18 de fevereiro de 2026

Tempo de Leitura: 3 minutos

No dia a dia de famílias e profissionais que vivem com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é comum sentir que cada momento precisa ser transformado em ensino. Essa expectativa, embora bem-intencionada, pode gerar sobrecarga, frustração e estresse — tanto para adultos quanto para a criança. Reconhecer que nem toda interação exige ensino é essencial para uma abordagem funcional, humana e sustentável.

Andy Bondy e Lori Frost, autores do livro Autismo 24/7, nos lembram que a vida com autismo acontece 24 horas por dia — 24 horas por dia, sete dias por semana. Essa realidade significa que toda interação importa. Por meio dessa perspectiva, eles nos incentivam a diferenciar claramente três funções que guiam nossos relacionamentos com as crianças: ensinar, cuidar e entreter.

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Ensinar: esforços intencionais e estruturados para desenvolver habilidades ou conhecimentos

Ensinar é uma ação planejada. Envolve objetivos definidos, estratégias específicas e critérios claros para o sucesso. Quando ensinamos, sabemos o que queremos desenvolver e por que essa habilidade é importante para a vida da criança.

Ensinar pode significar ajudar a criança a escovar os dentes, aprender a se vestir, pedir ajuda, seguir uma rotina, preparar uma refeição ou participar de atividades do dia a dia. Para que o ensino aconteça de forma eficaz, é necessário considerar motivação, reforço, clareza nas instruções e adaptação ao nível de desenvolvimento da criança.

No ensino, o adulto precisa observar, ajustar, reforçar e, frequentemente, repetir. É um processo ativo, que exige boas estratégias de ensino, além da disponibilidade emocional e flexibilidade cognitiva. Justamente por essa razão, não é possível — nem desejável — estar sempre em modo de ensino.

Cuidar: garantir a segurança, saúde e bem-estar emocional da criança

Cuidar é diferente de ensinar. Cuidar significa garantir que a criança esteja segura, saudável e protegida.

Administrar um medicamento, tirar a criança de uma situação de risco, ajudá-la durante uma crise ou guiá-la para fora de um ambiente perigoso não são oportunidades de ensino. São situações em que o foco está em agir de forma rápida e responsável.

Nesses momentos, as instruções não são discutidas, respostas elaboradas não são esperadas e novas habilidades não são desenvolvidas. Cuidar é uma função ética e indispensável, e não representa nenhuma falha pedagógica. Pelo contrário: sem cuidado, não há base para aprender.

Entreter: proporcionar prazer e conexão sem objetivos educacionais

Entreter é proporcionar prazer, diversão e relaxamento. Trata-se de se envolver sem ter um conjunto de objetivos, assistir a um filme, dançar, fazer algo engraçado ou simplesmente estar juntos. O entretenimento tem valor em si mesmo — não precisa “gerar” aprendizado mensurável para ser legítimo.

Isso é verdade para todas as crianças, com ou sem deficiência. Quando um adulto leva uma criança ao cinema, ao parque ou a um espetáculo, ele não espera que ela demonstre uma nova habilidade após a experiência. Espera-se que ela se divirta, relaxe e se sinta bem.

Em períodos de estresse familiar, crises sociais ou mudanças repentinas na rotina, o entretenimento ganha ainda mais importância. Ajuda a regular emoções, reduzir a ansiedade e fortalecer os laços. Entreter não é perder tempo; É cuidar da saúde emocional da criança e da família.

O perigo de ensinar o tempo todo

Quando adultos tentam transformar todas as interações em ensino, o resultado geralmente é resistência, exaustão e queda na qualidade dos relacionamentos. As crianças começam a evitar interações, os pais sentem culpa constante e os profissionais ficam frustrados quando não veem resultados imediatos.

Além disso, planos educacionais — como o Plano Educacional Individualizado (PEI) — são elaborados para serem avaliados ao longo de meses ou um ano inteiro. Eles não determinam o que deve acontecer a cada minuto do dia. Assim como em uma consulta médica, nem todo momento precisa ser técnico: construir vínculo e confiança também faz parte de uma boa prática.

O equilíbrio é a chave para o desenvolvimento sustentável

Ensinar, cuidar e entreter não são funções opostas — são complementares. Uma intervenção de alto nível reconhece que haverá dias em que o ensino será prioridade, outros em que o cuidado será central e momentos em que entreter será o mais apropriado.

Em fases difíceis, é natural — e saudável — aumentar o tempo dedicado ao cuidado e ao entretenimento, sem culpa. Isso não significa abandonar o desenvolvimento, mas respeitar as necessidades emocionais da criança e da família. Aprender acontece melhor quando há segurança, vínculo e prazer nas interações.

Conclusão

Diferenciar ensinar, cuidar e entreter ajuda famílias e profissionais a ajustarem expectativas, reduzir o estresse e oferecer um ambiente mais equilibrado para a criança com autismo. Nem tudo precisa virar uma lição. Nem todo momento precisa ser produtivo. Essas distinções ajudam famílias e profissionais a evitarem o esgotamento e a manter uma abordagem equilibrada e cuidadosa. Reconhece que, embora o ensino seja importante, o cuidado e a diversão são igualmente essenciais para o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança

Referências bibliográficas

–  Sessão com Dr. Andy Bondy e Lori Frost disponível no https://www.youtube.com/watch?v=5sreDxR-Z0M

-Bondy, A. (2011). Autismo 24/7: Um Guia Familiar para Aprender em Casa e na Comunidade. Newark, DE: Consultores Educacionais Pyramid.

– Apostila do Curso Autismo 24/7 oferecido pela empresa Pyramid Consultoria Educacional do Brasil

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Fonoaudióloga, mestre em estudos linguísticos pela Universidade de Londres, tem curso avançado de autismo credenciado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Diretora geral da Pyramid Consultoria Educacional do Brasil, tem uma sólida experiência de trabalho com crianças e adultos com ampla gama de dificuldades de comunicação por razões variadas: físicas, mentais, sociais e emocionais. O primeiro curso PECS que frequentou foi em 2002 e desde então PECS tornou-se parte de sua prática diária.

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