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Uma prancha de comunicação não deve substituir a comunicação que a pessoa já usa (ex.: sinalização, fala, figuras, dispositivos…). Em vez disso, deve expandir, organizar e tornar essa comunicação mais eficiente. Quando é bem ensinada, a prancha amplia as possibilidades comunicativas. Quando é apenas disponibilizada, corre o risco de se tornar um enfeite não utilizado ou funcionar apenas como suporte visual.
Este texto explora como as pranchas de comunicação podem complementar a comunicação existente, destaca os erros mais comuns em seu uso e enfatiza a importância do ensino intencional e baseado em evidências.
Como as pranchas de comunicação complementam a comunicação
Quando usada de forma adequada, uma prancha de comunicação pode:
• Aumentar a clareza comunicativa, especialmente quando a fala é inconsistente, indisponível ou difícil de entender;
• Dar suporte para mensagens mais longas e complexas, indo além de gestos isolados ou palavras isoladas;
• Fornecer um vocabulário específico para atividades específicas, itens ou ambientes (por exemplo, hospitais, áreas de lazer).
Esses benefícios só ocorrem quando o aluno entende que a prancha é uma ferramenta para comunicação intencional. Sem esse entendimento, a prancha não cumpre sua função comunicativa.
Um problema comum: acesso não é educação
Um dos erros mais frequentes na Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é assumir que simplesmente fornecer acesso a uma prancha de comunicação é suficiente para que a comunicação apareça.
Oferecer acesso não é o mesmo que ensinar.
Uma analogia simples ajuda a ilustrar essa ideia: colocar uma prancha de comunicação na frente de um aluno que não foi ensinado a usar a CAA é como colocar um livro na frente de alguém que não sabe ler. Se outra pessoa lê o livro em voz alta, ela ouve a história — mas não está lendo.
O mesmo ocorre quando:
• Um adulto fala apontando para as figuras ou símbolos na prancha;
• Um adulto usa a prancha enquanto o aluno permanece passivo.
Nessas situações, o aluno pode estar ouvindo, mas não aprendendo a se comunicar por meio desse sistema. A prancha está sendo usada apenas como suporte visual para a fala adulta, em vez de ser o sistema de comunicação do aluno.
O que o aluno precisa aprender para usar uma prancha de comunicação como CAA
Para que uma prancha de comunicação funcione como um sistema eficaz de CAA, o aluno deve aprender — ou já demonstrar — as seguintes habilidades essenciais:
• Iniciar comunicação de forma independente;
• Compreender o significado dos símbolos/figuras na prancha;
• Construir mensagens simples e, gradualmente, construir frases mais complexas.
É importante enfatizar que o PECS (Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) é o único protocolo de CAA que ensina sistematicamente a iniciação comunicativa. Além disso, o protocolo do PECS oferece uma estrutura e estratégias de ensino baseadas em evidências para ensinar vocabulário, estrutura de frases e expandir a linguagem.
Conclusão
Uma prancha de comunicação, por si só, não cria nem ensina comunicação. Sua eficácia depende de como é ensinada e de por que é usada. Para apoiar e complementar genuinamente a comunicação que a pessoa já utiliza (ex. fala, linguagem de sinais, PECS, dispositivos…), a prancha deve estar intencionalmente inserida em um plano de ensino estruturado, implementado com um propósito comunicativo claro e fundamentado em protocolos cientificamente validados, como o PECS.
Quando essas condições são atendidas, a prancha de comunicação vai além de ser apenas um suporte visual passivo. Torna-se uma ferramenta ativa que capacita o aluno a iniciar comunicação, expressar necessidades e ideias e participar de forma significativa em interações sociais.
Em consonância com a legislação recente que exige a disponibilidade de pranchas de comunicação em espaços públicos, essa abordagem intencional promove maior autonomia, acessibilidade e inclusão para pessoas com necessidades complexas de comunicação.
Referências
- Bondy, A., & Frost, L. Manual de Treinamento PECS®: Sistema de Comunicação por Troca de Imagens. Consultores Educacionais da Pyramid.
- Brasil. Lei Federal 15.249 (novembro de 2025). Estabelece a disponibilidade obrigatória de pranchas de comunicação e outros recursos de comunicação aumentativos e alternativos em espaços públicos para garantir acessibilidade a pessoas com necessidades complexas de comunicação.
Soraia Vieira





