Arquivo para Tag: identidade de gênero

Diálogos entre ser autista e transgênero

Tempo de Leitura: 4 minutosHoje, 29 de janeiro, é o Dia da Visibilidade Trans. Falar sobre a ligação entre ser transgênero e autista é sempre um tema delicado. Mesmo a gente tendo pesquisas quantitativas robustas que apontam que a transgeneridade é até 8 vezes mais comum em pessoas autistas. E que, pelas metodologias utilizadas, seria muito difícil que esse dado fosse apenas uma impressão superficial. Dessa maneira, os diálogos entre ser autista e transgênero são fundamentais para um entendimento mais aprofundado sobre o tema.

É compreensível o receio de muitas famílias frente ao assunto. Afinal, o filho ou filha já é marginalizado(a) por conta de uma condição neurodivergente. A identidade trans pode complexificar ainda mais essa questão. E, assim, trazer novas necessidades de luta contra a discriminação. No entanto, não discutir essa possibilidade de identidade de gênero fora da norma no TEA não significa que ela não vá se manifestar. Ou mesmo, deixar de existir.

Foi pensando em como trazer mais elementos que possam auxiliar autistas, profissionais e familiares que desenvolvi a dissertação “A Interseccionalidade entre Autismo e Transgeneridade: diálogos afetivos no Twitter”. A defesa está prevista para fevereiro próximo, na Universidade Federal de Minas Gerais. Por enquanto, não posso detalhar ou informar sobre os resultados da pesquisa. Afinal, ela é inédita no Brasil e no campo da Comunicação Social. Nesse artigo, então, falarei sobre a minha trajetória como mulher autista trans. Claro, embasada nos estudos sobre gênero, sexualidade e autismo.

Sexo x gênero

O senso comum diz que existem diferenciações sexuais marcantes entre homens e mulheres. Em tese, essa seria a origem da opressão feminina. Afinal, pessoas do sexo feminino tendem a ser, fisicamente, mais frágeis. Com a evolução dos estudos sobre o assunto, chegou-se ao conceito de gênero. Ele é visto como uma relação por meio da qual são interpretadas as diferenças entre os sexos.

Desde que a teórica Judith Butler lançou os livros “Problemas de Gênero” e “Corpos que Importam”, nos anos 1990, novos pontos foram adicionados ao debate. Caminhamos para uma visão em que não há diferença prática entre o sexo (imutável) e o gênero (construído socialmente). Afinal, só temos acesso às distinções sexuais por meio da leitura e interpretação que fazemos delas. Logo, “sexo” e “gênero” são construções que dizem mais dos modos como a pessoa age, do que de uma essência anterior à construção do discurso.

Contudo, esse fato não significa que podemos escolher o nosso sexo ou gênero. Significa que existem várias possibilidades de expressão e identidade dessas características. E mais, elas não seguem o fluxo sexo, gênero e orientação sexual. Logo, a transgeneridade se diferencia da homossexualidade porque diz respeito à maneira como a pessoa se vê e se posiciona na sociedade. Ou seja, como ela se relaciona com o mundo. Assim, não há uma ligação direta com o desejo romântico, afetivo ou sexual do indivíduo.

O despreparo profissional

Infelizmente, ainda há muito capacitismo e transfobia na área médica. Isso começa pelas crenças errôneas sobre gênero e sexualidade e vai até à discriminação contra autistas. A avaliação de incongruência com relação à identidade apresentada no nascimento nunca teve como critério a orientação sexual. Ainda assim, muitos profissionais se prendem a esse “achismo”. Desse modo, se pautam pelos “achares”, em detrimento dos “saberes” tão necessários ao bem-estar da sociedade.

Na minha vivência, infelizmente, foi assim. Embora eu gostasse de homens, minha identificação com o universo feminino era muito mais intensa do que essa atração. Gostava de me vestir e me imaginar como mulher desde a primeira infância. Isso, quando nem sabia o que era ser trans. Eu já me manifestava frente ao mundo que se descortinava para mim, com minha essência feminina. Sem pré-conceitos. Eu simplesmente era o que era. Ainda assim, todas as minhas tentativas de explicar o que ocorria comigo, foram desqualificadas pelos profissionais. E o pior, profissionais que deveriam nos conduzir de maneira leve, por esse universo ainda desconhecido pela maioria das pessoas. Foi assim, desde minha adolescência até a fase adulta.

Um outro fator que costuma ser levado em consideração são as dificuldades de autonomia de pessoas no Espectro Autista. Mas, excetuando-se a presença de condições coexistentes, tal como declarado em legislação, essas dificuldades em aspectos do dia a dia, não limitam a capacidade de autopercepção para identificar o próprio gênero. Certamente, é necessário um acompanhamento multidisciplinar com psicólogo, endocrinologista e psiquiatra para que o sujeito autista aprenda a lidar com os desafios dessa intersecção. E, assim, não corra riscos.

Regras Sociais e Saúde Mental

Segundo a doutora em Psicologia e autista Táhcita Mizael, temos, na literatura, informações de uma maior diversidade de gênero no autismo, assim como uma menor sensibilidade às regras sociais. Aliás, ainda não temos comprovação científica de que há uma relação causal entre os dois fatores. De todo modo, as maneiras de expressão de não-binaridade, feminilidade e masculinidade são múltiplas no autismo.

Recentemente, a cantora e atriz transgênero Linn da Quebrada (no ar no programa “Big Brother Brasil 22”, da Rede Globo) afirmou não se identificar totalmente com a noção de homem e de mulher. Ela se identifica como travesti. Entendo que exista, também, um espectro dentro da transgeneridade e respeito isso. No entanto, no meu caso, me vejo 100% como mulher. Desde sempre, como me foi confirmado por minha mãe. Portanto, independentemente da maneira como nasci. Por isso, não cabe em mim, nenhum elemento “masculino”. Além disso, também me percebo de maneira completamente feminina na minha forma de agir e existir no mundo.

Hoje, como Sophia, sou plena. Minha irritabilidade reduziu significativamente, assim como os sintomas depressivos e ansiosos. A possibilidade de ser tratada como quem realmente sou fez e faz toda a diferença em minha trajetória pessoal e profissional. Não tenho mais crises de agressividade. Pude, enfim, me encontrar e existir como realmente eu SOU.

Entre dois armários

Tempo de Leitura: 5 minutos

Autistas LGBTQIA+ contam experiências com sexualidade, identidade de gênero e autismo

Aos 15 anos, Carol Cardoso leu uma notícia sobre um estudo que sugeria que as pessoas podiam identificar se alguém era heterossexual ou homossexual só pelo olhar. Ela entrou em pânico ao pensar literalmente sobre o assunto. “Eu fiquei: ‘Meu Deus, então, todo mundo vai saber só de olhar pra minha cara?’”. Hoje, aos 24 anos, ela se identifica como lésbica e tem o diagnóstico de autismo desde 2018.

Carol Cardoso - reportagem "Entre dois armários" - Canal Autismo / Revista Autismo

Carol Cardoso: “O desafio é fazer com que as pessoas nos aceitem como autistas e como LGBT”.

Para alguns autistas como Carol, o autismo aliado a questões de identidade de gênero e sexualidade compõem parte fundamental das vivências diárias. As dificuldades de interação social do autismo combinadas com a discriminação são fatores que podem tornar a vida de autistas LGBTQIA+ mais difíceis – ou, em alguns casos, apenas mais peculiares.

Compreender-se

Assumir-se como LGBT é um grande passo para a maioria das pessoas e, quando se é autista, o processo pode ser mais complexo. Foi o caso do estudante Luca Nolasco, 20, apresentador do podcast Introvertendo. No episódio “Autistas LGBTQIA+”, lançado na sexta-feira, 18 de junho, ele contou que a descoberta da bissexualidade foi natural, embora ele tivesse dificuldade em construir amizades. “O desafio é fazer com que as pessoas nos aceitem como autistas e como LGBT”, contou.

Carol também se identificou com essas questões. “Demorou pra que eu realmente explorasse esse meu lado. Por muito tempo, eu ficava pensando: ‘pra eu namorar, tenho que conhecer um homem, me interessar por esse homem, começar a namorar e depois casar com este homem’. Então eu fiquei esperando esse dia chegar e ele nunca chegou (risos)”, confessou.

Dizer publicamente que é autista e assumir uma identidade de gênero ou sexualidade são questões que não costumam necessariamente ocorrer no mesmo período. Para Carol, por exemplo, foi mais fácil aceitar o autismo do que a sexualidade pelo fato de ter vindo depois da sua identificação enquanto lésbica. Já Luca encarou a sexualidade de forma mais explícita ainda na adolescência, num período próximo ao diagnóstico, embora tenha pensado ser heterossexual durante grande parte da vida (ouça abaixo).

Identidade de gênero, sexualidade e autismo

Em 2020, um estudo que envolveu mais de 600 mil pessoas, constatou que traços autistas são mais frequentes em pessoas com identidade de gênero diversa, como a população trans. Outros diagnósticos, como esquizofrenia e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), também são provavelmente mais frequentes nesta parcela populacional. 

O pesquisador e professor Lucelmo Lacerda utilizou este e outros estudos para explicar a sexualidade como um espectro – a escala de Kinsey – e a relação de autistas com maior diversidade de sexualidade. “As pessoas com autismo têm uma sensibilidade social alterada em relação ao ambiente. Essa pressão social exercida sobre os indivíduos para que eles vivam a experiência sexual unicamente heterossexual tem menor impacto, menor incidência, menor possibilidade de controle do comportamento em pessoas com autismo do que em pessoas de comportamento típico”, disse ele em vídeo (assista abaixo).

Alek Salles tem 22 anos, é autista e se identifica como não-binário. Estudante de psicologia, Salles recebeu o diagnóstico em 2020, após ter maior contato com o autismo, acompanhando pessoas autistas na internet e, consequentemente, se desprender dos estereótipos difundidos na cultura popular sobre o autismo. “E descobrir que sou autista mudou tudo para mim, pois me permitiu me aceitar e saber que não tem nada de errado comigo”, afirmou.

Segundo Alek, profissionais do campo da psicologia têm uma importante função de ajudar pessoas a se autoconhecer. “Hoje em dia a psicologia tem estudado o ser humano levando em conta a diversidade como algo natural. O ser LGBTQIA+, assim como ser autista, faz parte da variação humana. Contudo, no passado não era assim, então não é todo psicólogo que enxerga dessa forma. Se você for em um e ele não acolher sua identidade, procure outro, pois esse não é um bom profissional”, destacou.

Luca Nolasco - reportagem "Entre dois armários" - Canal Autismo / Revista Autismo

Luca Nolasco: encarou a sexualidade ainda na adolescência, próximo ao diagnóstico.

Aceitação na comunidade

Para alguns autistas, receber o diagnóstico significa pertencer a uma comunidade e fazer parte, finalmente, de grupos sociais. Pessoas com deficiência LGBTQIA+ podem fazer parte, ao mesmo tempo, de duas comunidades. Foi esse cenário que consolidou a série Special, da Netflix, que traz um personagem gay com paralisia cerebral como protagonista e um casting de vários atores com deficiência, incluindo também um autista queer.

Eu mesmo, que estou com 25 anos, comentei o enredo da série em entrevista para um podcast sobre cinema chamado “Mosca Mecânica”, com base em minhas vivências enquanto autista e homossexual. Na conversa, relatei enfrentar dificuldades em abordar questões LGBT no autismo e, ao mesmo tempo, de trocar experiências mais ativamente entre pessoas com outras deficiências pela dificuldade de interação social do autismo.

“Eu tenho muita vontade de falar da minha sexualidade no meio do autismo, mas tenho medo de ser invalidado ou de ser reduzido à minha sexualidade como o ‘autista gay’. O meio do autismo é muito conservador em alguns aspectos, porque ainda tem um discurso mais focado na infância, das mães que falam que seus filhos são anjos azuis. Como é que você vai se inserir num meio em que as mães chamam o filho de anjo azul e você fala que gosta de beijar homens?”, questionei no episódio do podcast.



Polyana Sá - reportagem "Entre dois armários" - Canal Autismo / Revista Autismo

Polyana Sá: “Eu não represento o autismo, eu represento uma parte do que é o autismo”.

O mês de junho concentra não apenas o Dia do Orgulho LGBT (dia 28), mas também o Dia do Orgulho Autista (dia 18), em que a identidade autista é celebrada de forma semelhante a de pessoas com sexualidade diversa. Isso levanta debates sobre representatividade dentro da comunidade do autismo, geralmente compartilhada entre autistas, familiares e profissionais.

A ativista e estudante universitária Polyana Sá, 20 anos, fez reflexões sobre isso em um texto no perfil “Hey Autista” no Instagram chamado “O que eu represento?”. Nele, ela diz: “Eu não represento o autismo, eu represento uma parte do que é o autismo. Da mesma maneira que eu represento apenas uma parte das minhas outras interseccionalidades. Ninguém é capaz de representar um todo” (confira em https://www.instagram.com/p/CP1WynKBbhK/ ).

 

CONTEÚDO EXTRA

Transição social

Tempo de Leitura: 2 minutosUma pesquisa quantitativa de 2020 reforçou a ideia de que a diversidade de gênero na população autista é maior do que no público em geral. Apesar de muitos ainda se assustarem com dados e estudos como esse, a questão está longe de ser novidade para mim. Eu não tenho lembranças de me comunicar comigo mesma, por pensamento, sem utilizar pronomes femininos, mesmo tendo sido identificada como homem no nascimento 

Minha mãe relata a primeira vez quando, ainda na primeira infância, disse a ela que “queria ser menina”. Quando entrei na adolescência, o desconforto com o meu corpo tornou-se muito evidente. Viajava à praia ou a lugares onde havia piscinas sempre com camisa e bermuda. Não usava sungas e sequer tirava a blusa. Tinha pesadelos recorrentes em que pelos nasciam em meu corpo e, quando eles vieram, não hesitei a apelar para a depilação a cera. Isso, mesmo com todo o desconforto sensorial que esse método pode trazer a uma pessoa autista.

Eu soube que era autista aos treze anos de idade, dois anos após receber o diagnóstico. Aos quatorze, fui encorajada por minha mãe a relatar aos profissionais que me acompanhavam sobre o forte sentimento de incongruência em relação ao sexo biológico. Foi o meu primeiro grande trauma. A equipe profissional evitava o assunto e buscava me ensinar estratégias para que tivesse comportamentos e trejeitos menos “afeminados”, com o argumento de que isso evitaria o bullying. Sempre que eu tocava no tema, sentia-me invalidada, como se eu não pudesse ter a percepção de quem eu era por mim mesma. 

Havia uma forte curiosidade, por parte da equipe multidisciplinar, em saber minha orientação sexual, embora gênero e sexualidade sejam aspectos diferentes da identidade de uma pessoa. Uma pessoa trans pode manifestar qualquer orientação sexual. Por algum tempo, tentei aceitar o rótulo que me foi concedido de “homem gay” como forma de atenuar minhas angústias.

Há alguns meses, iniciei o processo de transição social, com acompanhamento psiquiátrico e psicológico e terapia hormonal com endocrinologista. Durante o processo de retificação de documentos e consultas médicas, precisei me sentir protegida por um amigo que me levava aos lugares onde precisava ir, tanto pelas minhas disfunções executivas quanto pelo medo da transfobia. A sociedade, que já tende a ter menor condescendência com o adulto e com deficiências invisíveis, é atravessada por muitos outros preconceitos e desinformações.

Considero a expressão “transição social” a mais adequada para definir o processo, porque sempre me vi como mulher, sempre fui mulher. A reação das pessoas próximas e muitos seguidores foi de respeitar a expressão da identidade de um ser humano que resgatou sua essência, revelando, enfim, o verdadeiro aspecto. E eu? Sigo flamejante no desejo de ser feliz e contribuir positivamente à sociedade, mas livre das amarras que se transformaram em sofrimento solitário.