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Efeitos das mudanças climáticas para autistas é tema de podcast

Tempo de Leitura: 2 minutos

O podcast Introvertendo, produzido por autistas e dedicado a discutir autismo, lançou nesta sexta-feira (26) o seu 149º episódio, chamado “Autismo e Mudanças Climáticas”. O episódio, que teve como base as mudanças climáticas no mundo e o efeito para autistas, contou com as participações de Carol Cardoso, Tiago Abreu e Willian Chimura, todos autistas.

“Nossa abordagem, neste episódio, foi de tentar mostrar como as discussões ambientais e o autismo não são temas necessariamente distantes”, explicou Tiago Abreu, o apresentador. Entre as discussões feitas no episódio, também foi abordado o apagão no estado do Amapá, que durou a maior parte do mês de novembro.

Carol Cardoso é estudante de Arquitetura e Urbanismo e reside na cidade do Amapá, e refletiu a relação do apagão com as mudanças climáticas. “Eu não consigo deixar de pensar que a relação de distanciamento que nós temos do nosso sistema social com a natureza cria situações como essa, porque eu vejo que o que aconteceu no Amapá pode acontecer em qualquer lugar, mas que pela tendência de marginalização dos estados da região norte em relação ao resto do Brasil, acaba criando esse distanciamento de que ‘é muito longe da minha realidade, então eu não me importo tanto’ ou ‘o que acontece lá, nunca pode acontecer aqui’.”, criticou.

O youtuber Willian Chimura citou um estudo científico de 2020 que aborda relações de autistas com a percepção do clima e também comentou o hiperfoco que autistas podem ter com a temática das mudanças climáticas. Ele também lamentou os efeitos do apagão. “Olha que infeliz que a gente precisa esperar algum conflito maior, uma catástrofe acontecer ou partido A, o partido B que você não gosta falar, tomar alguma política, uma medida sobre algum desses estados que são marginalizados”, concluiu.

O episódio está disponível para audição em diferentes plataformas, como o Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts, Amazon Music e CastBox, ou no player abaixo. O Introvertendo também possui transcrição de seus episódios e uma ferramenta em Libras, acessível para pessoas com deficiência auditiva.

Greta Thunberg — Autismo leve que muda o mundo — Revista Autismo

GRETA THUNBERG

Tempo de Leitura: 4 minutos

Autismo leve e hiperfoco que mudam o mundo

Fatima de Kwant

A pessoa mais comentada do ano é, sem dúvida, a ativista do meio ambiente, Greta Thunberg. A jovem de apenas dezesseis anos, nascida na Suécia, tornou-se a mais conhecida representante juvenil das comunidades mundiais que lutam pela preservação da natureza, tema bem em pauta, internacionalmente.

A curiosidade adicional é que Greta tem o diagnóstico de Síndrome de Asperger.

Caracterizada pelo discurso peculiar – que muitos acreditam ser uma manobra da esquerda internacional – Greta é amada e odiada ao mesmo tempo, um fenômeno mundial dos últimos tempos: ou se gosta ou se desgosta, ou se é a favor ou se é contra, sem meio termo, sem equilíbrio.

Sendo assim, a menina passa a ser “boa ou má”, pensamento maniqueísta da sociedade cada vez mais movida a crer no que outros dizem, em fake news, ou achar que a verdade é fake. Sociedade que acredita nos falsos profetas que os fazem crer em suas verdades como se elas fossem de todos. Por serem muitos, muitas são as opiniões extremas de quem admira ou despreza a jovem ativista.

Mistério

Mas qual é o mistério da Greta? Por que justamente esta jovem chamou tanta atenção do mundo, tendo audiências até com os maiores líderes mundiais? Não foi somente a tenra idade ou a aparência física, com as típicas duas tranças nos cabelos das quais não abre mão. 

Greta Thunberg é menina, autista e ativista pelo meio ambiente — três minorias em uma só pessoa. Todo mundo fala dela. Todo mundo acha que a conhece e conhece suas intenções. Fato é que poucos conhecem o autismo, e como se manifesta em pessoas de alto funcionamento. 

Greta é autista mesmo, Asperger. A dedicação ao meio ambiente, e a paixão com a qual abraçou a causa, a fazem parecer quase um soldado em guerra, enfrentando os líderes mais poderosos do mundo para defender seu ideal. Dizem que seus pais a influenciaram na opção pela causa, e a manipulam em suas escolhas. Porém, sejamos honestos: todos os nossos pais nos influencia(ra)m em alguma (ou mais) fase(s) da vida. Faz parte de pertencer a uma família. Com os autistas não é diferente. 

Autismo leve sempre pesa

A sociedade moderna se empenha na conscientização do autismo. O desconhecimento das décadas anteriores deu lugar à disseminação de informação em massa. No entanto, ao contrário do conhecimento do autismo infantil, ainda falta aprender mais sobre como o TEA se manifesta nas fases posteriores. Crianças autistas crescem e seguem necessitando de apoio. No caso do autismo considerado “leve” (nível 1), crianças bem sucedidas academicamente podem ainda se deparar com alguns desafios na adolescência e vida adulta. Não raro isso se dá nas áreas referentes à comunicação social (comunicação e interação). É o que aparenta ser a questão da jovem Greta, com imenso talento mas algumas limitações de comunicação — incluindo a expressão facial e corporal — que parecem ser a fonte de descrédito de seu discurso político. 

Hiperfoco

A capacidade de absoluta concentração em uma atividade é definida dentro do TEA como hiperfoco. Antigamente chamado de “obsessão”, o hiperfoco pode tomar horas da atenção de uma pessoa (autista), levando-a, por vezes, a comprometer o tempo em outras atividades. Em muitos casos, o hiperfoco é responsável pelo sucesso de muitos autistas de alto funcionamento, no que se destacam, justamente, pelo exercício daquilo em que “focam” com muita dedicação. 

No caso da Greta, o hiperfoco é o meio ambiente. Além disso, o modo de defender sua causa, com uma expressão facial e gestos um tanto irritadiços, quase gritando, podem ser reconhecidos nos autistas inteiramente convictos de suas palavras quando em debate ou discussão. É um jeito muito peculiar de ser, e de se comunicar, quando o autista têm absoluta certeza do que está falando. O próprio déficit de comunicação — inerente às características do Transtorno do Espectro do Autismo — justifica essa maneira de expressão social.

Símbolo

Greta pode não agradar a muitos pelo modo de defender suas convicções, mas, para várias pessoas das comunidades do autismo, a menina se tornou um símbolo de coragem e determinação ao não recuar ante às críticas e, inclusive, comentar sobre estas com um toque de humor sem demonstrar medo — a melhor resposta ao bullying. A dificuldade por ser mulher, autista e ativista por uma causa controversa não a inibiu, e isso, sem dúvida, é inspirador.

Muitos jovens autistas se reconhecem em Greta, ou a vêem como exemplo porque a menina conquista o que todos ambicionam (e merecem): ter voz.

Cada vez que um autista fala e a sociedade o desdenha, a mensagem é “você não tem voz”, “sua história não me interessa”, “você não sabe…não pode…não deve.” 

Seja como for, Greta, que foi uma das candidatas ao Prêmio Nobel da Paz 2019, é um nome já estabelecido mundialmente, fato extraordinário para qualquer jovem da sua idade. 

Greta desafia o preconceito e viaja por vários países levando uma mensagem, usando sua voz. Não é de se admirar que as pessoas a ouçam. O timing não podia ser melhor, já que as gerações mais novas de autistas leves estão, de fato, mudando o mundo.