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Meme Sincero: Teoria da Mente e empatia

Tempo de Leitura: 4 minutosHoje o assunto é Teoria da Mente e o que isso tem a ver com a empatia.

Um dos mitos que cercam o TEA é o de que pessoas autistas não têm empatia. Para analisarmos essa afirmação de maneira assertiva, precisamos primeiramente entendermos o que é a empatia.

Uma das definições que temos para empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Parece algo simples, porém, eu vou além e digo que essa é uma explicação muito simplória.

Refletindo profundamente sobre o tema, vocês acham realmente que alguém consegue se colocar no lugar do outro? Alguém perde um ente querido, você até consegue entender a situação, entender que a pessoa ficou triste e até mesmo ficar triste pela perda daquela pessoa. Mas, se você nunca passou por aquela situação, será que consegue estar no lugar do outro e sentir como aquela pessoa está sentindo? Ou seria prepotência de sua parte achar que aquilo está doendo tanto em você quanto naquela pessoa?

Mesmo que você também um dia já tenha perdido alguém querido e tenha vivido algo semelhante, aquele que você perdeu, assim como sua relação com aquele indivíduo seria igual a do outro com aquele que ele perdeu? Seria você se colocando no lugar dele ou relembrando o seu próprio sentimento em relação a uma situação parecida?

Observem que essas são perguntas que não responderei, pois são colocações retóricas para que cada um reflita.

Nesse sentido, já ouvi outra definição que diz que ter empatia é tratarmos o outro como gostaríamos de sermos tratados. Novamente, percebam que colocamos a nossa perspectiva em detrimento da de outrem, quando achamos que todos gostariam de serem tratados da mesma maneira que nós gostamos. Para essa definição, já ouvi uma adaptação que considero melhor: ter empatia é tratarmos o outro como ele gostaria de ser tratado!

Ainda assim, não é tão simples se analisarmos a empatia de maneira mais técnica; podemos dividi-la em alguns conceitos. Psicólogos que estudam e pesquisam o tema dividem a empatia em três tipos: a cognitiva, que diz respeito a perceber a situação como se fosse pelo ponto de vista alheio; a afetiva, que se dá quando acontece uma ligação emocional a ponto de você sentir junto com o outro uma alegria ou uma tristeza, ainda que essa seja a sua alegria ou tristeza e não a do outro propriamente dita; e a compassiva, que é a que move alguém a se colocar à disposição e a ajudar por compreender que o outro carece desse apoio.

Dessa forma, percebemos que a empatia é muito mais do que se colocar no lugar do outro, e também que esse sentimento é bem mais complexo a ponto de que, ao julgarmos se alguém tem empatia ou não, estamos correndo o risco de não sermos empáticos por fazermos tal afirmação sem entendermos a realidade alheia.

Afinal, o que tudo isso tem a ver com autismo e a Teoria da Mente?

Primeiro, precisamos entender esse outro conceito complexo do que é a Teoria da Mente. Para simplificarmos e facilitarmos o entendimento, podemos dizer que a Teoria da Mente está ligada à função que permite que alguém consiga encarar as diversas situações do cotidiano pela perspectiva de outra pessoa que não apenas a de si próprio.

Por exemplo, se imaginarmos uma carta de baralho, supomos que seja um Às. Se eu seguro essa carta com o valor dela virado para mim, eu vejo o Às, logo, alguém que está a minha frente não verá que essa carta é uma Às, pois estará vendo apenas as costas do baralho parte em que todas as cartas são iguais.

Acontece que a pessoa autista tem um déficit nessa Teoria da Mente, então seria como se ela não tivesse a percepção de que o outro não está vendo a carta da mesma maneira que ela própria, logo, se ela está vendo o Às, considera como se o outro também estivesse, e, se o autista for a pessoa que está vendo as costas do baralho, acha que todos estão vendo apenas as costas da carta também.

Posto isso, pensem numa situação na qual uma pessoa autista vai ao mercado com alguém para fazerem compras. No final, são dez sacolas para levarem, a pessoa autista pega cinco sacolas leves, e as outras cinco sacolas pesadas ficam para o outro. Uma pessoa que não tem esse déficit na Teoria da Mente perceberia mais fácil que o peso está desigual e redistribuiria as sacolas para dividirem melhor. A pessoa autista teria essa dificuldade, pois, seguindo o exemplo do baralho, ela perceberia a situação através do peso que ela própria está carregando, sem conseguir, pela perspectiva do outro, entender que as outras sacolas estão muito mais pesadas.

Da mesma forma, pode acontecer numa situação de óbito; se quem faleceu não é alguém com quem eu conviva, não é alguém que eu conheça, então não me aflige, porque não tenho uma ligação com aquela pessoa. Logo, por essa dificuldade de percepção, posso não perceber que aquilo fere a outra pessoa que tinha uma ligação com aquela que partiu.

Ainda nesse sentido, é mais difícil entendermos as diferenças de apego quando, por exemplo, uma pessoa autista tem grande ligação com os pais e os irmãos, mas não é tão próximo assim de um primo de segundo grau. E seu amigo perde um primo desse grau, porém seu amigo tem uma relação diferente com esse parente que é muito mais próxima do que a percepção que a pessoa autista tem sobre essa relação de parentesco. Vai ser difícil para a pessoa autista entender como aquilo afeta o seu amigo naquela intensidade, pois a ela não afetaria.

Enfim, não é questão de falta de empatia, mas da dificuldade de entender certas relações que fazem com que as percepções sejam diferentes. Cabe destacar que já existem estudos que apontam que pessoas autistas têm até mesmo uma empatia mais acentuada e que, quando transpõem essas dificuldades na Teoria da Mente, sentem muito mais profundamente, o que muitas vezes pode trazer um sentir tão grande a ponto de dificultar ainda mais as relações sociais.

Empatia no autismo

Tempo de Leitura: 2 minutosFelizmente, o entendimento sobre a empatia no autismo deixa para trás, a crença de que autistas não são empáticos. Ou seja, isso acontece, à medida em que se ampliam os estudos sobre aspectos cognitivos e emocionais sobre a empatia. Afinal, esse é um conceito de complexa definição científica no qual vários fatores se entrelaçam.

Entretanto, autistas tendem a ser autocentrados. Contudo, às vezes, há uma má interpretação sobre o que essa característica significa. Certamente, essa característica não quer dizer, necessariamente, que a pessoa seja egoísta ou egocêntrica. Ou, ainda, que não se importe com os outros. Ou qualquer outro juízo de valor.

A empatia e o autista autocentrado

Quando se é autocentrado, até o seu sofrimento do outro, você enxerga a partir de sua própria percepção. Então, é essa percepção que, em diversos momentos, leva você a mover céus e terras para ajudar uma pessoa. Mesmo que ela não necessite ou precise desse auxílio. Ou ainda, sem que ela sequer tenha solicitado sua ajuda. Desse modo, você não compreende porque o ouro tem um modo diferente de vivenciar tal sentimento que provoca a dor. Às vezes, o outro tem uma maneira bem mais leve de encarar a situação. Entretanto, para o autista, se ele pensa que estaria sofrendo nessa mesma experiência do outro, nasce, instantaneamente , o desejo de levar a melhor solução à outra pessoa.

Nada é um mal ou um bem em si

Isso me levou à reflexão. Fiquei pensando se há benefícios em ter um funcionamento mais autocentrado. No contato com outras pessoas, essa característica é, muitas vezes, rotulada como algo negativo. Ao longo da minha vida, ouvia como uma crítica, a percepção de que eu era autocentrada. Em outras palavras, que seria algo a ser compensado por outras características. Por exemplo, as capacidades acadêmicas.

Ser autocentrada não é necessariamente algo ruim. Nada é um bem ou mal em si. O que define o impacto das características em nosso dia a dia, é como lidamos com elas.

Empatia no autismo e a ética

Precisamos ter ética com o outro. Se eu conheço e sei lidar com o meu funcionamento autocentrado, consigo ampliar ou até mesmo, otimizar o meu cuidado com o outro. Por muito tempo, acreditei que esse traço só faria mal aos outros. Como se eu não tivesse, sequer, a noção do que faz mal ao outro. Não. Não é bem assim.

Por ser autocentrada, eu sempre me autoanalisava. Ao mesmo tempo em que ser uma pessoa autocentrada me dificulta perceber algumas necessidades alheias, também me possibilita conhecer as minhas próprias necessidades. E a trabalhá-las para me tornar mais plena no encontro com o outro.

‘Autistas de fato tem empatia’, diz psicólogo sobre estereótipos do autismo

Tempo de Leitura: < 1 minutoO podcast Introvertendo, produzido por autistas adultos e com diálogos sobre o autismo, lançou nesta sexta-feira (24) o seu 188º episódio, chamado “Empatia e Teoria da Mente”. O episódio trouxe, como entrevistado, o psicólogo, professor e autista João Paulo Martins, que discorreu sobre as dificuldades de autistas em torno da Teoria da Mente.

João afirmou que a Teoria da Mente não é uma teoria, como algumas pessoas podem pensar. “O que ela quer dizer, na verdade, é uma habilidade. Ela não é uma teoria literal, é uma habilidade de você reconhecer ou não estados mentais, estados emocionais ou aquilo que leva uma pessoa a fazer determinada coisa por uma situação emocional”, contou.

O episódio foi conduzido pela engenheira Thaís Mösken e o jornalista Tiago Abreu, que perguntaram sobre estereótipos de que autistas não possuem empatia. João Paulo também abordou isso. “Autistas de fato tem empatia. A questão é o reconhecimento e a forma de demonstração. E aí entra propriamente na própria questão do que é esperado que uma pessoa responda, o que a gente chama do que é adequado, e essa é a própria questão da adequação do que é pra responder em uma determinada situação é uma coisa que eu acho que dá muito assunto”, afirmou.

O episódio está disponível para ser ouvido em diferentes plataformas de podcast e streaming de música, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

‘Há uma má interpretação sobre autistas serem autocentrados’, afirma Sophia Mendonça

Tempo de Leitura: < 1 minutoA jornalista e escritora Sophia Mendonça publicou nesta segunda-feira (16) um vídeo sobre empatia no autismo no canal “Mundo Autista“, do qual é uma das apresentadoras. A youtuber defende que ocorre uma dissolução da crença de que autistas não seriam empáticos após o aumento de estudos sobre aspectos cognitivos e emocionais da empatia. Ela também afirma que há uma má interpretação sobre o funcionamento autocentrado de pessoas no Espectro, como se isso significasse necessariamente egocentrismo.

“Quando você é autocentrado, até o seu sofrimento você deposita na percepção do outro. Então, muitas vezes você move terras por uma pessoa que nem quer a sua ajuda, que vivencia o sofrimento de uma maneira até mais leve do que você, mas você acha que porque você estaria sofrendo nessa situação, você quer dar o seu melhor para ela dessa maneira”, pontua a jornalista. “No contato com outras pessoas isso é visto como algo até negativo. Ao longo da minha vida, ouvia isso como uma crítica ou algo que deve ser compensado. Ser autocentrado não é necessariamente algo ruim. A questão de ser autocentrada me faz ter uma possibilidade de cuidar melhor dos outros se eu souber lidar com essa característica. Por ser autocentrada, eu olhava para mim e fazia uma autoanálise. Eu consigo trabalhar alguns pontos em mim para ser mais plena no contato com o outro”, finaliza.

Assista o vídeo:

Sobre autistas, sincericídio e padrões do cérebro neurodivergente

Tempo de Leitura: 3 minutosA busca de autistas por padrões para compreender o mundo à sua volta, acontece frequentemente, porque pessoas com cérebro neurodivergente necessitam de padrões para criar regras que os ajudem na decodificação do mundo e das relações sociais.

Há uma crença generalizada de que o autista não sabe mentir e, por isso, cometem sincericídio a todo momento. Não é bem assim. No sincericídio, a verdade costuma ser relativa, e a pessoa não pensa para falar, desconsiderando o que o outro sente ou mesmo deseja. Simplificando, cometer sincericídio significa expressar fatos e opiniões sem refletir sobre como aquilo pode afetar as pessoas e o mundo à sua volta.

O autista não é levado por motivos tão rasos ao não ter filtro quando expressa uma opinião e acaba por cometer o suicídio na fala sem filtro ao se expressar com autenticidade e excesso de sinceridade. Essa falta de filtro traz situações constrangedoras à família, à relação amorosa e até ao mercado de trabalho. Sabemos que a verdade absoluta nas relações poderia gerar o fim da convivência social. Por isso mesmo, algumas mentirinhas são incentivadas e conhecidas como ‘mentirinhas sociais’. Como o comportamento é resultado do processamento de informações que acontecem de forma diferente no cérebro considerado típico e o cérebro neurodivergente, essas mentirinhas podem ser aprendidas.

Literalidade da Linguagem, Teoria da Mente, Rigidez de Pensamento e Disfunção Executiva

No entanto, alguns fatores complicam esse aprendizado para as pessoas que estão dentro do TEA – Transtorno do Espectro do Autismo, como a literalidade da linguagem, que nos impede de perceber jogos com as palavras, segundas intenções ou indiretas, nos leva, também, à utilização das palavras com seu significado denotativo, literal.

Outro fator é o déficit de teoria da mente que é, praticamente, inexistente na pessoa autista. Dessa maneira, temos muita dificuldade para reconhecer sentimentos, interesses, expectativas, ou até mesmo intenções da pessoa com quem falamos. É como uma ‘cegueira’ diante do contexto social.

A rigidez de pensamento é um pesadelo para mim até hoje. Sou do tipo 8 ou 80, tudo ou nada. Sempre tive dificuldades para relativizar, ou amo ou odeio. Hoje menos, pois há muitos anos, desenvolvo a leitura do caminho do meio. Por isso, sou budista do budismo de Nichiren Daishonin – buda japonês do século 13. A relativização das coisas e circunstâncias é um bem precioso para evitar sofrimentos intensos. Por isso, essa habilidade é tão perseguida pelos autistas.

Por último, o fantasma da disfunção executiva nos arranca o freio social que é o que não permite que a maioria das pessoas aja no impulso. Oh, God! Antes que pudesse evitar já tinha falado e as consequências da minha fala ou ação é que me apontavam que (de novo) eu agi sem considerar tais consequências.

Mas, com toda a sinceridade (risos!) não posso dizer a vocês que nunca minto. Tenho dificuldades sim, mas até a mentira pode ser aprendida. Por exemplo, um dia um namorado chegou com um bolo de fubá para me agradar pois eu amo bolos – menos o de fubá. Já haviam me alertado que dizer isso, exatamente, como eu penso, poderia magoar meu namorado. Então, fingi que havia gostado. Não entendo como ele percebeu que eu não estava sendo sincera.

Nesse dia, meu namorado me ensinou uma lição preciosa. Ele falou que nessa situação eu deveria ser sincera, usando palavras carinhosas pois, caso contrário, ele poderia sempre trazer bolo de fubá para mim. Assim, eu entendi que até as mentiras sociais são complicadas e podem trazer consequências desagradáveis. Resolvi ler o passo 2 do Manual das ‘Mentirinhas Sociais’: como dizer a verdade e escolher as palavras certas para diminuir o risco de magoar quem a gente gosta. Difícil? Um pouco. Impossível? De jeito nenhum.