12 de agosto de 2026

Tempo de Leitura: 4 minutos

Uma das preocupações mais comuns entre as famílias é a dificuldade de identificar quando a criança está sentindo dor, desconforto ou alguma emoção difícil de expressar. Os pais frequentemente percebem que algo não está bem, mas nem sempre conseguem compreender exatamente o que a criança está sentindo ou como ajudá-la.

Isso levanta uma questão importante: ensinar emoções significa simplesmente colocar cartões com rostos felizes, tristes ou zangados diante da criança e pedir que ela identifique quais emoções está vendo?

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Em seu webinar I Am the Master of My Emotions (Eu Sou o Mestre das Minhas Emoções), o Dr. Andy Bondy, cofundador do PECS e criador da Abordagem Educacional em Pirâmide, apresenta uma perspectiva diferente. Segundo Bondy, rotular uma figura que representa uma emoção não é o mesmo que compreender essa emoção, nem garante automaticamente que a criança seja capaz de reconhecer e expressar suas próprias experiências emocionais.

Emoções são experiências, não apenas palavras

Muitas abordagens concentram-se no ensino do vocabulário emocional. Embora aprender a identificar figuras que representam felicidade, tristeza, medo ou raiva possa ser um primeiro passo útil, reconhecer uma figura não significa necessariamente compreender ou comunicar uma emoção.

Uma criança pode apontar corretamente para a figura de um rosto triste quando lhe pedem: “Mostre o triste”, mas ainda assim ser incapaz de identificar quando ela própria está triste, frustrada, ansiosa ou chateada. Da mesma forma, uma criança pode aprender a nomear a figura de um biscoito sem necessariamente saber como pedir um quando está com fome. O vocabulário, por si só, não garante uma comunicação significativa.

As emoções são experiências internas, e todos nós aprendemos a expressá-las de maneiras semelhantes. Quando uma criança pequena cai e machuca o joelho, seus pais dizem: “Ai! Isso dói!”; ou quando observam a criança brincando com seu bichinho de pelúcia favorito, comentam: “Você adora brincar; isso deixa você feliz”. É por meio dessas experiências e do retorno oferecido pelos pais que as crianças aprendem a associar palavras aos próprios sentimentos.

Por esse motivo, as melhores oportunidades de ensino acontecem em situações reais do cotidiano. Quando a criança recebe algo de que gosta, brinca com um brinquedo favorito, sente medo, frustração, alegria ou tristeza, ela está vivenciando emoções genuínas. Esses momentos podem ser utilizados para incentivar a comunicação por meio da fala, do PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras), dos dispositivos geradores de fala, gestos ou sinais.

Pedir a criança para repetir frases como “Estou feliz” ou “Estou nervoso” fora de um contexto significativo pode ensinar imitação, mas dificilmente promoverá a comunicação emocional. A aprendizagem torna-se significativa quando a emoção está sendo realmente vivenciada naquele momento.

Quando a dor também é difícil de comunicar

Ao falar sobre emoções, é importante incluir ´dor´. Existe um mito comum de que pessoas autistas não sentem dor, mas isso não é verdade. O que pode diferir é a forma como a dor é percebida, processada e expressada.

Algumas pessoas autistas apresentam hipersensibilidade e podem sentir a dor de forma mais intensa do que outras. Enquanto outras pessoas podem apresentar hipossensibilidade e perceber a dor com menor intensidade ou demorar mais para reconhecê-la e reagir a ela. Como resultado, o desconforto muitas vezes é expresso por meio de irritabilidade, isolamento, mudanças de humor, recusa alimentar ou outras alterações comportamentais.

Entre famílias de crianças autistas, uma frase é frequentemente ouvida: “Se eu soubesse onde dói, eu poderia ajudar.” Essa preocupação evidencia o quanto a comunicação é essencial, não apenas para expressar desejos e preferências, mas também para comunicar desconfortos físicos e emocionais. Sem um ensino eficaz que possibilite à criança comunicar a dor, ela certamente terá dificuldades para obter conforto, apoio e cuidados adequados.

Por essa razão, é importante observar não apenas as expressões faciais, mas também as ações, escolhas e mudanças de comportamento da criança.

O papel dos pais, terapeutas e professores

Pais, terapeutas e professores desempenham um papel fundamental no desenvolvimento dessa habilidade. Muitos desafios comportamentais acontecem porque a criança ainda não dispõe de maneiras eficazes de comunicar suas necessidades, emoções ou desconfortos.

Por isso, ensinar uma comunicação emocional funcional é essencial para oferecer ferramentas que permitam às crianças expressarem que estão felizes, tristes, assustadas, com dor ou simplesmente precisando de ajuda. À medida que aprendem a comunicar seus sentimentos, elas experimentam menos frustração, desenvolvem maior independência e participam de forma mais ativa da vida cotidiana.

Pais e profissionais têm a oportunidade de transformar situações do dia a dia em experiências significativas de aprendizagem. Em vez de ensinar a criança apenas a nomear figuras de emoções durante atividades estruturadas, eles podem ajudá-la a identificar, compreender e expressar sentimentos à medida que eles surgem naturalmente.

Algumas estratégias que favorecem essa aprendizagem incluem:

  • Nomear emoções em situações reais: “Você está feliz.” (Quando a criança brinca com um brinquedo favorito.)
  • Validar os sentimentos da criança: “Você está cansado.” (Quando a criança adormece no carro após um passeio na praia.) “Você está triste porque o jogo acabou.” (Quando uma atividade preferida termina.)
  • Modelar formas adequadas de expressão emocional: “Estou frustrado.” (Quando a criança quer assistir televisão e a TV não está funcionando.)
  • Utilizar apoios visuais quando necessário: Apresentar um cartão de emoção, uma figura do PECS ou um símbolo do dispositivo de comunicação para representar sentimentos como feliz, triste, preocupado ou com dor, enquanto a criança está vivenciando aquela emoção, utilizando estratégias de ensino para ajudá-la a selecionar, apontar ou utilizar esse recurso de forma funcional.
  • Incentivar a comunicação por qualquer modalidade disponível: “Como você está se sentindo?” A criança pode responder por meio da fala, do PECS, de um dispositivo de comunicação alternativa, de sinais, gestos ou até mesmo apontando para uma figura que represente a emoção.
  • Observar mudanças comportamentais que possam indicar dor ou desconforto: uma criança que repentinamente se torna irritada, se afasta das atividades, recusa alimentos, tampa os ouvidos ou busca excessivamente o conforto dos adultos pode estar tentando comunicar dor física, doença, sobrecarga sensorial ou sofrimento emocional.

Mais importante do que ensinar a criança a identificar rostos felizes ou tristes é ajudá-la a compreender as próprias experiências emocionais e encontrar maneiras eficazes de comunicá-las.

Como Bondy enfatiza, o objetivo não é simplesmente ensinar palavras relacionadas às emoções, mas ajudar as pessoas a comunicarem suas experiências de maneira significativa. Quando crianças autistas conseguem expressar como se sentem, seja animadas, preocupadas, desconfortáveis ou frustradas, elas adquirem uma ferramenta poderosa de autodefesa, conexão com os outros e participação na vida cotidiana.

Quando ensinamos uma criança a reconhecer e comunicar seus sentimentos, promovemos autorregulação, independência, bem-estar e participação social. Trata-se de uma habilidade capaz de transformar a vida das crianças autistas, das suas famílias e dos profissionais que as acompanham.

Referências

Bondy, A. (2011). I Am the Master of My Emotions: Issues Relating to Teaching the Language of Emotions to Individuals with Autism. Pyramid Educational Consultants.

Material complementar do webinar disponível em: https://www.pecs.com/webcasts/MasterofEmotionsHandout-2011.pdf. Acesso em 9 de junho de 2026.

Bondy, A. I’m the Master of My Emotions. Webinar gratuito apresentado pela Pyramid Educational Consultants. Disponível no YouTube  https://youtu.be/ZXA-rRKJnEY

Bondy, A. & Frost, L. (2025). PECS Training Manual. Pyramid Educational Consultants.

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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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