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No dia a dia de famílias e profissionais que vivem com crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é comum sentir que cada momento precisa ser transformado em ensino. Essa expectativa, embora bem-intencionada, pode gerar sobrecarga, frustração e estresse — tanto para adultos quanto para a criança. Reconhecer que nem toda interação exige ensino é essencial para uma abordagem funcional, humana e sustentável.
Andy Bondy e Lori Frost, autores do livro Autismo 24/7, nos lembram que a vida com autismo acontece 24 horas por dia — 24 horas por dia, sete dias por semana. Essa realidade significa que toda interação importa. Por meio dessa perspectiva, eles nos incentivam a diferenciar claramente três funções que guiam nossos relacionamentos com as crianças: ensinar, cuidar e entreter.
Ensinar: esforços intencionais e estruturados para desenvolver habilidades ou conhecimentos
Ensinar é uma ação planejada. Envolve objetivos definidos, estratégias específicas e critérios claros para o sucesso. Quando ensinamos, sabemos o que queremos desenvolver e por que essa habilidade é importante para a vida da criança.
Ensinar pode significar ajudar a criança a escovar os dentes, aprender a se vestir, pedir ajuda, seguir uma rotina, preparar uma refeição ou participar de atividades do dia a dia. Para que o ensino aconteça de forma eficaz, é necessário considerar motivação, reforço, clareza nas instruções e adaptação ao nível de desenvolvimento da criança.
No ensino, o adulto precisa observar, ajustar, reforçar e, frequentemente, repetir. É um processo ativo, que exige boas estratégias de ensino, além da disponibilidade emocional e flexibilidade cognitiva. Justamente por essa razão, não é possível — nem desejável — estar sempre em modo de ensino.
Cuidar: garantir a segurança, saúde e bem-estar emocional da criança
Cuidar é diferente de ensinar. Cuidar significa garantir que a criança esteja segura, saudável e protegida.
Administrar um medicamento, tirar a criança de uma situação de risco, ajudá-la durante uma crise ou guiá-la para fora de um ambiente perigoso não são oportunidades de ensino. São situações em que o foco está em agir de forma rápida e responsável.
Nesses momentos, as instruções não são discutidas, respostas elaboradas não são esperadas e novas habilidades não são desenvolvidas. Cuidar é uma função ética e indispensável, e não representa nenhuma falha pedagógica. Pelo contrário: sem cuidado, não há base para aprender.
Entreter: proporcionar prazer e conexão sem objetivos educacionais
Entreter é proporcionar prazer, diversão e relaxamento. Trata-se de se envolver sem ter um conjunto de objetivos, assistir a um filme, dançar, fazer algo engraçado ou simplesmente estar juntos. O entretenimento tem valor em si mesmo — não precisa “gerar” aprendizado mensurável para ser legítimo.
Isso é verdade para todas as crianças, com ou sem deficiência. Quando um adulto leva uma criança ao cinema, ao parque ou a um espetáculo, ele não espera que ela demonstre uma nova habilidade após a experiência. Espera-se que ela se divirta, relaxe e se sinta bem.
Em períodos de estresse familiar, crises sociais ou mudanças repentinas na rotina, o entretenimento ganha ainda mais importância. Ajuda a regular emoções, reduzir a ansiedade e fortalecer os laços. Entreter não é perder tempo; É cuidar da saúde emocional da criança e da família.
O perigo de ensinar o tempo todo
Quando adultos tentam transformar todas as interações em ensino, o resultado geralmente é resistência, exaustão e queda na qualidade dos relacionamentos. As crianças começam a evitar interações, os pais sentem culpa constante e os profissionais ficam frustrados quando não veem resultados imediatos.
Além disso, planos educacionais — como o Plano Educacional Individualizado (PEI) — são elaborados para serem avaliados ao longo de meses ou um ano inteiro. Eles não determinam o que deve acontecer a cada minuto do dia. Assim como em uma consulta médica, nem todo momento precisa ser técnico: construir vínculo e confiança também faz parte de uma boa prática.
O equilíbrio é a chave para o desenvolvimento sustentável
Ensinar, cuidar e entreter não são funções opostas — são complementares. Uma intervenção de alto nível reconhece que haverá dias em que o ensino será prioridade, outros em que o cuidado será central e momentos em que entreter será o mais apropriado.
Em fases difíceis, é natural — e saudável — aumentar o tempo dedicado ao cuidado e ao entretenimento, sem culpa. Isso não significa abandonar o desenvolvimento, mas respeitar as necessidades emocionais da criança e da família. Aprender acontece melhor quando há segurança, vínculo e prazer nas interações.
Conclusão
Diferenciar ensinar, cuidar e entreter ajuda famílias e profissionais a ajustarem expectativas, reduzir o estresse e oferecer um ambiente mais equilibrado para a criança com autismo. Nem tudo precisa virar uma lição. Nem todo momento precisa ser produtivo. Essas distinções ajudam famílias e profissionais a evitarem o esgotamento e a manter uma abordagem equilibrada e cuidadosa. Reconhece que, embora o ensino seja importante, o cuidado e a diversão são igualmente essenciais para o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança
Referências bibliográficas
– Sessão com Dr. Andy Bondy e Lori Frost disponível no https://www.youtube.com/watch?v=5sreDxR-Z0M
-Bondy, A. (2011). Autismo 24/7: Um Guia Familiar para Aprender em Casa e na Comunidade. Newark, DE: Consultores Educacionais Pyramid.
– Apostila do Curso Autismo 24/7 oferecido pela empresa Pyramid Consultoria Educacional do Brasil
Soraia Vieira





