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Crítica Cultural: Nosso Jeito de Ser (As We See It)

Tempo de Leitura: 2 minutos“Você não vai ser meu namorado”, disse Violet, uma das protagonistas com autismo de As We See It. “Eu quero um namorado normal.” E a resposta da série foi: “Por quê? Me diz, qual é a graça de ser ‘normal’?”

As We See It acompanha o dia-a-dia de três personagens no espectro autista: Harrison, Jack e Violet, que passam a semana juntos em um apartamento com a cuidadora Mandy. Em um marco na TV, a série de drama/comédia tem todos seus três protagonistas interpretados por atores que também estão no espectro na vida real. A autenticidade na performance, combinada com o roteiro de Jason Katims, vencedor do Emmy 2011, que já teve Parenthood em seu portfólio para abordar Asperger em séries, faz com que As We See It consiga tocar em uma ampla variedade de assuntos pertinentes à vida das pessoas com TEA.

Jack talvez seja o personagem mais “familiar” para quem já consumiu conteúdos semelhantes: Ele é um programador com problemas para conseguir manter sua posição no trabalho por não se portar como seu chefe gostaria, apesar de ser extremamente inteligente. Além disso, precisa aprender a lidar com o recente diagnóstico de câncer de seu pai, e com um súbito romance com a enfermeira da clínica de oncologia. Sua história é boa, mas dentro dos padrões que já foram explorados anteriormente em outras produções, como The Good Doctor e The Big Bang Theory.

Harrison é o personagem com mais sensibilidade sensorial, e isso o levou a um nível de extrema agorafobia e sedentarismo. Sua história na série é focada em superar seus medos, e na dificuldade de outras pessoas compreenderem e aceitarem sua amizade com seu vizinho, uma criança (sendo que ele tem mais de 20 anos), além de seu sentimento de solidão e abandono por sua família estar se afastando.

E então chegamos a Violet. E aqui, um aviso: durante os primeiros episódios, a série causa desconforto. Não por estar fazendo algo errado, mas sim porque essa é a intenção. Porque está fazendo tudo exatamente como deveria. Não há nenhuma romantização aqui, a ideia é mostrar exatamente como é a realidade da vida de uma pessoa autista em um mundo que não a acomoda, onde o que é um pouco difícil para outras pessoas pode ser uma odisséia para quem tem autismo.

Isso é presente para os três personagens, mas para Violet mais do que tudo, porque o centro de sua história é a busca por romance. E a abordagem da obsessão dela por conseguir namorar a qualquer custo, de sua frustração quando as coisas não dão certo, e de suas brigas com seu irmão mais velho Van, que está tentando protegê-la, mas ao mesmo tempo impedindo que ela consiga ter uma vida própria e aprenda com os próprios erros, é de longe a parte mais complexa e interessante da série. E algo completamente diferente, e muito mais real, do que qualquer abordagem feita sobre o assunto anteriormente nas telas.

Junto disso, temos o dilema de Mandy, a cuidadora, que está dividida entre seguir uma carreira acadêmica em outro estado, ou continuar ali cuidando de três pessoas cujo progresso depende dela. Em oito episódios, há uma enorme evolução de personagens condensada ao longo de cada minuto. Mas, ao longo da série, a lição constantemente apresentada é a de que as pessoas ali não estão passando por essas experiências por estarem no espectro. E sim porque todo mundo vive. E todo mundo tem algo borbulhando por baixo da superfície. E todos precisam de espaço e companhia para conseguir se entender e resolver os seus próprios problemas.

Crítica Cultural: Atypical

Tempo de Leitura: 3 minutosDepois de um ano e meio de espera, a tão aguardada quarta temporada de Atypical chegou às telas de streaming no início de julho e não decepcionou os fãs. Desde seu lançamento em 2017, a série teve um processo de amadurecimento paralelo ao de seus personagens, com o mérito de ter lidado com temas relevantes: abandono, separações, relações extra-conjugais, homoafetividade e muito, muito papo sobre o polo sul e, claro, pinguins. Tudo isso sem perder o fio da meada: a trajetória do personagem adolescente autista, Sam (Keir Gilchrist), rumo à sua maturidade e autonomia.

Desde o início, o recado da criadora da série, Robia Rashid, era de ajudar o mundo a entender como é viver para as pessoas no espectro do autismo e entregar essa “lição” num pacote com humor e sensibilidade.

Já no primeiro episódio fica claro que Sam ama pinguins e tem um hiperfoco: a Antártida. Nesta quarta temporada, ele faz do seu hiperfoco um objetivo de vida – ao menos de sua vida no momento – e busca todos os meios de viabilizar o sonho de viajar e estudar a vida dos pinguins. 

Mas, uma qualidade de Atypical é ser sobre mais que os desafios de Sam. Casey (Brigette Lundy-Paine), a irmã mais nova, de pavio curto e ao mesmo tempo protetora, continua competindo com o próprio irmão. A personagem, que vai crescendo em complexidade durante a série e causa tanto interesse no público quanto Sam, tem seu próprio fã-clube querendo saber o desfecho para os dilemas mais marcantes de sua vida: carreira e relação amorosa. A série, mais uma vez, traz o inesperado, e debate os desafios “sobre-humanos” que a jovem tem de enfrentar como aspirante a uma vaga na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles) – top 10 entre as universidades – ingressando como atleta. A trama questiona se a espiral em que os dias de Casey se transformam é a realização que ela busca de fato, e se valerá a pena no fim. 

Já que as relações complexas entre autistas e seus irmãos têm sido pouco exploradas nas telas, outro mérito da série é manter a atenção e se aprofundar em Casey, que com boa atuação de Brigette Paine, não apenas convence, como chega a roubar o foco de episódios para si, sem abandonar Sam. 

Outro ponto a favor nesta temporada é aumentar a participação dos colegas de faculdade de Sam – que são majoritariamente interpretados por atores que têm algum tipo de deficiência ou necessidade especial. Melhor ainda é constatar que essa estratégia resulta em mais sinceridade na atmosfera e no humor proposto, e que ao dar mais espaço a esses personagens, os realizadores aumentaram a empatia com o público.

Por outro lado, para quem convive em família com o autismo, ainda fica a desejar no quesito de ir além e reconhecer os “atípicos” não verbais, tipicamente esquecidos no espectro quando se trata de retratá-los em texto ou em telas. Frustra-se, nesse aspecto, o desejo de querer aplaudir mais.

Outro ponto fraco a ser apontado, agora que podemos analisar a série como um todo, é a personagem Elsa Gardner (Jennifer Jason Leigh), a mãe de Sam. Depois de um começo interessante na primeira temporada, com o seu caso com um bartender, sua expulsão de casa e posterior arrependimento, a personagem parece ter tido uma completa mudança de personalidade na sequência da história, sendo excessivamente protetora e se sentindo na necessidade de se fazer presente em um nível quase caricato. Parte do problema recai na atuação: Jennifer Leigh, que já não “veste” a personagem, parece forçar um espírito infantil, tanto como mãe quanto como mulher. Idealmente, ao se escrever uma história, é bom ter a personalidade de seus personagens bem estabelecida. Com isso, a experiência da escrita pode até levar a narrativa a lugares inesperados para o próprio escritor, em vez de seguir um plano restrito. Este não parece ser o caso aqui. Ou houve uma mudança brusca no que pretendiam que a personagem fosse, ou tinham um objetivo final para ela com o qual as mudanças ocorridas ao longo do caminho acabaram não combinando.

Entre prós e contras (como nas listas de Sam para tomar decisões), a quarta temporada mostra uma boa conclusão para uma boa série. O suporte que ele recebe dos amigos e da família nos faz perceber o progresso de Sam ao longo dos anos. Sua jornada em busca da Antártida é fantástica sem ser piegas, e nos mostra que ele nunca esteve ou estará sozinho nas horas importantes de sua vida. 

Pode-se dizer que essa é uma série que muitos fãs, inclusive eu, certamente desejarão, em algum momento, rever. 

A quarta e última temporada de Atypical está exclusivamente na Netflix.

SparkShorts: Flutuar e Fitas

Tempo de Leitura: 2 minutosNão é novidade que a Pixar Animation Studios possui um currículo de respeito. Suas animações produzidas para a tela de cinema já marcaram o clima intelectual e cultural de pelo menos duas gerações ao redor do mundo. Porém, “Toy Story” e outras franquias grandes à parte, o estúdio também marcou por seus curta-metragens e, de alguns anos para cá, tomou corpo a iniciativa de produzir curtas que não se limitassem à exibição obrigatória antes de um de seus longas metragens. 

A partir daí, nasceu o projeto SparkShorts. Nele, funcionários da Pixar recebem um semestre e um orçamento limitado para produzir seu próprio curta. Inicialmente, esses curtas foram publicados no Youtube da empresa, e atualmente são lançados no Disney Plus. O diferencial mais marcante do projeto são os temas mais maduros que costumam ser abordados em cada uma das obras. Alguns exemplos são “Purl”, que trata do machismo estrutural, e “Segredos Mágicos”, que aborda a dificuldade de se assumir homossexual para a família. Por hoje, quero destacar “Flutuar”, cujo tema geral sobre aceitação pode ser facilmente aplicado a diferentes tipos de neurodivergências, e “Fitas”, que focaliza especificamente em TEA.

Em “Flutuar”, um pai descobre que seu filho consegue levitar, e passa a restringi-lo para não causar uma impressão que ele considera ruim nas pessoas à sua volta. Seu filho fica feliz toda vez que tem a liberdade para poder flutuar, mas o pai coloca pedras em sua mochila, o amarra no chão, e o força a usar roupas que cobrem seu rosto (esse último sendo uma prática não tão incomum entre alguns pais de neurodivergentes). Eventualmente, ele grita com o filho e questiona “Por que você não pode ser normal?”. Após perceber o impacto negativo que causou, ele finalmente deixa o filho livre para voar no parque de diversões, e para de se preocupar com as opiniões externas. O curta foi dirigido e escrito por Bobby Rubio, e é inspirado na sua relação com seu filho autista.

“Fitas”, por outro lado, aborda como alguém totalmente não familiarizado com o autismo pode passar a entendê-lo e a interagir “de acordo”, contando a história de Renee, uma garota autista, com forte dificuldade de comunicação, que é levada para um passeio de barco com seu parceiro de acampamento Marcus. Escrito e dirigido por Erica Milsom, o curta contou com a consultoria da Autistic Self Advocacy Network (ASAN), uma organização sem fins lucrativos composta por e feita para membros da comunidade autista, que garantiram uma extrema autenticidade na personagem de Renee.

Um diferencial muito grande em “Fitas” é, em certos momentos, alternar para o ponto de vista de Renee, e a representação deles é talvez uma das mais fiéis já feitas em um filme. O foco em elementos visuais diferenciados, a linha de pensamento que Renee tem para tomar decisões, a hipersensibilidade sensorial, e a extrema duração de uma crise desencadeada por acidente, são elementos com que familiares de pessoas com autismo estarão perfeitamente familiarizados. Por outro lado, são uma ótima fonte didática para aqueles que não convivem com tais situações no seu dia-a-dia. Podemos esperar que os próximos SparkShorts a serem lançados continuem abordando temas importantes variados, com o tato e a atenção que merecem receber.