26 de março de 2026

Tempo de Leitura: 2 minutos

Muitas vezes, ao debatermos sobre o autismo, nos deparamos com o tema do isolamento social. Assim, é muito comum o surgimento de dúvidas e debates sobre como a pessoa no espectro lida com o isolamento, a solidão e a solitude. Ainda hoje, por incrível que pareça, muitos estereótipos dominam essa discussão. Por exemplo, há o mito de que o autista não gosta de interagir. Mas, afinal, qual é o limite entre o desejo de estar só para se equilibrar e a dor da solidão?

​A importância social, autismo e a linha entre a solitude e a solidão

​Assim como qualquer outro indivíduo, pessoas autistas são seres sociais que também desejam companhia e interação. Um convívio social saudável está diretamente ligado ao bem-estar e à saúde mental de qualquer ser humano. No entanto, o modo como processamos os estímulos ao nosso redor exige pausas.

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​Nós precisamos de momentos de afastamento para nos regularmos. A solitude é exatamente isso. Trata-se, portanto, de um estado positivo e voluntário de isolamento. É quando escolhemos ficar sozinhos para nos acalmar, processar emoções e, muitas vezes, nos dedicar às atividades do nosso hiperfoco ou interesses profundos. Nesse espaço seguro, curtir a própria companhia se torna um ato de autocuidado e recarga de energias.

​Quando a solidão emerge, o autismo e a linha entre a solitude e a solidão

​Contudo, não podemos ignorar a presença da solidão, que é involuntária e frequentemente dolorosa. Nela, existe o sentimento de estar só, mesmo quando cercado de pessoas. Confesso que, apesar de ter amigos e nutrir boas relações, experimento a solidão com mais frequência do que a solitude.

​Quando lidamos com quadros depressivos ou episódios de crises autistas (meltdowns), a mente pode ser impulsionada a caminhos de intenso sofrimento. A sensação é semelhante àquela de ser a Bruxa Má do Oeste (de Wicked). E pode nos fazer lembrar de uma crise, uma briga ou um momento em que agimos de forma “inadequada” socialmente. Dessa forma, a culpa e a inadequação nos forçam a um exílio emocional. O isolamento, nesses casos, parece uma punição.

​Como diz o ditado, “mente vazia é oficina do diabo”. Para o autista, a solidão faz com que fiquemos aprisionados em nossos próprios sentimentos. A ausência de troca social e de ajuda para elaborar essas emoções pode transformá-las em regras rígidas e pensamentos ruminativos que agravam a angústia.

​O caminho do meio: Autonomia e a própria companhia

​Existe um ponto de equilíbrio crucial entre a solitude e a solidão, que é a autonomia. Isso quer dizer que nem sempre precisamos, ou devemos, estar na companhia de alguém para vivenciar nossas paixões e atividades diárias.

​Um exemplo prático envolve meu hiperfoco no cinema. Durante muito tempo, desde a adolescência, desenvolvi uma regra interna rígida em que só conseguia assistir e prestar atenção a um filme se estivesse acompanhada de alguém, geralmente, a minha mãe. A incapacidade de fazer algo que amava desacompanhada gerava desorganização emocional e sofrimento.

​Romper esse padrão é um passo libertador. Hoje, a compreensão é outra: é perfeitamente possível dedicarmos tempo aos nossos prazeres de forma individual. Aprender a aproveitar a própria companhia e descobrir que ela pode ser tão prazerosa quanto estar ao lado de alguém que amamos. Esta é uma conquista gigantesca de saúde mental e independência funcional.

Vídeo – autismo e a linha entre a solitude e a solidão

(Originalmente publicado em O Mundo Autista, no portal UAI)

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Jornalista, escritora, apresentadora, pesquisadora, 24 anos, diagnosticada autista aos 11, autora de oito livros, mantém o site O Mundo Autista no portal UAI e o canal do YouTube Mundo Autista.

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