26 de fevereiro de 2026

Tempo de Leitura: 6 minutos

Homens autistas são mais violentos? Recentemente, recebi uma pergunta de uma seguidora que me tocou profundamente: “Existe uma relação direta entre violência doméstica e homens autistas?”.

À primeira vista, pode parecer uma dúvida carregada de estigma. No entanto, é fundamental acolhermos esse questionamento para desmistificar o senso comum, que muitas vezes associa condições neurodivergentes ou transtornos mentais a comportamentos imprevisíveis e perigosos.

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Homens autistas são mais violentos?

A resposta curta é: não, o autismo não causa a violência.

Quando observamos comportamentos agressivos em homens ou mulheres autistas, geralmente estamos lidando com condições coexistentes (comorbidades) ou outros transtornos. E não com uma característica intrínseca do autismo. Contudo, ignorar o contexto social em que vivemos seria um erro. Existe, sim, um risco real. Porém, ele não vem de “dentro” do autismo, e sim das telas que nos cercam.

Autismo e violência

Em entrevista ao jornal Estadão, o neuropsicólogo e pesquisador em Neurociências, Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, traz uma análise técnica fundamental para desmistificar a relação entre autismo e violência. Segundo ele, a agressividade no Transtorno do Espectro Autista (TEA) manifesta-se predominantemente como auto agressão. Esse termo se refere a atos de ferir a si mesmo durante crises de desregulação. Este comportamento é observado em cerca de 30% a 50% dos casos. Enquanto isso, a violência direcionada a terceiros é estatisticamente muito menos comum.

Guilherme de Almeida, presidente da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil), é categórico ao afirmar que o autismo não possui qualquer ligação com comportamentos violentos premeditados ou intencionais contra terceiros. Guilherme, que também é pesquisador, estabelece uma distinção crucial entre as reações típicas do espectro e a violência criminosa. Para o ativista, enquanto uma crise autista decorre involuntariamente de sobrecarga sensorial, frustração ou dificuldades de comunicação, o ato do agressor em caso de feminicídio revelou-se brutal e direcionado.

A armadilha dos discursos de ódio online

Vivemos em uma era onde a misoginia e a violência contra a mulher são frequentemente alimentadas por conteúdos online. Existem “gurus” e comunidades na internet que se aproveitam da frustração e da solidão de jovens rapazes para ensinar, de forma distorcida, que a culpa de seus problemas é das mulheres ou da sociedade. Portanto, é aqui que precisamos ter um olhar atento para os meninos e rapazes autistas.

Pessoas no espectro autista frequentemente apresentam características como hiperfoco e rigidez cognitiva. Além disso, podem ser socialmente mais isolados ou ter uma tendência maior à depressão. Essas características podem tornar um jovem autista uma “vítima ideal” para esses criadores de conteúdo tóxico.

Rigidez cognitiva e Transtorno do Espectro Autista (TEA)

A rigidez cognitiva é uma característica central do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ela se caracteriza por padrões de pensamento inflexíveis e dificuldade em lidar com mudanças, transições ou imprevisibilidades. Essa rigidez é uma necessidade neurológica de busca por controle, segurança e regulação emocional em um mundo percebido como caótico.

A rigidez cognitiva afeta a socialização, com a dificuldade em aceitar outras perspectivas. O perigo para uma pessoa jovem e autista com essa característica é que, uma vez que algo faz sentido lógico, pode ser interpretado como verdade absoluta e inquestionável.

Sem perceber, esse jovem pode absorver discursos de ódio como verdades absolutas. Afinal, devido à rigidez cognitiva, uma vez que uma ideia é implantada como uma “regra” de funcionamento do mundo, é extremamente difícil desconstruí-la. Então, ele não se torna violento porque é autista. No entanto, isso pode acontecer porque sua forma de processar o mundo foi manipulada por terceiros mal-intencionados.

Adolescência, autismo e o fenômeno incel

A minissérie “Adolescência”, da Netflix, serve como ponto de partida para uma discussão urgente sobre cultura incel, autismo e saúde mental. Filmada em plano-sequência e inspirada em fatos reais, a obra acompanha Jamie, um menino de 13 anos acusado de assassinar uma colega. Com isso, funciona não apenas como um drama policial, mas como um retrato cru da solidão e da confusão típicas dessa fase.

Esse cenário ficcional abre espaço para compreender o fenômeno dos “incels”, ou celibatários involuntários. O termo refere-se a homens que se sentem rejeitados afetiva e sexualmente. E uma parte dessa comunidade migra para fóruns online onde proliferam discursos de ódio, misoginia e extremismo. Embora nem todo incel seja violento, existe um subgrupo radical preocupante que se aproveita de vulnerabilidades específicas.

As pesquisas indicam uma conexão alarmante com o autismo. Homens no espectro, especialmente os de Nível 1 de suporte, formam um grupo de risco significativo. Isso porque, apesar do bom desempenho intelectual, esses indivíduos enfrentam desafios na interação social, dificuldades em compreender flertes ou lidar com a rejeição. Além disso, eles expressam emoções de forma não convencional, O que é muitas vezes confundido com frieza.

Dados do CDC (2023) mostram que, enquanto a prevalência de autismo na população geral é de cerca de 2,78%, em comunidades incel esse número salta para entre 18% e 33%. Para Francisco Paiva Júnior, editor da Revista Autismo e do Canal Autismo, essa sobre-representação sugere que os autistas acabam buscando acolhimento nesses espaços tóxicos. Assim, tornam-se alvos fáceis de cooptação.

Transtorno do Espectro Autista (TEA) e abismo geracional

Para Paiva, o perigo passa por um abismo geracional. Isso porque muitos adultos não percebem a simbologia oculta utilizada nesses grupos. Assim, o uso de emojis específicos (como o de feijão) ou termos como “Red Pill” (uma referência distorcida ao filme Matrix para simbolizar um suposto “despertar” contra a manipulação feminina) passa despercebido por pais e professores. Essa desconexão faz com que o isolamento e a radicalização do jovem ocorram sem intervenção.

Portanto, tragédias como a que a série retrata são frequentemente precedidas por um sofrimento silencioso. Afinal, a aparente “frieza” do autista é uma maneira diferente de processar a dor. Dessa forma, é urgente acolher esses jovens e compreender dificuldades de socialização antes que eles encontrem esse falso amparo em grupos de ódio.

Misogenia online e autismo

A pesquisadora em Comunicação, Krystal Urbano (UFF), defende que o engajamento de pessoas autistas com ideologias extremistas e grupos de ódio online não é consequência direta da condição clínica do autismo em si. Pelo contrário, a radicalização é uma resposta social e afetiva a experiências traumáticas marcadas pela exclusão, negligência institucional e invisibilidade. Nesse cenário, grupos extremistas oferecem um “acolhimento simbólico” e uma estrutura de sentido para sujeitos que foram historicamente marginalizados pelas instituições tradicionais, como a escola, a família e o Estado.

O autismo é historicamente construído como um “desvio” ou “déficit” a ser corrigido, alvo de um projeto cultural de normalização, onde a mídia reforça estereótipos de gênio excêntrico ou incapaz, despolitizando a deficiência. Grupos da direita alternativa (alt-right) apropriam-se dessa construção: surge o conceito de weaponized autism (autismo transformado em arma), no qual a suposta “frieza” e “lógica pura” do autista são ressignificadas não como defeito, mas como superioridade sobre a “fraqueza emocional” atribuída a neurotípicos, mulheres e progressistas. Em fóruns como o 4chan, essa identidade é performatizada na figura do “guerreiro da guerra cultural”, imune à empatia e focado estritamente na racionalidade.

Homens autistas são mais violentos?  O perigo oculto na internet e a necessidade de mediação

Krystal Urbano também aponta que a exclusão sistemática se manifesta na falta de diagnóstico, escolas despreparadas e desemprego. Com isso, gera um ciclo de solidão e desconfiança nas instituições. A falta de validação subjetiva, ou seja, de ser ouvido e levado a sério, produz sofrimento e constitui uma falha de reconhecimento estrutural. Diante desse vácuo, comunidades online extremistas oferecem um acolhimento distorcido. Afinal, elas validam o autista como alguém forte e resistente.

Nesse cenário, o ressentimento não é tratado como simples mágoa pessoal, mas como um sentimento politicamente estruturado derivado de injustiças sistemáticas. Nos grupos extremistas, a memória da rejeição é convertida em capital simbólico. E o isolamento, antes doloroso, vira sinal de virtude ou “isolamento virtuoso”. O ressentimento organiza, assim, uma identidade de oposição. Torna-se, então, um “nós” (o autista lógico) contra um “eles” (a sociedade neurotípica decadente). Com isso, oferece propósito e identidade política.

Para além das “fake news”, a desinformação sobre o autismo (envolvendo causas, curas e vacinas) funciona como um sistema que oferece conforto e ordem para famílias e autistas em sofrimento. A ausência de respostas eficazes do Estado abre espaço para um “mercado do desespero”, ocupado por “curandeiros” e teorias da conspiração que dão sentido à dor. A desinformação possui, portanto, uma funcionalidade política: ao aceitar narrativas conspiratórias, o sujeito encontra pertencimento em comunidades que acreditam saber a verdade. Tudo isso reforça o processo de radicalização.

É mais fácil criar uma regra do que desconstruí-la

Minha mãe sempre dizia uma frase que carrego comigo: “No autismo, é mais fácil para a gente criar uma regra do que desconstruí-la depois”.

Isso resume a urgência da mediação parental. Não podemos deixar crianças e adolescentes — especialmente os neurodivergentes — navegarem sozinhos nesse mar de informações sem bússola.

Nesse contexto, o papel dos pais e educadores é mediar. É preciso conversar, entender o que eles estão consumindo e explicar o porquê de certas coisas serem inaceitáveis. Então, se deixarmos que a internet “eduque” nossos jovens sobre relacionamentos e masculinidade, corremos o risco de que eles aprendam regras tortas que levarão anos para serem corrigidas.

Portanto, o autismo não é uma sentença de violência. O abandono digital, sim, é um fator de risco. Por isso, proteja quem você ama, não do autismo, mas da desinformação.

(Originalmente publicado em O Mundo Autista, no portal UAI)

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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