ciclo de vida e aumenta tanto a independência dos autistas na fase adulta quanto sua qualidade de vida. 

Eu costumo dizer que a oportunidade de intervenção precoce nas alterações motoras, possivelmente, salvou meu filho de ter um autismo mais grave. Ainda que as questões centrais do autismo sejam muito impactantes na vida dele, o ganho em áreas motoras possibilita que ele participe de atividades em grupo, favorecendo o desenvolvimento de habilidades sociais e a resolução de problemas cotidianos, incluindo-o nas brincadeiras, na escola e na sociedade em geral. 

Com colaboração de Fabiana Sarilho, Mariana Voos e Wania Branco

Wania Christina Jorge Rodrigues Branco é fisioterapeuta, especialista em Intervenção em neuropediatria, especialista em ensino estruturado para autistas (TEACCH) e mãe de João, gemelar, 7 anos

Fabiana Sarilho fisioterapeuta, mestre em ciências da reabilitação, especialização em pediatria e neonatal, psicomotricista e graduanda de terapia ocupacional e mãe do Gabriel de 9 anos

Mariana Voos é mestre e doutora em neurociências pela USP, professora do curso de fisioterapia da PUC, supervisora de Fisioterapia-USP e mãe de Isabela, gemelar, 8 anos.

As quatro autoras fazem parte do grupo “Spectrum Fisioterapia em TEA”

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Fisioterapeuta do ICESP-FMUSP, especializada em fisioterapia cardiovascular e em fisioterapia em pneumologia, psicomotricista, moderadora do grupo de pais TEApoio Sensório-Motor e mãe de Lucas, que tem autismo.

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